A PONTA DA HISTÓRIA
um bate-papo sobre a Itália de ontem
di carlo castagna
(16.01.1996)
L’ homme
est un enfant né à minuit:
quand il voit le soleil,
il croit
qu’hier n’a jamais existé.
(antigo provérbio chinês)
uma janela aberta
A Ponta é apenas um promontório rochoso, porém compacto, que alongando-se um pouco mais entre a espuma branca no límpido mar lá embaixo divide Marina e Palaedo, duas pequenas enseadas não muito pretensiosas onde esporadicamente atracam os barcos. Desde sempre a Ponta separa discretamente os dois desembarcadouros, quase que para evitar que sintam inveja um do outro, defendendo-os cuidadosamente, de vez em vez, dos ventos libeccio[1] e tramontana[2]. Em seu cume surge o pequeno cemitério, um magnífico terraço sobre o horizonte infinito do mar, que controla à sua frente, acima até o Arpaio, as casas comuns alicerçadas nos escassos vestígios remanescentes do velho castelo, tempos atrás, um mísero baluarte contra os ferozes piratas sarracenos.
Faz somente alguns anos que ao redor dos compactos muros do cemitério desapareceu o verdejar das videiras que tenazes desafiavam as ondas durante as tempestades, exibindo depois os visíveis sinais das batalhas sofridas nos brotos incrivelmente contorcidos e murchos pela água salgada. Mas ainda hoje o breve caminho costeiro, que surge por trás da Ponta, conduz ao seu cume encurvado, queimado pelo sol e surrado pelo vento.
Era ainda o ano de 1860, quando Luigia Bonfiglio, com a mesma tenacidade do xisto rochoso do penhasco e a mesma obstinação das pessoas do mar, lá fez colocar a lápide branca, com seu nome arranhado, sob a efígie de arenito da Virgem rapidamente deteriorada nas feições. E presunçosa, num ambíguo gesto de oferenda e desafio, quis ser colocada lá mesmo, onde o penhasco esquadrinhado gira sobre si mesmo para dar ao caminho que beira o precipício acima das ondas uma volta, assim, de maneira a perscrutar curiosa o mais possível para dentro do seu vilarejo de Manarola[3], agarrado aos vinhedos bem ordenados nas encostas do monte que descem até a escassa torrente que se precipita do alto, e que ali corre o seu último trecho. Estava convencida, e está ainda hoje, de liberar-se para sempre, de tal modo, da absurda prisão sufocante do muro, que na sua opinião impede a visão a quem procura repouso lá em cima, no cemitério, como última tranqüila morada. E para sempre.
De lá, Luigia Bonfiglio observa à sua maneira, desde então, não só a vida do pequeno punhado de casas, mas procurou investigar a vida que acontece e acontecia além das ondas agitadas a seus pés, das quais não se avista o fim, e além daqueles montes em forma de coroa que se elevam por trás dela, quase delimitados pelo mar, obstruindo as terras do norte, seguindo um a um, divertida ou desiludida, os acontecimentos de uma Itália que ainda nem mesmo existia unida naqueles dias. E assim, incrivelmente, daquele cantinho discreto que escolheu para si naquela lápide, não só sabia e sabe cada coisa como consegue repensá-la e discuti-la consigo mesma, quando permanece sozinha ao anoitecer de cada dia, e formar uma própria opinião, quando não uma verdadeira reflexão.
Deste modo, reflete Luigia, até mesmo aquele lugar insignificante, perdido na colorida costa lígure, com um pouco de fantasia pode ser o fulcro de um mundo inteiro. Aliás, como qualquer outro. Ou talvez, quem sabe, somente uma janela curiosamente aberta sobre um pouco da história do homem que passa nesta nossa península estreitada pelo mar.
E tem mesmo razão.
episódios da nossa história
Agora, com a intenção de pôr um pouco de ordem nas idéias, devo dizer que para mim era o final de agosto de 1975, um dia quentíssimo, aquele no qual, pela primeira vez, escorregando pela estreita passagem de pedestres, na época horrivelmente asfaltada, que acompanhava tortuosa as curvas do pequeno riacho seco, eu chegava arrastando o bolsão com as minhas poucas coisas na frente do pergolado do Aristide, com a sua propaganda colorida de sorvetes caseiros. Ali, estupidamente, em frente à única passagem possível para a marina, terminavam as minhas indicações. E eu não sabia mais para onde ir.
Não havia ninguém. O sol do meio-dia golpeava feroz precipitando-se sobre aquele estreito espaço de cimento, situado entre a torrente no meio, a rede metálica da ferrovia submersa abaixo e o túnel negro e úmido em direção à estação. Extremamente suado e ofuscado pela alvura da luz mediterrânea, tudo me pareceu, então, irreal e belíssimo, e me apaixonei imediatamente pelo lugar.
Agora poderia parecer um detalhe insignificante, mas naquele dia também este pormenor certamente não escapou à Luigia. Soube disso mais tarde. Provavelmente ela tenha lido pouco depois nos meus olhos, fascinados pela imagem imensa do mar tão límpido e azul sob o atalho para Paleado, quando eu me virava para trás a fim de admirar de frente a cidadezinha, verdadeiro cartão-postal ilustrado com pintura real. E dela, ou melhor, da sua lápide branca com a Nossa Senhora, nem me dei conta. Obviamente.
Na manhã seguinte, porém, quando um pouco depois do amanhecer saí sorrateiramente, como de costume, para encher meus pulmões ávidos de ar fresco, da umidade e do iodo das ondas do mar enraivecidas ao nascer do sol, que batem irregulares sobre as rochas, e para procurar um bom lugar para pescar no dia seguinte, ela me chamou.
Notoriamente sou um tipo distraído e certamente se pensará que eu poderia até não escutar ou fingi-lo. Mas coloquem-se em frente ao mar que não dá trégua, na mais completa solidão, sentados sobre um banco de pedra maciça, e tentem ignorar qualquer voz. Sim, porque era uma voz insistente que chamava.
Não tenho dúvidas de que chamasse por mim. Não pelo nome, claro. Ou melhor, para mim não podia haver dúvida, porque tinha ouvido claramente silabar méés-tre, assim como ainda hoje silaba em vez disso pro-fes-sôôr, com uma certa ênfase irônica, sei bem, insistindo pouco mais sobre a vogal acentuada. Carlo, que é o meu nome, na verdade nunca o pronunciou. Talvez por uma forma de cortesia ou respeito ou sei lá, pudor feminino de seus tempos, mesmo depois de vinte anos.
Quem lhe teria pré-anunciado minha chegada, não sei. Os residentes são pouquinhos ali, e os estrangeiros, como me consideram mesmo depois de quatro qüinqüênios os manaroleses, naquele tempo se contavam nos dedos. Quando chegava alguém se sentia no ar, em três minutos, por toda parte, como o fedor do peixe. Talvez por isso as pessoas torciam o nariz da mesma maneira: dois pintores, uma escritora de suspense, um professor universitário com sua mulher logorréica... Só faltava que eu tivesse embaixo do braço, com o título bem à mostra, aquele volume do Bianco, do qual eu extraía alguma simpática anedota sobre os problemas da Itália pós-unitária de direita, sobre as quais eu havia baseado divertidas liçõezinhas à minha primeira e dedicada classe de quinta série, para tornar-me, a ela, perfeitamente reconhecível. E vulnerável. Por outro lado, quem não tem a sua suscetibilidade?
Para encurtar o assunto, fui parar, apavorado a princípio mas totalmente absorvido depois, falando a uma lápide sobre um promontório. E de História, ainda por cima! Porque para Luigia nem parecia ser verdade poder entabular logo uma discussão sobre aqueles que para mim eram episódios da História, enquanto que para ela eram simplesmente acontecimentos da sua juventude, à qual parecia ainda muito ligada.
Quanto à sua competência, a data sobre a pedra branca falava claro: 1860. Somente para ressaltar que, quando a colocaram ali, esta Itália, sobre a qual eu me obstinava em procurar acontecimentos interessantes, ainda não existia completamente, e para fazê-la assim como é ainda deveriam passar diversos anos. Enquanto que para ela passaram-se todos sob seu nariz.
O primeiro que ainda hoje se vê andando por Manarola, na estrada de Palaedo, quando surge o dia, é sem dúvida Angiolino. Velho pescador napolitano, as adversidades da vida e da guerra – a última, se espera – o conduziram com seus irmãos a esse punhado de casas lígures, há décadas. Somente sorriu com sinceridade, vendo-me exaltado na discussão alucinada. Sim, porque um dos informantes sobre os episódios da Luigia foi inevitavelmente também ele, como de tantos outros episódios que aconteceram, num tempo que ia abundantemente além do século, sobre aquele pedacinho de penhasco inacessível.
Até bastante interessado, sentou-se com naturalidade ao meu lado sem intervir na discussão que, percebeu logo, partia da sua experiência direta mas que o intrigava, pois certos acontecimentos... bem... nunca os havia digerido completamente nem mesmo ele. E lhe parecia, justamente, que alguma participação eles também deveriam ter tido para causar aquela longa viagem que num tempo já distante os fez costear quase toda a península subindo o Tirreno espumante. E para ele, no final das contas, tudo correu bem, porque para muitos outros a viagenzinha foi bem mais longa e talvez tenha terminado em algum outro continente...
Assim, a partir daquele dia, como em um jogo de moleques, calados me esperavam com impaciência para relembrar um pouco de cada vez naqueles poucos dias em que narramos reciprocamente os episódios que aconteceram, começando de quando alguém colocou na cabeça a idéia de "fazer a Itália".
fazer a Itália: dos romanos aos franceses
Sabe-se que as discussões nem sempre começam a partir do lado mais oportuno e adequado. E aquela com Luigia foi uma destas. Sim, porque contestar imediatamente os acontecimentos da unificação da Itália, já ocorrida, sem dar tempo de colocar ao menos um pouco em ordem as premissas que a tinham desencadeado, não podia ser o modo melhor de raciocinar sobre isso.
Foi, então, uma dificuldade, mas depois consegui convencer a interlocutora, que falava com veemência, de que, se queríamos nos entender melhor e parar de discutir sem saber bem sobre o quê, era necessário que colocássemos na cabeça que antes dos fatos era preciso descobrir, na medida do possível, as causas. Obviamente eu procurava impor-me, neste caso, é verdade, mas também tentava pôr um pouco de ordem. E diante de alguns resmungos da minha interlocutora impaciente para entrar logo em ação, embora me concedesse uma possibilidade de ensaio, me empenhei ao máximo para pôr em ordem rapidamente algumas idéias.
De fato, prescindindo da afirmação sobre a qual se acalorava Luigia, e com razão, de que nem mesmo quando era jovem ela sabia bem o que era aquela Itália da qual, então, apenas se começava a fazer um grande falatório também lá, em Cinque Terre, um punhadinho de casas negras ligadas entre si por míseras e íngremes vielas ou pelo mar quando o concediam as tempestades, e quanto ao resto realmente fora do mundo até que lá chegou a ferrovia, de fato, por séculos e séculos a Itália foi mais uma idéia confusa que propriamente uma realidade.
– Pela primeira vez, aquela longa bota no Mediterrâneo que chamamos de Itália, a tinham finalmente ajuntado pedaço por pedaço, no século III antes de Cristo, os Romanos, à força de odiosas guerras dentro do território e com uma série memorável de combates com uma longínqua mas importante rival, Cartago, com a qual disputaram os direitos de comercializar no mar ao redor da península e a posse das terras sobre as quais estavam. Naturalmente tudo isso prejudicava outros povos que nessas regiões, mesmo estando dispersos aqui e ali, tinham chegado antes: dos Gauleses aos Etruscos, dos Sabinos aos Campanos, dos Gregos aos “Sanniti”, dos “Ausoni” aos “Bruzi”... Ah! e também os Lígures.
E isso eu acrescentei para o bem dos meus dois interlocutores, que começavam a
escutar com um certo interesse, pois, conforme eu havia intuído e depois tive
confirmação,
Luigia, mais irrequieta, nunca tinha ido à escola, porque no seu tempo nem se
pensava nisso (apesar de tentar me dizer que sabia ler em letra de
fôrma maiúscula), e também Angiolino se contentou com dois anos bem remotos
no tempo em aprender a escrever alguma coisinha numa caligrafia arranhada e a
fazer contas. Verem-se inseridos, de uma maneira ou de outra, em uma história
tão longínqua com seus antepassados mais ou menos próximos provocava neles uma
certa emoção. De qualquer maneira, ficaram calados.
– Os Cartagineses, originários da Fenícia e estabelecidos desde tempos imemoráveis nas costas da África, perto da atual Tunísia, experimentaram, mesmo, de tudo. Atacavam insidiosos pelo mar, e os romanos, pastores e agricultores ignorantes e inexperientes, que não sabiam nada de navios e tempestades, teimosos e audazes, inventavam pontudas proas e pontes levadiças, fazendo-os afundar. Passavam os Alpes com os elefantes, os africanos, e eles, espertos, com Quinto Fabio Massimo enfraqueciam até mesmo o grande exército de Aníbal, ou melhor, o atacaram depois em sua casa na África. No final, sem muitos escrúpulos, por recomendação do velho Catão, resmungão teimoso dos bons, nossos ancestrais togados arrasavam até o chão a cidade, salpicavam de sal as ruínas e deportavam os habitantes. Mas uma idéia da Itália, assim como a temos hoje, não a tinham por nada. Que isto fique claro! E, por causa disso, teriam muito do que se lamentar por longo tempo e se desentender com as outras cidades aliadas da Península.
Outros tempos e outras cabeças! Tanto que, depois de perderem o controle pela facilidade com a qual venciam naquele jogo sujo que é a guerra, em um desses séculos, aqueles brigões espertos foram à conquista do mundo com Pompeu, César, Augusto... Bem, não de todo o mundo, mas formaram um grande e respeitável império. Com todos os problemas que naturalmente comportava a Roma manter unido um território tão grande.
Era, porém, a Roma dos imperadores famosos, dos grandes exércitos e, no final,
das invasões bárbaras. No entanto, Roma era tão importante, “caput mundi”, isto
é, capital do mundo como se dizia então, que São Pedro e São Paulo para lá
levavam o cristianismo, a nova religião de poucos hebreus, que teria sido
exatamente o contrário do que queriam os romanos; e esse cristianismo, com a
ajuda do imperador Constantino, em poucas décadas tomou conta de toda a Cidade,
com todo o resto, nas idéias. E melhor assim, porque depois de uma aventura que
durou bem mais de mil anos, os bárbaros, em 476, teriam destruído ou teriam
levado embora consigo, além de tudo o que podiam, também uma cultura quase
milenar que havia
acolhido e pacientemente filtrado a herança preciosa da cultura da Grécia
clássica, fazendo-a simplesmente desaparecer como as casas e os palácios, se
não fosse a Igreja.
Em vez disso, graças à tenacidade e paciência dos monges amanuenses e ao trabalho de seus mosteiros que seguiam a regra de São Bento, se reconstruía, incrivelmente, numa idade secular que foi longa um milênio, a Idade Média, um território devastado várias vezes e que no final, somente depois de ter suportado Godos, Bizantinos e Longobardos, Carlos Magno colocou em ordem com o Sagrado Império Romano, na noite de Natal do ano 800.
Agora Luigia assentia, satisfeita e convencida. Não que soubesse verdadeiramente o motivo, mas lhe parecia que citar a Igreja fosse uma boa coisa e ficava bem, apesar de eu acreditar que a confundisse inevitavelmente com a belíssima arquitetura medieval do edifício que projeta sua imagem românica do alto da cidadezinha sobre o mar. Mas, entrar dentro de sua cabeça e entender qual é a sua idéia de religião e superstições várias é mais difícil do que qualquer outra empreitada impossível.
Para Angiolino as coisas eram diferentes. A religião era uma concepção arcana e que, num certo sentido, não se discutia, mas quanto à Igreja... As suas convicções políticas, por experiência e por cansaço, simplesmente não iam muito de acordo com os padres. Sim, e tinha as suas dúvidas e as suas razões para dar todo aquele mérito aos Papas e bispos...
– Certo – eu rebatia. – Não creiam que a Igreja e Carlos Magno puderam recolocar tudo no lugar perfeitamente como antes. Primeiro, porque Carlos Magno também era um bárbaro, com suas idéias quase de selvagem e seus grandes defeitos, inclusive aquele de não saber explicar como seu irmão mais velho morreu repentinamente, e outros do gênero... Também porque, daquilo que tinha sido o império romano, não sobrava naturalmente tudo, nem quanto aos territórios. No Oriente, por exemplo, há séculos já havia um império que funcionava por conta própria e que continuará, com reveses de sorte, até 1453, tendo como capital aquela que na origem foi Constantinopla, e depois se tornou Bizâncio e hoje Istambul.
Na nossa península havia, então, um assim chamado Reino da Itália que fazia
parte do império, mas o Papado já tinha cortado uma boa fatia do território e
feito um Estado para si, enquanto que os imperadores estavam nas terras alemãs.
Na Sicília chegaram os normandos vindos do norte, depois que os bizantinos e os
árabes a haviam ocupado a seu bel-prazer, deixando contudo também boas coisas e
um pouco de conhecimento, como nossos números, por
exemplo, e a álgebra. Porém, certamente aquilo que deixaram por mais tempo a nos
importunar foram os bandos de piratas sarracenos que se apoderavam de tudo ao
longo das costas, aterrorizando seja aquela adriática que a tirrena e lígure.
Eis por que também em Manarola havia um castelo para avistar estes senhores cuja
presença pouco agradava!
Nesse meio tempo, entre o fim da alta e o início da baixa Idade Média, passando pelo ano mil, nascia o italiano vulgar, do qual deriva a nossa linguagem, assim como em outras regiões da Europa se originavam, um pouco por vez, as várias línguas nacionais: alemão, inglês, espanhol... O ano mil assinalava uma fronteira invisível no tempo, que era sobretudo uma mudança na vontade de viver e de fazer, para todos. Sim, porque se esperou aquele ano como se estivesse para chegar o fim do mundo. Depois, como não havia acontecido nada parecia que todos tinham recebido o sinal para arregaçar as mangas.
Na península, sobretudo, havia um notável fermento para o nascimento dos municípios, uma forma de anarquia se comparada ao feudalismo, mas uma verdadeira forma de democracia para quem estava nestes burgos e nestas cidades, livre para dedicar-se às atividades mais lucrativas do artesanato e ao comércio. De fato, o feudalismo que tinha obrigado todos a viver como dependentes de um castelo do qual o senhor garantia a segurança, mas também exigia que todos se submetessem a ele sem poder discutir, tornou-se muito incômodo e inútil nestes novos tempos. Para citar alguns exemplos, pensem que o feudatário gozava de direitos de toda espécie e muito além da nossa imaginação: o “ius primae noctis” determinava que quando um súdito qualquer se casava deveria entregar sua mulher ao feudatário para dormir com ele sua primeira noite; caso contrário, havia o “direito de apreensão”, um direito com base no qual o feudatário, e naturalmente todos os seus capangas armados, poderiam pegar tudo aquilo que quisessem, tanto casas como objetos, animais ou pessoas. E nem pensava em protestar quem quisesse salvar pelo menos a própria pele. Quem, então, não teria ficado farto desta situação? E sobretudo do ponto de vista econômico...
Obviamente o "chefe" de todos, também dos feudatários, que na época era o
imperador, não podia estar de acordo com a reivindicação de liberdade da parte
dos municípios e descia bordoadas, sobretudo com Frederico Barbarossa. No
entanto, os municípios obtinham uma ajuda inesperada da Igreja, que, com o
Papado e com os bispos, pensando nos seus
próprios interesses, é claro, queria livrar-se do enorme poder do imperador. Em
Legnano, em 1176, os municípios do norte davam uma lição memorável ao
Barbarossa, que teve de reconhecer-lhes a autonomia. E as tentativas de seus
sucessores de reconquistar a situação faliram miseravelmente.
Parece justo para vocês – eu cutucava os meus interlocutores que pareciam satisfeitos com os acontecimentos ligados aos municípios –, mas saibam que isso não era outra coisa senão um indicador da fragilidade do poder da Itália. Imaginem as brigas sucessivas que explodiam a todo momento, não só entre os vários municípios como também dentro dos próprios municípios. Se antes existiam os partidários do imperador, que se chamavam guibelinos, e aqueles do Papa, os guelfos, agora em cada cidade havia duas facções contrapostas, como os brancos e os negros em Florença. E disso teve experiência direta Dante, que primeiro arriscou a própria pele, e depois teve que ficar no exílio pelo resto da vida, passando o tempo a escrever a "Divina Comédia" e algumas cartas, inúteis, ao imperador, para que colocasse um pouco de ordem na situação. Na verdade o imperador, Arrigo VII de Luxemburgo, foi para a Itália mas morreu repentinamente em Bonconvento, perto de Siena, arruinando definitivamente todas as tentativas possíveis de fazer voltar um poder unitário na Itália.
Assim, cada um pensava em seus próprios interesses mais do que nos de todos. O próprio Papa era motivo para a divisão. Tanto que Felipe, o Belo, rei da França, tendo percebido que condicionar o Papa a fazer aquilo que ele queria era importante, levou-o para sua casa, em Avignon, com toda a corte pontifícia, por setenta anos. Para não falar do sul da Itália, tomado primeiro pelos franceses com a família dos d'Anjou que se instalaram em Nápoles, enquanto que os mesmos eram expulsos da Sicília na época dos famosos "Vespri Siciliani"[4] pelos aragoneses, nobres de origem espanhola. Não precisava muito para entender que nesta altura dos acontecimentos a Itália era de quem chegasse primeiro!
– Isso não é uma grande novidade – confirmava Angiolino com convicção.
– No entanto é verdade também que a Itália dos municípios antes e das senhorias depois, durante o período dito do Renascimento, estava cada vez mais rica, mas é também verdade que ficava à mercê de quem quer que fosse, e assim era também para as senhorias do norte que se julgavam livres do domínio estrangeiro. O próprio Ludovico, o Mouro, que havia usurpado dos Visconti o poder em Milão, chama os franceses para apoiá-lo.
Carlos VIII, rei da França, não se faz de rogado. Não só atravessa os Alpes como desce toda a península para ir reivindicar o Reino de Nápoles que os aragoneses conquistaram para si nesse meio tempo. O passeio foi tão fácil para ele que passou para a História como a "guerra do giz", porque a maior dificuldade de seus soldados foi a de assinalar com uma cruz de giz as portas das casas que eram requisitadas como alojamento para os soldados. Se tivessem requisitado somente as casas, sem as esposas, as filhas, os pertences, quando não era a vida! Naturalmente na escola se fala dos atos corajosos dos italianos: em Florença, Piero Capponi ameaçava orgulhosamente soar os próprios sinos contra os franceses, e Ettore Fieramosca vencia um belo duelo em Barletta contra os cavaleiros franceses, cinco contra cinco, como em uma partida de futebol de salão que se joga nas tardes de verão no pátio da igreja!
– É como esvaziar o mar com um baldinho – resmungava até mesmo Angiolino!
– Se ainda tivesse terminado aí... O pior ainda estava por vir, pois que, depois da paz de Cateau-Cambrésis, e estamos em 1559, foi presenteada aos espanhóis quase meia Itália do norte e do sul. Uma verdadeira corrente no pescoço, vos garanto. Voltava, quase, o feudalismo. E os poucos e pequenos Estados que permaneciam independentes, entre os quais Veneza e o Estado Pontifício, se olhavam reciprocamente com hostilidade, pior que os outros. O que os espanhóis conseguiram fazer no século XVII para mandar tudo à ruína, o sabem também as crianças, porque nos contou com todos detalhes até mesmo Manzoni, no seu livro “Promessi Sposi”[5], dois séculos depois, e também para ele tudo aquilo nem parecia ser verdade.
Furtos, extorsões, banditismo, sepultamento das atividades produtivas e conseqüente miséria, carestias, doenças... Para o cúmulo, era também o pior período da Contra-reforma, com os tribunais da Inquisição a suspeitar de quem tivesse uma idéia nova, a Congregação do Index que colocava na cruz os intelectuais e os artistas, isto é, aqueles que tinham fornecido com o cérebro a matéria-prima para que a Itália se tornasse aquele esplendor que era ainda no início de 1500. E depois, quando além disso tudo ainda explode a peste, trazida do norte pelas tropas de soldados mercenários alemães, "os lansquenês", vindos para fazer a enésima estúpida, mas terrível e desastrosa guerra de invasão, em troca de alguns poucos quilômetros quadrados de terra, se daria a culpa de tudo aos “untadores”[6].
E, se não se tinha voltado irremediavelmente à pior ignorância e má organização
da Idade Média, pelo menos nas cabeças, é porque a História sempre nos dá uma
mão, e mesmo
que façamos de tudo para piorar as coisas ela não nos permite voltar muito para
trás. Isso não exclui que para nós o século XVIII iniciasse diante de um
verdadeiro desastre!
Lê-se na História de Milão: “A desolação das indústrias e do comércio chegou ao extremo da decadência; as rocas e teares de lã e de seda permanecem inoperantes, os campos pululam de vagabundos e bandidos; para estirpá-los o governador austríaco manda destruir o matagal ao longo das estradas e envia, para combatê-los, equipes de soldados acompanhadas de um juiz e de um sacerdote, para que se faça justiça sumária como punição e como advertência”.
– Caramba! Parece que estou ouvindo falar sobre a máfia de hoje – comentava Angiolino muito educadamente.
– Benditos vocês aqui, que com a República de Gênova evitaram pelo menos o pior, mas não certamente os desdobramentos e as conseqüências da situação geral. Porque também Gênova, como todas as outras antigas repúblicas marítimas, Pisa, Amalfi e Veneza, não era outra coisa senão o espectro daquilo que tinha sido um tempo atrás com as suas ricas frotas de navios. E isto se tornou realmente um desastre com a descoberta do “novo mundo”, a América, que por ironia da sorte fora descoberta justamente por um genovês, Colombo, porque o comércio que por séculos e séculos passava pelo Mediterrâneo foi então transferido para o oceano Atlântico. Primeiro Espanha e Portugal, depois Inglaterra e Países Baixos e, por último, a França, construíram navios enormes para aquela época, aptos a suportar as tempestades oceânicas, e transportavam e roubavam todas as riquezas possíveis nas Américas e nas Índias.
De um golpe assim baixo não se refez nem o orgulho de Veneza e nem todo o seu comércio de especiarias com o Oriente. Até mesmo o Império Otomano, que durante séculos se igualou às potências européias que se esforçavam em mantê-lo a distância do centro da Europa depois que havia conquistado Bizâncio e o Império do Oriente, não tinha mais nada a fazer senão abaixar a cabeça e iniciar um lento mas inexorável declínio, do qual nunca mais se refez.
Dizer que os austríacos, em 1714, foram acolhidos com alívio e entusiasmo em Milão e Mantova é, porém, exagero. O abatimento e o medo dominavam, e a fé dos pobres – mas também dos comerciantes, dos artesãos, dos pequenos burgueses e da pouca mas presunçosa nobreza sobrevivente, que viram e sofreram situações de todo o gênero – estava reduzida a uma luzinha, ou até mesmo já havia desaparecido. O único pensamento foi que, de qualquer modo, pior do que estava não podia ficar.
– Juízo um tanto quanto arriscado – afirmava a essa altura, altiva, Luigia Bonfiglio. – Ao pior não há limite nenhum, e o digo por experiência... – Ainda bem que Angiolino intervinha com um Deixe-o terminar, que os comentários faremos depois, senão sabe-se lá que lengalenga seria!
– Bem! – eu continuava apressadamente –, os novos súditos italianos entenderam imediatamente o quanto eram diferentes os austríacos, pelo menos na cabeça que olhava para a economia de um Estado. Organização do trabalho, organização do cadastro, organização administrativa... E não tendo no momento outras bobagens na cabeça, os “Lumbard” começaram a se esforçar em produzir seda para ser vendida ao exterior e fazer bater os malhos das oficinas nos vales alpinos para puxar a “bagia”, isto é, meada de ferro fundido para fazer o fio e os pregos.
Em Nápoles e na Sicília tinham-se estabelecido os Bourbon, cujo lema parecia aquele de "viva e deixe viver". Assim as coisas continuavam a se desenvolver como sempre, com os barões que controlavam as terras e os camponeses que se matavam de cansaço de tanto trabalhar nelas, quando não eram mortos a pauladas pelos guardiães dos barões por terem roubado um pouco de lenha para queimar ou capturado uma lebre para comer. Aliás, não pensem que no resto do país, dividido em tantos pequenos Estados, o medo dos príncipes de perder o poder fizesse com que as coisas fossem diferentes! Tudo imóvel como uma pedra, nunca se sabe!
E pensar que, nesse meio tempo, na França, os filósofos iluministas exaltavam o surgir do “século das luzes da razão”, e no norte da América os colonos, em sua maioria fugidos ou expulsos da Inglaterra, reconduziam à razão, mesmo a contragosto, a própria pátria-mãe à força de tiros de escopeta, com uma notável revolução. Pela primeira vez, em um documento, proclamavam que as pessoas podiam, ou melhor, tinham o direito de escolher livremente para si o governo que melhor respondia às suas exigências, e que cada um era livre para fazer o que queria! E visto que tinham vencido a guerra, tinham também razão! É sim, porque a razão sempre esteve do lado de quem vence, enquanto que quem perde fica quieto e aprende.
Vocês podem imaginar os pensadores franceses da época? Durante a revolução
americana, Benjamin Franklin, um jornalista que nas horas vagas encontrou até a
oportunidade de inventar o pára-raios, não só preparava a Declaração de
Independência como vinha à Europa para chamar reforços e ajuda. Alguns, como o
general La Fayette, partiram para a América e quando voltaram estavam
convencidos de que alguma coisa deveria ser feita também
na França. E o fizeram. Só que a tarefa, desta vez, fugiu ao controle, ou
melhor, foi tanto o entusiasmo que empregaram para fazer sua propaganda que as
pessoas começaram a acreditar nisso profundamente e a pensar que era justo, só
para começar, eliminar aqueles que as tinham feito padecer por tantos séculos. E
viva a guilhotina, gritavam, e desta vez era o sangue dos nobres que jorrava.
A situação naturalmente não poderia durar, mas esta é uma outra história. A nós, porém, interessa por que os franceses não queriam se limitar a fazer a revolução na casa deles e, também, por que, um pouco arrastados pelos cabelos, a levaram em outros lugares da Europa. E para começar, visto que estava próxima, vieram à Itália!
É a chegada dos primeiros turistas que sempre interrompe, na manhã já avançada, as nossas conversas e nos obriga a longos períodos de silêncio para reflexão. Irrompem do túnel frio da estação e aos gritos se aproximam da marina, onde param por um instante, emudecidos pela beleza do mar. Depois, partem em grandes grupos ao longo da passagem para Palaedo e encerram de repente a nossa conversa. Estrangeiros. Eu também aprendi a olhá-los com indiferença, comentando que não pertencem à minha, à nossa vida. Quase com aborrecimento, eu sei que até as primeiras horas do dia seguinte será assim. Com exceção dos dias de vento e tempestade, quando poucos se arriscam até a Ponta; mas aí, também entre nós o diálogo ficava difícil, porque devíamos forçosamente quase berrar, até desistirmos.
... c’est vraiment incroyable la beauté de la mer si bleu et si profonde... le grand bleu... A esta hora, não renuncio ao café da manhã com a focaccia[7] fresca. O ar da manhã abre o apetite, até demais para o meu peso. Encaminhamo-nos, Angiolino e eu, talvez pensando simultaneamente nos ancestrais deste grupo de franceses em ridículas bermudas coloridas.
Luigia, sem dúvida, não lhes pouparia alguma piada mordaz se conhecesse um pouco a língua!
os franceses
– Sans-culottes, "sanculotti" nós os chamamos depois na Itália. "Culottes" em francês eram as calças até os joelhos dos nobres do século XVIII, parecidas com as bermudas dos turistas de ontem. Estar sem elas representava o uniforme dos revolucionários jacobinos da França de 1789.
A explicação era daquelas que Luigia não aceitava muito bem, aliás como todas as esquisitices, mesmo já tendo visto desfilarem na sua frente coisas de todas as espécies. E isso deixava de bom humor Angiolino, que ria com prazer.
– Era a manhã de 14 de julho de 1789, aquela na qual os "sans-culottes", chamados também de jacobinos pelo fato de o nome comum dos pobretões ser exatamente Jac (Giacomo, em italiano), se faziam ouvir a sons de disparos com a tomada da Bastilha. E dali em diante foram muitos os caminhos que percorreram em todas as direções, certos e errados. Sim, porque se deram conta, imediatamente, de que tudo o que haviam pregado os intelectuais, isto é, o despotismo iluminado pelo qual "tudo era feito para o povo, mas nada por mérito do povo", no final das contas não permitia às pessoas se meter em nenhuma decisão. Assim, teriam continuado a governar aqueles de sempre: o rei, a aristocracia e o clero. Então, foi pancadaria até não poder mais, para pedir por igualdade e participação política. Como? Com uma bela declaração dos direitos do homem e do cidadão.
Só que, já desde o início, como sempre na política, nascem opiniões contrastantes. Há os que querem o liberalismo político, isto é, quem pensa em salvaguardar a liberdade e, naturalmente, a propriedade do indivíduo antes de tudo. Mas assim não é muito fácil praticar uma verdadeira justiça sem tocar nos privilégios de poucos. Há, por outro lado, os que querem a democracia, com igualdade dos indivíduos. Mas assim vai às favas a liberdade absoluta do indivíduo. No final das contas, já em 1794, subiu ao poder um governo da burguesia que já sabemos quais interesses iria defender.
É preciso entender que este não era um período fácil. A ânsia pela guilhotina
afetou a todos um pouco, e havia também aqueles que não estavam de acordo com a
revolução, sobretudo nos campos. Em algumas regiões da França, como em Vandea,
não se suportava a idéia de mudar a situação e mandar tudo aos ares, inclusive a
religião. Havia também aqueles que queriam manter o direito de voto somente para
os que tinham dinheiro e pagavam uma certa quantia de taxas, e outros, como
Robespierre, que em vez disso preparavam uma constituição na qual se previa que
todos pudessem votar! Em suma, todos contra todos e se
degolava a torto e a direito, enquanto sobre o altar de Notre Dame, em Paris,
uma bonita moça nua, dançando, personificava a “deusa da razão”.
– Se eu estivesse lá, também teria me divertido – repisava Angiolino, zombando e olhando de soslaio Luigia, que mantinha sua altiva dignidade de senhora de bem. – Homens!!
– No final das contas, toda revolução teve sua boa parte de disparates!
– Não na revolução russa, caramba! – Agora era Angiolino quem se alterava enquanto ela, do alto, retrucava:
– Mas você se lembra de um certo Stalin de quem se disse cobras e lagartos?
– Mas o que isso tem a ver com a revolução? Ele tem a ver depois.
– Sim, como as filas que, dizem, fizeram por meio século na frente do mausoléu de Lenin... e nas lojas para comprar o pão.
– Ah! Mais essa...!
– Senhores, por favor, vocês estão errando pelo menos de século! A Revolução Francesa é do final do século XVIII, início do XIX, enquanto a outra...
– Diga a ele, méés-tre, a este "sabe tudo", com quem não dá para discutir.
Dia negro como o tempo que se delineava no horizonte, surgindo entre as espumas das ondas enraivecidas esmagadas em certos trechos pelas enormes nuvens escuras. Era como sentir sobre nós uma borrifada sutil de chuva. Era preciso ter paciência.
– No entretanto, já em 1892 os revolucionários tinham criado a Convenção
Nacional com a qual proclamavam a República e, alguns meses depois, para que não
houvesse mais dúvidas, faziam passar pela guilhotina o rei Luís XVI, e depois a
rainha também. Foi nesse momento que a Áustria, Prússia, Rússia, Inglaterra,
Espanha, Reino de Nápoles, Grão-Ducado da Toscana, Estado da Igreja, Reino dos
Savóia, todos declaravam guerra à França! O medo de acabar da mesma maneira
fazia milagres sobre todos os governantes. Seja como for, a situação não era
para brincadeiras, e então todos os poderes foram colocados nas mãos de
Robespierre, Danton, Marat e Saint-Just. Estes quatro bloqueiam os preços e
inventam o recrutamento de massa para enfrentar os exércitos estrangeiros. Todos
os cidadãos dos 18 aos 25 anos são recrutados; quem escapava tinha todos os seus
bens confiscados e vendidos; novas taxas a cargo dos cidadãos mais ricos;
distribuição gratuita de comida aos pobres; são fechadas as
igrejas; as festas religiosas são suspensas; é abolido o calendário e
inventa-se um novo; e quem for denunciado, suspeito ou não estiver de acordo
será guilhotinado. Simples, não?
– Caramba! Não foi brincadeira!
– Não foi brincadeira mesmo. Mas o fato é que no final deste período, que não por nada se chamou período do terror, a França estava salva, e os exércitos estrangeiros, rechaçados.
e os italianos
Sou um péssimo pescador. Evidentemente entre mim e os peixes não há muito feeling, ou provavelmente comigo os peixes não aceitam fazer passivamente a sua parte de vítimas estúpidas do jogo. Assim, pretendo passar as primeiríssimas horas da manhã a "dar de comer aos peixes", como diz Angiolino, que, por sua vez, poderia muito bem ser definido como o autor de um imenso massacre de habitantes do mar. Todavia o entendo: ele precisava comer e dar de comer à numerosa família. Sou eu, no caso, que prendo à linha de pesca alguma salpa ou pequeno pargo com propósito puramente homicida.
Explicar isso a Luigia é um problema, porque não tem jeito de fazê-la entender. Como pode, segundo ela, um homem da minha idade perder tempo com uma linha de pesca, em vez de fazer algo de útil? Expliquem a ela que eu, no final das contas, estou de férias e posso fazer aquilo que mais me agrada, até pescar. Perder tempo, para ela, é uma ocupação realmente condenável! Ou melhor, traduzido na nossa linguagem atual e com o devido sarcasmo, cretina. Assim, toda vez que se recomeça a conversa é possível sentir no ar uma certa tensão, e as primeiras perguntas feitas por ela nunca são em um tom benevolente. Mas, enfim, nós nos habituamos ao seu caráter nada fácil; mesmo assim, ai de nós se nos pega quando Angiolino e eu piscamos o olho, reprimindo com dificuldade um sorriso.
– Os franceses, os franceses! Mas quando se falará dos italianos?
– Chego lá em um minuto.
É porque os franceses têm a ver, e muito, com a Itália. Ou melhor, é exatamente a Itália a primeira sobre a qual colocam os olhos. Porém faz-se necessário ir pôr ordem e entender como e quando e também quem traz confusão no nosso país.
– Eu já disse que na França soprava um ar insalubre. Quando em 1792 a guerra
contra a Áustria parecia piorar, a Assembléia Legislativa tinha votado duas
disposições: a deportação dos padres “refratários”, isto é, aqueles que não
queriam, de maneira nenhuma, ficar do lado da revolução; e a formação de um
corpo de 20 mil voluntários sob as ordens de Paris. Foi então que o rei se opôs.
E assim, depois de ser destituído cortaram-lhe também a cabeça. Seguiu-se a
isso a oposição dos moderados e a decisão da maioria de colocar o poder nas mãos
da Convenção, mas Robespierre obteve uma posição de comando quase absoluto.
Iniciou-se o "período do terror" no verdadeiro sentido da palavra. Com a "lei
dos suspeitos", num piscar de olhos se ia parar na guilhotina. Isso não impede
de reconhecer que Robespierre teve todo o mérito de salvar o país de uma revolta
interna, contentando a multidão parisiense com o recrutamento em massa e o
tabelamento de preços dos bens de maior consumo, e os camponeses com a venda de
pequenos lotes de terra confiscados dos emigrantes e abolição das taxas para o
resgate dos antigos direitos senhoris. Isso, naturalmente, nós dizemos agora.
Seus colegas de então, mas principalmente seus adversários, pensaram de maneira
diferente e, assim que puderam, fizeram-no sentir o calafrio da guilhotina.
Enquanto isso, se opunham aos exércitos estrangeiros que tentavam fazer os
franceses pagarem pela morte do rei.
– Continua-se a falar dos franceses e nunca se chega ao fundo da questão! – Até Angiolino, desta vez, segurava com dificuldade um bocejo enfastiado. Quando o mestre leva vantagem deve ser mesmo terrível para quem o escuta.
– Já chego lá num instante. Com o propósito de combatê-los foi enviado a Toulon contra os ingleses, desembarcados com a ajuda dos contra-revolucionários internos, um jovem capitão que, se não fosse pela oportunidade a ele oferecida pela revolução, teria permanecido um simples cabo. Trata-se de Napoleão, o baixinho nascido em Ajaccio na Córsega, com o caráter teimoso daqueles que nascem numa ilha. Como general, pouquíssimo tempo depois, foi chamado em Paris para reprimir uma tentativa de rebelião realista. E é nessa ocasião que começa a ficar conhecido pelas pessoas importantes.
Naturalmente tudo isso não diz respeito só à França. Em Milão e em Nápoles
sobretudo, os intelectuais italianos esperavam ansiosamente que alguma coisa
acontecesse também aqui. Um jovem literato veneziano, de quem se ouviria falar
com freqüência mais tarde, Ugo Foscolo, não via a hora de acolher os franceses
de braços abertos. Por outro lado, os governantes e o clero tremiam só com a
idéia de que isso acontecesse e se aliavam ainda mais estreitamente como nunca
haviam feito, esquecendo-se até das disputas ferozes do período do iluminismo,
recém terminado, para defender os interesses de ambos, e reagiram com extrema
severidade também com relação às mais tímidas tentativas de um pedido de
constituição.
Até mesmo um conde, Dalmazzo Francesco Vasco, foi condenado por Amedeo III de
Savóia à prisão perpétua, só por ter pensado em uma constituição tão moderada
que hoje nos faria sorrir.
Tudo isso não impediu que sobretudo a burguesia visse com bons olhos a ocasião para melhorar o próprio estado social, fazendo nascer as primeiras organizações clandestinas italianas no âmbito da "maçonaria", que teve o mérito de agregar com grande segredo os iluministas conterrâneos. Principalmente no Piemonte nasceram alguns "clubes" jacobinos, provavelmente pela íntima vizinhança com a França. Ali começaram as primeiras condenações à morte. Também em Nápoles não se brincava: elementos filofranceses foram presos. Tinham como lema “República ou morte!”. Vocês entendem com quanta felicidade para o rei dos Bourbons. Mas também em Roma, Bolonha, Milão... em suma, em todos os lugares se esperava um sinal decisivo dos franceses, e estes olhavam com simpatia, e não só, os italianos.
A ocasião foi dada graças à aliança entre a Áustria e o rei da Sardenha. Para enfrentá-la, os generais Jourdan e Moreau foram enviados ao front germânico. A Napoleão foi destinada, graças a intrigas da amante, uma certa Giuseppina Beauharnais, viúva de um general guilhotinado durante o Terror, a campanha da Itália, tida quase como um passeio. Inteligente e atrevido, o jovem general não tinha nenhuma intenção de perder a oportunidade para se mostrar, contando com suas capacidades estratégicas e com o entusiasmo de suas tropas formadas por jovens cidadãos, que se contrapunham com entusiasmo aos soldados mercenários de profissão, pouco dispostos a perder a vida nas batalhas, e a velhos generais de manobras previsíveis.
Saído da França na metade de abril, já no fim no mês obrigava o rei da Sardenha ao armistício, no qual este último perdeu Nice e a Savóia para manter o título real. Foi grande a desilusão dos patriotas que haviam se rebelado em Alba, chamando todos os democratas da Itália para constituir uma república livre. Napoleão ficou impassível diante do pedido deles!
– Era de se esperar! Até a mim Napoleão nunca agradou. Ouvi falar dele ainda no meu tempo. Porém era preciso ter cuidado, por causa dos espiões dos piemonteses. Diziam que era pequeno e soberbo como ninguém. E teimoso. – Esta era Luigia, que começava a sentir-se parte viva da história.
– Bem! Em maio entrava na Lombardia e em Lodi dava uma surra nos austríacos, ocupando Milão, acolhido de braços abertos pelos jacobinos que não sabiam ainda o que os esperava na verdade, e logo a seguir, Veneza, uma república livre desde sempre, estava sendo disputada pelos austríacos e franceses, enquanto estes conquistavam a Romanha, obrigando o Papa e também o rei de Nápoles a um armistício.
Bonaparte, porém, tinha em mira a vitória sobre a Áustria, e depois de uma série de derrotas para esta última perseguiu os soldados até Viena, obrigando-os à paz. No entanto, no Veneto cresciam as revoltas contra a clara prepotência dos franceses. Em Verona houve a insurreição da cidade guiada pelos aristocratas e pelo clero que tentavam aproveitar-se da situação. Foi tudo inútil. Veneza também foi tomada pelo poder jacobino e terminou indignamente a sua história milenar de liberdade com o tratado de Campoformio. Foi cedida à Áustria em troca de uma parte da Bélgica como se nada fosse! Foscolo, aquele jovem intelectual de quem falamos antes, que até combatia no exército de Napoleão, fez feio junto com todos os outros. Por sorte se salvava do desastre comum um quase conterrâneo meu, um padre literato daqueles que realmente, mesmo naquela época, sabiam ver muito além do próprio nariz: Giuseppe Parini, de Bosisio. Disse inutilmente a todos que era realmente estupidez esperar que a liberdade viesse pelos estrangeiros. Como bom habitante de Brianza que era, estava convencido, com razão, de que se você quer realmente alguma coisa deve ganhá-la sozinho, com muito esforço e se arriscando pessoalmente. Era um tipo acostumado desde jovem a ganhar a vida e a falar claramente com todos, sem ter papas na língua.
Angiolino me olhava de soslaio. Não estava plenamente convencido de que um tipo assim pudesse ser padre. Quanto à Luigia, bem, não tinha as mesmas dúvidas. Ambos, todavia, estavam de acordo sobre o argumento do esforço e do dever de se virar sozinho. É uma lição tão natural e assimilada que todos os pobres aprendem rápido na vida, em qualquer tempo e em qualquer país onde estejam. E falando assim Angiolino olhava longe, no horizonte mal e mal encrespado pelas ondas de um azul cintilante, e se tivesse sido possível vê-la, aposto que também Luigia teria tido o mesmo olhar perdido em pensamentos.
– Bem! Pode-se pensar o que se quer, mas o fato é os que franceses prometeram
mundos e fundos e não fizeram outra coisa senão roubar! Lembro que em Oggiono,
uma cidadezinha perto da minha em Brianza, enquanto se restaurava o antigo
batistério românico
encontrou-se um interessante e precioso, pelo menos do ponto de vista histórico,
grafito, que diz: “Em 8 de janeiro de 1797 foi feito o saqueio da prata desta
igreja pelos franceses... Assim fizeram por toda a Itália. Ladrões como estes
não são encontrados em nenhum Reino. Castigo para toda a Europa”.
bem-vindos à Itália?
– Que os franceses formassem sucessivamente repúblicas na Itália: Cispadana, Transpadana, Cisalpina ..., interrompendo sua presença depois de terem sido derrotados no Egito e retornando à Itália em 1800, com todas as adversidades sofridas por Napoleão naquele período, pouco importa. É muito melhor entender o que significou a presença dos franceses no nosso país.
As guerras e os exércitos nunca fizeram bem às pessoas comuns. O respeito de quem está armado sempre se deteve em quem conta por nobreza ou por riqueza e poder. Além disso, as armas sempre deram medo porque significaram sempre prepotência e prevaricação. E também hoje se tem muito o que dizer dos exércitos "democráticos". Quando se tem uma arma, mais cedo ou mais tarde se passa a usá-la. E se hoje não se usa mais tão de perto, é somente pelo medo de se ferir pessoalmente.
No passado, aliás, os exércitos significavam somente destruição, saques, violências e estupros: em suma, crimes impunes de todas as espécies. E se aristocratas e burgueses podiam ter esperança de concretizar seus sonhos intelectuais ou seus interesses de poder, noventa por cento da população italiana, que era composta por camponeses, trabalhadores braçais e pequenos artesãos analfabetos, não teria apostado um centavo nas mudanças da realidade. Muitas tinham sido as experiências trágicas já vividas para pensar que a revolução dos jacobinos, trazida por um exército de inescrupulosos que nem falavam a língua deles, pudesse trazer a liberdade. E além disso, o que era e o que é a liberdade? Será que existe uma forma definida para todos? Será que existe alguém capaz de descrevê-la ou de delineá-la de modo que todos a reconheçam? Estavam mais distantes as idéias de liberdade e de igualdade naquele tempo do que Marte ou do que Júpiter hoje em dia.
Desta vez, até Angiolino assentia com a cabeça, enquanto o silêncio de Luigia significava aprovação. Quantas vezes em suas vidas haviam pensado na liberdade, e cada vez de maneira diferente: a liberdade de possuir um pequeno vinhedo na íngreme encosta acima, a liberdade de possuir um barco todo seu com fortes redes, a liberdade de poder contar com o esforço dos próprios braços ou de poder rever as pessoas amadas. Quantas vezes estas simples liberdades lhes tinham sido negadas?
– A propósito de liberdade, os soldados franceses erigiam, com a ajuda dos
jacobinos do lugar, um poste no centro da praça dos vilarejos. Freqüentemente
era a praça da igreja. Era
a árvore da liberdade! Pouco importa que depois se praticasse todo o tipo de
prepotência, em prejuízo das pessoas, mas não só. Os franceses em poucos anos
conseguiram dilapidar um patrimônio artístico e bibliográfico de séculos,
destruindo bibliotecas e arquivos de igrejas e conventos, antigos mosteiros que
se orgulhavam da sua origem na alta Idade Média... Havia chegado a liberdade!
Provocavam tanta raiva e aversão nas pessoas que naqueles mesmos anos estouraram revoltas contra quem havia ajudado os franceses: foram surrados, as fitas tricolores arrebentadas e derrubadas as árvores da liberdade. Infelizmente isso não evitou que os ocupantes continuassem a efetuar saques fiscais, esvaziar os caixas do Estado e roubar ouro e prata das igrejas e dos museus, enquanto prevaleciam os interesses conservadores.
É lógico que em todos os lugares o retorno dos velhos monarcas foi saudado com um solene Te deum nas igrejas! Pobres italianos! Depois disso, o que podiam esperar de motins e revoltas? Não é de se admirar que no Ressurgimento só participassem uns quatro gatos-pingados! Mesmo porque na Itália seguiram-se crimes e delitos naquele que foi chamado "Terror Branco".
Parecia ouvir-se como que uma ânsia na respiração, em geral regular e suave, de Luigia. Podia-se quase perceber a tensão que ela sentia ao pensar que enfim chegaria o momento de falar dela, de seu tempo. E então teria muitas coisas a dizer.
Mazzini de Bramante
É, sim! Porque Luigia Bonfiglio vivera em um século em que ocorreram mudanças e acontecimentos assustadores nesta península. Começando pelo fato de que, em conseqüência das derrotas sofridas por Napoleão na Europa, primeiro com a destruição de um exército de cinqüenta mil homens na Rússia, depois em Lípsia e depois em Waterloo, na Itália tudo deveria voltar a ser como antes, ou quase. Quase, porque os austríacos certamente não concordavam em deixar outra vez independente a República de Veneza, por exemplo. E com a desculpa de que ela tinha se rendido a Napoleão sem desferir um golpe...os austríacos ficariam com ela.
Quem tem mais força sempre tem razão! Assim anda o mundo hoje, e naquele tempo seguramente não era diferente.
– O problema era ver se os italianos ainda concordariam, mais uma vez, em deixar-se espremer como limões e, ao mesmo tempo, levar um saco de pancadas à toa. Assim, depois de 1815 e do Congresso de Viena, no qual as grandes potências européias – França, Inglaterra, Áustria e Rússia – concordavam em dar-se fraternalmente as mãos a fim de não perder o poder novamente, os italianos , pelo menos aqueles que olhavam um pouco mais além do próprio nariz, decidiram que algo precisava ser feito. Às escondidas!
– A centelha da revolução já havia entrado no sangue de alguns e quem, jovem demais para ter sido jacobino e de revoluções e de batalhas só ter ouvido falar, a sentia ainda mais ferver no sangue. Mas nesse tempo o controle era rigoroso e, por isso, vêm à tona as sociedades secretas ligadas à Maçonaria. Os "carbonários"[8] – assim se chamavam os que pertenciam a esses grupos de conspiradores – reuniam-se em grande segredo e falavam muito de política. Muitas palavras, mas poucos fatos. Mesmo porque os tiros que levavam eram para valer, e o controle da polícia e dos espiões era muito grande depois da aventura dos franceses.
– Nos nossos vilarejos aqui à beira-mar –
interviu Luigia – todos se conheciam. E foi exatamente naquele período que,
de vez em quando, se via chegar um barco trazendo forasteiros, silenciosos.
Chegavam pela tardinha nos dias de calmaria. Puxavam o barco para a marina e
desapareciam na taberna do Bramante. Juntavam-se a eles os que desciam da
montanha pelos atalhos dos vinhedos, sob os olhares dos camponeses, que sempre
tinham receio
de que alguém lhes estragasse a colheita. Mas não ousavam dizer nada para
aqueles senhores de longos fraques negros, com laços ainda mais negros ao
pescoço.
– Eu era uma meninazinha naqueles anos, mas espiava pela porta entreaberta quando não reparavam em mim, e um dia ouvi dizer que alguém se tinha suicidado no cárcere e um outro, o Mazzini, teve que fugir.
– Desculpe, Luigia, mas isto aconteceu alguns anos depois. Giuseppe Mazzini, que era de Gênova, escolheu o exílio em Marselha no ano de 1830, e seu querido amigo Jacopo Ruffini, que estava no comando da “Jovem Itália”, de Gênova, suicidou-se no cárcere, depois de uma grande conspiração organizada no exterior por Mazzini, em 1833. A conspiração, aliás, nem sequer havia começado. Devia atingir várias cidades, como Chambery, Turim, Alexandria e, também Gênova, mas foi descoberta antes, justamente por Carlos Alberto, e reprimida com penas de morte, duras condenações e exílio para centenas de pessoas.
Angiolino escutava quase incrédulo. Mazzini e Ruffino deviam ter sido pessoas importantes. De Mazzini, seguramente tinha ouvido o nome e havia até uma rua em Spezia dedicada a ele, e talvez também em outra cidade. E pensar que vinham naquela biboca de taberna do tio Bramante que, afinal, era uma cantina como tantas outras até poucos anos atrás, com a pequena escada que levava ao piso inferior e as poucas pipas alinhadas de um lado. Mas havia uma grande mesa e quem quisesse comia pão com sardinhas ao óleo. E Mazzini tinha estado ali... certamente, desde então, não haviam trocado nem o banco...
As ondas batiam espumando nas rochas e, de quando em quando, um borrifo branco e gélido chegava até nós, sob um céu que parecia uma capa cinzenta e enfurecida. As casas quase desapareciam na penumbra. O vento varria com rajadas a deserta passagem para Palaedo onde estávamos sentados. Entendi que, por aquele dia, era melhor deixar meus interlocutores à vontade com os seus pensamentos para, na medida do possível, pôr um pouco em ordem as idéias antes de retomar o fio da conversa.
carbonários e revoluções
Quando Manarola é varrida pelo vento da borrasca, o dia depois do alvorecer costuma ser claríssimo, o ar puro como nunca e de um frio penetrante. É preciso agasalhar-se bem se se quer ficar junto ao mar e proteger-se o mais possível nalgum recanto para evitar que as rajadas de vento cortem o rosto como uma lâmina. Angiolino tinha refletido longamente e eu sabia que na tarde anterior, não obstante o frio e a água, ele tinha passado várias vezes na frente do Bramante, lançando olhares intensos para o seu interior, sem ousar entrar. Por ali havia passado a História. E ele não o sabia até aquele momento. Queria ouvir mais sobre isto tudo.
– Os burgueses e os militares tinham tudo a perder com a volta dos governantes de antes da revolução. De fato, foram praticamente os únicos que tiveram vantagens e consideração com as reformas que Napoleão tinha levado aonde estivera como conquistador, na esteira da legislação francesa. Nos anos seguintes a 1815, em várias partes da Europa registram-se desordens. A ação orquestrada pelos governos e a repressão policial não podiam manter por longo tempo a tampa da panela que fervia. E queimava.
– Entre 1818 e 1819, em Milão, alguns burgueses e intelectuais, guiados pelo piemontês Silvio Pellico, haviam fundado um jornal liberal, "O Conciliador”, que falando de literatura desejava fazer política. Naturalmente foi logo fechado pelos austríacos, mas Pellico, com um musicista de Modena, Maroncelli, que introduzira a "Carboneria" em Milão, continuou sua ação secreta juntamente com Confalonieri, a fim de projetar uma guerra contra a Áustria juntamente com os patriotas piemonteses. No ano seguinte Pellico e Maroncelli acabaram presos em Spilberg, na Tchecoeslováquia.
Porém, já em 1820, estouravam os primeiros movimentos de intolerância na
Espanha. Um contingente militar, que partia para a América do Sul a fim de
acalmar as revoltas nas colônias, rebela-se e pede a Constituição. O rei
Fernando VII de Bourbon teve que concedê-la, não obstante as disputas surgidas
entre os rebeldes. Imediatamente em Nápoles, no Reino das Duas Sicílias, uma
divisão do exército capitaneada pelos tenentes Morelli e Silvati se rebela em
Nola, pedindo a Constituição. Também aqui o rei teve que reconhecer a derrota
frente aos revoltosos, enquanto que na Sicília os liberais pedem a separação da
ilha. São os próprios
napolitanos que enviam tropas à ilha para acalmar a revolta. O ministro
austríaco Metternich, todavia, não tinha absolutamente a intenção de reconhecer
esta situação e, aproveitando-se das divergências entre os dois generais
napolitanos que comandavam o exército, Pepe e Carascosa, dispersa os rebeldes.
É, mais ou menos, o fim que terão todas as tentativas daqueles anos.
– Vejamos, por exemplo, o que acontece no reino da Sardenha, isto é, naquele Estado que agrupava o Piemonte, a Ligúria e a Sardenha, além do território de Nice e da Savóia, de onde vinha obviamente a dinastia dos Savóia que tinha o título real. Aqui os fatos acontecem de um modo muito bufo, de um certo ponto de vista. Reinava, em janeiro de 1821, Vittorio Emanuele I, que sentia, dia a dia, crescer em torno de si a desconfiança da burguesia e a insubordinação dos oficiais do exército. Ao mesmo tempo, um jovem descendente da família, Carlos Alberto de Savóia-Carignano, havia várias vezes demonstrado uma forte simpatia pelas idéias liberais e se declarava abertamente a favor dos estudantes quando estes, na Universidade de Turim, tinham-se defrontado com a polícia. Em suma, uma cabeça quente para aqueles tempos, visto que se presumia que fosse destinado à coroa. Inquieto e romântico, não via a hora de realizar obras excepcionais, sem ter certamente capacidade para tanto. O fato é que foi levado a fazer promessas aos liberais piemonteses, capitaneados pelo Conde Santorre de Santarosa. Este último, aproveitando o fato de os soldados austríacos estarem empenhados no Sul, deu o sinal da revolta para 8 de março. Carlos Alberto tentou desesperadamente parar com tudo, mas era tarde demais.
O entusiasmo era tal que até Alessandro Manzoni, aquele mesmo escritor importante de Milão que nunca fora daqueles que se põem na vanguarda dos que reclamam, escreve uma poesia, "Março de 1821", que, porém, guardou prudentemente na gaveta até 1848. Sim, porque o rei, Vittorio Emanuele I, pensou bem em passar a batata quente para outro. Abdicou em favor do irmão Carlos Felice. Este, na ocasião, encontrava-se em Modena em compromissos mundanos, aos quais não quis renunciar em troca de uma bagatela daquelas e, assim, nomeia justamente Carlos Alberto como regente, isto é, rei em seu lugar, provisoriamente. Carlos Alberto, obviamente, não podia faltar à palavra dada aos liberais e concede a Constituição.
Imaginem quando o soube Carlos Felice, que, nessa ocasião, "feliz" seguramente
não devia estar. Retirou rapidamente o poder de Carlos, enquanto que os
rebeldes, passando pelo
Ticino, declaravam guerra à própria Áustria. Carlos Alberto fingiu dar força aos
rebeldes, mas depois fugiu para Mantova. Os austríacos fizeram um bom trabalho
para dispersar em Novara os liberais que faziam uma última e desesperada
tentativa de resistência. E também aqui tudo terminou em fumaça. Carlos Alberto,
no ano seguinte, se distinguia na Espanha contra o governo liberal espanhol. Era
a condição exigida pelo tio para devolver-lhe o direito à sucessão, depois de
sua "loucura juvenil".
A Áustria e os governos italianos deram prova de uma ferocidade extrema ao punir os revoltosos que não conseguiram fugir. O cúmulo, porém, coube à Espanha, entre linchamentos e enforcamentos diversos; o chefe da revolta liberal, Riego, foi morto e esquartejado. O terrível exemplo serviu para manter tranqüilos por quase dez anos os ânimos mais exaltados.
a década de 1830: os anos difíceis
Pela manhã Angiolino estava contente. Reentrava em Palaedo vindo da pesca com o irmão alguns anos mais jovem, que ficava depois arrumando as redes taciturno. Não consegui jamais ouvir a sua voz. Angiolino, ao contrário, se achegava a nós no banco de pedra, ou então vinha provocar-me irônico quando eu teimava em pegar algum peixe com a minha linha de pesca, pequena e também um pouco ridícula para ele, que do mar havia retirado por decênios o necessário para viver.
Tínhamos falado longamente no dia anterior. A personalidade de Carlos Alberto suscitava opiniões obviamente contraditórias. Luigia, monárquica convicta, e isto podia-se entender devido à época em que viveu, demonstrava quase compreensão por este jovem rei que, afinal, ainda não sabia bem como se comportar na vida e depois devia arranjar-se como podia, porque um cargo de rei, no final das contas, não se encontra a toda hora em qualquer lugar. Imaginem Angiolino, que a princípio ria com gosto mas depois estourava com suas piadas mordazes sobre reis, padres e governo, profanando quase toda forma de legalidade constituída. Como se combater os justos direitos de quem reivindicava pelo menos o direito de poder dizer livremente a sua opinião tivesse sempre alguma coisa a que ver com a legalidade.
– Mas é assim – intervinha também eu –, também a legalidade e seus limites são estabelecidos por quem comanda!
Freqüentemente acontece que quem primeiro combate por uma causa como bandido, uma vez mudados o tempo e a situação, transforma-se em herói. Minha opinião é que há exagero num e noutro caso. No entanto, por dever histórico, devo referir que Carlos Alberto passou à posteridade com o apelido de "rei-indeciso", porque, como se verá, teve como demonstrar esta sua qualidade, certamente não invejável, em outras ocasiões.
— A incentivar ainda mais a revolta parecia que fossem porém os próprios
monarcas e príncipes mais retrógrados e conservadores, indubitavelmente pela
profunda ignorância com que enfrentavam os problemas de seus Estados. Na França,
onde mais uma vez teve início a perturbação, subira ao trono Carlos X,
incrivelmente obtuso e reacionário. Queria, a todo custo, dar a entender que se
voltava para trás: restitui os bens confiscados aos nobres, com ressarcimento;
devolve a instrução aos Jesuítas; restabelece o direito de primogenitura e a
pena
de morte para as formas de sacrilégio mais graves! Em pouco tempo revoltaram-se
contra ele não somente a grande burguesia financeira e industrial que perdia o
poder conquistado, mas também um pequeno e aguerrido grupo de republicanos e o
povo parisiense de comerciantes, artesãos e os operários que começavam a ouvir
falar das primeiras idéias comunistas e sociais.
O soberano então nomeou um ministro completamente fanático e, não satisfeito, dissolveu a Câmara dos Deputados, pensando que assim obteria mais votos com novas eleições. Naturalmente o resultado foi o contrário do que ele esperava. Então o rei dissolve a Câmara que nem sequer se tinha reunido, modifica a Lei Eleitoral em detrimento da burguesia, limita a liberdade de imprensa e marca novas eleições.
Era julho de 1830. Se o rei tivesse convocado pessoalmente a revolução não teria conseguido tanto sucesso! Imediatamente o povo confia o cargo provisório de lugar-tenente do reino a Luís Felipe, duque de Orleães, um nobre que durante a grande revolução tinha tomado partido dos liberais. Nos primeiros dias de agosto Felipe se tornava rei dos franceses, tal como Napoleão fora imperador dos franceses, enquanto garantia uma Constituição mais liberal, a bandeira tricolor, um direito de voto ampliado e abolia a hereditariedade das cadeiras na Câmara dos nobres. E, apesar da Santa Aliança, proclamou o princípio da não-intervenção nos negócios internos de cada país. Isto significava, para a França, que cada povo poderia escolher a forma de governo que lhe aprouvesse e a própria França defenderia esse direito.
Imaginem os liberais da Europa! Pensaram logo pegar em armas, esperando que as tropas francesas viessem em seu auxílio! Evidentemente, não se recordavam como os franceses os tinham “ajudado” na revolução anterior, mas, felizmente, não tiveram meio de constatá-lo, visto que os mesmos abstiveram-se de intervir. O fato é que, mesmo assim, as rebeliões explodiram: na Bélgica contra os holandeses; na Polônia contra os russos; inclusive na Suíça contra as classes patrícias dominantes e, depois, nos Estados germânicos...
Na Itália, desta vez, a iniciativa foi tomada no Ducado de Modena, onde o próprio Duque Francisco IV dizia ter intenção de atender as reivindicações dos carbonários. Não que fosse levado por sentimentos nobres de liberdade e de justiça. Simplesmente queria encontrar formas para alargar seu domínio territorial. E tal “entusiasmo” naturalmente pressagiava somente desgraças. Subitamente ele é dominado pelo medo da intervenção dos austríacos, que de fato aconteceu, e da percepção, também correta, de que os franceses ficariam em sua própria casa.
Não obstante isto, Ciro Menotti, um comerciante de Carpi chefe dos liberais, em fevereiro de 1830 decidia pela ação. E inicialmente tudo prosseguia da melhor forma, enquanto o Duque fugia: eram tomadas não somente Modena como também Reggio, Parma e Bolonha. Nesta foi constituído o Governo das Províncias Unidas, governo, por outro lado, sempre pronto a ter choques internos entre moderados e democráticos, visto que estes últimos tinham em mira a conquista de Roma, enquanto no Estado Pontifício várias cidades se declaravam independentes. Assim, com estes pressupostos, foi fácil a Metternich, no comando do exército austríaco, reocupar Modena, Bolonha e, enfim Ancona, na região das Marcas.
Também desta vez a resposta dos monarcas às insurreições não foi brincadeira: Ciro Menotti foi enforcado; detenções, processos e condenações duríssimas. O Papa exagerou a tal ponto que preocupou até as próprias potências reacionárias que, num memorando, o convidavam a preocupar-se mais com a desastrosa administração de seu Estado do que com os revoltosos. Isto para dizer que, mesmo um Papa, quando se trata do poder perde facilmente a cabeça, e como Chefe de Estado não é mais caridoso do que os outros quando se trata do bem estar dos seus “súditos”.
– Não falamos mais de Mazzini que se reunia com os outros carbonários genoveses aqui em Manarola!
A pergunta insistente vinha de Angiolino, que há muito a tinha reprimida.
– Ah! Sim, devemos saber que fim levou. Alguns falavam bem dele, depois. Mas, enquanto eu estava viva, ai de quem falasse nele. Mas ouvi falar que ia à igreja, ou, ao menos era temente a Deus; não como aquele outro de camisa vermelha. Jesus, José e Maria salvem a alma minha! Quantas eu ouvi dele...
– Certamente, não me esqueço de Mazzini: suas idéias chegavam na Toscana, nos Abruzos, na Sicília, mas em particular no Piemonte, uma vez que era sua terra.
– Ele não era de Gênova?
– Óbvio, digo Piemonte para não dizer Estado de Savóia, que hoje tem pouco sentido e é difícil de entender. Dizer Piemonte é dizer também Gênova. Aqui ele recebe o entusiasmo de muitos jovens, sobretudo entre os oficiais inferiores e suboficiais. Exatamente naqueles anos é que acontece a primeira tentativa de insurreição, acabada com a morte de Ruffini, coitado.
Mazzini se atormentava e ficou transtornado, pensando de ter mandado à morte inutilmente tantas pessoas. Para ele, todavia, a libertação da Itália já era uma missão, quase uma questão religiosa. No ano seguinte organizou da Suíça, onde se encontrava, nova revolta. Mas também esta foi mal. O general Ramorino, que devia guiar as colunas armadas provenientes da Suiça, além de haver dilapidado no jogo os recursos da expedição não tinha entusiasmo e foi detido antes mesmo de começar. Em Gênova, o sinal da revolta seria dado por Giuseppe Garibaldi...
– É este aí! É ele mesmo, Garibaldi. Que Deus nos proteja!
– Ah! Basta de interromper! Que depois foi Garibaldi quem fez a unificação da Itália, sei também eu que quase não estudei. Só porque não ia à igreja...
– Não ia à igreja? Era um sem-Deus, isso sim! Quanto se falou dele, quanto se falou...
– Calma. Depois falaremos dele, mas deixem-me ao menos acabar o que tenho a dizer de Mazzini.
O movimento já tinha então falhado e a Garibaldi não restou outra alternativa senão fugir. Embarcou numa nave que fazia rota para a América do Sul e desapareceu de circulação durante algum tempo.
Todavia Mazzini não se dava por vencido. Expulso da Suíça, foi para a França, e, depois, para a Inglaterra, fundando a “Jovem Europa”. Entretanto pensava em voltar de novo à Itália para organizar diretamente as ações. Estava porém mais cuidadoso, a ponto de tentar parar a ação dos irmãos Bandiera.
– E quem são estes, também eles eram genoveses?
Este era Angiolino que esperava mais uma descoberta de notoriedade para Manarola.
– Se eram, o nome eu nunca ouvi. E conheço um bocado de famílias...
– Ah, sim, disso eu não duvido... acrescentava Angiolino.
– O que quer você insinuar com isto?! – A Luigia, apesar da idade, não era estúpida.
– Senhores, por favor. Os irmãos Bandiera, vocês não podem conhecer. Não eram
daqui. Na verdade, eram nada menos que os filhos de um almirante da frota
austríaca. E no entanto, fanáticos por Mazzini, fundam no Reino das Duas
Sicílias, praticamente em Nápoles ou logo abaixo, uma sociedade secreta, a
“Esperia”. Eles mesmos são oficiais da marinha
austríaca, mas são traídos. Então fogem para Corfu. Ali recebem inclusive a
visita da mãe desesperada. Os austríacos a haviam enviado porque queriam evitar
um escândalo, mas não havia mais o que fazer. Decidem desembarcar na Calábria,
embora nem mesmo Mazzini estivesse de acordo.
Em 1821, com seus companheiros, aproam perto de Crotone, iludidos pelas notícias de uma insurreição em andamento. Os camponeses os acolhem com desconfiança, ou até mesmo a forcadas; os soldados bourbônicos os esperam, porque os ingleses, que abriam a correspondência de Mazzini, os tinham avisado. Além disto, foram traídos por um próprio companheiro. Capturados, foram condenados à morte por fuzilamento.
– Começo a pensar que a unidade da Itália, desta maneira, não conseguiremos nunca.
– Mas se temos a unidade é porque conseguiram, não? Cabeçudo. Eu sei também que...
– Você insiste, hein?
– Cada um de vocês dois tem um pouco de razão. A unidade, apesar de tudo, veio; mas de outro modo.
– Está vendo que eu tinha razão? Não me parece que com todas aquelas discussões entre italianos que queriam a libertação e estas tentativas que chegam a dar pena, seja possível fazer muito. E ainda havia os camponeses com os forcados... Não, não podia dar certo mesmo!
Enquanto retornávamos, Angiolino, ao meu lado, ainda sacudia a cabeça. Os primeiros turistas comiam focaccia com café no “Due Fari”. Pessoalmente eu preferia, do “Due Fari", o pão com enchovas e os sorvetes. Ainda hoje Enrica prepara o melhor sorvete de Manarola ou até mesmo de toda Cinque Terre!
tantas cabeças, tantas sentenças
Angiolino certamente tinha razão quando dizia que, com tantas discussões, não se podia pretender muito. Com efeito, em todo este período da unificação italiana, que os literatos chamaram de Ressurgimento, havia muitas idéias contrastantes. Algumas delas tiveram mais sorte, talvez porque levavam em conta a realidade. Por exemplo, se falamos de Mazzini, é preciso dizer o que ele tinha em mente, além de falar de suas falidas tentativas de insurreição. Aliás, se fosse só por isto, hoje não nos lembraríamos dele.
Ele, antes de tudo, afirma que a falência das anteriores tentativas dos carbonários deve-se à falta de uma profunda inspiração religiosa e a uma excessiva confiança nos príncipes e na ilusão de que uma Constituição poderia resolver o problema. Certamente, ele não pensava na religião católica, mas religiosidade, democracia e nação são uma coisa só e é necessário crer em um Deus da verdade e da justiça. Aliás, os próprios italianos têm a missão de difundir a liberdade na Europa, através do exemplo. Eis por que nasce a “Jovem Europa”, na qual todos serão irmãos. Basta, então, de príncipes, faz-se necessária a República dos cidadãos. Mas, sobretudo, é preciso pensar que a Itália deve ser unificada. Somente assim se obterá o sucesso. E então: Itália livre, una e republicana!
Alguém que fale assim da religiosidade dos italianos não poderia senão chocar-se imediatamente com quem pensava ter o monopólio da religião na Itália: os católicos. Que, aliás, se não eram totalmente conservadores, eram quando muito moderados. Os católicos, além disso, há algum tempo olhavam a realidade com grande desconfiança. Primeiramente se viram combatendo o Iluminismo, com sua idéia de que a razão pudesse resolver tudo. Depois, a revolução francesa havia abolido ordens religiosas, igrejas, obras de arte e a hierarquia papal.
E no entanto havia quem, mesmo sendo católico, sem contestar as instituições hierárquicas, era contra a invasão da religião na política. Alessandro Manzoni, sim, exatamente o mesmo de “Promessi Sposi”, por exemplo, denunciava abertamente o comprometimento entre a Igreja e o poder político. Para dizer a verdade, era até um pouco jansenista demais, mas este é outro assunto e muito complexo.
No entanto, havia intelectuais com as suas próprias idéias também entre os católicos. Sobretudo Vincenzo Gioberti, noutro tempo capelão da corte de Carlos Alberto – o “rei-indeciso” – , depois acusado de cumplicidade num motim mazziniano e mandado ao exílio em Paris e Bruxelas. Ele tentava conciliar o cristianismo com as teorias filosóficas modernas, sem conseguir absolutamente nada. Mas, como político, tinha suas idéias: correspondia a Mazzini que só o catolicismo poderia fornecer a força moral aos italianos para um renascimento. A Igreja, afinal de contas, tinha tido um papel fundamental como elemento de civilização e havia ainda a possibilidade de que esta retomasse a função de gerar um progresso moderado. Em suma, este era o raciocínio, mesmo sendo um pouco tedioso. Na prática, sugeria uma Confederação de Estados em torno de Roma, sob a condução do Papa. Quanto ao que pudesse acontecer à Lombardia e ao Vêneto, sob o domínio da Áustria, omitia habilmente. Não havia necessidade de revoluções. Bastava um reformismo como no século XVII, para alegria dos conservadores: respeito aos príncipes, acordo com o Papado e blá, blá, blá... “Neoguelfismo” – este o nome dado a esta teoria. Repensando nisso agora parece uma piada, mas naquele tempo teve grande êxito.
Por outro lado, Cesare Balbo afirmava que o líder da renovação deveria ser Carlos Alberto, o qual, no comando de uma liga armada, mas somente na base da ameaça, deveria também induzir a Áustria a deixar o Lombardo-Vêneto. Outra tese, como se vê, altamente digna de crédito!
Como sempre, para encontrar alguém com os pés no chão era preciso ir a Milão, e lá encontrar Carlo Cattaneo. Seu grupo era o dos liberais radicais e laicos; censuravam Mazzini por andar um pouco demais nas nuvens com seu misticismo profético. A unidade de toda a Itália era um sonho grande demais. Portanto, propunham começar pelo federalismo dos Estados no sentido reformador e democrático.
Bem! É difícil acreditar, mas foi de uma mistura de todas essas opiniões que nasceu a Itália de hoje. E, se ainda existem muitos defeitos, talvez a origem esteja nessas premissas um pouco estranhas que circulavam na metade dos anos quarenta. 1840, bem entendido!
que 1848!
As observações acima eu as repeti sobretudo para mim mesmo. De fato, observando a profundidade do mar sob a água cristalina, de uma clareza maravilhosa e convidativa, havíamos discutido de modo muito mais simples, com Luigia e Angiolino, retornando freqüentemente aos conceitos mais difíceis e às palavras mais estranhas, porque não era fácil entenderem de imediato se não se relatava fatos. Aliás, a vida é constituída de fatos, isto havíamos decidido em conjunto e, desta vez, plenamente de acordo todos os três. O resto se perde no indefinido das palavras, que depois cada um interpreta a seu modo, tomando às vezes rumos até mesmo opostos. A demonstração prática é que, usando as mesmas palavras, cada um as interpreta de modo diferente. Por isto é que se discute às vezes. Outras vezes, é para entender e se fazer entender melhor.
– Tudo o que se pensava, portanto, deveria adequar-se aos fatos e, rapidamente, em nossa história, deveriam aparecer muitos fatos. Fatos interessantes.
No ano de 1846 morreu, finalmente, o Papa Gregório XVI. Os liberais esperavam ansiosos este momento e quase que festejaram o fato. E, além disso, é eleito o Papa Pio IX.
O que ele tinha de especial? Acima de tudo, ele havia estado algum tempo no exterior e isto ensina muitas coisas. Pelo menos mostra que não existe um único modo de ver a realidade. Bispo de Espoleto e Ímola, havia lido a obra de Gioberti, o “Primado Civil e Moral dos Italianos”. E já este simples fato acendia a fantasia de quem o via como um “Papa Liberal”.
Suas primeiras intervenções foram cercadas da atenção e entusiasmo de todos os liberais moderados. Concedeu anistia política um pouco mais ampla da que normalmente se concedia por ocasião da eleição de um Papa; nomeou um Secretário conhecido pelas próprias idéias liberais; deu vida ao Conselho de Estado para melhorar a burocracia e a administração; consentiu na formação de uma guarda civil e concedeu uma certa liberdade de imprensa.
O entusiasmo surpreendeu os mais céticos, e o próprio Mazzini elogiou o Pontífice...
Naturalmente, havia quem visse com certa suspeita tudo isto: os outros príncipes
italianos! Com efeito, o que acontecia no Estado Pontifício não podia ser
considerado letra morta onde esses príncipes reinavam. No início de 1847, a
Toscana estava em ebulição; os
burgueses faziam pressão sobre o grão-duque Leopoldo II, que, apavorado,
concedeu liberdade de imprensa e constituiu um Conselho de Estado e uma guarda
civil.
A própria Áustria não estava parada, à espera dos acontecimentos. Preocupada, tendo a França já diplomaticamente comprometida, preparava uma intervenção armada, e para começar manda ocupar a cidade pontifícia de Ferrara.
Neste ponto Carlos Alberto, que por razões de dinastia tornara-se anti-austríaco, pôs à disposição do Pontífice o seu exército, enquanto a Inglaterra protestava energicamente em apoio à política do Papa. Na confusão, os outros príncipes concediam pequenas reformas, enquanto Carlos Alberto ficava na sua, mostrando claramente que a sua intenção era tão somente ocupar a Lombardia.
Carlos Alberto não cedia em nada, por medo de perder o poder absoluto. Foram somente as manifestações que o fizeram temer o pior e conceder tímidas reformas. Entre essas, permitiu uma certa liberdade de imprensa, consentindo na publicação do “Il Risorgimento”, um jornal no qual começou a escrever o então desconhecido Cavour. Entretanto a Toscana e o Estado Pontifício insistiam numa Liga Alfandegária, enquanto o Piemonte queria uma Liga Militar anti-austríaca, mas nada se fez porque os fatos precederam a ação dos monarcas, envolvendo-os.
Em janeiro de 1848 estouraram, de fato, os primeiros movimentos de revolta em Reggio Calabria e Messina, movimentos reprimidos imediatamente pelo exército do rei bourbônico, que se mostrava o mais duro e conservador. Mas a revolta não pôde ser detida: na Sicília os rebeldes formavam no início de fevereiro um governo provisório, e o rei, assustado, não podendo receber a ajuda austríaca por oposição do Papa quanto à passagem destes pelo seu território, concedeu a Constituição.
Rapidamente, para não deixar se superar pelos fatos, foram concedidos na Toscana, no Piemonte e no Estado Pontifício os Estatutos – uma forma de Constituição na qual o soberano reconhece direitos aos cidadãos e representação parlamentar. Era só o início de uma grande mudança.
– Mas, e Garibaldi, quando ele entra nesta história? Na escola diziam-me que foi ele que conquistou a Itália, e no entanto ele quase não aparece.
Angiolino estava impaciente para fazer entrar em cena um dos personagens que certamente o haviam fascinado. Como, de resto, fascinou a muitos.
– E quem pretende que ele entre! Oxalá não tivesse jamais entrado! Um tipo assim, não traz certamente nada de bom.
A opinião de Luigia era diametralmente oposta. Para ela, Garibaldi, se não tinha sido uma espécie de demônio, pouco faltava para isto. Não havia nela nada da hodierna forma de racismo ou idéias de separatismo; ela simplesmente não conseguia aceitar que um anti-clerical ferrenho como ele tivesse tido uma participação tão grande na empreitada. Ainda mais que havia outros que, na sua opinião, foram pessoas dignas como Gioberti, dizia acalorada, ou Mazzini, que, tudo bem, não deixava muito claro o que queria dizer com sua religião, mas religioso era com certeza. E, imaginem, tinha até aplaudido Pio IX.
– Agora chega a vez também de Garibaldi. Um pouco de paciência. Os movimentos de 1848, de resto, não puseram somente em alvoroço a Itália, mas tantos outros Estados europeus. A começar pela França, por exemplo. Ali, o rei, que a cada dia ficava mais moderado, exaspera o povo, isto é, os proletários e os pequenos e médios burgueses, que querem a ampliação do direito de voto e uma ajuda para os mais pobres. Em Paris o povo se subleva, põe o rei em fuga, e forma um Governo Republicano provisório. No mês seguinte, em março, há insurreição na Alemanha, no Império dos Absburgos e na Itália. Nesses países onde dominam reis absolutistas, são reivindicadas sobretudo uma Constituição, a independência e a unidade nacional – uma idéia que se torna cada dia mais forte.
E no início, como sempre, as revoluções obtêm grande sucesso. Na Alemanha os príncipes são obrigados a conceder a Constituição e a garantir o voto a todos os homens. Sim!, porque para as mulheres obterem o direito de voto será uma batalha ainda mais longa e difícil.
– Por mim, creio que não tenham feito lá muito bem. Era Luigia. As mulheres deveriam... deveriam...; em suma, não é assim que se resolve os problemas das mulheres.
Angiolino e eu, naquele ponto, evitávamos entrar em uma discussão espinhosa que nos teria levado longe, e Angiolino somente sorria diante das confusas contradições daquela mulher fora de época, mas não ia além disto. Por enquanto. Era a ocasião então, para mim, de continuar.
– Foi constituída também uma Assembléia Constituinte. Em Viena os estudantes
protestam e os burgueses conseguem uma Constituição, e os povos subordinados ao
Império dos
Absburgos, como os húngaros, os boêmios, os croatas e os italianos do Reino
Lombardo-Vêneto lutam pela independência.
Porém, ainda é um fogo de palha. Em poucos meses Praga é bombardeada, se desfaz a Assembléia na Alemanha e os húngaros têm um triste fim.
Mas, na Itália todos aproveitam a ocasião para lutar. Começando pelos milaneses...
Milão
– Na Itália, o verdadeiro ano de 1848 começa em Milão. Já em janeiro, exatamente nos primeiros dias do ano, os milaneses decidem fazer a greve do fumo para prejudicar as finanças dos austríacos que tinham o monopólio do tabaco. Imaginem quando os soldados e a polícia austríaca, vestida à paisano, começaram a circular fumando ostensivamente, jogando literalmente a fumaça no rosto dos milaneses. Houve pancadarias e combates, com alguns mortos e diversos feridos. E rapidamente a coisa se repete em Pavia. A notícia circula. Lá onde há mais liberdade de imprensa, isto é, no Piemonte, fala-se e escreve-se a respeito enfurecendo os austríacos. Em março, sob a condução de Carlo Cattaneo, o povo empunha velhos fuzis dos jacobinos e constrói barricadas contra os soldados do General Radetzky, que, depois de cinco dias de disparos e escaramuças[9], com medo de ficar bloqueado em Milão por uma sublevação de toda a região, decide retirar-se para o quadrilátero – um território entre as cidades de Mantova, Peschiera, Verona e Legnago.
Os venezianos, ao saberem da insurreição que estourara em Milão no dia 18, não quiseram deixar por menos. Sob a liderança de Daniele Manin expulsam a guarnição militar austríaca e renovam a República de São Marcos.
Neste ponto, são os próprios nobres e moderados milaneses que, vendo os democratas tomar o poder e ouvindo falar de República, quase suplicam para que Carlos Alberto intervenha. E, assim, quando os milaneses já tinham quase expulsado os austríacos, ele tranqüilamente se dirige sobre Milão no comando de suas tropas, com grande raiva de Cattaneo e dos democratas. Estes se mostraram bastante inteligentes para não atirar contra os piemonteses, aceitando a situação, mesmo sem ter a mínima confiança no “rei-indeciso”. E tinham toda a razão. E teriam ainda mais, depois.
De qualquer modo, os primeiros piemonteses chegam em Milão no dia 26 de março,
recebidos com maus olhos pelos milaneses. Carlos Alberto os julgou ingratos.
Assim começa a campanha contra os austríacos, enquanto, do resto da Itália,
chegam os primeiros voluntários: soldados, mas principalmente, estudantes. A
opinião pública queria que os soberanos se pusessem no comando dos respectivos
exércitos. Também Mazzini se apressa a ir a Milão e, não obstante sua antipatia
por Carlos Alberto, exorta os italianos, todos os italianos a dar-lhe uma mão.
Quase que se consegue fazer uma aliança entre os Estados, mesmo com a inveja e
as
desconfianças que havia em relação ao rei do Piemonte, que protelava demais as
coisas, indeciso, como sempre.
Em fins de abril os piemonteses vencem em Pastrengo. Mas Radetsky, aproveitando a indecisão de Carlos Alberto, tinha feito vir mais reforços de Viena, e vencem em Santa Lucia e Cornuda. Entretanto os oficiais do exército dos Savóia não quiseram saber dos voluntários de Garibaldi, que havia retornado da América do Sul, e lhe confiaram um front secundário perto do lago de Garda.
Os austríacos, porém, trabalhavam também para dividir as forças em campo. A começar com as ameaças de cisma religioso em relação ao Papa, que, rápido, dá marcha à ré e ordena que sua tropas retornem. A Toscana e o Reino das Duas Sicílias fazem o mesmo, ainda que a maior parte das tropas se recuse a acatar as ordens. Restavam, portanto, só os piemonteses com os voluntários. Carlos Alberto se aproveita da ocasião para defender os seus interesses e anexar a Lombardia. Vencia depois em Goito, graças à heróica resistência, até o aniquilamento, dos estudantes voluntários toscanos em Curtatone e Montanara; mas não soube decidir-se a ir além disso.
Desta vez, Radetzky não perde a ocasião e em pouco tempo recupera as cidades vênetas, com exceção de Veneza. Mas o rei de Savóia não se decide nem agora a reagir, pois deseja negociar com Viena. O General austríaco ataca em Custoza e põe os italianos em fuga. Em Milão, os democratas com Cattaneo querem opor resistência, mas Carlos Alberto, temendo uma vitória dos democratas republicanos, finge uma defesa, no entanto, conclui um acordo com Radetzky pela saída dos piemonteses da cidade. Consegue a custo salvar a pele da ira dos milaneses por confiar o armistício a um seu general, Salasco, com o encargo de assinar pela volta aos antigos limites.
Teve, na ocasião, também a coragem de proclamar que "a causa da independência italiana não estava perdida".
Não sei se Luigia estava chorando no final da narração. De qualquer forma, não
dizia uma palavra. Para ela deveria ser um duro golpe ouvir falar assim de um
rei, que tinha sido o seu rei, não obstante tudo. Descobrir verdadeiramente seu
caráter e suas responsabilidades a deixava em dúvida e consternação. Todavia,
ela não tinha argumentos para rebater, eu o sabia e
exatamente por isto sentia-me um pouco culpado, involuntariamente. É sempre
difícil destruir parte daquilo em que alguém crê, e naquele dia eu tinha feito
isto. Eu tinha destruído recordações e certezas e não me sentia orgulhoso por
ter feito isto.
Garibaldi
– Caça-padres, sem-Deus, blasfemador! Foi isto o que ouvi falar dele, por todos. E sem falar no que fez na América do Sul e como tratou sua mulher, pobrezinha. E ela até morreu por um sujeito assim. E tratava a todos com arrogância.
Luigia, no dia seguinte, apresentou-se, por assim dizer, ao encontro, de forma agressiva. E momento sim, momento não, a todo custo, precisava falar mal de Garibaldi, talvez para desforrar-se. Se um rei lhe tinha sido "roubado", aquele ateu também deveria receber sua parte.
– Devo reconhecer que Garibaldi não tinha um caráter fácil. Ou melhor, digamos claramente que tinha um caráter terrível. Idéias políticas à parte, era um homem ao qual agradavam as armas; e não as de coleção. Queria usá-las, tinha necessidade delas e as usou. Impetuoso e intransigente, conta-se que não lhe bastava ser maçom, como, aliás, muitos de seu tempo, inclusive Cavour. Sua aversão pela Igreja e pelos padres era lendária. Parecia prerrogativa sua transformar as igrejas em casernas, entrando nelas pela manhã, para acordar seus rapazes, urrando e blasfemando como um danado. E ensinando "bom comportamento" até aos seus oficiais, como Bixio. Os padres, não os podia ver, e o Papa, principalmente depois daquela "brincadeira" de 1848, era "aquele metro cúbico de estrume que está em Roma".
– Eis que – insistia Luigia –, quando estava no Peru era negreiro e levava os chineses para fazê-los trabalhar como escravos no serviço de retirar com picaretas o guano dos penhascos para carregar os navios com o adubo...
– É verdade, talvez, mas devemos ter em conta que muitas destas histórias foram contadas em ambientes clericais para desacreditar sua imagem, e ele também teve seus méritos. Além de combater pela Itália, combateu também pela liberdade do Rio Grande e do Uruguai... com os camisas vermelhas.
– Grande coisa, atirar, atirar e matar... que grande coisa!
Luigia é realmente difícil de conter quando inicia suas acusações violentas. É preciso até mesmo fingir que se está de acordo com ela para torná-la mais dócil.
– Terminara no pior dos modos a guerra de 1848, mas nem tudo estava concluído.
Leopoldo II, na Toscana, depois de uma rápida colaboração com os democratas,
fugia para Gaeta, hóspede de Fernando II, enquanto um triunvirato, isto é, um
governo formado por três
democratas, assumia o poder até que, em maio de 1849, os austríacos intervinham
com as armas. Em Roma se formava um governo provisório do qual fazia parte o
próprio Mazzini.
No Piemonte, Carlos Alberto não vê outra saída para o embrulho em que se metera, senão pegar em armas contra os austríacos. No entanto, confiou o exército a um oficial polonês que nem sequer conhecia nossa língua e, três dias depois, os piemonteses eram derrotados em Novara. Parece, porém, que a culpa não era toda do polonês. De fato, enquanto ele entrava em território lombardo para encontrar o inimigo, punha na guarda da ponte de Buffarola o general Ramorino, aquele que gostava de jogo de azar. Com o dinheiro dos outros!
Este, persuadido da impropriedade de sua missão e em busca de glória, abandonou o controle da ponte e se dirigiu contra o inimigo. Inimigo que, naturalmente, não encontrou. De fato, os austríacos nesse meio tempo tinham entrado no Piemonte exatamente pela Buffarola, e os piemonteses de fato os alcançaram, mas para serem estrondosamente derrotados em seu próprio território, em Novara.
A Carlos Alberto, para abrandar as condições da paz, restou o caminho da abdicação em favor do filho, Vittorio Emanuele II. E Carlos Alberto não deixou saudades!
Depois de dez dias de heróica resistência, também Brescia era derrotada pelas tropas austríacas. Roma era até mesmo atacada diretamente pelas tropas francesas – aquelas que deveriam salvar a autodeterminação. Responderam ao apelo que o Papa, aflito, dirigia de Gaeta ao mundo católico contra os agressores. Eis então que acorreu Garibaldi para defender a recém-nascida República Romana. Depois de uma primeira vitória dos republicanos em Velletri e da encenação de um acordo da parte de Luís Napoleão Bonaparte com Mazzini, por motivos eleitorais, em fins de junho os garibaldinos devem retirar-se, um dia após a Assembléia Constituinte ter aprovado a Constituição da República. Tendo tentado inutilmente ressuscitar a República na Toscana, Garibaldi dissolveu o exército em San Marino e se dirigiu, através do Apenino, para Veneza. Perseguido pelos austríacos nos vales de Comacchio, perdeu a mulher extenuada pelo cansaço, antes de conseguir embarcar mais uma vez para a América.
Somente Veneza resistia com obstinação. No entanto, em 29 de agosto, devia ceder pela fome, mas com orgulho. Era a última centelha da revolução de 1848 na Itália.
Cavour
– Esta Itália até parece que não se consegue fazer mesmo! Tanto barulho e agitação para não chegar a lugar algum. Mas será que valia a pena?
– Parece que sim, visto que, não obstante os contínuos insucessos, havia sempre alguém que tentava de novo, talvez até perdendo a própria vida. No Reino Lombardo-Vêneto, sob Radetzky, aumentou a tal ponto a repressão policial que em 1851 foi fuzilado um milanês, Amatore Sciesa, homem simples do povo. Tinham-no encontrado com volantes de propaganda mazziniana. Enquanto o levavam ao fuzilamento tentaram fazê-lo falar pela última vez, depois de tê-lo inutilmente enchido de pancadas, passando diante de sua casa em sinal de ameaça também contra sua família. Ele se limitou a dizer: “Iremos adiante”...
Foi fuzilado também o Padre Giovanni Grioli, que tinha ajudado soldados boêmios a desertar do exército austríaco. Em Veneza foi enforcado um tipógrafo nativo de Como, Luigi Dottesio, que de Capodilago, na Suíça, onde tinha uma tipografia, havia introduzido na Lombardia opúsculos e volantes revolucionários. Naqueles anos também o Lago Maggiore e o de Lugano eram o caminho mais seguro para a passagem de pessoas e coisas suspeitas.
Em Mantova, no ano de 1852, a polícia descobriu que se fazia uma coleta de fundos organizada por Mazzini em favor da causa italiana; enforcaram cinco pessoas, entre as quais o sacerdote Enrico Tazzoli, nos redutos da fortaleza de Belfiore. Sempre em Belfiore foram justiçados também Tito Speri, combatente das dez dias de Brescia, e Pier Fortunato Calvi. Brescia, por sua resistência, já era chamada “Leoa da Itália”.
– A mim parecem todos um pouco loucos. Que diferença podia fazer estar sob a Áustria ou sob qualquer outro? Até o ponto de arriscar e perder a própria vida!...
Era Luigia, que comentava consigo mesma. Ela, que tinha vivido aqueles momentos, embora de longe, expressava ainda a perplexidade de sua classe, da gente que via de longe a luta pelo ressurgimento como questão que pouco ou nada lhe dizia respeito.
– Valia a pena, sim, valia a pena! Isto, porém, o entendiam somente os burgueses, os oficiais e os estudantes: uma Itália livre teria significado um desenvolvimento completamente diferente, autônomo e com vantagem para todos, mas sobretudo para eles. Decisões nas leis, nas instituições, nas relações com os outros Estados. Pensem no desenvolvimento do comércio e, além disso, ter um exército próprio, que pudesse olhar para além dos limites do Mediterrâneo. Os outros Estados da Europa já olhavam para as colônias além do mar e dos oceanos, e a Itália arriscava-se a ficar fora do contexto internacional e dos negócios mundiais. Por outro lado, havia quem sentisse verdadeiramente a unificação da Itália como uma missão irrenunciável, uma idéia a ser realizada a qualquer preço e na qual se acreditava acima de qualquer outra coisa, como Mazzini, Garibaldi e outros...
Também por este motivo não é de se admirar que a Itália, no fim das contas, foi construída sobretudo por um economista como Cavour e por aventureiros idealistas como Garibaldi.
– Se não fosse Garibaldi, ninguém teria feito a Itália!
Assim rebatia Angiolino, convicto. E remexia nas mãos uma grossa cortiça pintada de vermelho, que provavelmente usava como bóia para suas redes. Preocupava-se porque o peixe escasseava cada vez mais devido à poluição do mar, e sempre havia alguma norma a mais a cumprir e, sobretudo, inúmeras taxas a pagar mesmo no seu modesto trabalho. Ele envelhecia e, às vezes, sentia-se cansado. Por isto Luigia nem abria a boca para retrucá-lo. Ela queria bem aquele homem de cabelos cada dia mais grisalhos, que lhe tinha feito companhia por tantos anos e que se preparava para ir-se embora, como ela já havia visto tantos outros. Mas ela jamais lhe diria isto!
– Nos Estados italianos as coisas não andavam melhor naqueles anos do que se viu no Reino Lombardo-Vêneto: o Grão-ducado da Toscana, o Estado Pontifício, o Reino das Duas Sicílias, todos pareciam fazer disputa em negar quanto haviam concedido na onda de entusiasmo e inveja no ano de 1847, ou até pioravam a situação, com leis mais restritivas, processos e penas de morte.
Somente o Piemonte se salvava, não obstante tudo. Ou melhor, não obstante os
seus reis. É, sim, porque a Carlos Alberto tinha sucedido Vittorio Emanuele II.
Ele é lembrado como o "rei sargento": caserna, caça, mulheres... Em suma,
ocupações desse tipo, nada mais! Ainda bem que por trás dele havia alguém que
sabia exercer em seu lugar as tarefas que lhe competiam. Acima de tudo, um tipo
como Massimo D’Azeglio, que, apesar de suas idéias um pouco conservadoras,
jamais tinha calado sua antipatia pelas indecisões de Carlos Alberto. Ele
negociou com a Áustria a paz de Milão e, frente à falta de vontade do Parlamento
em ratificá-la, induziu o rei à "proclamação de Moncaglieri", fazendo com que
todos encarassem a realidade de uma guerra perdida e passando à eleição de uma
nova Câmara que a aprovasse. Depois apoiou uma lei que eliminava os tribunais
eclesiásticos, a mão-morta, o direito de asilo...
– E o que quer dizer isto? Não se entende nada – protestavam em uníssono Luigia e Angiolino.
– Pois bem: tribunal eclesiástico. Desde Constantino e Justiciano, imperadores romanos que concederam poder aos bispos, a Igreja se reservava o direito de julgar certos crimes contra ela e no seu interior, cometidos por clérigos ou por leigos contra a fé, a doutrina e o culto. Hoje resta a Rota, aquela que concede os divórcios, mas, por favor, não me interrompam com este assunto, porque já sei o que vocês querem me dizer e seria necessário um dia inteiro para discutir sobre isto...
O direito de asilo é simples de explicar. Era a imunidade concedida a qualquer um que se refugiasse num lugar sacro, como uma igreja, um convento... Nem sequer a polícia podia exigir que lhe fosse entregue. Enquanto a mão-morta era o direito de propriedade sobre bens que pertenciam, em caráter perpétuo, a entes eclesiásticos e que eram considerados como se estivessem praticamente seguros pela mão de um morto, sem possibilidades de dela serem retirados, pois não podiam ser vendidos e eram isentos das taxas de sucessão. Com estes, a Igreja, através dos séculos, tinha constituído enormes patrimônios imobiliários, de casas e de terrenos.
D’Azeglio procura fazer tudo com transparência, sem levar em conta os interesses de ninguém, e ao seu lado se põe um jovem deputado, Camillo Benso, Conde de Cavour, que rapidamente se transforma em Ministro da Agricultura, depois de ter estado durante anos no exterior estudando de perto sobretudo a organização econômica moderna dos Estados mais avançados. Os dois, porém, não estavam de acordo a respeito do Estatuto Albertino, que D’Azeglio tentava limitar em sua eficácia. Cavour, então, embora de direita, mesmo se naquela época a direita e a esquerda fossem completamente diferentes das de hoje porque suas idéias afinal não eram muito divergentes, visto que os deputados pertenciam todos às classes mais elevadas, faz um acordo com a oposição para formar um governo que realizasse grandes reformas.
– Mesmo naquela época queriam fazer grandes reformas! Quantas vezes ouvi isto em minha vida!
Era Angiolino que não conseguia evitar o comentário irônico pensando em quanto falatório fazem ainda hoje os políticos.
– Não é dito que todos os que fazem política sejam iguais. Cavour era realmente competente, pelo menos daquele ponto de vista. E tal se vê quando explode a guerra da Criméia.
– Mas o que tem a ver a Criméia agora! Nunca ouvi falar dela.
– Cale-se. Você não sabe nada sobre isso. Eu me recordo de alguém que tinha ido na guerra da Criméia. Disparavam com os canhões em... Sebastopol. Um "bersagliere"![10] Uma bela memória a de Luigia. É preciso reconhecer... com a sua idade!
– Exatamente, exatamente. Mas também Angiolino tem o direito de entender. Em poucas palavras: o Czar da Rússia, que via vacilar a ocupação dos turcos na península Balcânica, onde hoje é a Iugoslávia (isto é, naquele tempo, quando nós três discutíamos sobre o assunto e ainda não tinha acontecido o grande massacre de nossos dias entre sérvios, croatas e bósnios e a Iugoslávia ainda existia!), pensava em conseguir uma saída para o Mar Negro. Uma vez ali, as suas naves poderiam depois passar através do Bósforo e dos Dardanelos para chegar ao Mediterrâneo. Porque um Estado tão grande não podia competir no comércio com as outras potências européias, pois o mar Báltico fica gelado durante quase seis meses ao ano e as naves não podem mover-se. Naquele tempo as ferrovias ainda eram uma raridade, automóveis nem se fala ainda por muito tempo, e as mercadorias viajavam pela via mais veloz e econômica há milênios: a água.
Portanto, a Rússia põe-se em campo para tomar a península da Criméia, que está exatamente sobre o mar Negro. A Inglaterra e a França nem querem saber, porque vêem ameaçados seus interesses. A Áustria, por sua vez, não se move porque tinha recebido ajuda do Czar para reprimir a revolta da Hungria. Apresenta, como desculpa, que não pode fazer nada porque está preocupada com a atitude agressiva do Piemonte. Então Cavour, bom e inocente como um cordeirinho, banca o grande e manda quinze mil "bersaglieri" ao cerco de Sebastopol. Entre outras coisas, se fazem notar na batalha sobre o rio Cernaia. E mesmo se os soldados fossem poucos, fizeram-se ver e ouvir, suscitando a simpatia dos ingleses e franceses.
No sucessivo Congresso de Paris, Cavour pôde portanto sentar-se ao lado dos representantes das grandes potências e falar livremente dos problemas da Itália, com grande ira da Áustria. Os discursos deram também seus frutos, porque em 1858, em Plombiéres, uma localidade na qual o rei da França ia aos banhos termais, encontrou-se secretamente com Napoleão III e o convenceu de assinar um tratado secreto.
Em troca da cessão de Nice e da Savóia, os franceses ajudariam o Piemonte contra a Áustria com cem mil homens. Naturalmente, se o Piemonte fosse atacado por essa última. Com efeito, parecia uma eventualidade muito improvável que um Império tão grande se pusesse a lutar com um Estado tão pequeno. Todavia, Cavour não era certamente um tolo, e tinha um plano.
– Certamente que este Cavour fica até simpático, às vezes; mesmo sendo um político e deles é melhor nunca se fiar!
Raramente Luigia se permitiria um comentário quase entusiástico em relação a um homem assim. Também Angiolino estava bastante satisfeito. Não havia ainda acontecido nada, mas entendia-se que esse Cavour poderia conseguir alguma coisa de bom. E não lhe importava nada se começava a chuviscar de modo insistente. Ficaria para ouvir a continuação.
as reformas e a segunda guerra
– Cavour não se limitava a pensar na guerra. Pelo contrário, estava convencido de que se deveria começar por um Estado bem organizado nas instituições e na economia para poder pensar em se fazer alguma coisa. Mesmo se também ele, na verdade, nem sequer sonhasse de pôr-se a unificar toda a Itália. Parecia uma empresa além de qualquer possibilidade para o Piemonte!
Quanto às reformas, esforçou-se por melhorar a economia: estímulos às atividades agrícolas, com a escavação de canais na região de Vercelli; tratados comerciais com a França, Bélgica e Inglaterra para aumentar as atividades manufatureiras; construção de uma nova ferrovia entre Turim e Gênova, onde o porto trabalhava a todo vapor com navios que iam para além do oceano; melhoramento do sistema fiscal, com taxas maiores para as classes mais ricas...
– Está aí alguém que me agrada. Se conseguiu fazer com que os ricos pagassem mais impostos, devia ser um fenômeno. Se alguém conseguisse fazer isto também agora...
– Por favor, deixe-o continuar!
– Ninguém escapou. Particularmente a Igreja...
– Eis por que este senhor aqui se inflamava tanto! Posso imaginar...
– Agora é você que interrompe...
– Por favor. Estou narrando fatos...
– Do seu jeito, méés-tre!
– Certo, do meu jeito, mas sempre fatos. E, aliás, cada um pode pensar do jeito que quer, não? – Agora entendo que não era o caso de ficar ressentido por tão pouco. – De qualquer forma, ele agia particularmente contra a Igreja. Maçom como Garibaldi, tinha, porém, um certo estilo, e se por ela tinha aversão, esta era disfarçada por formas jurídicas, elegância e praticidade. Por exemplo, já dissemos que foi ele um dos primeiros defensores das leis “Siccardi”, aquelas que tratavam da "mão-morta", etc... Bem, nesse meio tempo ele pregava sua doutrina da "Igreja livre dentro de um Estado livre", isto é, a independência recíproca das duas instituições. E, de fato, desde aquele tempo, somente em 1929, com Mussolini e o Pacto de Latrão, se reabrirá um diálogo entre a Igreja e o Estado.
– Com os fascistas! – exclamava Angiolino.
–Certo, até os fascistas com todos os defeitos compreendiam que com a Igreja era preciso conviver em harmonia e ter-lhe respeito... – argumentava Luigia.
– Para repartir o bolo! E vimos aonde chegamos... aos campos de concentração...
– Senhores, por favor, não antecipemos os tempos. A idéia de Cavour para aquele tempo era moderníssima, embora provocasse uma reação violentíssima por parte da direita clerical, e o rei tentasse desfazer-se do ministro, aproveitando a ocasião. Mas a crise durou só alguns dias e Cavour retomou o seu lugar. De resto, a sua idéia de liberalismo induzia-o a ser anti-socialista e a opor-se a Garibaldi, por exemplo.
– Ah! Ah! Ah! – A Luigia não ia certamente perder a oportunidade.
– A idéia genial era, sobretudo, a de inserir o problema do ressurgimento italiano dentro de um contexto internacional, tornando-a eficaz por todos os meios: diplomacia, exército, finanças... Entretanto Mazzini, após as decepções de 1848-1849, tentava ainda o caminho da insurreição, com o episódio conclusivo e, talvez o mais trágico de Sapri. Ali, desembarcou em 1857 um grupo de trezentos patriotas capitaneados por Carlos Pisacane, os quais, perseguidos pelos Bourbons e pelos camponeses enfurecidos, tiveram um fim trágico.
– Pobres rapazes, tiveram mesmo um fim cruel!
– Não restava, então, a Cavour senão impelir a Áustria para uma agressão contra o Piemonte. Ele convenceu Vittorio Emanuele II a fazer declarações belicosas: “...não estamos insensíveis ao grito de dor que de tantas partes da Itália se eleva até nós...”, acolhe formações de voluntários e favorece a constituição do corpo dos "Cacciatori delle Alpi" sob o comando de Garibaldi, o qual a Áustria quer ver pelas costas, e consegue até evitar a conferência internacional que a Inglaterra queria organizar sobre o problema italiano. Desta forma, o jovem e irrequieto imperador austríaco deixa-se pegar na rede e, em 23 de abril de 1859, envia um duro ultimato ao Piemonte, que Cavour naturalmente, fingindo indignação, recusa. É a guerra!
Os austríacos, guiados pelo General Gyulai, entram nos campos piemonteses, quase
todos arrozais alagados na ocasião, atolando-se com os canhões. Cavour pede
socorro à França, lembrando os acordos secretos, fingindo desespero diante do...
vil agressor! Garibaldi desdenha os austríacos e depois os vence em Varese e San
Fermo, perto de Como. Enquanto
isso chegam os franceses e Gyulai recua para o nordeste e é derrotado por estes
em Magenta, nos arredores de Milão, depois em Solferino e San Martino. Parece um
triunfo fácil, mas os mortos se contam aos montes e a imprensa francesa ataca
com violência "o sacrifício de tantos soldados em terra estrangeira". E as
operações estagnam.
Enquanto na Toscana e na Emília as populações se sublevam espontaneamente, a França assina então o armistício de Villafranca: de modo ofensivo a Lombardia é cedida a Napoleão, e por este ao Piemonte; Mantova e Peschiera ficam com a Áustria; Vittorio Emanuele II deve retirar seus comissários da Toscana e da Emília e o francês renunciaria a Nice e à Savóia. O rei está de acordo, mas Cavour esbraveja, inclusive chutando as cadeiras do escritório real. Não quer absolutamente ceder. Demite-se. Na Toscana e na Emília as populações opõem-se ao retorno dos respectivos governantes e armam exércitos com Garibaldi e o general Fanti.
Na paz de Zurique tudo isso deve ser levado em consideração, mesmo porque a Inglaterra não quer outra intervenção armada. Em janeiro de 1860 Cavour volta então ao governo e faz com que Napoleão reconheça a anexação da Toscana e da Emília através de um plebiscito. O rei francês leva para casa de brinde Nice e a Savóia. Desta vez é Garibaldi que blasfema enfurecido: em Nice ele havia nascido... Infelizmente ele não é um governante e deve engolir o sapo... e não será o único.
O vexame do rei e a cessão dos territórios à França remexia nas feridas abertas dos mais agitados, reunidos em torno do Partido de Ação: um partido revolucionário que queria agir sem nenhum freio.
Em abril, uma revolta estoura em Palermo, em maio, Garibaldi parte de Gênova com dois barcos, o “Piemonte” e o “Lombardo”, com mil voluntários. São jovens, sobretudo dos vales da região de Bérgamo, estudantes e camponeses geralmente famintos e prontos para o que der e vier. Param no forte de Talamone, onde fingem um assalto para conseguir armas. Um exército de mil rapazolas para conquistar a Itália![11]
E no entanto desta vez não há problemas. A fama de Garibaldi já havia se espalhado pela ilha quando desembarcaram em Marsala. Aqui, outros "picciotti"[12] sicilianos dão uma mão. E lá vêm vitórias em Calatafimi, em Palermo, em Milazzo. No dia 7 de setembro Garibaldi já está em Nápoles, de onde o rei Bourbon fugiu para se refugiar na fortaleza de Gaeta. Muitos dos seus soldados deram-lhe as costas e vários entram nas fileiras garibaldinas. Permanecem nas mãos do inimigo as fortalezas armadas.
– E Cavour? – arriscou Angiolino. – Cavour oficialmente não sabia de nada! Entretanto ficava de olhos bem abertos. Não só isso. De medo que as potências européias interviessem colocando a culpa nele, envia uma frota, sem dizer nada a Garibaldi, sob o comando do almirante Persano, pronta para intervir e atirar contra os garibaldinos! De resto, seja dito claramente, não acreditava de modo nenhum que aquele "louco" com "mil maltrapilhos" pudesse conseguir algo mais do que quebrar a cara. Imaginem só!
Imaginem, porém, quando ouviu as notícias do avanço clamoroso. O Reino das Duas Sicílias tomado por quatro maltrapilhos enquanto ele, com seu exército regular... Passou o prestígio da façanha a Vittorio Emanuele II: “ Majestade, o senhor deve ir imediatamente tomar o comando das operações e assumir a responsabilidade pela iniciativa e... tomar posse dos territórios... E se o Papa dificultar a passagem pelo território das Marcas, tome-o para si e prossiga o seu caminho...”
– Caramba! Esta sim é que é história! – Angiolino entusiasmava-se facilmente.
– Garibaldi havia recém concluído a batalha de Volturno com mais uma vitória e esperava por Mazzini para organizar uma grande República nas barbas dos Savóia. De repente em Teano, depara-se com Vittorio Emanuele II. Os dois exércitos defrontam-se por um momento; depois prevalece o bom senso de Garibaldi, que não quer guerra civil entre os italianos. Entrega ao rei os territórios, mas quer a honra das armas para o seu exército, bem como um lugar para os seus soldados no exército piemontês. Um bom tema para um quadro famoso!
Alguns dias depois, porém, os garibaldinos em formação desde a madrugada na praça de San Carlo esperam em vão pela homenagem do rei. Humilhado, Garibaldi à noite embarca para Caprera, blasfemando como um danado! Se pudesse, desta vez bem saberia contra quem atirar! E o teria feito com certeza!
rei da Itália ou rei dos italianos?
O ano de 1860 era o ano em que Luigia, sentindo chegar o fim dos seus dias, desgostosa de ir-se em um momento tão denso de acontecimentos, havia tido a idéia da lápide. Era também o ano em que, como vimos, tinha-se feito o máximo para unificar aquela longa e retorcida bota que é a Itália. Do modo como se viu e com todos aqueles subterfúgios, aqueles conflitos e as ações militares que foram narrados. À Luigia, durante a vida, não tinham consentido sequer ouvir que no dia 17 de março de 1861, em Turim, proclamava-se o Reino da Itália. Ela havia morrido como súdita do reino dos Savóia, mas isto jamais a tinha preocupado excessivamente. Agora porém, o fato de ter vivido, mesmo a distância, aqueles acontecimentos, provocava-lhe uma certa excitação. E, de resto, será que podemos estar assim tão certos de termos sido realmente italianos ou, ainda por muito tempo, "súditos dos Savóia"?
– Como, como? – Estas reflexões, feitas com palavras ainda mais simples, eram difíceis para os meus interlocutores, para os quais os fatos deveriam ser sempre ou brancos ou pretos.
– Vejamos, por exemplo, o problema do nome. O primeiro Parlamento italiano havia se reunido em 18 de fevereiro, mas demorou um mês para proclamar a unificação. E por quê? Porque não chegavam a um acordo em torno do nome: do rei e do Estado! Parece uma ninharia, mas daí já se delineava o modo de se ver a Itália futura.
Então a esquerda, que compreendia velhos liberais republicanos, admiradores dos socialistas e Partido de Ação, queria que, por se tratar de um Estado novo, o rei mudasse o nome para Vittorio Emanuele I, rei dos italianos, ou seja, por vontade dos italianos. Naturalmente a direita e sobretudo os conservadores eram contrários e no final venceram eles que eram maioria.
Permaneceu Vittorio Emanuele II, rei da Itália. Isto significava que era o Piemonte, ou melhor, o Reino da Sardenha que havia conquistado o resto da Itália. Começava-se bem!
Não é portanto de se admirar que são as leis piemontesas que serão estendidas a toda Itália, a partir do Estatuto Albertino, e que as regiões mais longínquas da Itália sentirão a unidade mais como uma colonização do que um progresso ou um processo de libertação. Tanto mais para aquelas classes que no parlamento não eram representadas e não podiam emitir sua opinião.
Cavour não estava errado ao afirmar, no seu primeiro discurso na Câmara, que “Fizemos a Itália. Agora é preciso fazer os italianos". Era verdade, mas começava-se com o pé errado. E Cavour, talvez o único capaz de "fazer os italianos", morria no mesmo ano.
Enquanto isso, os problemas que nasciam na Itália com a assim chamada “piemontização” eram tão relevantes que, sobretudo do sul da Itália, dezenas de milhares de pessoas deixavam as próprias casas para enfrentar involuntariamente a aventura da emigração para terras e continentes distantes, sobretudo a América do Sul. De fato, a direita histórica, que deteve o poder na Itália por mais de um década após a unificação, impõe um regime rigidamente centralizado do poder, criando graves dificuldades para todos. A burguesia do norte entrou num acordo com os grandes proprietários de terras do sul: respeitaria as velhas estruturas do latifúndio meridional; isto é, a burguesia do norte mantinha no sul as estruturas feudais contra as quais havia combatido durante muito tempo, em troca de um possível mercado para os seus produtos manufaturados. Era a partilha do espólio da Itália recém unificada.
Economicamente, 70% da mão-de-obra era empregada na agricultura, e somente 18% na indústria. O analfabetismo do italianos era enorme: chegava a 90% no sul e nas ilhas! Faltavam quase completamente o ferro e o carvão, matérias-primas da indústria. Contra os 38.000 km de ferrovia dos países mais progredidos da Europa, a Itália possuía 2.000 km e quase todos no norte. Até mesmo a organização do novo Estado era um problema gravíssimo. Era preciso unificar as leis, o sistema fiscal e oito tipos de medidas e moedas diferentes... Sem esquecer da língua: de fato, o italiano não era falado por ninguém. O próprio Cavour falava com o rei em francês ou em dialeto piemontês!
problemas
A manhã era uma daquelas que anunciavam um dia lindo. No céu nenhuma nuvem, somente uma abóbada azul cobalto cada vez mais intenso, e o mar parecia o seu reflexo natural. Quando a luz intensa do sol também surgisse, os turistas a seguiriam enxameando em direção a Palaedo como moscas no mel. Uma manhã com pouco tempo para nós. Talvez por isso Angiolino estivesse de mau humor. Nestes casos, turistas e reumatismos podiam tornar-se sinônimos.
A Luigia, ao contrário, era mais tolerante. Afinal, durante décadas e décadas as visitas que lhe haviam sido feitas eram limitadas aos habitantes do lugar, e não havia portanto muitas variações nos possíveis mexericos e nas “justas” críticas que havia conseguido alinhavar sobre eles. Portanto, muito embora o natural mau cheiro, que lhe convinha mostrar torcendo o nariz, os turistas também tinham sido nos últimos anos um diversão crescente e um motivo interminável de observações críticas. O mais das vezes negativas, naturalmente!
– Assim, os primeiros passos da Itália unida, mas não por completo, eram dados no meio de problemas e contradições diferentes. Por exemplo, apostava-se em como os representantes da direita poderiam viver em harmonia com os da esquerda.
– Que novidade! Não se precisa de muito para ser testemunha do belo espetáculo que dão ainda hoje... – Angiolino começava assim a expressar o seu mau humor.
– Sim, porém devemos nos lembrar que não podem ser confundidas com a direita e a esquerda de hoje. Como eu já disse, eram quase filhotes da mesma ninhada. Tinham somente algumas manchas de tons diferentes. Mas queriam também algumas coisas diferentes e naturalmente tinham como guias respectivamente Cavour e Garibaldi, acima de tudo.
– Mas o conde, o Cavour, não disse que já havia falecido? – frisava a Luigia.
– Volto atrás um pouco para nos entendermos melhor. Explico em poucas palavras a
diversidade destes dois partidos de que estamos falando. Na realidade, ambos
queriam a unidade da Itália, mas aquele que realmente acreditava nela era,
especialmente, a esquerda. Garibaldi acreditava. Aliás, ele não tinha nada a
perder. Já em 1859, havia pretendido invadir o território das Marcas, no Estado
Pontifício, enfurecendo Cavour, que naquele momento não queria ter problemas com
o Papa. Depois já falei na cessão de Nice e da Savóia à França, pelo que
Garibaldi tinha
motivos de interesse pessoal e afetivo, tendo ele nascido em Nice. Ele não
queria absolutamente ceder esses territórios, visto que Napoleão não havia
mantido suas promessas com a conquista do Vêneto! E pouco lhe importava que
fossem cedidas em troca da possibilidade de efetuarem-se plebiscitos para a
anexação da Romanha e da Toscana ao Piemonte...
– Espera um pouco, quero fazer uma pergunta. – Este era Angiolino, um pouco ressentido. – Não entendo bem esta história de dar a Savóia, Nice ou sei lá o quê para um ou para outro. Ninguém pedia a opinião das pessoas?
– Parece um pouco estranho, é verdade, que se possa dar e tomar territórios por meio de um tratado. Mas ao longo da história tem sido sempre assim: as pessoas que viviam nelas não eram consultadas. Eram vendidas sem mais nem menos. Se quiser mesmo saber, na minha opinião todos os Estados derivados de um tratado de paz ou coisa parecida são ilegais...
– Quer dizer, todos os Estados!
– Mais ou menos isso! Se foram formados com a força e sem o consentimento dos habitantes.
– Então o Alto Ádige e o Vale de Aosta...
– Não queria ir longe demais, mas pelo que me consta, na história seriam poucos os Estados realmente regulares. Talvez poderiam ser só os municípios na Idade Média, pois eram os cidadãos que os constituíam voluntariamente, inclusive para fugir da injustiça e da estupidez dos aristocratas. Ou mesmo o Estado da Igreja, formado pela vontade das populações que, para obter proteção, haviam se colocado com seus territórios sob o Papado. Mas o restante...
– Todos fora da lei...!
– O exagerado de sempre...
– Na realidade, há sempre uma aparência de legalidade que justifica tudo. Parece
que foi perguntado também aos habitantes da Savóia com quem queriam ficar.
Contam as anedotas que responderam “ vamos aonde forem os nossos rios ”, e como
eles deságuam no mar francês... Tudo, porém parece vago. Mesmo nos territórios
italianos onde se efetuavam plebiscitos, quem tinha realmente consciência do que
estava escolhendo e também quantos podiam votar? Já dissemos quem eram, e sem
dúvida alguma, não era a maioria da população! Era mais importante para os
governos na época tomar os territórios que podiam controlar facilmente, que
confinavam com o mar, com um grande rio ou com as arestas das cadeias alpinas,
sem se preocupar com quem estava dentro ou fora...
– Como os altoatesinos[13]...
– Como os altoatesinos. Mas falaremos neles no momento da Primeira Guerra Mundial. Agora é melhor voltarmos ao “Ressurgimento”.
Os conflitos entre Cavour e Garibaldi eram evidentes. Cavour queria um regime liberal parlamentarista. Garibaldi queria no sul uma ditadura popular democrática e exercida por um rei em nome do povo. E assim, só para ficar claro, já na Sicília ele se havia proclamado ditador da ilha em nome do rei. E o fato havia feito Cavour pular na cadeira. O fato é que no final a direita prevaleceu e foram seus homens que resolveram o que fazer com a Itália.
Roma
– Se a Itália estava parcialmente unificada, evidente se tornava que ao seu território faltava especialmente Roma, que historicamente havia sido a cidade mais importante. Em seu discurso na Câmara, em outubro de 1860, Cavour havia insistido que os Papas tinham de renunciar ao poder temporal, isto é, ao Estado Pontifício. Podem imaginar Pio IX que se sentia já defraudado de uma parte do território e ameaçado pelos democratas! E era inútil Cavour pregar o princípio da Igreja livre num Estado livre!
– Eis como vão parar as “modernidades”! – Luigia continuava imperturbável a sua batalha ideológica.
– Assim, apesar das inúmeras tentativas feitas por pessoas próximas ao mundo clerical, não havia mesmo jeito de entrar num acordo, mesmo porque, enquanto os diplomatas da direita tentavam estabelecer um diálogo, Garibaldi afastava de Nápoles o cardeal Riário e Ricasoli e na Toscana até prendia o cardeal Corsi e fazia com que fosse transferido de Pisa para Turim. Entretanto em muitas regiões faziam desaparecer os jesuítas, no sentido de se suprimir até mesmo a ordem, e na Sicília, enquanto Garibaldi era o ditador da ilha, abolia-se a ordem dos redentoristas, que era amplamente difundida e muito poderosa. E além disso havia ainda outras decisões dos representantes do novo Estado que pareciam chocar-se com a proclamada vontade de garantias para o Papa. Tudo isso não fazia outra coisa a não ser piorar a situação e adquirir inimigos acirrados no clero.
A isso deve-se acrescentar a aversão crescente dos católicos franceses, que acusavam diretamente Napoleão III de ter entregado o Papado nas mãos do Piemonte. Neste clima, qualquer tentativa de conciliação era anulada pelo modo desastroso de agir dos políticos italianos, que até mesmo empurravam o Papa, através do cardeal Antonelli, a procurar um acordo com a Espanha sobre uma intervenção armada na questão.
Portanto, não havia tempo a perder. E, num outro famoso discurso no Parlamento,
em março de 1861, Cavour defende a necessidade de se chegar a um acordo com a
França, apesar de continuar sendo da opinião de que Roma era a capital ideal por
motivos históricos, políticos e geográficos! Ele mesmo procuraria convencer o
Pontífice de suas boas intenções: lhe garantiria a
liberdade que os outros Estados nunca lhe haviam concedido antes. Imaginem só!
De qualquer maneira morreu muito cedo para consegui-lo.
Então, foi enviado a Paris com urgência o conde Vimercati, pelas suas ótimas relações com Napoleão III e com o ministro do exterior Thouvenel. Napoleão tinha de resolver antes de qualquer coisa a contradição entre o seu princípio de defesa da nacionalidade e portanto das nações que procuravam a sua própria unidade e independência como a Itália, e a reação interna frente à questão romana. Para isso foi também preparado um tratado, nunca aprovado, segundo o qual a questão devia ser resolvida diretamente entre a França e a Itália, com a saída das tropas francesas de Roma, o compromisso da Itália em não atacar, pelo contrário, a defender o Estado Pontifício, a formação de uma armada pontifícia de não mais de 10.000 homens, à qual podiam pertencer membros de qualquer nacionalidade, uma indenização pelos territórios ocupados da Santa Sé.
– Parecia uma coisa razoável. – Sobre este ponto, tanto a Luigia como Angiolino pareciam estar de acordo.
– Mas quem estava convencido de que se ia concluir o tratado? – retrucava eu que sabia como as coisas haviam terminado. – Napoleão III tinha um medo danado da reação dos ambientes clericais na França. Garibaldi ameaçava que, se fizessem o acordo, haveria massacre...
– Eis aí o seu "cordeirinho"! Que mais se poderia esperar dele? – dizia Luigia.
– Cale-se, o que você entende de política....! – retrucava o Angiolino.
– Claro, sou mulher e então: cale-se! Muito fácil assim...
– Por favor! Procurem entender também os conflitos daquele tempo e as opiniões diferentes. Aliás, por falar nisso, a opinião pública francesa crescia cada dia mais contra qualquer hipótese de abandonar o Papa, e então, nada feito! Sem falar nas pressões sobre a França por parte da Espanha e da Áustria, que não queriam em absoluto a perda definitiva do poder temporal do Papado.
De qualquer maneira, o que neste momento põe, provisoriamente, a palavra fim é a
morte de Cavour. Passado, aliás traspassado ele, Napoleão considera-se, por
algum tempo, livre de qualquer compromisso de acordo. Ou melhor, para que
ficasse tudo bem claro, as tropas francesas
deslocavam-se para Velletri para uma defesa eficaz em caso de eventuais
tentativas mazzinianas ou garibaldinas. Um desafio.
– Contra os padres há sempre pouco a se fazer. Sei disso por experiência.
– É só não se meter contra eles. Simples, não? Você, aliás...
Desta vez fui eu que, às escondidas, mandei-me em silêncio, deixando os meus interlocutores em acirrada discussão. Os reencontraria no dia seguinte mais tranqüilos.
a questão meridional
De fato, no dia seguinte, quando o sol ainda não havia embranquecido todo o céu, carregado no horizonte, um outro assunto provocava o mais vivo interesse de Angiolino. A questão meridional, isto é, os problemas espinhosos derivados da unificação da Itália e que diziam respeito às zonas mais pobres do país e, em particular, ao sul da península.
– Com uma Itália assim, cuja unificação era desejada também pelo sul, mas de fato organizada pelo norte, era inevitável que um mar de problemas surgissem naturalmente, sobretudo na parte meridional, onde, desde o início, a população começou a desentender-se com os interesses do Piemonte e da burguesia setentrional.
Garibaldi era o único que apoiava as aspirações meridionais. Homem ligado às experiências da vida, perto do mundo dos camponeses, ligado à terra, sentia-se responsável por ter feito nascer nos lavradores as esperanças de liberdade das escravidões seculares. A severidade com que, durante a mesma expedição dos "Mil", havia sufocado as revoltas demasiadamente acesas e violentas contra os latifundiários era a indicação da vontade de resolver o problema da injustiça social com discernimento e estabilidade. Portanto não havia hesitado em fuzilar de imediato quem houvesse feito justiça com as próprias mãos, mas prometendo uma verdadeira justiça equânime para todos.
Infelizmente, desde o começo foram evidentes as tentativas de afastar Garibaldi do sul diminuindo sua ação e influência.
Contra Garibaldi se aliaram os generais do exército piemontês, com certeza invejosos dos extraordinários sucessos estratégicos e militares daquele que já era chamado pelo povo “herói dos dois mundos”. Cavour tinha o seu próprio interesse nisso e o rei se deixava influenciar abertamente pelo general Fanti, inimigo declarado de Garibaldi. E os episódios de Teano, a recusa de Vittorio Emanuele II de passar em revista as tropas garibaldinas em Nápoles, a fuga de Garibaldi para Caprera, a negação repetida de cumprir a promessa de integração no exército regular piemontês feita por Garibaldi a seus homens, a busca na sede do “Comitê Garibaldino de Gênova” com a requisição das armas que poderiam servir para uma revolta, não ajudavam a amenizar o conflito.
Nesta última ocasião, à interpelação parlamentar dirigida por Garibaldi, que apareceu de camisa vermelha, ao primeiro ministro, Cavour, havia respondido nada mais nada menos que seu inimigo declarado, Fanti.
Naquela ocasião Garibaldi tinha descoberto a questão do almirante Persano, que o havia vigiado ao largo com seus navios durante a expedição dos "Mil", pronto a intervir. Cavour é assim abertamente acusado pelo general de querer uma guerra fratricida.
A resposta foi a dissolução dos exércitos dos Bourbons e de Garibaldi. Só os comandantes Mertini, Bixio e Cosens permanecem como generais do novo exército. Desta forma ficava claro que o sul perdia o peso do seu corajoso defensor e libertador.
– Você entende agora por que Garibaldi é importante? – insistia Angiolino, virando-se para Luigia, que estava silenciosa.
– Cale-se e deixe-o continuar! Eu também quero entender bem antes de julgar...
– Mas você não tem feito outra coisa desde...
– Todavia a política de piemontização, insensível a todas as exigências profundas e às reivindicações da parte mais pobre e marginalizada do país, não demorou para colher os frutos da sua pouca clarividência. Já no começo dos anos 60, nos dias em que Garibaldi entrava em Nápoles, em Adriano Irpino a população se rebelava contra os invasores do norte: os Bourbons e o bispo eram obviamente os instigadores da revolta. Não foi dada importância ao episódio, mas este era o sintoma de que a desatenção para com os problemas do sul se transformaria numa bomba que não demoraria a explodir.
A miséria e o latifúndio sem regras e controles jurídicos eram as características mais evidentes do sul. A extensão das leis de 1855 sobre a expropriação dos bens eclesiásticos no sul era como gasolina jogada no fogo, como também a dissolução do exército bourbônico que pôs em debandada homens que haviam vivido até então da profissão das armas e a dissolução do exército garibaldino, o único símbolo do novo Estado em que se podia ter um pouco de confiança. A isso se deve acrescentar a absoluta falta de iniciativas econômicas por parte do governo para melhorar a situação.
O fenômeno, definido como "brigantaggio"[14]
por parte do Estado, mas visto pelas pessoas como uma continuação da guerra pela
libertação da exploração, foi a conseqüência lógica e inevitável. Centenas de
ex-soldados e jovens camponeses refugiavam-se nas montanhas para organizar uma
resistência armada a um governo que havia sido capaz de trazer só novos
impostos,
a circunscrição obrigatória e os “carabinieri” para prender as pessoas.
– Não! Não consigo acreditar nisso! Uma revolta no sul após Garibaldi! – Angiolino não queria acreditar nos seus ouvidos. – Incrível!
– Mas é assim.
– E o governo? O que fez?
– O que fez? Estava por demais interessado na partilha em prol da grande burguesia do norte em acordo com os latifundiários do sul. Não entendeu ou fez de conta que não entendeu o problema. Portanto preferiu responder com a repressão armada e a matança e o massacre de milhares de pessoas, a destruição de mais de 80 vilarejos, a danificação inexorável da economia de províncias inteiras.
Para evitar que nos vilarejos mais distantes e de difícil acesso os "briganti” encontrassem abrigo e provisões, os habitantes eram deportados para as grandes cidades, como Nápoles. Os camponeses, que já tinham os campos devastados, eram forçados a abandonar o trabalho. Sem trabalho, arrancados do seu ambiente secular, reduzidos à fome, eram obrigados a tudo para sobreviver. Os de melhor sorte encontravam salvação embarcando nos navios que faziam escala nas Américas...
– E ninguém dizia nada? Que vergonha! Eu pensei que fossem só calúnias dos anarquistas para falar mal do governo. Então eles até tinham razão...
Luigia relembrava para si as conversas roubadas cá e lá na estrada para Palaedo, muitos anos atrás... Angiolino, silencioso, tinha os olhos úmidos. Tratava-se da sua terra e da sua gente.
– Dizia-se, dizia-se. E as denúncias não vinham só dos poucos anarquistas. Uma atitude tão desumana havia até causado uma reação internacional pela crueldade das repressões. O governo fingiu formar uma comissão de inquérito. Apesar disso, a própria comissão achou a situação calamitosa, mas naturalmente os motivos não foram atribuídos ao governo. Limitaram-se a responsabilizar os Bourbons e o Papa. Somente o deputado Ferrari conseguiu que o problema fosse debatido no Parlamento e definiu a questão sem meios-termos: guerra civil.
Como conseqüência, promoveu-se de modo humanitário uma subscrição para proporcionar uma primeira ajuda às vítimas inocentes de fenômeno. Mas, infelizmente, estes fundos serviram somente para pagar as recompensas que eram dadas pelas cabeças dos “briganti”.
– Como nos filmes de "bandidos"! Mas não tinham vergonha? Aliás, sem dúvida vergonha devem ter tido depois, porque ninguém conta essas coisas e quando falavam no Ressurgimento não me diziam nada dessas coisas.
– É preciso acrescentar que a fome e o desespero fizeram com que essas recompensas tivessem efeito. Com fome as pessoas estavam prontas a trair amigos, conhecidos, a própria família, conseguindo assim sobreviver um pouco mais.
– Mas quem eram esses “briganti”?
– Sobretudo gente pobre, cansada de injustiças e que havia acreditado no fim delas com a vinda dos garibaldinos. Iludidos pelas novidades, não haviam sabido conformar-se de novo com a miséria ou se haviam exposto em demasia. Outros desde o começo não haviam acreditado no novo governo, inicialmente instigados de fato pelo clero e pelos Bourbons. Depois havia os soldados debandados que levavam consigo armas e umas poucas munições e que só sabiam viver de rapina pois não sabiam que fazer e aonde ir. Mas havia também personagens de relevo: Ninco Nanco, Serravalle, Crocco, dos “bandos indígenas”, enquanto dos “bandos importados”, como se dizia nos jornais da época, isto é das tropas estrangeiras dos legitimistas, ficou famoso o espanhol Borja José. Pois é, porque o fenômeno foi tão importante que para reivindicar a liberdade do sul haviam acorrido personagens também do exterior, exatamente como haviam feito o patriota Santorre di Santarosa partindo para a Grécia e Garibaldi para o Uruguai...
– É mesmo incrível! Mas e o Estado?
– O Estado, com a lei Pica de 1963, que o deputado Massari havia requerido (de vez em quando é justo dizer os nomes também destes campeões de civismo que nós também tivemos!), após o seu relatório à Câmara, resolveu instituir tribunais militares para os “bandidos”, o fuzilamento e os trabalhos forçados como condenações, a diminuição das penas para os procurados que se entregassem dentro de um mês. E para os “ociosos, vagabundos e suspeitos" a prisão domiciliar!
– Desgraçados! – Angiolino e eu ficamos estupefatos pela invectiva pronunciada pela Luigia, provavelmente pela primeira vez na sua “vida”.
– Eis então por que o sul tem sido até agora tão diferente na história do país inteiro: com certeza tinha seus motivos.
– E se a isso se acrescenta todo o resto... Não foi o governo que facilitou as coisas... – resmungava Angiolino.
– É bem verdade. O governo, principalmente nestes primeiros anos da unificação, tem responsabilidades gravíssimas no enraizamento de uma espécie de atraso do sul em relação ao restante do Estado. E os motivos são, ao mesmo tempo, de ordem histórica, política e econômica. Com algumas raras exceções, no sul praticamente não existiam indústrias. As coisas não foram certamente facilitadas pela piemontização. Pelo contrário, como já vimos, aumentavam os impostos e os tributos para enfrentar a dívida pública crescente. No norte o liberalismo econômico necessitava do apoio do Estado. Para favorecê-lo não foram certamente os tributos impostos pelo próprio Cavour que o facilitaram, e com isso todos estes erros foram pagos pelo sul, com dureza. O último golpe dado à economia do sul foi o “monopólio do tabaco”...
– E o quer dizer isso?
– Quer dizer: o cultivo e a venda, que até então tinham sido livres e tinham garantido lucros competitivos especialmente no sul, são monopolizados e controlados pelo Estado. Os camponeses não podem mais permitir-se de aumentar as escassas entradas, os preços e as quantidades são estabelecidos pelo governo e a renda líquida do produto despenca! Entrementes o mesmo Cavour que teria conseguido entender estas distorções e corrigi-las falecia afirmando que somente Ricasoli e Farini poderiam suceder-lhe.
após Cavour
O rosto do Angiolino é parecido com um mapa em relevo, atravessado pelo nariz decidido que se projeta com firmeza e sulcado na testa bem como ao longo das faces pelos sulcos profundos das rugas cansadas como o curso difícil dos rios nas montanhas. Mas nele os olhos dardejam vivos e atentos, quase enormes na sua absoluta franqueza de homem. O mapa geográfico aberto de uma Itália difícil de se viver para pessoas como ele, pessoas que apesar de tudo querem conhecer o porquê de tudo isso, atentas em julgar, sem se fazer de vítimas, a própria existência sentida como um destino, mesmo que às vezes amargo.
– O projeto de uma Itália nascida tão mal era porém, pelo menos nas intenções, é preciso reconhecê-lo, um projeto honesto. Minghetti, na época ministro das finanças, insistia numa idéia de Cavour em favor da criação de uma organização que a partir da administração municipal passava à administração provincial dependentes das competências do Estado através de um consórcio obrigatório e permanente das províncias, isto é, as atuais regiões.
Contudo não foi possível fazer nada. A burguesia italiana era medrosa e inconcludente. Demasiado era o medo de ver novamente separado um estado que acabava de ser remendado na sua unificação ainda não completa. E, portanto, exerceu-se o mais duro centralismo, com um poder enorme nas mãos dos “prefetti”[15] colocados para chefiar as províncias. Aliás, a legislação piemontesa é estendida a toda a península com o aumento dos impostos entre os quais o “dízimo de guerra” e impostos em favor das indústrias com a emissão de empréstimos nacionais de 500 milhões.
No entanto as pessoas consolavam-se com o fato de que choviam os reconhecimentos oficiais do novo reino: Inglaterra, Suíça, Estados Unidos, México, Portugal, Rússia, Prússia, Áustria e por fim a França também. Com esta última ainda presente em Roma com suas tropas, tinha-se pressa de tratar a “questão romana”, e Ricasoli, o novo primeiro ministro, operava neste sentido.
O rei, porém, não confiava neste “toscano” e com os “piemontesi” procurava de
qualquer maneira obstá-lo. Pois é! Dentro da própria Câmara havia aquelas
divisões que os mesmos deputados temiam que se reconstruíssem na Itália:
piemonteses (Rattazzi, Sella, Lanza, Lamarmora...), lombardos (Visconti-Venosta,
Jacini...), emilianos (Minghetti, Farini...), toscanos (Ricasoli, Peruzzi...),
napolitanos (Spaventa)... todos também divididos por rivalidades pessoais.
E além deles havia o “partido do rei”, que reunia idéias diversas, mas
interesses comuns. Por isso, enquanto Ricasoli tentava um acordo com os
franceses, propondo-lhes a formação de guarnições mistas contra o
"brigantaggio", o rei com Rattazzi, que se sentia mais inteligente, tentava
explorar a possibilidade da conquista do Vêneto através de uma insurreição da
Bósnia e da Hungria, que teriam desviado a atenção dos austríacos da Itália. Uma
idéia realmente genial, naturalmente!
Ambas as tentativas foram, é claro, um insucesso, e o rei em pessoa, indignado, e talvez teria sido melhor se o fosse pela sua própria tontice, organizava uma campanha de imprensa contra o primeiro ministro que, entre outras coisas, estava tentando uma reaproximação com Garibaldi. Foi acusado abertamente de querer anistiar Mazzini e foi o seu fim.
– Mas como? Mazzini, que havia feito tanto pela unificação, não tinha sido indultado de algum jeito?
– Uma pessoa tão boa... – Era a Luigia.
– Indultado nada. Para ele tinha ainda a condenação à morte à revelia. De fato Ricasoli tinha entendido que era necessário juntar novamente as peças do “risorgimento” inteiro. Havia até promovido o pedido de nove mil sacerdotes para a canonização dos santos do Japão, só para tentar uma reaproximação da Igreja.
Ratazzi, que lhe sucedeu como chefe do governo, apoiado pelo rei, não fez nada a esse respeito. Por outro lado, era tão cheio de si que não enxergava além do seu próprio nariz. Subordinado ao rei, passava com desembaraço da esquerda à direita e de novo à esquerda na maior tranqüilidade, na tentativa de imitar e superar tolamente o Cavour, sem ter a mínima parte da habilidade deste. O personagem era tão tolo e ambíguo que até os outros Estados reagiram de forma negativa à sua nomeação, por medo de intervenções armadas na península balcânica.
Mesmo assim, e estas são as coisas estranhas da história e dos homens, Garibaldi estava contente: o Rattazzi demonstrava-lhe amizade. Então, iludido, preparou voluntários, talvez para uma tentativa concordada de conquistar o Vêneto. Mas o governo, pressionado, ordenou a dissolução e a repressão do corpo. Imaginem se a esquerda e Garibaldi não levantaram a voz: queriam uma comissão de inquérito, mas tudo foi abafado.
– Até parece ouvir o telejornal de ontem! – Angiolino não poupava o seu sarcasmo zombeteiro a estas vicissitudes perenes da política italiana.
– Naturalmente Rattazzi negava qualquer responsabilidade. E para os Estados estrangeiros estava muito bem assim. Que os italianos resolvessem entre si suas brigas de galinheiro.
Porém, problemas graves existiam e vinham das finanças. A situação era calamitosa. Sella, o ministro das finanças, pedia para emitir títulos públicos, vender alguns bens do Estado e confiscar alguns bens da Caixa Eclesiástica. Mas por fim decidiu-se, que novidade para a Itália, hein?, na proposta de novos impostos. Aliás, o imposto mais odiado pelos pobres (para variar!): o imposto sobre o produto moído! Pagava-se ao Estado por cada quilo de farinha e quem perdia com isso eram sobretudo os mais pobres. Por enquanto, porém, caiu o governo, mas por outros motivos.
Pois é. Porque a política de Rattazzi era a de um elefante numa loja de cristais. Para junho estava marcado um encontro de bispos em Roma, enquanto que o Papa publica uma encíclica, “Maxima quidem” – este era o título, mesmo que para vocês não signifique muita coisa –, na qual se reafirmava o direito do Papa ao poder temporal. E que faz o nosso Rattazzi? Impede os bispos de chegarem até Roma, pondo também em crise as difíceis tentativas de mediação com a França. Entrementes Garibaldi reaparece em Palermo com seus voluntários, mas enquanto sobe o Aspromonte, Rattazzi envia contra ele o exército e atira neles! Até coloca-o na cadeia com dois deputados e depois é forçado a soltá-lo por medo de motins populares. A embrulhada, porém, é grande demais e é obrigado a pedir demissão.
– Já não era sem tempo. Fez muitas bobagens em tão pouco tempo este Rattazzi.
– Calma, ainda não acabou. Sua demissão é só temporária. O rei cuidava já da sua reintegração no cargo, quando as águas se acalmassem.
– Mas olha só! É bem verdade que Deus os faz e depois os junta!
– Cale-se! Não blasfeme e deixe Deus fora dessas questões que Ele não tem nada com isso!
– E...quem me dera se Ele aparecesse um pouco mais freqüentemente...
– Por favor! Deste jeito não consigo continuar. E já está tarde esta manhã!
Pois bem: o rei queria nomear provisoriamente o Farini, mas encontrando-se este doente devia nomear o Minghetti. Engolia um grande sapo, porque era a vitória do antipiemontismo. Imaginem que o rei nem se preocupava de chamar abertamente o Ministro do Interior, o Peruzzi, de ladrão, o Minghetti de jesuíta e o Farini de imbecil!
– Até esse ponto! Nunca teria pensado que um rei...
A Luigia deixava sempre transparecer saudades pela monarquia quando havia a ocasião, mesmo nestas circunstâncias negativas. Nunca conseguirá convencer-se de que um rei é uma pessoa como as outras e que pode ter os mesmos defeitos, às vezes até maiores.
– De qualquer maneira Minghetti não se deixava influenciar por essas opiniões. Protagonizava ações diplomáticas que estabeleceriam as bases para o acordo sobre Roma com a França, programava o saneamento financeiro, procedia à unificação das leis do Estado e queria o aumento do exército.
Sob o seu governo houve a instituição da famosa comissão sobre o "brigantaggio", da qual eu já falei, e a iniciativa foi realmente corajosa, mesmo se as conseqüências fossem de uma repressão até mais dura, tão dura que desencadeou a revolta da esquerda na Câmara. Uma vintena de deputados demitia-se, inclusive Garibaldi, que partia para a Inglaterra onde era acolhido triunfalmente, principalmente pelos refugiados, entre os quais Mazzini e os revolucionários da metade da Europa. Contudo, para não ter problemas, o governo inglês logo aconselhou Garibaldi a voltar para casa o mais cedo possível!
Minghetti porém se resgatava em outras áreas, como aquela das ferrovias, o primeiro escândalo italiano. Na Itália as ferrovias ainda tinham de ser totalmente construídas após a unificação. E às custas do Estado. Um negócio gigantesco que atraía os grandes ladrões como o mel. Pietro Bastogi assumiu a empreitada que anteriormente havia sido dada à sociedade francesa dos Rothschild. Vários deputados se envolveram no negócio. Um roubo dos grandes em prejuízo do Estado. O primeiro grande escândalo!
Uma comissão parlamentar, chefiada por Minghetti, reconheceu a responsabilidade dos deputados. Bastogi e outros demitiram-se. Mas só provisoriamente. O próprio Bastogi retornará mais vezes ao Parlamento, embora mantendo a sua sociedade...e o dinheiro nunca mais foi visto.
– Quando se juntam política e negócios é somente para os próprios e sujos interesses! Só para isso!
– Concordo plenamente. Tem sido sempre assim em qualquer lugar e em qualquer época. Hoje também.
Com esta opinião unânime nas nossas convicções observávamos o mar que alongava preguiçosamente suas ondas sob o sol prepotente, sem se preocupar com nada, indiferente e superior às nossas inúteis opiniões. Opiniões contudo das quais estávamos orgulhosos.
ainda o Vêneto e Roma
A Luigia parecia não acreditar. Não se explicava como fosse possível excluir Mazzini do processo de unificação da Itália. Logo ele que, apesar das suas idéias republicanas, dedicara a vida toda ao problema da unificação. Num certo sentido foi ele o primeiro a ter esperança e a infundir nos outros a idéia: uma idéia que havia se realizado. Quase. Porque de fato faltavam ainda o Vêneto e Roma para completar a obra. E foi justamente o problema do Vêneto que conseguiu reaproximar Mazzini a nada menos que Vittorio Emanuele II.
– Foi pela questão do Vêneto, isso mesmo. Era o início de 1864 e Vittorio Emanuele ardia de impaciência para de algum modo se tornar protagonista pelo menos da conclusão da unificação. Todavia não podia claramente pôr-se a agir como dinamiteiro, ele ou alguém do seu governo. Assim cogitava em mandar adiante, usando uma estratégia que Cavour conseguira aplicar com Garibaldi, nada mais nada menos que Mazzini. Mas Mazzini punha condições precisas: os voluntários tinham de ser deixados livres para arranjar as armas e o rei tinha de prometer a substituição de Minghetti, que não agradava mesmo ao Mazzini. E não só a ele.
Na realidade, ao próprio Mazzini não parecia ser verdade poder entrar de novo em ação. E com o apoio do governo. Inconcebível! Claro que a tática tinha de ser só sua: uma faísca que estourava como revolta dentro do próprio Vêneto. Deveriam ser os vênetos a rebelar-se contra a Áustria. Não seria Mazzini se não fosse tão idealista.
Mas o rei, irresoluto, não confiava na espontaneidade da libertação: ainda pensava que fosse melhor esperar os sinais de revolta na Galícia, Hungria, Sérvia... e depois aproveitar para agredir a Áustria enfraquecida e um território desguarnecido. Imaginem: Mazzini a este ponto ansiando por entrar em ação e o rei refreando seu entusiasmo. Acabou como de costume. Já em abril a polícia recebeu a ordem de requisitar as armas dos voluntários que esperavam em Brescia. E tudo acabou em nada!
– O senhor parece sentir prazer em frisar os fracassos quando se trata de um rei. E tudo por causa da política!
A Luigia havia realmente esperado que pelo menos desta vez um rei fizesse alguma
coisa boa. E com o “seu” Mazzini ainda por cima. E no entanto...! Eu me
perguntava como era possível
ter ainda uma tal obstinação nostálgica, mesmo sabendo que os fatos aconteceram
de modo totalmente diferente de como ela continuava a esperar. Ou tinha se
esquecido ou queria esquecer! Ao ponto de iludir-se que o passado até mudasse de
acordo com suas convicções.
Somos tão teimosos todos nós, eu por primeiro, que não cedemos nem de fronte aos fatos já consumados! Mas a história é a história e não pode ser mudada. Se formos honestos.
– Entrementes havia a questão de Roma. Cada vez mais confusa, porque parecia que todos haviam entrado num acordo para querer um o contrário do outro. Mas prossigamos com um pouco de ordem.
Naquela época o cargo de ministro da Justiça era do Pisanelli: regalista, tradicionalista e jurisdicionalista...
– Eis de novo o mestre com suas palavras difíceis! Calma, calma! Que significa regalista, etc., etc.? Também queremos entender.
– Eu, de minha parte, alguma coisa entendo: como regalista...
– Escute ela que sabe tudo! Agora você se tornou mestra também! Deixe-o falar que é a sua profissão. Depois se for o caso...
– Você não pode mesmo ser gentil uma única vez, digo uma única! Estava aborrecida.
– Aqui está em poucas palavras: regalista. É uma definição que remontava ainda à Espanha do século XVIII e significava a reafirmação dos direitos da coroa em questões de relacionamento entre Estado e Igreja. Tradicionalista todos nós sabemos o que quer dizer. No caso acrescentem também conservador. Depois vem jurisdicionalista: era um termo na moda em 1700 e sublinhava o direito do poder laico de intervir em questões religiosas.
– Que ótimo! Uma pessoa com quem eu teria me dado "muito bem" mesmo! Tinham escolhido todos muito bem para contrariar o Papa, hein?!
Desta vez Angiolino não conseguia conter sua vontade de rir ao comentário.
– E você dá risada... porque estes indivíduos... que fazer a Itália, que nada. Parecem feitos sob medida para desfazer o que já havia.
– Desta vez tenho que dar num certo sentido razão à senhora Luigia. Pisanelli começou prendendo muitos bispos por “crítica à constituição”. Proibia manifestações públicas de culto nas ruas e mandou retirar todas as imagens sagradas de Nápoles, provocando assim uma revolta popular.
– Louco! Esse era realmente louco! – Incrível, mas o comentário era do Angiolino.
– E você, agora, não concorda comigo?
– Não acabou. Ao mesmo tempo o general Della Rovere, ministro da guerra, retira dos clérigos a isenção do serviço militar. Enquanto isso Pisanelli propunha extinguir todas as ordens religiosas que não fossem de “utilidade pública” e, naturalmente, confiscar todos os seus bens para constituir fundos de aposentadoria para seus membros. Por sorte as disposições na época acabavam com a queda dos ministérios, isto é, em pouco tempo; como, de resto, infelizmente é tradição na Itália!
Apesar de tudo, visto que Napoleão III ao longo dos anos perdera prestígio, seja por problemas internos nas relações com os católicos, seja por questões internacionais nas quais se havia envolvido, entre França e Itália chegou-se à assinatura de um acordo sobre a questão de Roma. Foi chamada “Convenção de Setembro”. Era o ano 1864 e o próprio acordo provocou uma onda de contestações e polêmicas, e até uma revolta aberta em Turim que deixou 52 mortos e 187 feridos. Turim não aceitava perder os privilégios de capital!
– Disso lembro-me muito bem. Houve muitos comentários aqui entre nós. Era pela capital. Os torineses não estavam dispostos a ceder. Já na época a capital significava um rio de dinheiro e de cargos a serem distribuídos. Imaginem só. Que discussões violentas e que gritos!
– É assim mesmo. Na Convenção não estava prevista de modo explícito também a transferência da capital, mas em segredo (um segredo que, como se pode ver, havia durado por muito tempo!) os dois estados concordaram que dentro de seis meses após a assinatura da Convenção, a qual deveria ser ratificada pelo Parlamento em quinze dias após a assinatura, a capital fosse transferida de Turim para efetivar os outros pontos. Isto é: o compromisso da Itália de não atacar o Papa, pelo contrário, defendê-lo com as armas; a retirada de todos os soldados franceses dentro de dois anos; a formação de um exército pontifício de voluntários e outras questões relativas à dívida pública do Estado Pontifício.
Os deputados piemonteses se rebelaram e Minghetti foi alvo da opinião pública. O rei então o substituiu por Lamarmora, que entretanto fez com que a Convenção fosse aprovada.
– E Roma, deveria ser a capital?
– Não. Obviamente os franceses queriam a transferência da capital para uma cidade do centro da Itália que substituísse Roma em definitivo.
Decidiu-se então transferir a capital para Florença. A posição geográfica central podia iludir sobre a sua confirmação definitiva à espera de tempos melhores. Nápoles foi descartada para que não se tornasse realmente uma idéia definitiva.
– Desta forma Nápoles teria se tornado a capital? – Os olhos do Angiolino brilhavam só pela idéia.
– Poderia ter sido, mas depois quem teria conseguido transferi-la dali? Nápoles já fora capital dos Bourbons durante séculos. A verdadeira intenção do governo era uma transferência provisória. A coisa ficou conhecida e foi discutida, tanto que os franceses reafirmaram que a transferência devia ser definitiva e que, em caso de insurreição popular em Roma, a França se reservava a liberdade da decisão a respeito da sua intervenção. Lamarmora, ofendido, respondeu que “as aspirações de um país não são objeto de ações diplomáticas” e que no caso de uma insurreição a Itália também se reservava a mesma liberdade de ação. Aos franceses só restava engolir o sapo e esperar por tempos melhores.
Aliás, para evitar revoltas mazzinianas nas quais ia se falando no meio de toda esta embrulhada, o próprio Papa foi obrigado a pedir ajuda ao governo italiano destravando um pouco as relações diplomáticas.
De qualquer maneira o fato é que naquele mesmo ano o Papa promulgava uma encíclica na qual condenava todos os princípios nascidos da revolução francesa, liberalismo e socialismo; acrescentava-lhe também o Sílabo, uma lista dos principais erros da época: a liberdade de culto, a intromissão estatal nas questões religiosas, o monopólio laico da instrução, as várias manifestações do jurisdicionalismo...
Alguns anos mais tarde, o Concílio Vaticano I proclamava a infalibilidade do Papa em questões da fé. Entretanto, nenhum Estado católico desejava substituir a França na sua tarefa de protetora e defensora da Santa Sé. Aliás, a publicação do Sílabo provocava uma violenta onda anticlerical na Europa inteira: mesmo os católicos liberais franceses e alemães declaravam o seu enérgico desacordo, a Áustria anulou o acordo estabelecido com o Papa, Napoleão III e Vittorio Emanuele II proibiram a publicação nos seus Estados.
o Vêneto e ainda Roma
– Enquanto em Roma e no Papado sucediam estes acontecimentos, a Itália havia feito aliança com um novo Estado emergente, que militarmente começava a causar um certo temor na Europa: a Prússia. Com ela a Itália atacou a sua antiga rival, a Áustria, em 1886, anexando ao seu território o Vêneto.
Na verdade, o governo italiano havia tentado resolver o problema com negociações secretas, mas o estrépito do Partido de Ação e as ofertas de Bismark, o chancelar alemão, induziram-no a recusar a oferta do Vêneto feita no último momento pelos próprios austro-húngaros. Lamarmora tencionava, de fato, conquistar também o Trentino com uma campanha vitoriosa.
– Esta também é uma "boa idéia" de um general que já sei como vai acabar! O nosso exército foi sempre famoso por estas ótimas idéias. No entanto, quem paga são sempre os pobres coitados!
Angiolino jamais suportara os militares e não mandava certamente recado. Mesmo porque, no seu entender, haviam sempre estado ao lado dos prepotentes.
– Nasceu assim a terceira guerra da independência. E certamente sem grande honra para nós. A Prússia dispunha de uma notável potência militar e as forças de terra e mar eram, pelo menos, numericamente, superiores às austríacas. Todavia, faltavam a organização e a coordenação. E em Custoza começamos com uma derrota. Subestimada. Tanto para começar. Em Lissa, a sucessiva batalha naval foi um desastre. Uma potência da Europa Central que vencia no mar uma nação marítima! Era o cúmulo. Somente o "velho" Garibaldi, tanto para variar, conseguia uma pequena vitória sobre o inimigo em Bezzecca. Muito pouco!
Do ângulo da lápide ouvia-se o silêncio. Em Lissa estiveram também os marinheiros de Manarola, jovens de vinte anos, cheios de confiança, dos quais Luigia se despedira com orgulho quando em Marina embarcaram rumo à Spezia. Nunca voltaram. Angiolino sabia.
– Entretanto, os prussianos davam uma memorável lição à Áustria em Sadowa e chegaram à paz de Viena. A Itália derrotada e humilhada recebia da França o Vêneto, a ela cedido pela Áustria! Um último gesto de desprezo merecido no campo!
Pena que deste fato se aproveitou logo Rattazzi para voltar ao governo. Como um abutre! Com as suas manias de grandeza abriu o caminho a Garibaldi para que, aproveitando o descontentamento, reunisse tropas para buscar a vitória marchando sobre Roma. Obviamente, Napoleão III ao saber disso fica furioso e Rattazzi é praticamente obrigado a exilar Garibaldi em Caprera. Mas por pouco tempo.
Em outubro, Garibaldi foge da ilha, enquanto uma coluna de voluntários comandada pelos irmãos Cairoli tem um embate em Villa Glori com as forças pontifícias: para os voluntários, foi um desastre. Rattazzi se demitia, mas Garibaldi conseguia ainda vencer os soldados do Papa em Monterotondo e se dirige para a cidade. Mas em Mentana o aguardava uma surpresa: os franceses, armados com modernos fuzis de retrocarga e cano estriado, a última palavra em armamento. Pode-se imaginar como acabou. E os franceses ocupavam novamente Roma! O ministro da Guerra francês, Rouher, podia dizer com altivez que “nunca e nunca mais” os italianos entrariam em Roma!
– Mais uma vez! – foi o comentário de Angiolino, enquanto de Luigia não chegava qualquer sinal de vida.
– Contudo, o dizer “nunca e nunca mais” foi desmentido três anos depois; verificou-o o ministro francês, por obra não certamente do valor do exército italiano, na verdade.
Foi assim. Em setembro de 1870 as tropas italianas entravam em Roma pela brecha de Porta Pia, vencendo a pouca resistência das tropas pontifícias. Em 1871 a capital da Itália foi finalmente transferida para a sede da antiga capital do mundo romano: a cidade de Roma.
O que tinha acontecido? Simplesmente isto. Naquele ano, a famosa Prússia havia atacado improvisamente e derrotado as forças francesas em Sedan. Napoleão III perdia o poder e a Itália, com grande caradurismo, declarava nulos os compromissos precedentemente assumidos com a França e aproveitava a ocasião para excluir o Papa sem muita cerimônia. Não havia então mais ninguém para opor-se a ela.
Sim, houve um grande protesto internacional, mas foi uma bolha de sabão. Muito barulho, muito falatório, mas todos permaneceram em seus lugares e quem pagou foi o Papa.
A conseqüência, por parte do Estado italiano que queria mascarar um pouco a sua
prepotência, foi a promulgação unilateral da lei das Garantias, isto é, das
garantias oferecidas ao
Papa: o Vaticano, o Castelo Gandolfo e uma dotação anual igual àquela recebida
até então pelo erário pontifício. O Papa recusou aceitar como concessão o que
ele considerava pertencer-lhe de direito. E mais, com o ato “non expedit”
condenou como inoportuna a participação dos católicos às eleições políticas e
administrativas. Convidava deste modo os católicos a não se envolverem com o
novo Estado usurpador!
O assunto inicialmente parece que ficou parado, e o “non expedit” foi lembrado somente em 1874, quando a participação dos católicos às eleições foi irrisória. Porém, a proibição foi reforçada em 1895 por Leão XIII. Somente em 1904, Pio X deixou plena liberdade de consciência para votar aos católicos, mas somente porque temia o avanço do socialismo na Itália, não por outra coisa. Mas isto é outro assunto.
– Antes tinham sido eleitos também católicos? Digo antes do não.... em suma, da proibição?
Luigia, como eu já sabia, interessava-se particularmente pelos assuntos que diziam respeito à Igreja, mesmo que não demonstrasse aprovação às tomadas de posição do Papa em política.
– Certo! Desde 1861. Não só havia deputados católicos mas também padres, como Lambruschini. Só que em 1866 o Papa pretende que "seus" deputados façam um especial juramento de obediência aos bispos em primeiro lugar, os quais lhes mostrariam a diferença entre o bem e o mal. Aí então o governo se rebelou! Uma bela confusão! Como um deputado do reino podia jurar fidelidade primeiro ao Papa e só depois ao Estado?
da direita à esquerda histórica
No mês de setembro, em Manarola, as noites se aproximam cada vez do dia. É o mês que eu prefiro neste lugar do qual me enamorei: o sol é ainda quente, mas não voraz como em pleno verão, enquanto o mar conserva a sua pureza de esmeralda e o acolhimento afetuoso de um amigo.
Naqueles dias o sol, ao ocaso, parece desculpar-se pela debilidade da sua intensidade exibindo toda a beleza de suas cores, e o reflexo prolongado sobre as ondas levemente encrespadas é indescritível. Diante deste espetáculo tão simples e tão grande, já sentimos prazer em nos reencontrar, permanecendo por longo tempo em silêncio. Depois, enquanto a sombra se alonga no momento em que todos se afastam, recomeça a nossa intensa conversa com as sombras, a sombra do passado e a sombra da Luigia. Sombras porém que não metem medo.
– A incapacidade de condução política orgânica da direita tinha sido evidente no campo interno e externo. E os sucessos obtidos eram naturalmente mais o fruto de uma combinação de acontecimentos do que de capacidade política. A tudo isto deve-se acrescentar o grande problema do déficit público, que já em 1861 era de 314 milhões e no ano seguinte aumentara para 500 milhões. Em 1864 não havia dinheiro para pagar os funcionários públicos! Embora Quintino Sella passasse a ser o herói do saneamento financeiro, a drástica cura econômica havia deixado de mau humor também as classes mais conservadoras que até então haviam votado na direita. Sella havia começado reduzindo o rendimento pessoal do rei e dos ministros. Em seguida, solicitara a cobrança antecipada do imposto fundiário, aumentando em 12% o imposto predial e abolindo as isenções aduaneiras a quem delas se beneficiava. Tudo caminhava para a queda, definitiva, da direita do "Risorgimento", que dava espaço a novas iniciativas de uma classe dirigente que se apresentava como natural e único possível substituto: a esquerda.
– A esquerda no governo? – Angiolino estava incrédulo, e Luigia, se pudesse, teria feito o sinal da cruz.
– Sim, mas devo repetir a vocês que não deve ser confundida com a esquerda de hoje?
É preciso salientar que nesse meio tempo, em um país que permanecia prevalentemente agrícola, não obstante o surgimento da indústria, começam a aparecer as primeiras sociedades operárias com a finalidade do organizar sobretudo o "mútuo socorro", isto é, dar uma mão aos mais desventurados no momento de doença, acidentes no trabalho e desocupação. Somente mais tarde é que se começou a reivindicar também o respeito aos próprios direitos com lutas contra a classe patronal e assim dar vida, em 1880, ao primeiro socialismo, que porém se constituirá em partido somente mais de dez anos depois, de 1892 a 1893.
No entanto a esquerda histórica, que subiu ao poder, teve como ministro Depretis por mais de dez anos. Se não houve mudanças drásticas, foi pelo menos organizado um Estado com menos desequilíbrio. Em 1882 foi estendido o direito de voto e em 1884 foi definitivamente abolida a odiosa taxa sobre a moagem e que muito pesava sobre as famílias mais pobres. Finalmente, podia-se ver um pouco de justiça. Isto fazia parte do programa da esquerda, como a descentralização administrativa, a reforma fiscal e a instrução primária obrigatória.
E era mesmo necessário, porque a unificação do mercado, com a abolição das taxas aduaneiras e outros tributos, havia provocado um surto industrial e levado o capitalismo também ao campo, mesmo sendo, na verdade, o norte quem mais se beneficiou, seja porque a sua burguesia era mais aberta para as novidades da vizinha Europa, seja porque no sul permaneciam os interesses de uma classe dominante conservadora e grandes dificuldades de comunicação. Tudo isto foi possível através de uma estratégia que foi denominada "transformismo".
– O que isto significa?
– Que os governos, mais do que em partidos ideológicos, baseavam sua política em procurar efetivamente promover a ação do governo, sem se prender muito aos detalhes.
– Que esquerda então era esta? Colocava no governo também elementos da direita!
Angiolino não se convencia do fato de que, talvez na única vez que ouvira falar da esquerda no poder da Itália, esta fosse impreparada para governar o país sozinha.
– Sim, punha no governo também elementos da direita, como a própria direita já havia feito anteriormente. Mas eu já havia dito de não fazer distinção entre a direita e a esquerda histórica, como fazemos hoje.
– É verdade, já nos havia dito, mas você nunca presta atenção!
– E você só presta atenção quando se fala do rei!
– Senhores, por favor! Esta atitude da esquerda não fez outra coisa senão produzir uma nova oposição: a Extrema. Formada por republicanos, radicais, anticlericais e socialistas como Andrea Costa. E, um a um, desapareciam os protagonistas do Ressurgimento, como Mazzini, Vittorio Emanuele II, Pio IX... Era rei Umberto I, tendo a seu lado a bela rainha Margherita, filha de uma princesa alemã, aristocrática e autoritária, que queria fazer da Itália uma grande potência, pela força das armas.
A escuridão apagara os perfis dos rostos e dos rochedos, assim como o tempo havia por sua vez cancelado os homens que haviam feito a Itália juntamente com as suas numerosas contradições.
os novos aliados na Europa
Eu dormira demais. Chovia muito, embora fossem gotas de chuva finas e inconsistentes. Por isso fiquei surpreso ao encontrar os meus interlocutores mergulhados em uma forte discussão. Não haviam percebido a minha aproximação e retrucavam um ao outro, fazendo ricochetear os termos de um puro dialeto lígure contra a solta loquacidade de influência napolitana: sotaque do qual Angiolino nunca havia conseguido, ou melhor, desejado, livrar-se. E com razão.
E ainda mais estranho era ouvir uma vez que outra, em expressões para mim quase impossíveis de serem compreendidas, os nomes e os lugares do Ressurgimento, das guerras, dos políticos, da nossa história, enfim. Nomes ligados ao socialismo, aos movimentos de operários, às esperanças de justiça, à confiança nas instituições e às grandes derrotas e amargas desilusões de sempre.
Fui obrigado a retomar o papel de narrador no instante em que já tentava escapar para não interromper, nem com a minha presença, aquela animada discussão. Angiolino, naquele momento, com seus olhos já enfraquecidos, percebeu de relance a minha presença e não houve jeito nem de me retirar, nem de continuar a discussão deles. O que eu podia narrar era bem diferente do que conversavam entre si, por assim dizer, intimamente.
– O nascimento da indústria foi ajudado pela esquerda com vigor. Ainda mais, o próprio Estado se tornava o primeiro “cliente” da nova produção, sobretudo com as estradas de ferro, que já em 1885 chegavam aos dez mil quilômetros. Nasceram a Breda, as usinas de aço de Terni, a Edison... Para sustentar ainda mais este desenvolvimento chegou-se ao protecionismo, com a aprovação de tarifas alfandegárias tais que provocaram o rompimento com um nosso aliado natural, a França. Esta, obviamente, respondeu igualmente com importantes restrições comerciais.
As intenções do governo eram boas, mas o método errado. De fato, a indústria
podia se permitir uma atitude parasitária: sem concorrência, impunha baixos
salários aos operários e preços mais altos às camadas mais modestas obrigadas a
comprar. A hortofruticultura e a produção do vinho do sul, que dependiam da
exportação, foram definitivamente comprometidas com
conseqüências desastrosas. Mais uma vez o preço mais duro foi pago pelo sul e
pelas áreas mais pobres do Vêneto, obrigando-os à miséria e à emigração para as
Américas.
Somente alguns números: por volta de 1880 o número de emigrantes foi de aproximadamente cem mil pessoas por ano, em conseqüência da unificação. Em 1901 foi cinco vezes maior e em 1913 alcançava os novecentos mil! A emigração era feita em condições desumanas, com gravíssimas perdas e extremo sofrimento. E no entanto, graças às remessas dos emigrados o nosso orçamento se enriquecia...
– Malditos! Todos malditos!
Eu já havia previsto tal reação por parte de Angiolino. Embora esta não fosse a “sua” emigração, certamente quem melhor do que ele poderia compreender o que verdadeiramente significa deixar a sua casa, os seus amigos, as pessoas queridas e a sua própria terra? Não era este, portanto, o momento de insistir.
– A mudança política de tudo isto foi o improviso protetorado imposto pela França à Tunísia e a reação provocada na Itália. Sim, porque a Itália sentia-se já pronta a imitar os outros Estados europeus que haviam obtido colônias africanas e asiáticas sem qualquer esforço e com grande proveito para o seu comércio e o fornecimento de matéria-prima. Tanto que para começar, o governo, por reação, aceitou a proposta de Bismark, o chanceler prussiano, de estipular uma aliança “defensiva” conjuntamente com a Áustria. Na verdade, enquanto a Itália se comprometia a combater para a Prússia e para a Áustria na Europa, elas nos enganaram e não estavam dispostas a apoiar qualquer intervenção colonial da Itália.
A resposta dos irredentistas[16] a esta aliança não demorou, e um estudante triestino, Guglielmo Oberdan, preparou um atentado contra a imperador da Áustria. Descoberto, foi condenado e executado sem muitos escrúpulos. Além disso, a aliança fez com que o governo italiano providenciasse maior militarização do país...
– É justamente dos militares que "não" precisamos nos momentos difíceis!
– Mas infelizmente é isto que acontece! E pensar que alguns tinham até intenções imperialistas!
– O que é isto? – perguntava Luigia também curiosa..
– É que havia quem, pensando no império romano, julgasse que a Itália estava pronta para ser a rainha dos países do Mediterrâneo, seguindo as tradições imperiais da antiga Roma!
– Dá para rir. Não tinham sido capazes de juntar três pedaços da Itália sozinhos e estes militares já pensavam em bancar os imperadores! Mas não se pode rir destas coisas, porque eles acreditam nisto de verdade...
– E metem a pobre gente em apuros.
– Sim, porque quem paga não são eles, mas quem nada tem a ver com as decisões deles!
– O fato é que estas idéias levavam a Itália a desejar um “lugar ao sol”. Em 1880 pensava-se na África Oriental. Por lá tinham estado padres missionários como Guglielmo Massaia e exploradores como Antinori, Cecchi e Bianchi.
Em 1882 a companhia Rubattino, aquela da façanha dos "Mil" garibaldinos, comprava um pedaço de terra para o desembarque de mercadorias em Assab, no Mar Vermelho. Daí começou a ocupação do porto de Massaua para ir até o Sudão ajudar os ingleses. Foi assim que se procedeu no altiplano etíope contra a Abissínia e do seu negus[17] João IV. Este não perdeu tempo: surpreendeu uma coluna italiana em Dogali que foi totalmente dizimada. Um desastre que custou o cargo também ao Ministro das Relações Exteriores.
Entretanto, em 1887 falecia Agostino Depretis, que havia governado durante dez anos. O governo foi então confiado a Crispi, um dos homens mais batalhadores da esquerda garibaldina, homem desconfiado, irascível, intolerante às críticas e a qualquer forma de oposição. Um tipo feito de propósito para criar confusão!
o fim de um século
Este século até parecia não querer começar nunca. De fato, o século XIX foi tão rico de acontecimentos e de propostas para a Itália que dificilmente ainda poderiam acontecer tantas mudanças. Além do mais, os últimos anos daquele século não haviam ainda esgotado a carga de novidades que tanto fascinava os meus impacientes ouvintes.
– Parece que você não gosta muito desse Crispi! –provocava Angiolino.
– Não é bem isso. Tenho antipatia por todos os prepotentes, e Crispi era um deles. Admirador de Bismark, “o chanceler de ferro”, tinha a convicção que devia afirmar a potência militar italiana na Europa.
– Eis aí um outro exaltado!
– Dá para ficar um pouco calado, não?
– Antes de mais nada, a sua atitude filoprussiana provocou uma violenta reação da França, que iniciou uma guerra aduaneira em prejuízo da economia. Depois mostrou-se adversário acérrimo das organizações operárias e agrícolas.
– Um grande homem de esquerda, não há dúvidas! – Luigia ria disfarçadamente.
– Mas de uma esquerda que nada tem a ver com a esquerda de hoje! Entendeu?
– Em suma, também no campo internacional ele via conspirações em toda parte. Também no Vaticano. De forma que desencadeou uma violenta campanha anti-clerical para "felicidade e colaboração" dos católicos. Até mesmo se lançou ferozmente contra os irredentistas.
Por outro lado, é preciso reconhecer que a ele se devem importantes reformas: a lei sobre a saúde pública, a reforma do sistema penitenciário, a extensão do princípio eletivo às administrações locais. Com o código Zanardelli aboliu a pena de morte, dando um exemplo a todos os países europeus!
Entretanto, o espírito militar não o deixava sossegado, entregando-se então a
façanhas coloniais. Constituiu a Colônia Eritréia no Mar Vermelho, enquanto
estabelecia um protetorado italiano no litoral da Somália. Com a morte do negus
João IV, conseguiu colocar no poder um seu protegido, Menelik. Com ele estipulou
o tratado de Uccialli, que permitia uma nova
penetração
para o interior. Na verdade o tratado era uma espécie de trapaça, escrito em
dois idiomas, onde os termos de um não correspondiam com os do outro.
– Guerras, colônias na África! Será possível que quem nos governa não pensa nunca nos problemas das pessoas comuns?
– Não é bem verdade. Alguém tentou pensar também nas pessoas. Imaginem, estávamos no fim do século XIX, e no entanto já havia alguém com a mente projetada no nosso século.
– E quem era este fenômeno?
– Não sei se ele possa ser definido um fenômeno. O fato é que ele conseguiu dar modo de expressar-se a quem em milênios de história não havia conseguido.
Em 1891 Crispi teve votação contrária na Câmara sobre uma lei financeira e demitiu-se. Pouco depois eis que surge um novo primeiro ministro: Giovanni Giolitti. Era o primeiro presidente que não havia participado diretamente do Ressurgimento. Enfim, era uma nova geração! Além disso, era do Piemonte e agradava também ao rei. Mas este tinha um programa que para o seu tempo beirava uma revolução democrática. Não queria novos impostos, pelo contrário, queria até reformar o sistema fiscal que ele considerava escandaloso. Dizia que "era progressivo às avessas", isto é, em proporção os pobres pagavam mais do que os ricos!
– Que descoberta! Como se os ricos pagassem ...
– Além disso, pensava que as contrapropostas vindas dos camponeses e operários não podiam ser ignoradas e reprimidas. E deixou que os trabalhadores se organizassem livremente. E aí nasce o partido socialista dos trabalhadores ...
– Ateus e arranja-confusões: é o que nasce! – Luigia tinha prestado muita atenção e estava começando a revoltar-se ao ouvir falar de socialismo. – Já ouvi falar muito desses cavalheiros! E que idéias...
– Não, senhora Luigia, não deve generalizar. Os problemas que em seguida apareceram não devem ser atribuídos ao novo partido.
– Quando é para falar mal de alguém...
– Não é uma questão pessoal. Mas vamos prosseguir com ordem. Sabemos que se não se procede com ordem não se consegue compreender bem os fatos. Talvez seja melhor interromper por aqui. Escutem que confusão e gritos no “Due Fari”. Vamos lá ver.
No "Due Fari" naturalmente não acontecia nada de importante. Uma briga por causa da presença de quatro rapazes um pouco embriagados, daqueles que andam por aí com a mochila nas costas e pouco dinheiro no bolso. Em Manarola eles não são muito bem quistos. Muito ao contrário!
Pessoalmente, eu simpatizava com eles. Há pouco tempo eu também tinha a idade deles. Ou será que já passaram muitos anos? É melhor nem pensar nisso.
Em todo caso, no dia seguinte seria mais fácil continuar a conversa e dizer aos dois manaroleses que podia-se ser mais compreensivo com os jovens. Em tudo.
– A disponibilidade de Giolitti tinha impressionado até Filippo Turati, que, com a sua companheira de origem russa, Anna Kuliscioff, fundava o partido socialista ao qual aderiram intelectuais como Antonio Labriola e anarquistas como Andrea Costa. E iniciaram em grande estilo, com revistas e congressos e a fundação em Milão da primeira Câmara do Trabalho.
– Também os católicos faziam muitas reuniões! Não pensem que só os socialistas faziam tudo – rebatia Luigia.
– Certo. Havia também os católicos. Mas a proibição de entrar na política não facilitava as coisas...
– Mas o medo dos socialistas sim!
– O medo dos socialistas os despertou: isto é certo. Mas o Vaticano se opôs ainda por muitos anos à formação de um partido católico. Porém, haviam fundado a “Obra dos Congressos”. Porque foi assim chamada até hoje eu não sei. O fato é que esta associava em maior número os católicos, dependia do Papa e tinha ramificações nas dioceses e paróquias.
A finalidade era formar organizações capazes de defender os trabalhadores católicos no plano econômico e social. Finalmente, com um tal Toniolo e suas idéias nasciam por fim verdadeiros sindicatos católicos. Tudo isso se desenvolve principalmente no norte.
Entretanto na Sicília nasciam entre os camponeses os “Fasci”[18] dos trabalhadores, prontos para defender a população rural contra a miséria. E estimuladas por eles ocorreram desordens, enquanto que os trabalhadores das pedreiras de mármore na Lunigiana uniam forças com os operários das minas de enxofre sicilianas.
Em face das desordens, Giolitti não mandou intervir a força pública, pelo contrário, falou de um "imposto progressivo sobre a renda", revoltando os proprietários de terras, que queriam até mesmo proibir a instrução popular, porque segundo eles era fonte de rebelião das massas populares! Tentaram de tudo. Giolitti foi até envolvido em um escândalo bancário e acusado de não defender os italianos num incidente com morte de italianos na França. Tudo era propício para fazer confusão e derrubar o governo, e assim aconteceu.
À espreita já se encontrava Crispi que esperava retomar a sua política repressiva. Foi restaurada a lei marcial. O exército prendeu pessoas com base em simples suspeitas. O partido socialista foi dissolvido, limitou-se a liberdade de imprensa, mais de 100.000 cidadãos perderam arbitrariamente o direito de voto. A reação provocou em Milão a formação da “Liga da Liberdade”, que juntou não só socialistas e radicais, mas também os liberais mais sensíveis aos valores da democracia.
Mas Crispi não atacava somente no front italiano. Lembrava a derrota de Dogali. Mandou então que as tropas ocupassem Cassala no Sudão e rompeu relações com o negus Menelik, que não reconhecia o protetorado italiano sobre a Abissínia. Mas as tropas italianas foram derrotadas em Amba Alagi e Macallé.
Crispi estava furioso, e ao invés de proceder com tática ordenou um ataque contra Adua onde morreram 6.000 soldados italianos. Mais um desastre que provocou, finalmente, a saída de Crispi. Foi então selada a paz em Adis Abeba.
A política colonial acabava em nítida perda, enquanto na Itália desencadeavam-se saques aos seleiros, greves e perturbações. Diante destes fatos, a classe dominante e o próprio rei Umberto I pensaram em recorrer a um golpe de estado legal, mas o partido socialista tinha se reorganizado e imprimia todas as notícias em um jornal, o “Avanti”, que obtinha um incrível sucesso junto à opinião pública.
Em 1898, em Roma, Parma e Florença explodiam grandes desordens. O Governo, como resposta, convocou para o serviço militar mais uma classe de jovens, e em maio, em Milão, acontecia o episódio mais trágico. O general Bava Beccaris ordenou que atirassem contra a multidão que participava de uma manifestação, e uma centena de pessoas morreram. O rei teve a coragem de condecorá-lo e o nomeou senador!
– Quem teve um rei e um general assim não pode certamente vangloriar-se! Aliás, pelo que se disse até agora não parece ser uma grande novidade. O que fez o exército italiano até agora senão tornar-se famoso por repressões e derrotas!
– Exagerado como sempre...
– Exagerado qual nada! E além disso os exércitos são todos iguais. Já tínhamos dito...
– Porém são necessários.
– Não estou assim tão convencido disso. Entendo que diante de um perigo externo, principalmente naqueles tempos, um exército era necessário, mas para certas intervenções...
– Este não é o momento apropriado para discutir sobre isso. Já é tarde, e tenho somente tempo para acrescentar que os tribunais impuseram enormes condenações, universidades e câmaras do trabalho foram fechadas, também expoentes católicos que haviam apoiado e justificado os protestos populares foram presos. Um general foi nomeado primeiro-ministro e este tentou ver aprovado na Câmara um conjunto de leis que cancelavam os poderes do Parlamento. A esquerda socialista reagiu energicamente, adotando o método do obstrucionismo para retardar os trabalhos parlamentares, e então foi dissolvida a Câmara, marcando-se novas eleições. Em junho de 1900 as urnas deram uma resposta desfavorável ao rei.
– Como aquele outro rei imbecil... o francês da revolução... como se chamava? – Angiolino lembrava bem estes pormenores interessantes.
– Luiz XVI.
– Mas este era o supra-sumo da imbecilidade humana!
– Imbecil ou não, um mês depois, um anarquista, Caetano Bresci, matou o rei durante uma sua visita a Monza, para vingar os mortos de 1898. Começava assim, de maneira trágica e violenta, um século que devia trazer muita violência, até demais também para a Itália.
o século da falta de juízo
Não é fácil julgar a história, mas se eu tivesse que resumir o meu parecer sobre este nosso século diria que ele, mais do que os anteriores, é o século da falta de juízo. E isso não somente com base nas duas guerras mundiais que arrastaram também a Itália ou nos conflitos mais ou menos graves que envolveram diversos países do mundo e que parecem não ter fim, mas na convicção de que a atitude atual das grandes potências reflete uma evidente irracionalidade.
As rupturas entre nações que marcaram o início deste século e levaram à incompreensão e à loucura das duas guerras mundiais na primeira metade deste século, permanecem ainda inalteradas nas relações entre o norte e o sul do mundo, na sistemática destruição do meio-ambiente, na exploração da miséria e na ilusão de que este estado de coisas possa continuar sem que ninguém tenha que pagar no fim uma conta altíssima... É impossível enumerar os congressos, as organizações, as instituições nacionais e internacionais que se sucederam neste século. É no entanto possível e indiscutível afirmar que até agora não serviram absolutamente para nada.
– Então, finalmente, pode-se pelo menos dizer que a Itália existia. – Às minhas amargas observações gerais, Angiolino tentava contrapor alguma coisa de positivo.
– Voltando à Itália, sabemos muito bem que ainda não estava terminada a sua unificação. Territorialmente e culturalmente pelo menos, ainda ficavam fora o Trentino e o Friuli Venezia Giulia.
– As Terras Irredentas! Quanto se falou a respeito antes da grande guerra! – Como sabemos, a memória da Luigia não falhava nestes casos em que entravam os sentimentos!
– As terras irredentas! Eis uma definição que hoje ninguém usaria, mas que então se usava com a retórica do tempo. Palavras pomposas que escondiam muitas coisas erradas e inverídicas.
– Mas como? Se eram terras italianas!
– Certo. As que mencionei eram terras italianas. Mas só aquelas!
– O que você quer dizer com isto? – perguntou Angiolino suspeitando da minha má vontade em aceitar com serenidade e clareza certos períodos e certas decisões.
– Quero dizer que... Em suma, tenham paciência que ainda vamos chegar a esta grande guerra!
– Sim! Neste passo você vai embora sem acabar esta história da unificação da Itália!
Era verdade. Estávamos já no final de setembro. Os dias já estavam mais curtos e o mar, em certas horas, parecia mais escuro, e durante as tempestades certamente mais enfurecido. No dia primeiro de outubro recomeçarei o trabalho e estarei longe daqui.
– Mas voltarei, sem dúvida.
– "Talvez" você volte. Mas a promessa era de concluir a narração da unificação da Itália. Você prometeu e não pode negar. Por que deixar as coisas pela metade?
A Luigia devia ter sido uma mulher meticulosíssima no seu tempo, e lhe ficou ainda o seu modo de proceder um pouco intransigente para consigo mesma, mas que canalizava também para os outros.
– No próximo ano falaremos da história dos nossos dias e como chegamos até aqui – acrescentava Angiolino.
– No próximo ano veremos. Enquanto isso, promessa é promessa. Mas vocês não me deixam continuar, com todas estas interrupções!
Não sei se naquele momento eu sentia pesar. Deveria renunciar a algumas horas a mais de mar e de rochedos para chegar ao fim da narração que eu havia começado sem me dar conta há mais de um mês. E, no entanto, não me desagradava continuar os nossos encontros por algumas horas a mais.
– Faltam ainda alguns anos para a grande guerra, mas as mudanças no início de 1900 eram visíveis. Com o grande desenvolvimento da economia e da indústria, a burguesia tornava-se sempre mais fechada e agressiva com uma nova forma de nacionalismo que identificava os interesses da nação com os próprios interesses de classe. E estas idéias eram não só justificadas pelos intelectuais e filósofos, mas até mesmo exaltadas.
A Alemanha, que havia despedido Bismark, inicia com Guilherme II uma política
externa de aberto confronto, provocando a reação da França, Inglaterra e Rússia
que assinavam tratados
de aliança recíproca. Isto permitia a reaproximação de dois países, França e
Inglaterra, que durante séculos haviam lutado em frentes contrapostas.
A Itália entretanto, entre 1896 e 1913, vê aumentar a renda nacional em 50%. A indústria finalmente decola. A renda individual cresce em 30% e prosperam a indústria pesada, a produção de energia hidroelétrica... porém, a industrialização ocorre somente no norte do país. O sul fica reduzido à miséria e aumenta o fenômeno da emigração.
A nível político, o ministério de Saracco caiu já em 1901 e, embora assumisse o cargo de Primeiro Ministro somente em 1903, já desde então Giolitti governava de fato, em virtude da idade avançada de Zanardelli. Giolitti estava convencido de que a base popular era extremamente fraca, não obstante as instituições liberais e representativas: socialistas e católicos, por razões diversas, estavam excluídos da gestão do Estado. É verdade, no entanto, que Giolitti fingia não ver, por exemplo, como no sul se recorriam a métodos inescrupulosos para eleger mais candidatos pró-governamentais. Salvemini, então socialista, o denunciava de ser o ministro da "malavita"[19]. Todavia, a ação política de Giolitti tinha por finalidade ampliar as bases de Estado, convidando até mesmo Turati, chefe de uma ala de socialistas, a fazer parte do seu governo. E não importa que este tenha recusado. Não mudou por isso as suas idéias e continuou a favorecer as liberdades sindicais mesmo nas greves: ele era o tutor das leis. Quando a situação parecia desequilibrar-se, usava as eleições para que elas dessem o parecer do povo sobre o seu governo.
Depois nacionalizou as ferrovias, tirando-as dos interesses opostos de particulares em um momento de fortíssima expansão econômica. Promoveu obras públicas, favorecendo o desenvolvimento da indústria. Realizou o túnel do Sempione, melhorando enormemente as comunicações com a Suíça, o que aumentou notavelmente o volume do tráfego para o porto de Gênova. Depois converteu a renda nacional de 5 para 3,5%.
– O que significa isso? Você sabe que eu nunca tive muito a ver com dinheiro e com os bancos!
– Significa que diminuía o lucro para quem havia comprado títulos do Estado.
– E ninguém protestou?
– Certamente protestaram. Mas não houve aquela grande corrida para a venda que
se temia. Ainda mais, além de dar juros menores aos investidores, o Estado fez
diminuir o custo do dinheiro, favorecendo as empresas privadas. Pretendeu o
monopólio sobre os seguros de vida,
provocando inúmeros protestos, mas não desanimou. Continuou o seu caminho e os
lucros assim arrecadados foram destinados à Caixa para a velhice e invalidez
dos trabalhadores.
– Devíamos ter hoje um governo assim!
– Certamente também aquele governo não durou muito tempo. – Luigia via sempre os problemas com objetividade.
– Não durou muito de fato, mas não por sua culpa.
– Certamente deve ter acontecido outra guerra, não é isso? – Angiolino compreendia agora como funcionavam as coisas na história.
– Sim, justamente uma guerra. Mas não logo. Giolitti teve tempo de concluir outros trabalhos. Por exemplo, introduziu o sufrágio universal...
– Isto quer dizer?
– Quer dizer a possibilidade para todos de votar.
– Todos? Tem certeza? – Desta vez Luigia parecia não acreditar.
– Para todos os homens!
– É o que me parecia!
– Porém, a senhora deve compreender que estávamos em 1913. Naquele tempo, com exceção da Noruega, que era um país muito longe na Europa, as mulheres não votavam em nenhum lugar. Mas vamos voltar ao ano de 1882: Depretis havia aumentado o total de eleitores de meio milhão para dois milhões. Agora Giolitti, enquanto mantinha o direito de voto aos maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever, estendia esse direito a todos aqueles que haviam prestado o serviço militar e tivessem já completado 30 anos. Assim o número de eleitores passava para cerca de nove milhões e finalmente também os mais pobres conquistavam direitos políticos!
A importância de tudo disso foi clamorosa. De fato, não somente muito mais
italianos votavam, mas os italianos que votavam pela primeira vez pertenciam a
classes sociais que favoreciam os partidos populares. Acabavam para sempre os
tempos ligados aos velhos partidos
do século XIX. O número dos representantes socialistas na Câmara subiu para 52 e
também os católicos foram obrigados a entrar diretamente na política.
Foi então que entre as representações liberais e a União eleitoral católica foi assinado um pacto, denominado Gentiloni, nome do presidente da União. Este pacto estabelecia que os católicos deveriam votar nos liberais se estes se empenhassem em declarar-se contrários ao divórcio, à abolição do ensino religioso nas escolas públicas e a qualquer outra iniciativa anti-clerical. Assim os católicos, além de eleger seus candidatos nas fileiras dos liberais, davam mais um passo na participação política. Naturalmente, seus deputados não podiam ainda publicamente declarar serem católicos!
– E a guerra?
– A guerra estava chegando. Mas é preciso dizer onde ela nasceu, e para isto, é preciso voltar nos anos e tratar de diversos problemas.
– Fale então destes problemas.
– Antes de mais nada, após os acordos com a Áustria e com a Alemanha assinados por Crispi, o caráter da aliança tornara-se claramente sempre mais defensivo, permitindo uma mais lógica aproximação da Itália à França e Inglaterra.
Entretanto os governos que se seguiram preparavam a ocupação de um trecho da costa setentrional da África. A Itália obtinha liberdade de ação para ocupar a Tripolitânia e a Líbia. Assim, em 1911, Giolitti achou ter chegado o momento de reivindicar nossos "direitos" sobre a Líbia. E declarou guerra à Turquia, à qual a Líbia pertencia.
– Entramos em guerra!
– Guerra é modo de dizer. A Líbia era então somente um "montão de areia". Não tínhamos nada a ganhar com isso. Giolitti bem o sabia, mas tinha medo que a mesma fosse ocupada pela Alemanha, e os nacionalistas, que continuavam a fazer pressão agrupados na revista "Il Regno", também lhe incutiam medo. Queriam ação!
Em 1909 nascia o Futurismo, um movimento artístico importante para a Itália, que no seu manifesto exaltava "o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade, o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco, a guerra – única higiene do mundo –, o militarismo, o gesto destruidor dos libertários!"
– Ei-los! E aonde se chega com estas idéias?
– Aonde se chega, nós o sabemos agora. De qualquer modo, as idéias existiam e Giolitti e outros como ele tinham medo delas. Pensavam então em desafogar estas intenções fora da Itália, em um outro continente.
O nacionalismo, porém, não era somente uma propaganda de palavras, era acompanhado por uma crise da produção e da ocupação da Bósnia e da Erzegovina pelo império austro-húngaro, pondo em dificuldade as exportações italianas.
Portanto, a conquista da Líbia devia ser um desafogo. Infelizmente, as coisas com a Turquia não foram tão fáceis. Todavia, na primavera de 1912 a nossa frota ocupou as ilhas do Dodecanneso e chegou aos Dardanelos, assustando a Turquia.
A paz de Lausane que se seguiu permitiu nossa soberania sobre a Líbia, mas a guerrilha interna neste território nunca cessou, a tal ponto que ainda em 1922 foi preciso recomeçar uma espécie de reconquista da Líbia e em 1931 ainda se combatia...
e enfim a grande guerra
Finalmente chegamos. Chegamos à grande guerra, quero dizer, e no prazo que havíamos fixado para pôr a palavra fim a este nosso bate-papo: isto é, a unificação da Itália. E parecia que desta vez tínhamos estabelecido o prazo certo, pois era o último dia da minha permanência aqui.
Eu olhava com tristeza para o mar azul que com o seu infinito movimento batia contra os rochedos da abrupta costa de Cinque Terre, um mar que no seu fluxo contínuo havia visitado todos os continentes e voltaria logo para outras praias. No entanto aqui parece ser sempre o mesmo amigo, o mesmo companheiro da vida que não muda nunca.
– A grande guerra não teve somente um único motivo. Os conflitos que vinham se criando desde o início do nosso século eram numerosíssimos. Bem, nosso é modo de dizer, porque para a senhora Luigia... Todavia os conflitos eram diversos. Antes de tudo, entre ingleses e alemães. A indústria alemã progredia de forma notável no campo metalúrgico, mecânico e químico e ameaçava o primado inglês. A Inglaterra ainda mantinha uma vantagem na indústria têxtil, mas quanto ao resto... E ela não queria que outros a superassem na Europa: teria posto em discussão a sua supremacia mundial, e o programa alemão, que previa a formação de uma grande frota, já a havia obrigado a enfrentar enormes despesas para manter a sua supremacia no mar.
Depois, havia os franceses. A Alemanha arrancara deles os territórios da Alsácia e da Lorena e o nacionalismo francês exigia a revanche.
Os russos, por sua vez, não estavam gostando de ver o interesse dos austro-húngaros no império turco em desagregação. Sobretudo tinham interesse nos Dardanelos por onde passava o seu tráfego comercial.
E os italianos? Os italianos também desejavam expandir-se na península balcânica.
– Mas vejam só...
– É, sim. Nós também queríamos tomar algum território em outras partes, caso o império turco desabasse. E havia aqueles que queriam tirar da Áustria o Trentino e a Venezia Giulia, para terminar a unificação do país.
Todavia, todos estes motivos não teriam sido suficientes para desencadear a balbúrdia da grande guerra se não houvesse alguma coisa que os ligava e os exasperava: a exaltação da guerra e da violência! Parecia que estas hipnotizavam e fascinavam sobretudo a pequena burguesia e os ambientes de cultura média. E não vamos esquecer de acrescentar que a guerra era um ótimo diversionismo para os governos. Isto é, eram jogados sobre inimigos externos do país as tensões e conflitos internos e especialmente a incapacidade das classes dirigentes para resolvê-los.
"A guerra, o sangue, as chacinas, as privações, a crueldade não eram mais objeto de desaprovação e de repugnância e de vergonha, mas coisas necessárias para se chegar aos objetivos, se faziam aceitáveis e desejáveis, e se revestiam de uma certa atração poética, e até provocavam alguns arrepios de religioso mistério, uma vez que se falava da beleza que há na guerra e no sangue, e do heróico êxtase que somente deste modo é possível ao homem celebrar e gozar". Naturalmente eu estava lendo.
– Mas quem disse bobagens desta espécie?
– Bobagens desta espécie não foram ditas, mas escritas por Benedetto Croce, um grande filósofo daquele tempo, não para exaltá-las, mas para mostrar a todos a que ponto tínhamos chegado!
– Não me admiro do que aconteceu depois!! –insistia Angiolino.
– Certo! Não há motivo para ficar admirado, mesmo porque estas idéias não terminaram com a guerra ,mas, pelo egoísmo e pela miopia de quem dela saiu vencedor, originaram sucessivamente o nazismo e o fascismo.
Todavia, naquele tempo, era sobretudo a Alemanha que tinha pressa para chegar ao combate. Lá, os militares eram tidos em grande conta, e a riqueza que se acumulava nunca era suficiente. A população crescia, e aumentavam conseqüentemente também as importações de gêneros alimentícios. E como do ponto de vista industrial ninguém podia competir com ela, eis que toma impulso a idéia da superioridade cultural e técnica dos alemães e portanto a necessidade de que fosse a Alemanha a liderar uma confederação européia de Estados, aos quais ela designaria as tarefas mais apropriadas para que tudo funcionasse perfeitamente!
– Então a Alemanha dizia a todos os outros o que deveriam fazer e como fazer? Mas Hitler já estava lá?
– Ainda não. Mas já existiam as idéias que depois ele herdou e ampliou, aquele gênio!
– E a guerra?
– Bem, só faltava um pretexto. E esse foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua mulher em Saraive em junho de 1914. O arquiduque era o herdeiro do trono e queria estender os mesmos direitos dos húngaros aos eslavos. O assassinato demonstrou que os eslavos não queriam direitos, mas a própria independência!
Ao ultimato da Áustria que exigia a ajuda da Sérvia na repressão, esta respondeu negativamente, o que provocou a guerra. A Rússia, naturalmente interessada, ordenou a mobilização geral e esta, por efeito do acordo da Dupla Aliança com a França, reclamava também a mobilização do exército francês. A Alemanha respondeu com a declaração de guerra à Rússia e à França.
Os alemães pensam em uma solução rápida para a guerra com a derrota da França antes que a Rússia possa entrar em ação. Por isso atacam de surpresa pelo norte, invadindo a Bélgica. Grande vitória, certamente, mas que traz um monte de problemas e de antipatias para a Alemanha, porque a Inglaterra não fica impassível e coloca à disposição da França e da Rússia não somente o seu exército, mas sobretudo os recursos inexauríveis do seu império mundial. Assim, a guerra, que deveria terminar logo, estagna no front do Marne, na França. A guerra rápida se transforma então em uma guerra de trincheira que irá assim até o fim! Também o Japão entra na guerra ao lado dos aliados, enquanto a Turquia está do lado dos impérios centrais.
– E a Itália? Você não falou nada da Itália. Ela não entrou na guerra?
– A Itália vai aparecer daqui a pouco. Mas antes é preciso dizer que esta guerra não era como as anteriores. Antes as guerras eram uma questão que envolvia os exércitos, os governos e alguns pobres coitados que não tinham culpa nenhuma. Mas agora não, ela envolve toda a nação: a economia, a produção, a inteligência e a aprovação do povo, a política e toda a sociedade participam. Até mesmo a cultura entra em campo. É, sim! Os próprios intelectuais que haviam afirmado o valor universal da cultura se alinham de um lado ou de outro, inventando falsidades para justificar as mentiras da propaganda política e até mesmo pondo raça contra raça!
Enquanto isso, como as coisas estavam paralisadas, a Inglaterra pôs em ação o bloqueio naval para cortar os fornecimentos alemães. Estes iniciaram então uma guerra submarina que causou o afundamento do transatlântico inglês Lusitânia com mais de mil passageiros, entre os quais uma centena de norte-americanos. Os Estados Unidos logo entrarão também na guerra.
A Itália, ao contrário, desde 1914, visto que o ultimato da Áustria à Sérvia não fora acordado, poderia ficar neutra. Porém a opinião pública dividiu-se logo entre neutralistas e intervencionistas. Entre estes últimos estão os democratas republicanos e irredentistas e os radicais que querem a aliança com a França e com a Inglaterra para completar a unificação; e há também os nacionalistas, encantados com o militarismo dos impérios centrais, mas que na verdade gostam de guerra seja lá como for! Logo se faz líder destes um ex-socialista, Benito Mussolini, que poucos meses antes, como diretor do "Avanti", escrevia contra a guerra, e que agora, diretor do "Popolo d'Italia", se faz promotor e propagandista da necessidade da guerra! Os neutralistas são compostos pelos socialistas e pelos católicos, mas também por alguns personagens importantes como Giolitti, que tinham o apoio de amplas camadas da opinião pública.
Porém, enquanto se discutia em praça pública e nos jornais, o governo Salandra não consegue um acordo com a Áustria, que estava disposta a ceder o Trentino e a Venezia Giulia em troca da neutralidade, e assina com os aliados o pacto secreto de Londres, com a promessa de anexação do Trentino, do Sul do Tirol, da Istria, além das ilhas do Dodecanneso e talvez territórios na Turquia meridional e nas colônias alemãs. Agora devia-se dar uma feição popular à intervenção já decidida, e encenaram-se demonstrações em praças públicas muitas vezes violentas e intimidadoras contra os neutralistas e também a maioria do parlamento que era contrária à intervenção. O Parlamento, todavia, ratificou a intervenção impelido pelas violentas demonstrações nas praças: a democracia cedia diante da força! Era o dia 20 de maio de 1915.
E a guerra, para resumir, foi um verdadeiro desastre para a Itália, sob todos os pontos de vista! O nosso exército, após dois anos de desgaste da guerra de trincheira, sofreu uma tremenda derrota em Caporetto, enquanto nas fábricas explodiam revoltas contra a continuação da guerra, reprimidas com a força. O país sofria a fome e a miséria.
Enquanto isso, em 1917 explodia a revolução russa e no ano seguinte o novo governo assinava a paz em separado. Nesse ponto, a ofensiva final nas várias frentes é favorável aos aliados. Também a Itália vence em Vittorio Vêneto e, não obstante a resistência do exército alemão, a Alemanha é obrigada a se render. É a queda dos impérios alemão, austro-húngaro, czarista e turco. Os mortos foram milhões!
Os soldados de volta para casa, aos quais fora prometido um futuro melhor após a guerra, se vêem numa situação de tremenda miséria. São naturalmente as classes sociais mais fracas as que mais sofrem: camponeses que não encontram mais os poucos bens que haviam deixado, vendidos pelos velhos, mulheres e crianças para sobreviver. Os homens, exacerbados pelo culto à violência, não iriam aceitar passivamente esta situação. Preparavam-se os movimentos de descontentamento, de falta de confiança nas instituições democráticas, e da ilusão de potência e mentiras dos meios de comunicação que levarão à sucessiva catástrofe, que se chama nazismo, fascismo, violência, ditadura e guerra para todos... Ninguém, de resto, estava contente. Os aliados negavam algumas promessas e havia quem queria mais. Como D’Annunzio, que chefiando um grupo de soldados conquista Fiume e precisou levar tiros para que desistisse, evitando assim maiores problemas diplomáticos.
Contudo, um resultado tinha-se obtido: a Itália estava finalmente toda unificada. E, para dizer a verdade, tínhamos obtido alguns territórios a mais, como por exemplo, o Alto Ádige, como nós dizemos, ou Tirol do Sul, como o chamam os alemães, e que de italiano não tem nada. A mesma coisa também dizia um grande irredentista, Damiano Chiesa, que quem quisesse tomar Bolzano e Merano cometia o mesmo erro e a mesma prepotência dos austríacos... E também isto trouxe muitos aborrecimentos até hoje! Porém, mesmo com tantas contradições, a unificação estava feita, feita de esperanças, de sofrimentos e de muitas vidas sacrificadas de tantos homens que por tão longo tempo nela acreditaram!
Angiolino e Luigia não haviam dado sinal de suas presenças durante esta rápida conclusão que, estranhamente, ao invés de proporcionar alegria, deixava uma sensação de amargura ao pensar no futuro. O fim da narração não era certamente dos mais felizes em todos os sentidos, e muitas eram as recordações tristes e afetuosas que ambos tinham por motivos diferentes de tais fatos .
Além do mais, havia chegado a hora da minha partida e era inevitável que a nossa conversa fosse interrompida, com a tácita promessa de que a mesma continuaria no ano sucessivo. E houve entre nós uma breve saudação, uma despedida muito rápida, um sincero até logo, enquanto no horizonte, que escurecia rapidamente, apareciam as primeiras luzes dos lampiões dos barcos que de Monterosso saíam para o mar.
Um mar que nos lembrava a sua presença batendo as longas ondas sobre os rochedos, enquanto se acendiam uma a uma as luzes de Manarola, tão estupenda e irreal, assim agarrada ao monte escarpado que lhe serve de coroa.
Naquele ano, havíamos nos separado com a promessa de ainda nos revermos, e esta promessa, devo dizê-lo, todos os três a mantivemos pelos quase trinta anos que se seguiram. Porém, nunca mais foi como na primeira vez, refiro-me ao ano de 1975.
Explico-me. Devo dizer que, com Luigia e Angiolino, cresciam a cada ano a amizade e o afeto, além, obviamente, dos nossos bate-papos, mas conosco também crescia Manarola, que a cada ano tornava-se mais bonita, mais limpa, mais rica. Contudo, para nós, a cada ano ela se afastava, como se não fosse mais a mesma, a nossa Manarola, aquela que aos poucos, em épocas diferentes e diferentes momentos, tornara-se o nosso refúgio. Enquanto isso, os anos passaram voando, num piscar de olhos, marcados pela presença da tagarela Matilde, que havia nascido no final do ano seguinte, em dezembro.
Pouco antes, no verão de 1976, a tínhamos esperado, dividindo algumas opiniões ansiosas. Inexperiente, eu caminhava diante da novidade como um sonâmbulo, sonhando sabe-se lá o quê, tropeçando nas amarras dos barcos ancorados e deixando meu anzol sem isca de molho. Luigia, ela, que era realmente experiente, tinha uma atitude tão protetora e compreensiva que enternecia. Angiolino, ele, sentado à sombra no seu banco de pedra que era sempre o mesmo, pelo menos este, caçoava como sempre com ar divertido. Que audácia, ele já tinha passado por isso havia muito tempo, mas eu...
Todavia, tudo isso não impedia que Luigia parecesse sempre um pouco ácida, impaciente, ao ouvir as primeiras novidades. E como se enfurecia quando eu insistia dizendo que sim, que algumas coisas haviam mudado, mas que no fundo era natural, normal, que desde sempre as coisas estavam continuamente mudando.
“Sim, sempre aconteceu, mas não com a rapidez de hoje em dia que mal dormes uma noite e na manhã seguinte já viraram tudo do avesso!!” enfurecia-se Luigia. Então eu pensava: menos mal que vive em Manarola. Aliás, eu gostava mesmo daquele lugar justamente porque parecia mudar com muito menor rapidez que todo o resto do mundo.
“Quer comparar – eu tentava dizer – com o que acontece em Milão? Lá em cima...”, mas eu não conseguia nem terminar.
“Milão, sempre Milão! Eu vivo aqui, em Manarola! E Milão pode mudar quanto quiser, mas da minha Manarola eu gosto assim como é! Dá pra entendeeer?”.
De tanto insistir, juntamente com Angiolino, que nesse ponto lhe dava sempre razão, o que era coisa rara, eu também acabei por me convencer disso. Até mesmo porque os dois me olhavam quase com ar de compaixão e repetiam: “Se você mudar alguma coisa está frito! Pois fique sabendo: ‘Nunca se volta atrás!’.”
Os anos correram, e já tinham sido tantos durante os quais nós ficávamos no nosso canto, olhando com excessiva condescendência a travessa da Mati, que a cada dia tornava-se mais destemida e pretensiosa, “um pouco mimada demais e, além disso, é filha única!” como me repetia Luigia. E depois, a Mati, que sempre fazia Luigia se derreter olhando-a com seus grandes e belíssimos olhos, tanto que Angiolino, indicando irônico a lápide, dizia “olha, olha a vovó como se comove”, tinha crescido, passado pelo jardim, escola, segundo grau, viagem aos Estados Unidos, Universidade... e depois o trabalho, em suma, eu, por causa disso tudo não conseguia mais pensar como um professor, segundo Luigia. As nossas conversas tinham prosseguido sim, mas freqüentemente eram interrompidas pelos anos e por aquela menina, sempre menos menina, e pelas novidades da rua que descia ao longo do córrego até o Aristide, pelos novos bares, restaurantes, lojas e pela maré de gente que se espalhava pela pequena aldeia sufocando-a enfim. Sim, Manarola hoje não é mais a mesma!
Imaginem, agora até a Ponta não é mais a Ponta. Tiraram as videiras que aqui em baixo, com tenacidade, desafiavam as ondas durante as tempestades, exibindo depois nos brotos incrivelmente contorcidos e murchos pela água salgada os sinais das batalhas sofridas. Assim sendo, hoje o breve caminho costeiro que surge por trás da Ponta ainda conduz ao seu cume encurvado, queimado pelo sol e surrado pelo vento. Mas no local foram colocados um parque de diversões e um pequeno jardim público, com grama rala e algumas flores, que dominam soberbos sobre um mar que o é ainda mais!
Tudo ali, logo abaixo do famoso cemitério. E Angiolino, sem ser visto, ou pelo menos é o que ele pensa, sobe pesaroso e senta nos bancos por longo tempo observando o horizonte. De vez em quando, dá uma olhada para trás, mais imaginando do que vendo os túmulos do outro lado do muro. “Está se familiarizando com o condomínio”, pisca o olho, venenosa, Luigia, quando ele desce silencioso. Logo ela, que nunca viu nenhum condomínio, já que em Manarola não tem sequer um, “Mas bisbilhoteira como é, imagina se não sabe como são!!”, retruca Angiolino ressentido.
É isso mesmo. Os anos voaram, e somente agora nos encontramos aqui ponderando que nunca mais tivemos uma boa conversa toda de um só fôlego como antigamente, não mais assim com tanto prazer. Porém, devo acrescentar que nossas conversas não tinham se interrompido. Tinham continuado, aos poucos, um ano após o outro, e bem no fundo, sem que nenhum de nós comentasse, sentíamos um certo prazer em não terminar nunca, em deixar sempre um pouco para o ano seguinte, como se fosse a garantia segundo a qual teríamos que voltar a nos encontrar obrigatoriamente. E, em meio a todas as mudanças que a vida pode trazer, assim foi.
a propósito de guerra
Lembro-me muito bem daquele ano. Falava-se até mesmo em cobrir o riacho que corta em dois o aglomerado de casas, desde a Praça até lá em baixo no cruzamento da ferrovia, defronte ao Aristide. Uma revolução urbanística para Manarola: imaginem que, após séculos em que somente a pé podia-se descer até a Marina Piccola, haviam alargado e asfaltado uma passagem desde a Praça até o adro da igreja românica, como primeiro passo. Dali, a íngreme escadaria da sombreada rua Discovolo, asfaltada, transformava-se numa rampa que descia abrupta e de repente saía na claridade junto ao torrente e, costeando-o, ia até o Galleria[1] da estação ferroviária. O pontilhão arqueado que passava por cima dos trilhos à direita já tinha sido feito há muito tempo, e depois havia o curto trajeto até o mar.
Certamente, já de início, isso parecia uma revolução! Podia-se chegar até a padaria com o apecar,[2] para encher as cestas com os pães cheirosos e os bolos frescos pela manhã! Mas agora falavam em “fazer uma estrada” em Manarola! Mas desde quando tinha-se ouvido falar nisso?
Na estrada para Palaedo, de dia, e nos bancos da Marina, à noite, o assunto para discussão estava garantido, e Angiolino não perdia a chance de dizer o que achava. Por isso só me restava ficar confabulando com Luigia, sem me ressentir pelo fato.
Eu estava com a cabeça noutro lugar, como já disse, por isso, entre nós, o tempo era preenchido mais por longos silêncios pensando num futuro cheio de novidades, do que por palavras. No entanto, foi precisamente o assunto da estrada que nos levou à guerra. Primeiro foi Luigia, sabe-se lá por que, que um dia lembrou Angiolino que “realmente foi necessária a Guerra Mundial” para fazer com que a ferrovia também passasse por ali.
“Tu, que até quando discutes na praça a gente ouve” – dizia Luigia dirigindo-se a Angiolino que ficava silencioso por longos períodos – “sequer sabes que a ferrovia foi feita depois da Guerra Mundial, aquela de quinze-a-dezoito se queres saber!”.
Assim, a partir daquele dia, como num jogo de crianças, tacitamente me esperavam com impaciência, para voltar um pouco de cada vez, com Luigia, àqueles poucos dias de então, em que narramos reciprocamente os episódios que aconteceram, começando de quando alguém colocou na cabeça a idéia de fazer a Itália.
O mar abaixo era uma esmeralda translúcida, e eu estava arrependido por não ter trazido a linha de pesca. E talvez a minha distração tenha ajudado Angiolino a irritar-se ainda mais com as palavras de Luigia. Por isso olhava carrancudo na minha direção pedindo uma confirmação.
Apanhado de surpresa como sempre, eu gaguejava: “A Grande Guerra Mundial... sim,... podemos falar... mas sobre a construção da ferrovia eu não sei de nada!! Devemos aceitar o que nos diz a Senhora Luigia, que estava presente. Eu não sou o senhor sabe-tudo! E de ferrovias não sei lá grande coisa. Aliás, eu nem gosto de trens!”.
Porém, haviam me encurralado, e eu devia ficar bem atento ao que dizia, porque, segundo Angiolino, não sopravam bons ventos. O que não era uma novidade.
basta de falar do século XIX!
“As eleições políticas de 1900, aquelas sim foram importantes para a história política da Itália unida! Havia sido eleito chefe do governo um tal Giuseppe Zanardelli, do qual as pessoas lembravam muito pouco, mas que vinha do liberalismo progressista.”
“Ainda estamos na esquerda histórica!” Era Angiolino que, apesar do mau humor, queria mostrar que sabia do que falávamos.
“Certamente, esquerda histórica” eu confirmava “e vejo que não esqueceste. Precisamente por isso, este Zanardelli pensava em resolver os conflitos sociais permitindo a inclusão das classes subordinadas na vida política.”
“Classes subordinadas! Diga logo proletários...”, sobreveio Angiolino
“Sim, proletários, mas não só. É que, naquele tempo, era melhor não usar este termo; aliás, Zanardelli certamente não o teria usado, para não provocar uma revolta no seu próprio partido! De qualquer modo, Zanardelli logo se foi, deixando o lugar para Giolitti.”
“Giolitti! Dele eu também lembro. Mas não estás voltando um pouco demais no tempo? Não somos crianças. E se tu soubesses quanto discutimos durante o inverno. A história que nos contaste está toda na nossa cabeça!”
“Está bem, mas vocês lembram que era ele quem tentava reformar o sistema fiscal? E que também devia levar-se em consideração os camponeses e operários e os seus pedidos? Por isso deixou aos trabalhadores liberdade para se organizar livremente. E então nasceu o partido socialista dos trabalhadores...?”
“Anticristos e baderneiros: eis o que nasceu!”, Luigia certamente se lembrava, até do que havia pensado e já estava se irritando.
“Ouvi falar desses cavalheiros! E que idéias...” Angiolino não podia deixar escapar esta ocasião para ironizá-la. Recomeçavam os costumeiros bate-bocas...
“Está bem, digamos então que ele queria somente conciliar os interesses da burguesia industrial com as expectativas dos camponeses e operários. Assim vocês ficam satisfeitos. Imaginem que ele até tentou deixar entrar no governo nada menos que Turati. Precisamente Filippo Turati do partido socialista...”
“Sabia aonde acabaríamos... e depois eu não tenho razão!”
“Porém, também vai lhe agradar, senhora Luigia, saber que ele fez leis em defesa do trabalho, das mulheres e das crianças. Porque o trabalho de menores ainda era muito difundido. E também fez leis sobre os acidentes, a velhice e a invalidez. Aumentou os juros e o dinheiro para as obras públicas tentando obter o apoio justamente dos socialistas e católicos...”
“Ele queria todos: mas como é possível?” – Angiolino sacudia a cabeça.
“É possível porque Turati também não era um cabeça-quente, como diz a senhora Luigia. Era um reformista moderado, mas representava somente aqueles que estavam em situação melhor entre os operários e camponeses. A esmagadora maioria, no entanto, ficava fora da política de compromisso de Giolitti. E então, estes últimos opunham-se de todas as formas a um acordo de colaboração com o governo. Queriam a revolução socialista, o máximo que se poderia obter. Por isso foram chamados pelos outros de extremistas. E em Bolonha, no congresso de 1904, são a maioria. Porém assustam a todos e por isso perdem as eleições políticas!”
“É sempre a mesma história da esquerda: brigam entre si e perdem sempre...”, diz Angiolino.
“Os trapos sempre acabam no lixo!!”, sentencia em resposta a senhora.
“Ah! Do Manzoni papa-hóstias te lembras sempre, não é?”
“Se tu tivesses ido um pouco mais à igreja, ao invés de ir à cantina do Bramante...”
“Na igreja! Ouçam essa! Tu mesma, só para começar, faz mais de cem anos que não vais à igreja e, portanto, não podes saber...”
“Vocês querem ouvir sobre a guerra mundial ou querem brigar? O que eu devo fazer? Deixá-los?”
O tom era de repreensão e ambos pareciam surpresos. Talvez eu estivesse exagerando.
“Mas Giolitti não fazia todas estas propostas pelo seu bom coração! Os interesses da burguesia estavam em jogo. Na verdade, a crise econômica do fim do século precedente tinha ficado para trás e havia a perspectiva de um considerável desenvolvimento para a Itália que, finalmente, via aproximar-se a possibilidade de uma decolagem industrial: siderurgia, setor têxtil e o moderno setor hidroelétrico... E o orçamento também melhorava com o equilíbrio. A lira adquiriu força e credibilidade, e, ao mesmo tempo, as pessoas se transferiam dos campos para a cidade porque ali encontravam trabalho. O que havia acontecido na Grã-Bretanha, no fim do século XVIII, e anteriormente na França e na Alemanha, no século XIX, também chegava na Itália com seus benefícios e suas mazelas: os verdadeiros guetos onde os operários eram obrigados a viver amontoados e em horríveis condições higiênicas...”
“Bela conquista a industrialização! Sujeira e escravidão!”
Angiolino e eu nos viramos atônitos na direção da lápide lisa. Jamais teríamos esperado este comentário crítico de Luigia. Mas sentíamos nas narinas o perfume do mar misturado com o das videiras que ainda marcavam a Ponta com linhas verdes e cachos ansiosos por se mostrar em sua rija plenitude. Naquelas encostas outrora tão isoladas do resto do mundo, o trabalho devia ter sido forçosamente duro. Para homens e mulheres. Contudo, o comentário de Luigia continha um orgulho e um sentimento de liberdade que era o próprio gosto pela terra, pela própria terra com seus sulcos traçados diretamente pelas suas mãos.
“O partido socialista foi derrotado, mas quanto mais cresciam as fábricas, mais crescia o próprio partido e, apesar das recusas de colaboração que recebia, Giolitti continuava fazendo propostas neste sentido, mesmo quando o mais conservador do seu partido, Sonnino, conseguiu substituí-lo no governo. Sonnino pensava que o governo devia administrar tudo, até as reformas sociais, assim como ele queria...”
“Em suma, um “Duce.” – irrompia Angiolino.
“E se fosse um Stálin!! Não era a mesma coisa que queria aquele bolchevique?”
“Não, não! Nem um ditador nem um bolchevique! Porém, vocês dois têm um pouco de razão. De fato, já era um sintoma de um modo de administrar as questões de forma autoritária e pessoal: um prazer que depois custou caro para todo o século. Porém, Giolitti também tinha os seus defeitos; primeiramente porque os seus interesses eram dirigidos somente aos trabalhadores setentrionais, deixando à margem os problemas agrícolas do sul. Ao Sul dispensava sempre e somente o mesmo tratamento dado por todos os governos desde a unificação: uma intervenção aos bocadinhos, e, nem suficiente ou decente, clientelismo para controlar as pessoas e negócios com grupos da máfia e da camorra, que procuravam apoio e aprovação política. Os pobres, no entanto eram oprimidos pelos impostos do estado e pelo abuso dos prepotentes. Devemos nos espantar se muitos decidiam ir embora, emigrar? Em poucos anos, foram centenas de milhares os camponeses que abandonaram o sul.”
“Está vendo o que faz o anticristo! Pior que isso...”
Mas a referência à emigração fez morrer as palavras na boca da senhora vendo a sombra escura que passava nos olhos de Angiolino.
“Era uma verdadeira fuga. Economistas e intelectuais fizeram-se ouvir, e Giolitti pensou em conter os protestos com a ‘conquista do quarto território’. Retornava-se à África para conquistar terras! Para contentar os coitados que tinham sido reduzidos à miséria, lançavam-se contra quem era ainda mais pobre e indefeso que eles. Com que direito? E o direito à liberdade dos povos que havia sido conclamado durante todo o Ressurgimento e que ainda se ostentava contra o Império Austro-Húngaro?”
“Mas para a África...!”
“É sim, a África não é um país civilizado, não é mesmo? Primeiro vocês colonizaram o sul da Itália e depois a mão escorregou mais para baixo, não é verdade? Não bastava o norte para vocês!”
“Hei! Agora não vamos fazer disso uma questão pessoal! Existiam pobres no sul e no norte como agora. Não é isso que eu queria dizer. Eu queria refletir sobre o fato de que muitas vezes, quando se trata dos outros, pisoteiam-se, sem nem mesmo ver, os mesmos direitos que pleiteamos recentemente. Assim foi-se para a África e mais especificamente contra as ilhas do Dodecaneso, aquelas defronte à península balcânica, até porque eram dos turcos!”
“E até correu tudo bem para eles!”, arriscou Angiolino.
“Correu sim! Em 1911, em pouco tempo os italianos conquistaram os territórios costeiros de Trípoli até Tobruk. Tudo terminou com a paz de Losanna, com a qual a Itália tomava para si a Líbia e também o Dodecaneso. E a coisa me diz respeito de perto, porque no meio, na conquista da Líbia, estava o meu avô, meu avô ‘Barba’.”
“Não diga!! Não é possível que o seu avô...” – disse Luigia incrédula.
“Mas é. Ei! Não que meu avô comandasse ou algo do gênero: porém, foi dali que ele recebeu a medalha de ouro e, deixem-me pensar: em Edolo, em Merano e também tem um monumento na Praça Castelo em Milão, se não me engano, sim, dois ou três monumentos que o retratam ‘no gesto heróico’!”
“Heróico o queeeee??” – desta vez a surpresa era genuína em ambos.
“GESTO HERÓICO: assim diz a motivação e as lápides. Agora explico. Na guerra da Líbia, também foram enviados os alpinos. O que eles tinham a ver com o deserto líbico não sei explicar, mas vá você entender a lógica dos militares. Talvez porque estavam bem acostumados ao cansaço, mais que os asnos e mulas que levavam atrás com as peças de artilharia. O fato é que um dia eles encontram-se em um fortim e ali foram alvo de não poucos ‘abissínios’, como os chamavam. De resto não haviam lhes ensinado a geografia antes de levá-los para lá. Bem, apareciam de todos os lados. Disparavam como loucos com as sucatas que lhes davam como fuzis: os mosquetes, armas que depois de um certo tempo são mais perigosas para quem dispara do que para os outros. Bem, depois de não sei quanto tempo, não havia mais munição e os ataques continuam desabando sobre eles aos vagalhões. O desespero faz usar os fuzis como clavas, segurando-os pelo cabo, mas os canos estão quase incandescentes de tanto dispararem...”
“Pobres rapazes... pobres rapazes...”
“Morrer ali, longe de casa, meu avô não aceitava! Então viu uma enorme pedra que estava ao lado da parede sobre a qual ele estava. Apanhou-a e, levantando-a acima da cabeça, lançou-a com a força do desespero contra aqueles que subiam, esmagando alguns. Talvez porque meu avô era grande e forte, eu mesmo o vi derrubar um cavalo desgovernado com um soco, talvez porque, em certos momentos, nos tornamos um Hércules que levanta o mundo, o fato é que ‘o inimigo superior em forças’ ficou amedrontado, até porque todos os outros logo o imitaram, visto o sucesso. E conseguiu se safar, como diz meu amigo Graziano.”
“E fizeram-lhe monumentos... e uma medalha de prata, uma de ouro...”
“Pare, vamos com calma. Naquela ocasião, deram-lhe somente o posto de sargento-maior. As medalhas vieram muito, muito depois. Aliás, sabem quando ele recebeu aquela de ouro? Quando já estava no caixão, no dia do funeral, e o seguia um oficial com a pluma branca e um piquete de honra. Sim, porque meu avô era um tremendo anti-facista, e o regime não o via de bons olhos. A medalha nem queriam lhe dar: depois decidiram dar a de prata. Os monumentos também vieram muito depois...”
“É incrível como de repente a gente se vê no meio da história! Exatamente como aconteceu comigo quando Mazzini passou pela cantina do Bramante...” – repetia para si Luigia.
“Ah! Agora começaste a gostar até do Mazzini, só porque te sentes importante, não é? Mas tens alguma coisa escrita sobre o teu avô?”
“Na verdade não, não eu. Mas tenho uma tia, que se chama Tranqüila, que tem um álbum com diversas fotos e escritos sobre esta guerra da Líbia e também tem meu avô e o fortim... Quando eu era menino, de vez em quando ela me mostrava o álbum!” “Todavia, esta guerra causou grande confusão em toda Itália. Em primeiro lugar, entre os socialistas o grupo reformista, que realmente tinha apoiado a guerra, foi expulso. A maioria permaneceu pacifista, mas a extrema esquerda maximalista, que assim conseguiu prevalecer, excluiu para sempre qualquer diálogo com Giolitti.”
“E adivinhem quem a comandava?”
“Boa pergunta! É você o professor, e não nós!”
“Benito Mussolini, eis como se chamava!”
“Nãão!! Benito Mussolini?? Tinham me dito que ele tinha sido socialista, mas eu não queria acreditar!! Não, não acredito! E daqueles mais raivosos!” –Angiolino seguia repetindo quase furioso.
“Bons elementos, bons elementos! Aqui está de onde vêm todos: do socialismo e de outros grupos do gênero!” Se pelo menos ela ficasse calada, de uma vez por todas!
“Separados, os socialistas deveriam ainda assim agradecer Giolitti que havia sancionado em 1912 o sufrágio universal! Pela primeira vez votavam todos: os homens naturalmente, que tivessem completado os 21 anos e cumprido com o serviço militar, mas também os analfabetos, desde que tivessem 30 anos”.
“E as mulheres, como sempre! Lógico! Fechadas em casa e quietas! Homens!!” – diz prontamente a Luigia.
“Essa eu queria ver: logo tu, fechada em casa e quieta!! Podes imaginar?” – e me piscava o olho.
“Assim os socialistas achavam que tinham conseguido, mas Giolitti era mais astuto e via mais longe que eles. Conseguiu colocar no meio os católicos, pelo menos aqueles que haviam fundado a união eleitoral, que era a única associação do tipo que contornava com um expediente a proibição de Pio IX, aquela do ‘No Expedit’, a que impedia a todos os católicos de entrar na política. Assim, com Gentiloni, chefe político dos católicos, o próprio Giolitti firma um acordo e, nas eleições de 1913, os dois tiveram a vitória na mão.”
“Eis os traidores! Com Giolitti!” Para Angiolino o fato não caía bem, óbvio e se irritava ainda mais.
“Por que traidores? Visto que deviam escolher com quem se metiam? Com os vermelhos, e ainda por cima chefiados por Mussolini?? Então, me digas tu?”
E desta vez Angiolino estava realmente atordoado. Não sabia mesmo o que fazer. Zangar-se com Luigia e os seus católicos ou dar um pontapé num partido socialista que colocava Mussolini na primeira fila?
“Porém... há um porém! Haviam vencido as eleições juntos sim, mas a surpresa foram os inúmeros candidatos católicos que foram eleitos nas listas liberais. Junto com os conservadores do partido, foram eles que imediatamente despediram Giolitti, logo ele que havia construído o astucioso expediente para burlar os socialistas. Em março de 1914, teve que ir embora com o rabo entre as pernas e subiu ao poder Salandra.”
“Afinal, esse Giolitti bem que merece!”, resmungavam juntos os dois.
“Eu não teria tanta certeza. De fato, depois de somente três meses, estourava a primeira guerra mundial: a grande guerra!”
o desastre da guerra mundial
“Certamente tudo começou com o assassinato do arquiduque em Sarajevo por um patriota servo. O arquiduque era o herdeiro ao trono austro-húngaro...”
“Um atentado terrorista, em suma”, diz prontamente a Luigia, “como agora!...”
“Mas que atentado terrorista que nada. Se todos aqueles que atiram são terroristas...”
“E por que não deveriam ser terroristas? São, não é? Professor, o que tu achas?”
“Certamente a coisa não é tão simples. Cada patriota, olhando bem, no início é um terrorista para aqueles que estão do outro lado. Vejam hoje os palestinos: são terroristas porque querem retomar dos hebreus a sua terra? No entanto, os chamam assim, e os israelenses que minam as casas deles e as derrubam com buldôzers e mísseis, não são então? Mas são sempre os mais fortes que fazem a história. Assim, para os nazistas, a resistência era formada por terroristas, mas quando o exército alemão fazia os massacres das Fossas Andreatinas ou de Marzabotto, o que era? Um vendedor de amendoins?”
“A verdade é que o mais forte sempre tem razão ou a toma para si: é assim! Eu vi tantas, tantas destas situações...!” –, continuava repetindo a senhora.
“O caso é que, terrorista ou patriota o autor do atentado, no dia 28 de junho de 1914, o arquiduque foi morto. Morto na hora. Terminava a chamada “bella époque” e começava um conflito nunca visto, destinado não só a mudar, com a queda dos quatro grandes impérios, arranjos geopolíticos consolidados há séculos, mas também porque, desde o início, estava transformando-se numa feroz e apocalíptica carnificina, nunca antes vista, que quase levou ao aniquilamento recíproco das duas formações que se opunham, os Impérios Centrais, ou seja, Áustria-Hungria, Alemanha e Império Otomano, aos quais se uniu a Bulgária, contra as chamadas forças Aliadas, isto é, França, Rússia e Grã-Bretanha, às quais sucessivamente se uniram a Itália, que considerava o conflito como uma espécie de última guerra de independência, o Japão e os Estados Unidos da América.”
“Professor, tu pareces um livro impresso! Pára um pouco para repetirmos a lista: Áustria-Hungria, Alemãnha e Império Otomano... Bulgária, França... depois tu disseste Rússia e Grã-Bretanha... Itália e Japão e Estados Unidos da América... Pela miséria! Tens razão. Quase não consigo mais acompanhar tantos nomes! Por isso a chamam mundial... e grande guerra!”
“Sim! Partindo dos Bálcãs, que era há tempos um foco de crescentes tensões devido ao desejo das populações eslavas, entre as quais os eslovenos, croatas, bósnios e outros, de libertar-se da dominação do império austro-húngaro, era a primeira vez que uma guerra juntava também potências até então fora das questões européias, como os E.U.A. e o Japão, que, na época, quase nem se sabia onde ficavam! E, além disso, foram usados armamentos desconhecidos como tanques e aviões, e até mesmo submarinos! Imaginem só.”
“O resultado foi que centenas de milhares de soldados foram obrigados a combater em condições que nunca haviam experimentado, mas com certeza desesperadoras, inimagináveis, enterrados no lodo de quilômetros e quilômetros de trincheiras que deviam escavar eles mesmos e mandados, sem consideração, para o massacre por generais imbecis e desumanos, para ganharem algumas dezenas de metros de terra!”
“Bucha de canhão! Ah! Se me lembro! Quantas vezes eu ouvi por aqui e quantas mulheres e mães choraram! Heróis, sem dúvida! Mas para elas, a que serviam heróis mortos?”
“No início, depois que os sérvios não haviam obedecido ao ultimato do império austro-húngaro, juntou-se logo a Alemanha, que na verdade era então o Império Prussiano. A eles interessava tomar da França as bacias do Ruhr e do Saar, onde havia ferro e carvão para a indústria! E venciam o primeiro ano. Depois, até graças à intervenção dos italianos e dos americanos, a situação inverteu: Alemanha e império austro-húngaro foram forçados à rendição. Já era o ano de 1918. Foram, no entanto, quatro anos de sofrimentos atrozes, que conseguiram anular, com dez milhões de mortos, uma inteira geração de pessoas e que terminaram, para os principais derrotados, isto é, Alemanha e Áustria, com uma paz, aquela de Versalhes, tão humilhante que fez com que cultivassem os mais profundos sentimentos de raiva, pela humilhação, e de desforra que resultaram, depois, em 1939, na segunda grande desgraça mundial”.
“Já terminou a guerra? Num piscar de olhos? É tudo?”. Angiolino estava insatisfeito e se fazia ouvir.
“Que piscar de olhos! Eu sei que durou três anos: se diz a guerra de “quinze a dezoito”, não?”, Luigia pedia confirmação.
“Sim, não foi tudo tão rápido. A guerra durou de 1914 a 1918! É que a Itália entrou no conflito somente em 1915.”
“E tinha gente que nem queria a guerra, não queria mesmo. Não é verdade?”, insistia a senhora Luigia.
“De fato é verdade. Havia intervencionistas e não intervencionistas.”
“Pacifistas!”, diz a Luigia.
“Qual, pacifistas! Vamos devagar. Naquela época, estas idéias ainda não estavam bem claras e nem haviam nascido. Digamos que havia a internacional socialista que inicialmente não queria a guerra...”
“Mas isso tu já disseste da outra vez!”
“Sim, é verdade. Só que ele contou tudo tão depressa e eu ainda quero voltar ao mesmo assunto. Entendeste??” Quando Angiolino queria alguma coisa não desistia facilmente!
“Não quero me apressar! Adiantei um pouco os resultados para depois retornar e ver o que mais nos interessa! De resto, vocês acabam de dizer que já havíamos falado disso!”
“Certo! Mas há quanto tempo! Discutimos sobre isso, sim, e é exatamente por isso que nos pareceu que ainda havia uns buracos!! Em resumo, coisas que não entendemos!”
“Então está bem. Amanhã com calma falaremos disso.”
“Amanhã, amanhã! Agora que eu estava gostando!” Desta vez era Luigia que se lamentava.
“Porém, já é tarde mesmo. Nem nos demos conta que as pessoas nos estão olhando de um jeito estranho. Aliás, para dizer a verdade, olham para vocês, pois quanto a mim... quem poderia reparar em mim?” E ria-se.
Bem! Angiolino e eu, nestes casos, nos olhávamos sem dizer nada até que estivéssemos fora da vista. Depois nós também sorríamos afetuosamente, piscando o olho. Sim, porque Luigia, embora já tivesse passado mais de um século e estivesse ali, naquela lápide, cada vez mais desbotada pela chuva, pelo tempo e gasta pela maresia, não tinha esquecido que era uma mulher. E como tal fazia questão, a qualquer custo, de chamar a atenção e pôr-se em evidência!
intervencionismo e neutralismo
Na manhã seguinte, o tempo parecia de outono. Vento de tramontana: varria as ondas acavalando-as, brancas de espuma e túrgidas, com uma violência impressionante. A água estava escura e ameaçadora. Não tinha como pescar, obviamente; nem Angiolino pôde sair de barco com o irmão, nem eu teria ousado lançar a minha mísera linha de pesca naquele turbilhão.
Na Marina, olhávamos as ondas rebentando-se contra o rochedo do cais com a violência de um furacão. Os barcos, todos puxados para o baixio na encosta, estavam ali sós, lívidos pela umidade do mar no cinza intenso das nuvens baixas que se perseguiam chocando-se umas com as outras.
Não que a passagem para Palaedo fosse mais convidativa. Nestes casos, parece que as ondas nos seguem exatamente quando tentamos passar depressa. Mas fazer o quê! Sabíamos que Luigia nos esperava com ânsia. Uma promessa é uma promessa! Pensa-se que porque uma pessoa já se foi há tantos anos não deveria mais ter pressa. Não é assim. Com Luigia então... ela demonstrava a sua impaciência, e como! E a sua curiosidade parecia a de uma menina caprichosa. E a nós não desagradava satisfazer-lhe aquele capricho...
Assim, esperando que passasse a onda mais alta que rebentava desordenadamente contra o rochedo, passamos depressa um depois do outro em direção ao nosso banco que ficava protegido das ondas. Um refúgio.
“Já era hora! Temia que vocês nem aparecessem mais! Por causa de umas poucas ondas...! Eu já vi bem piores!” Estava ressentida, mas aliviada ao ver-nos chegar.
“Não duvido, no entanto estás aí grudada como um paguro nesta lápide e não arredas o pé!” Angiolino ousava revidar, eu não.
“E o que eu deveria fazer, seu sabichão? Além do mais, daqui, vejo melhor do que vocês dois juntos tudo o que acontece...! E não pensem que não percebo os segredinhos de vocês!! Homens!!”
Começava-se bem, como de costume! Não havia dúvidas! Mas a vontade de continuar a conversa interrompida sempre vencia o mau-humor.
“Recomeço de ontem. E, por algum tempo, não me interrompam a cada minuto! Entendidos?”
“Aquele que, nas intenções de todos, deveria ser um conflito nos moldes do século XIX e, portanto, de breve duração, transformou-se, pelo contrário, de uma simples questão entre a Áustria e a Sérvia numa tragédia sempre mais ampla, até assumir, pelo número de países envolvidos, uma dimensão, primeiro européia e depois mundial: após os acontecimentos de Sarajevo, de fato, no decurso de poucas semanas, a Europa inteira encontrou-se envolvida em primeira linha, sendo o nosso país a única exceção.” Eu havia tomado gosto e sentia prazer em fazer-me ouvir. Eles me fixavam atentos como alunos de primário.
“Quando eclodiram as hostilidades, em junho de 1914, o reino da Itália, ligado à Áustria e Alemanha, e as chamo assim para não criar confusão, por um tratado defensivo, declarou a própria neutralidade, pois fora o exatamente o império de Francisco José a desencadear a guerra, sem, por outro lado, sequer consultar a jovem monarquia de Vittorio Emanuele III. De resto, o que lhe importava daquela ‘Italiazinha’ mal e mal remendada..”
“Porém, o fato de não ter entrado na guerra permitia que a Itália ganhasse tempo para decidir o que fazer e, ao mesmo tempo, permitia-lhe desvincular-se da relação instaurada com a Alemanha e Áustria nos anos precedentes, porque a última, apesar de tudo, permanecia o nosso inimigo histórico e, como tal, era mal vista pela população.”
“Por todo o período sucessivo, o país foi dominado pelas discussões que dali nasceram, cada vez mais amplas e venenosas, entre intervencionistas e neutralistas. A luta foi áspera e com ataques impiedosos. A favor da neutralidade aderiu a esmagadora maioria do parlamento, entre os quais os próprios ‘giolittianos’, os católicos e os socialistas, convictos que seria mais conveniente obter da Áustria fáceis concessões territoriais em troca da não entrada em guerra do país.”
“Favoráveis à intervenção foram, por outro lado, os irredentistas e personalidades como D’Annunzio e o então diretor do ‘Avanti’, Benito Mussolini, todos convictos...”
“Eis de novo o campeão!” Angiolino não conseguia digerir esse negócio de Mussolini socialista, mas Luigia olhava-o severa de través para fazê-lo calar.
“... convictos que chegaria o momento de completar a anexação das terras ‘irredentas’ ainda sob o domínio austríaco. Por trás havia interesses bem diferentes dos patrióticos: havia os novos industriais que viam na guerra uma fonte de negócios e de lucro às custas de todos os italianos!”
“Para entender melhor, vamos antes falar um pouco mais de Mussolini, porque merece uma atenção especial, neste contexto, a figura do futuro ‘Duce’: inscrito no partido socialista, diretor do ‘Avanti’, o jornal socialista desde sempre, passou do apoio à causa neutralista, propalada em um primeiro momento, ao mais aceso intervencionismo, que lhe causou, em novembro de 1914, a expulsão de um partido que mais do que qualquer outro estava batendo-se para impedir o ingresso da Itália na guerra.”
“Depois do afastamento, aliás, imediatamente, Mussolini assumiu posições de cunho nacionalista, confirmando todo o seu apoio à política de intervenção, defendida, com inflamada veemência, nas páginas do ‘Povo de Itália’, o jornal fundado por ele em Milão, em 15 de novembro de 1914, precisamente com o dinheiro dos negociantes e dos industriais.”
“Foi o episódio chave na vida desse homem que arrasaria os destinos de um país, reduzido, no decurso de poucos anos, a cair nas mãos de uma terrível e cruel ditadura, que assentava os seus fundamentos exatamente nos acontecimentos ligados ao conflito entre intervencionistas e neutralistas e da conversão política que se seguiu, no chefe da futura direção do movimento facista.”
“Agora sim é que chegamos ao mais importante, professor...” Angiolino não via a hora de poder expressar esta opinião.
“Também graças à arrebatadora arte oratória de D’Annunzio, que inflamou as multidões com discursos mirabolantes, que exaltavam a luta por Trento e Trieste, toda a imprensa italiana abraçou firmemente a causa intervencionista, que obteve aceitação sempre mais ampla, até chegar a conquistar os favores do rei e do governo presidido por Salandra. As pessoas não compreendiam muito bem, mas eram arrastadas a uma loucura que as exaltava.”
“Andando na corda bamba, isto é, na mais frágil diplomacia, os representantes do governo firmaram, em 26 de abril de 1915, em Londres, um pacto de aliança com as forças coalisão, com o qual a Itália comprometia-se em entrar na guerra, em troca do reconhecimento dos direitos sobre o Trentino, Alto Adige, Trieste, Istria e Dalmácia.”
“E não deveriam fazê-lo?” Perguntava um pouco confuso Angiolino, enquanto Luigia ficava quieta e refletia.
“Aqui insere-se uma dupla interpretação dos fatos, e, para ser justo, é preciso lembrá-los. Alguns afirmam que tudo aconteceu depois que Salandra havia tentado, sem conseguir, não obstante a pressão da Alemanha, obter de Viena, pacificamente, aquelas que eram justamente chamadas terras irredentas. Parece que o ministro do exterior austro-húngaro, Burian, tinha declarado literalmente que: ‘Se alguém me aponta uma pistola descarregada, não lhe entrego a minha carteira, mas tomarei uma decisão se a pistola estiver carregada’. Isto é, teria levado em consideração o fato se realmente tivesse visto o perigo efetivo da entrada da Itália na guerra!”
“Como havia falado em alemão, ninguém juraria ser verdade! Até porque o ministro italiano parece não ter feito muito esforço para apontar claramente aquela pistola e por trás dos intervencionistas estavam os industriais do norte, que viam na guerra a possibilidade de fazer ótimos negócios, principalmente com o estado! Aqueles mesmos negócios que não puderam fazer com os países estrangeiros por causa do protecionismo e com um vasto mercado interno que ainda era inexistente e não precisava deles! De tal modo que, no início, não se tinha nem certeza de com quem se deveria entrar na guerra: havia um tratado firmado pela Itália com a Áustria e a Alemanha, se vocês lembram.”
“Certamente me lembro: a tríplice...”, respondia pesarosa Luigia.
“Então era necessário um motivo, válido ao menos na aparência, para participar da guerra de qualquer modo. Combater contra a França, Grã-Bretanha e Rússia com a Áustria parecia uma enormidade injustificada aos olhos das pessoas. Eis que então surge a história das terras ainda por conquistar, irredentas, a humilhação não digerida da terceira guerra de independência que se acrescentava à segunda... A verdade é que colocam à frente da propaganda os irredentismos do Trentino e da Veneza Giulia como motivo. E está feito...”
“Quando os homens querem brigar sempre encontram um motivo!”, diz prontamente a Luigia.
“Como se as mulheres não fizessem isso! Mas se são sempre vocês as primeiras enlouquecidas a empurrar os homens...”, replicava como sempre Angiolino.
“A vitória do conflito teria, pelo menos segundo o que se pensava na época, permitido aos irredentistas coroar os sonhos de unidade nacional e terminar, de uma vez por todas, a disputa com o império austro-húngaro. Por outro lado, aos mais inflamados e interessados nos negócios, e não eram poucos, consentia obter o controle sobre o inteiro Adriático e a expansão em direção à península balcânica. Ao mesmo tempo, tudo isso dava espaço à indústria mecânica – que finalmente havia crescido um pouco no norte do país, mas sem mercado externo – de converter-se para a ocasião em indústria bélica e enxugar os cofres do estado!”
“Entendeste que espertos? Ganham inclusive dinheiro com a guerra...”
“Como se isso fosse uma novidade! E o rei?”, perguntava esperançosa a Luigia.
“Eis ela aí de novo com o seu bom rei! E de que parte estão os reis?”
“Por favor! Os projetos e as maquinações do governo Salandra, podemos dizer assim, também eram compartilhados por Vittorio Emanuele III, que, depois de ter titubeado um pouco, apoiou a decisão de intervir naquela que se apresentava, mesmo aos seus olhos, como uma espécie de quarta guerra de independência. Só faltava, agora, superar um parlamento ainda alinhado em posições neutralistas.”
“Diante da recusa da maioria dos deputados de ratificar o pacto de Londres, Salandra recorreu à chantagem da demissão. Se o documento não passasse, ele iria embora! O fato provocou alvoroço, mas sobretudo a indigna algazarra dos intervencionistas que naturalmente só esperavam por isso. E no fim sabe-se que quem grita mais muitas vezes obtém a vitória, mesmo sem ter razão! Muitíssimas vezes!”
“Se é por isso, hoje em dia é grande o número dos que gritam! Basta olhar ao próprio redor...” Angiolino resmungava para si, enquanto se afastava olhando o céu ainda cor de chumbo. Se pelo menos a pesca tivesse sido boa naquela manhã! Mas não tinha sido possível nem mesmo sair para o mar... Até o vento gritava com raiva.
a entrada na guerra
“Diante das crescentes e cada vez mais violentas manifestações dos intervencionistas, que não queriam se conformar com a decisão negativa do parlamento, o rei chamou novamente para a presidência do conselho Salandra, que conseguiu obter poderes excepcionais de um parlamento claramente ameaçado pelos tumultos e receoso de se opor às decisões do rei, com praticamente a autorização para a entrada na guerra. Por isso a entrada na guerra foi feita e decidida sem que houvesse debate e um verdadeiro consenso do parlamento mas por vontade de duas pessoas: o rei e o presidente do conselho.”
“Essa eu realmente não podia imaginar! Quando se fala da guerra mundial sempre se faz alarde, mas depois...” Era a Luigia que comentava perplexa, enquanto Angiolino refletia silencioso. Parecia estar mais atento em escutar a ressaca do mar do que as minhas palavras.
“Mas então já havia algo de podre mesmo antes do fascismo! O parlamento já não contava muito até mesmo antes da guerra...!” –, desabafava enfim.
“Não, não! Não é verdade que não contava muito antes da guerra, mas certamente com estas premissas abria o caminho para atitudes e decisões que, com a democracia expressa pelo voto, mesmo que não sendo de todos os italianos, não tinham nada a ver!”
“Contudo, como diz a canção, no fatídico dia 24 de maio de 1915, um dia após a declaração de guerra contra a Áustria-Hungria, o nosso exército já marchava em direção à fronteira no rio Piave.”
“Ao estourar a guerra, Luigi Cadorna, chefe do Estado-Maior do Exército, declarava que seria um verdadeiro passeio com uma rápida conclusão das hostilidades. Estava certo que com alguns “safanões”, como ele dizia, teria cancelado as tropas austro-húngaras da face da terra. Eram naturalmente as fanfarronices de um general que não via a hora de combater contra alguém! Mas desde o início a realidade foi bem diferente: de fato, a fronteira traçada em 1866, no fim da terceira guerra de independência, não havia sido aleatoriamente colocada ali pelos austríacos. Aquela fronteira deixava para a Áustria o controle das trilhas e dos cumes das montanhas, já fortificados com uma série impressionante de trincheiras nas rochas e escavadas na terra. Um sistema defensivo que Cadorna nem sequer imaginava.”
“O fanfarrão!”
“Deixe-o terminar! Você não consegue ficar calado um segundo!”
“Os italianos, portanto, já começaram o combate em condições de desvantagem. Éramos sim mais numerosos, porém equipados com armamentos velhos e não à altura. O exército austro-húngaro, no entanto, embora em número inferior, era mais bem organizado e muitíssimo superior em qualidade e armas modernas. O fato que seu exército fosse constituído de tantos povos diversos não era aquela grande desvantagem que se dizia.”
“Portanto Cadorna logo se deu conta que as suas previsões estavam completamente erradas. Ao invés de raciocinar, admitir o erro e buscar uma estratégia inteligente, reagiu no modo mais estúpido e insensato que podia. Estava disposto a qualquer sacrifício de homens, a fim de satisfazer o próprio orgulho pessoal, assim o exército italiano, lançado pelo comando supremo ao ataque frontal do inimigo, sem proteção alguma em onze batalhas ao longo do rio Isonzo, sofreu um número espantoso de perdas, com o único resultado concreto da conquista isolada de Gorizia. A sucessiva tentativa sanguinária de conquistar Trieste foi só mais uma horrenda carnificina. As linhas defensivas austríacas demonstravam-se impenetráveis.”
Luigia e Angiolino escutavam sem que se ouvisse nem a respiração. Mati, que tinha vindo comigo, interrompia as suas brincadeiras para observá-los admirada.
“Os sofrimentos da guerra de posição eram chocantes e foram acentuados pela natureza impenetrável do fronte. Estávamos em terreno montanhoso. Os comandantes ordenavam aos pobres soldados de atacar, em condições no limite da loucura, no meio da neve, gelo, trilhas alpinas quase inacessíveis. A isso unia-se a dificuldade de abastecimento que obrigava os destacamentos de engenharia a recorrer a expedientes de todo tipo para permitir o deslocamento das tropas e meios naquelas altitudes.”
“Imediatamente até os mais estúpidos entenderam que a propagandada conclusão da guerra antes do inverno era tragicamente infundada e, aliás, foram os austríacos a tomar a iniciativa, lançando, no início de 1916, a “Strafexpedition”, uma expedição ferozmente punitiva contra o aliado traidor, idealizada pelo “feldmarechal” Conrad. Ele conseguiu criar uma brecha entre as linhas italianas em Asiago. Só a desesperada e selvagem resistência e a coragem dos pobres soldados italianos conseguiram, milagrosamente, conter o inimigo e rechaçá-lo, ao custo do habitual, tremendo e incalculável número de mortos.”
“Imaginem... Enquanto se combatia, os carabineiros alinhados atrás das trincheiras atiravam contra quem não agüentava mais e enlouquecido pelo terror tentava voltar atrás.”
Luigia e Angiolino me escutavam em silêncio absoluto. Juntaram-se a nós alguns curiosos fascinados pela narração, mas sem entender muito bem o que acontecia ali.
“Foi preciso muita coragem para resistir, e o pesado tributo de sangue, as inúteis perdas, as dramáticas condições de vida, causaram entre as tropas não poucos episódios de insubordinação. Rebelavam-se. Os soldados, porém, não eram ouvidos, mas executados sumariamente com um cinismo que se tornava sempre mais freqüente nos vértices militares chefiados por Cadorna.”
“Foram centenas de fuzilamentos com a tática das dizimações. Entre tantos soldados escolhiam ao acaso um certo número para dar o exemplo! No Carso e nos montes de Adamello portanto, foram massacrados inutilmente grande quantidade de homens. E certamente não morriam pelas mãos dos inimigos austríacos, mas também pela aberrante vontade dos tribunais militares e por obra dos pelotões de execução, num inominável clima de terror e violência, capaz de minar qualquer resistência psicofísica.”
“Apesar disso, quem, contra qualquer lógica e qualquer forma de democracia, queria a guerra, exaltando ‘a sua natureza purificadora’, estava cego e sempre mais obstinado diante do massacre insensato dos italianos.”
caporetto
Reconheço que tinha me deixado levar um pouco demais pela raiva, mas a imbecilidade cínica que causa desastres humanos fazendo os mais indefesos pagarem o preço, sempre me repugnou. E quantas vezes na história isso aconteceu e infelizmente continua acontecendo? Até nos dias de hoje o vemos. Quantas decisões insensatas e presunçosas, nascidas somente da mania de grandeza e onipotência, ainda hoje são tomadas por imbecis cínicos que ocupam cargos de governo e geram sofrimentos desumanos, morte e destruição aos mais inermes?
Os meus interlocutores não diziam nada e o silêncio que se seguiu era cheio de significado e de amargura. Sobretudo Luigia havia conhecido tantos rapazes que não tinham voltado, e Angiolino, desde jovem, havia visto apavorado as infinitas listas de nomes nos diversos monumentos ao soldado desconhecido que se encontram em cada vilarejo da Itália, até nos menores.
Soldado desconhecido! Bela definição mistificadora para indicar todos aqueles desgraçados que não tinham voltado do massacre da primeira guerra mundial, que custou setecentos mil mortos só para a Itália. E mais, eu havia acrescentado a suspeita de que o não regresso deles certamente não tinha nada a ver com uma heróica morte em batalha. E tal suspeita certamente ninguém mais poderia dissipar.
Além disso, eu ainda não havia terminado de infligir tristes motivos de reflexão aos meus dois companheiros de discussão. Mesmo se, para dizer a verdade, a discussão eu a fazia toda sozinho naquele silêncio!
“Não foi um, mas dois anos de indizíveis lutos, sem obter nenhum resultado que tivesse a aparência de um sucesso. A moral do exército estava abaixo de zero, até por causa dos métodos malucos de um Cadorna que não hesitava em mandar à carnificina os seus homens, por cuja moral e por cujas horrorosas condições de vida não demonstrou nunca qualquer consideração. Pelo contrário, o comandante-chefe do exército dava ordens de fuzilar, sem nenhuma piedade, qualquer um que fosse suspeito de derrotismo ou mostrasse sinais de fraqueza.”
“Escutem a célebre e aterrorizante nota que escreveu em setembro de 1915, na qual se percebe que elemento podia ser o famoso ‘condottiero’:
‘O superior tem o sagrado poder de fuzilar imediatamente os desobedientes e os velhacos.
Quem vergonhosamente tentar se render e retroceder, antes que se difame será atingido pela justiça sumária do chumbo das linhas situadas atrás e por aquela dos carabineiros encarregados de vigiar por trás das tropas, quando não for morto por aquela do oficial’.”
“Mas estes eram todos loucos de atar!” exclamava Luigia!
“Verdade! Eram loucos de atar, mas a retórica da guerra nunca está nas coisas. Estas coisas não se lêem nos livros de escola das crianças! Aprenderiam logo o que é verdadeiramente a guerra!”
“Contudo, neste clima de terror e de indiferença entre os soldados e com um estado-maior desprovido de humanidade, no fim de uma nova e dramática ofensiva no Isonzo, o exército italiano foi cada dia mais ao encontro do desastre!”
“De fato, depois da entrada dos Estados Unidos na guerra, os Impérios Centrais tentaram esmagar definitivamente a resistência adversária antes que as tropas americanas, uma vez concluída a mobilização e a viagem por mar, pudessem desembarcar na Europa. Assim, no dia 24 de outubro de 1917, os austríacos, fortes pelos reforços vindos do leste depois da dissolução do exército russo que havia abandonado a guerra após a revolução de outubro, do oriente lançaram, com a ajuda fundamental de destacamentos especializados do Reich, uma violenta ofensiva na zona de Caporetto, vencendo as linhas italianas, rompendo o fronte e espalhando-se na retaguarda.”
“As nossas tropas foram vencidas pelo choque de trinta e sete divisões comandadas pelo general Von Below. Estas açambarcaram milhares de prisioneiros e armamentos abandonados pelos nossos soldados em desesperada debandada. Bastaram poucos dias para que o Friuli fosse invadido e a própria Veneza parecesse em perigo, sob a pressão de um inimigo então irreprimível.”
“Cadorna foi apanhado de surpresa, não obstante tivesse sido advertido em tempo sobre a iminente ofensiva. Mais uma vez, em vez de admitir a própria responsabilidade, lançou duras acusações contra os seus homens, acusados de covardia e de ter abandonado, sem combater, as posições.”
“Todavia, o desastre de Caporetto chocou a inteira opinião pública italiana e as conversas meio malucas de Cadorna não encantavam mais. Os austríacos já estavam penetrando no coração do Vêneto, enquanto as nossas tropas, forçadas a uma dramática retirada, mostravam-se derrotadas e à beira de um colapso.”
“Somente a terceira armada, sob o comando do Duque de Aosta, recuou de maneira ordenada em direção à retaguarda. Para o resto foi um caos total, com os nossos destacamentos transformados em um montão de soldados em debandada, completamente abandonados a si próprios pelos oficiais e sem comando algum.”
“Se é tudo verdade o que você conta, é algo verdadeiramente terrível!” Não havia intenção de ofender ou duvidar da veracidade da minha história, mas havia um sentimento, um impedimento por parte de Angiolino de acreditar naquilo assim como estava sendo narrado.
“Você quer que ele nos minta? E por que deveria fazê-lo? Mesmo que se trate da Itália, a verdade deve ser dita! Era uma guerra que deveriam ter evitado, nem se deveria comemorar o dia 4 de novembro! Se a gente pensar bem ao que leva uma guerra... Mas em geral a gente logo esquece tudo!” – acrescentava com sabedoria a senhora Luigia.
Contudo, aquele era, em um certo sentido, um dia de sorte. O vento e o chicotear das ondas barulhentas contra as rochas, reduzidas a uma espuma branca, mantinham afastados mais que de costume turistas e curiosos. Ou melhor, agora haviam desaparecido todos para o nosso grande alívio. Sim, meu também, porque eu não queria ir embora deixando a narração em um ponto tão trágico.
finalmente a batalha do Piave
“Parecia que a Itália estivesse mesmo a ponto de desmoronar. E foi então que aconteceu o milagre: sim, um milagre! Porque em todo o país criou-se um espírito de colaboração e de unidade e até os socialistas, desde sempre contrários ao conflito, entenderam que, em uma situação tão desastrosa, deviam dar todo o seu apoio para fazer frente ao desastre, contribuindo para o nascimento de um governo de unidade nacional sob a direção de Vittorio Emanuele Orlando, que lançou à nação um verdadeiro apelo para “resistir a todo custo”.
“Resistir, resistir, resistir!”.
“Ao mesmo tempo, o rei finalmente decidiu substituir o general Cadorna, que havia dado tanta prova de imbecilidade e arrogância, por Armando Diaz. E já era hora! A escolha revelou-se justa: o novo comandante logo demonstrou uma grande sensibilidade e atenção para as condições das tropas, às quais finalmente foi dado um tratamento adequado a seres humanos! Diaz também decidiu pôr fim à desatinada tática dos ataques frontais, que serviam somente para destruir o moral dos soldados, que se viam considerados, pelos altos comandos, como bucha de canhão.”
“Precisamente graças a estas suas qualidades de profunda humanidade, Diaz conseguiu reerguer um exército que, depois de 24 de outubro, estava praticamente destruído e que agora, reconstituído em toda sua vitalidade e potencializado pelos reforços aliados intervindos para apoiar o fronte italiano, parecia em condições de impedir o avanço do inimigo. E o fez.”
“Menos mal, porque se não...!”, Angiolino sentia-se levar quase pessoalmente pela batalha.
“Alinhados na linha do Piave em 15 de junho de 1918, os italianos, na assim chamada batalha do solstício, depois de ter rechaçado os numerosos ataques inimigos, obrigaram as armadas austro-alemãs à retirada. Na noite de 23 de junho, o general Diaz podia anunciar que ‘De Montello até o mar, o inimigo, derrotado e perseguido pelas nossas valorosas tropas, repassa em desordem o Piave’.”
“De fato, a empresa impediu a invasão e a conseqüente derrota definitiva da Itália, porque, depois da derrota sofrida, os Impérios Centrais, exaustos do ponto de vista militar e moralmente destruídos, perseguidos nos outros frontes da Europa, não foram mais capazes de assumir nenhuma iniciativa importante no fronte italiano.”
“A vergonha e a humilhação de Caporetto tinha sido cancelada. E o triunfo obtido exaltou o gênio militar de Diaz, que demonstrou ser um válido estrategista numa batalha que custou a vida de 250.000 pessoas e que evidenciou as novas divisões de ataque do exército italiano, os ‘Arditi’, que contribuíram muito, com as suas incursões, para derrotar o inimigo.”
“Desde então o Piave tornou-se símbolo do extremo sacrifício em nome de uma pátria salva com a tenacidade e a coragem de dezenas de milhares de combatentes, dentre os quais sobressaiam-se os ‘rapazinhos’ da turma de 1899, chamados às pressas às armas para preencher os pavorosos vazios causados por três anos de massacres criminais.”
“E o rio Piave ainda inspirou a célebre canção e o famoso ditado ‘não passa o estrangeiro!’. O emblema da guerra foi para todos uma casa abandonada e semidestruída, sobre a qual por muitos anos ficou uma escrita destinada a virar lenda: ‘Todos heróis! Ou o Piave ou todos mortos’!”
“Finalmente tinha acabado então! Parecia vir de um suspiro de alívio esta convicção.”
“Ah não! Não ainda. Infelizmente a guerra não tinha acabado totalmente!”
“Mas por quê?”
“Tínhamos bloqueado o avanço com o nosso exército. Os impérios centrais já estavam na defensiva, mas a Itália ainda estava no ponto de partida da guerra. Foi então que, pela primeira vez, pode-se pensar em reconquistar aqueles territórios considerados italianos, que eram o motivo pelo qual tudo havia começado ou pelo menos assim tinham feito crer que fosse. Os territórios irredentos!”
“Ah! Esta dos territórios irredento"s eu lembro desde a primeira vez! Esperemos que também seja a última!”, inacreditavelmente era a Luigia que desabafava assim.
“Exato! A última. Dentro do exército austro-húngaro cada vez mais ficavam evidentes os contrastes entre as várias populações que o formavam: austríacos, húngaros, croatas, boêmios, eslovenos, poloneses e bósnios... As coisas estavam mal para eles mesmo nos outros frontes na Europa. A situação era difícil sob o ponto de vista militar e eis que o exército se desestruturava internamente, não encontrando mais nem união, nem convicção para combater.”
“Além disso, os nossos aliados nos enviavam homens e meios com mais solicitude depois da vitória no Piave, reforçando o nosso exército. O Estado Maior italiano demonstrava-se finalmente capaz de tomar iniciativa com uma estratégia vencedora e não só com conversas e propaganda como antes. As tropas, todavia, deviam ainda ser reorganizadas. Isto causou um pouco de atraso, mas Diaz, entre o dia 24 e o dia 27 de outubro, decidiu lançar a ofensiva final. Tinha-se passado um ano exato desde a desastrosa derrota de Caporetto.”
“Foram dois dias de ferozes combates. Chovia torrencial e incessantemente. Os italianos estavam em dificuldade e pairava ainda o espectro da derrota. O Piave era ameaçador e pálido, na cheia. Depois os soldados conseguiram atravessar o rio e organizar-se para uma vigorosa resistência. Dali partiu uma onda maciça que não parou mais até a conquista de Vittorio Veneto.”
“Isto! Assim que eu gosto!”, exclamava Angiolino.
“As armadas austro-húngaras tinham sido cortadas ao meio. O exército desta vez derrubava o inimigo: um inimigo que tinha-se desagregado internamente por falta de confiança e também por dissídios políticos. E depois de Vittorio Vêneto, foi uma marcha ininterrupta quase sem resistência rumo a Trento e a Trieste.”
“No dia 4 de novembro, em Villa Giusti próxima da cidade de Pádua, era assinado o armistício com o império austro-húngaro. O general Badoglio, que encontraremos como protagonista alguns anos depois de outros fatos da história italiana, afirmou então que: ‘Para a Itália é o fim da guerra, para a Áustria é o fim de um grande império!’. E tinha razão porque das suas cinzas ainda quentes nasceram as repúblicas independentes da Áustria, especialmente, Tchecoslováquia e Hungria. Para os povos da península balcânica iniciava também uma nova história com o nascimento da Iugoslávia.”
“O boletim da vitória, sim, exatamente aquele que ainda hoje lêem na frente do monumento aos soldados mortos no dia 4 de novembro, foi lido pelo próprio comandante Armando Diaz.”
“Desta vez, porém é o fim!”
“Sim, desta vez é exatamente o fim. Mas não será a última guerra!”
Até parecia que o mar batia com menos violência contra as rochas e que as nuvens deixavam quase transpirar uma nesga de sol. Ou era somente impressão nossa?
Quem sabe?
a vitória mutilada
No mar, às vezes, se passa de uma jornada escura e ameaçadora a uma outra imediatamente sucessiva, na qual o vento varre do céu, que se torna de improviso infinito, todas as nuvens, lustrando-o de azul e deixando atrás de si um mar que parece de cristal. Então a manhã, que fere frisante, anuncia uma jornada quente, mas não tão abafada e pesada, sem nenhuma sombra de nuvem... São as jornadas mais belas!
O triste é que os outros também se dão conta!
“Então, ao final, a Itália está completamente unida. Foi necessário muito tempo, mas no final os italianos conseguiram.”, repetia Angiolino viajando ao passado com o pensamento.
“Não todos concordariam contigo Angiolino. Sabes, sempre tem alguém que quer mais, mesmo quando finalmente obteve aquilo que desejava ter. Quem sabe até já teve mais do que seria lógico.”
“O que quer dizer? Ainda queres retornar com a história do Alto Adige como na outra vez?”
“Ah, sim, o Alto Adige. Eu também lembro. O que dizia Damiano Chiesa?”, não sei se Luigia estava falando sério ou me gozando. Mas eu permanecia imutável. Melhor fazer de conta que não entendi!
“Dizia que era injusto que o império Austro-húngaro ficasse com Trento e Trieste, como teria sido injusto a Itália pretender ficar com Merano e Bolzano.”
“Esta, porém, eu não entendi. Isto é, antes eu tinha entendido e agora não entendo mais! Mas não são da Itália Merano e Bolzano?”, insistia Angiolino.
“Certo, agora são italianas. Mas te lembras quando falávamos de democracia, aquela verdadeira, aquela ‘na qual deveriam deixar os cidadãos escolher com quem ficar’?”
“Sim, exato, como o pleibiscito sobre a Savoia... e o de Nice com Garibaldi que ficou tão irritado!”
“Exatamente: com Garibaldi que ficou irritadíssimo. E achas que os habitantes dos vales de Merano e Bolzano teriam escolhido ficar com a Itália? Me diz! Por que então se chama Tirol do Sul aquela zona ali? Quando o Tirol é uma região austríaca?”
“Mas tem a ver com o fim da primeira guerra mundial esta história?”, intervém astuta Luigia.
“Claro, porque são territórios que foram anexados à Itália naquele momento... mas falaremos mais à frente. Queria dizer que exatamente naquela ocasião seriam necessários ainda mais territórios!”
“Como assim?”
“É porque nem todos ficaram comtentes. Até porque todas as promessas e também as ilusões dos intervencionistas mais aguerridos não se concretizaram! E naturalmente isto os perturbava!”
“E então?”
“Então agora vou contar a vocês. A delegação italiana que foi a Versalhes, na França, sim exatamente onde Luis XIV, o Rei Sol tinha construído o seu palácio um bocado de tempo antes, esta, enfim, era guiada pelos ministros Orlando e Sonnino. Tinham ido para lá ligeiramente triunfantes porque tinham vencido e estavam convencidos que poderiam agir como donos, porque pensavam que tinha sido muito importante o ataque de Diaz na guerra...”
“Rapidamente se deram conta que os italianos, na confirmação da paz, não eram bem vistos. A passagem de um campo ao outro no último momento não agradava nem aos perdedores, nem aos vencedores, vamos ser sinceros! Os vira-casacas nunca agradam a ninguém, no fim das contas!”
“Assim, aquilo que se esperava, isto é, a aplicação do tratado de Londres de 1915, que previa principalmente que a Itália ficasse com a Dalmácia e Fiume, que tinha se autoproclamado italiana por sua conta em 1918 com um plebiscito, ficou imediatamente claro que não seria obtida.”
“Sobre Fiume eu tinha ouvido! Mas sobre a Dalmácia o que tem a ver. E, além disso, nem sei bem onde fica!”, dizia logo a Luigia. E Angiolino também estava ouvindo curioso.
“Está bem, nos diz antes de qualquer coisa onde ficam, que assim entendemos melhor!”, também pressionava a Luigia.
“Exato, eu dizia que olhar um pouco o mapa da Itália para entender melhor não faria nenhum mal. E depois estes territórios hoje nem estão no mapa da Itália. Porém fazem fronteira.”
“Puxa! Espero que pelo menos vocês saibam onde fica Trieste! Se forem além de Trieste, que fica exatamente na fronteira oriental da Itália, no Adriático, aquelas ao leste, encontrarão uma península que se chama Istria. É um território que Veneza tinha tomado depois da expulsão definitiva dos turcos, com todas as ilhas que descem dali em direção ao fim do Adriático. De fato, em direção ao sul, a península forma um golfo, o golfo do Quarnaro, onde também fica Fiume, uma cidade ligada a Veneza. Aliás, um pouco antes de Fiume tem Abazzia, uma estação termal de turismo, onde as famílias nobres de Viena costumavam passar as férias, incluindo a família real.”
“Estes territórios, com a Dalmácia, uma costa rochosa que tem a sua frente ilhas e ilhotas, a Áustria tinha tomado de Veneza com o tratado de Campoformio, no fim de 1700, praticamente presenteados por Napoleão. E as tinha mantido.”
“Mas a Itália iria fazer o que com estes territórios? Eram terras assim tão férteis?”
“Não, eu já disse que são terras de rochas e montanhas quase debruçadas sobre o mar até Zara. Porém, as ilhas e baías eram importantes do ponto de vista estratégico para a frota e também para a pesca no Adriático e para o comércio. Óbvio que a Áustria também as considerava preciosas. Aliás, em algumas baías, tinha escondido também os seus navios encouraçados durante a guerra, pensando que fossem impenetráveis.”
“E então? Não eram?”
“Pelo menos não completamente como tinha demonstrado D’Annunzio com a famosa ‘Burla de Buccari’!”
“A burla de Buccari, desta sim que eu lembro bem! Sabes que efeito tinha causado na época? E parecia que éramos os mais espertos!”, era a Luigia, tão entusiasmada pelo ocorrido, que parecia quase que tinha sido ela a protagonista.
“Gostarias de contar também para mim, assim fico sabendo um pouco mais?”, Angiolino realmente parecia um pouco incomodado.
“Bem! Exatamente depois de Fiume, por uma estrada que primeiro sobe a montanha, chega-se a uma baía longa e estreita, uma baía natural em que a entrada é realmente como a ponta de uma agulha. No fundo desta baía, mas exatamente no fundo, no norte, existe um belíssimo vilarejo, Buccari, antigo e tranqüilo, que durante séculos tinha vivido da pesca e do plantio de parreiras que produzem um vinho delicioso.”
“Exatamente em Buccari os austríacos tinham escondido a maioria da sua frota, convencidos que, controlando a entrada da baía, ninguém nunca poderia colocá-la em perigo. Pelo menos era nisto que eles acreditavam. Só que D’Annunzio, querendo como sempre desafiar o impossível, com Ciano, o conde cunhado do Duce que depois por isso terá um papel ao lado de Mussolini, até ser fuzilado, pensou em arranjar alguns problemas para os austríacos. Com outros poucos companheiros, em pequenos torpedos de fabricação italiana, chamados ‘maiali’ (porcos), superou as fechadíssimas barreiras de controle da baía, penetrou e deixou mensagens de propaganda em garrafas entre os vários navios que ali estavam. Para os austríacos foi quase um desastre militar, mas, sobretudo, uma humilhação terrível.”
“Mas depois não houve também um outro caso que aconteceu em Viena... um vôo com lançamento de panfletos?”
“Bem! Sim! Mas isto aconteceu depois, exatamente em agosto de 1918. D’Annunzio, quando ainda acontecia a guerra, também fez um vôo perigosíssimo sobre Viena. Era mais uma exibição e limitou-se a jogar panfletos...”
“E o que eles diziam?”
“Nem se eu tivesse feito de propósito, trouxe o texto, porque eu sabia que falaríamos disso hoje pela manhã. E naturalmente já tinha até esquecido que tinha posto no meu bolso!”
“E ainda és jovem!”
“É, jovem, mas distraído! Eis o texto.”
E foi assim que tirei do bolso a fotocópia amassada do panfleto lançado sobre Viena por Gabriele D’Annunzio:
D’Annunzio com Natale Pali no avião
VIENENSES!
Aprendam a conhecer os Italianos. Nós voamos sobre Viena, poderíamos ter lançado toneladas de bombas. E lançamos somente uma saudação tricolor: as três cores da liberdade. Nós Italianos não queremos guerra com crianças, idosos, mulheres. Nós queremos guerra com o vosso governo inimigo da liberdade nacional, com o vosso cego teimoso e cruel governo que não sabe dar-lhes nem paz nem pão, e vos alimenta de ódio e de ilusões. VIENENSES! Vocês têm fama de ser inteligentes. Então por que vestem o uniforme prussiano? Ainda não enxergam que o mundo voltou-se contra vocês. Querem continuar em guerra? Continuem. É o vosso suicídio. O que esperam? A vitória decisiva que vos foi prometida pelos generais prussianos? A vitória decisiva deles é como o pão da Ucrânia: se morre esperando. POVO DE VIENA, pensa em ti mesmo. Acorda!
VIVA A LIBERDADE VIVA A ITÁLIA VIVA O ENTENDIMENTO
“Imaginem, depois da conclusão da guerra, D’Annunzio e aqueles como ele, se não iriam querer a Istria e a Dalmácia! E como queriam, e a todo o custo!”
“De qualquer forma, a delegação italiana foi combatida em Versalhes, sobretudo pelo presidente americano Woodrow Wilson, que não concordava absolutamente em favorecer a Itália se fosse às custas do novo Reino da Iugoslávia. Ele não tinha assinado o tratado de Londres e, portanto, o desconsiderava. Assim, publicou uma mensagem dirigida aos italianos, contra a anexação.”
“A este ponto, Orlando e Sonnino, que se sentiam desrespeitados e ridicularizados, foram embora batendo a porta e fazendo o papel de ofendidos. Naturalmente, as conseqüências diplomáticas foram desastrosas. Das colonias alemãs na África, para a Itália não foi concedido um só metro: foram divididas pelas outras potências. A Italia foi belamente ignorada, enquanto em Roma aconteciam passeatas inúteis em defesa do governo. Ao Reino de Vitório Manuel III foi concedido o território do Trentino, o Alto Adige, a Istria e Trieste.”
“Não foi possível fazer nada por Fiume e pela Dalmácia. Os sacrifícios feitos durante a guerra foram considerados pela opinião pública sacrifícios inúteis!”
“A este ponto, D’Annunzio, chefiando 289 dos seus legionários, tomou a cidade de Fiume e instaurou a ‘regência do Carnaro’. Era um desafio ao mundo inteiro feito por um grupo de exaltados, que tinham um poeta como chefe. Porém, o acontecimento sacudia na base a fidelidade e a obediência do exército ao grito de ‘vitória mutilada’! Tinha recém-acabado a guerra e as coisas já não iam bem.”
“Enquanto isso, o ministro Orlando foi obrigado a se demitir pela incapacidade e ingenuidade diplomática que tinha demonstrado. O substituiu Severino Nitti, acompanhado por uma crise gravíssima devida ao alto custo de vida e ao desemprego que crescia de forma galopante.”
“Nitti, mesmo não concordando com o ato de força dannunziano, não tomou nenhuma providência que fosse decididamente contra a difícil situação criada em âmbito internacional. A culpa da ‘vitória mutilada’, que segundo um sentimento sempre mais alimentado pelas vozes interessadas, era devida às outras potências vencedoras, cegava ainda mais a opinião pública em relação à gravíssima crise econômica, gerando um sentimento de grande frustração e irritação.”
“Porém, é óbvio que a situação não podia ser tolerada a nível internacional e D’Annunzio depois será obrigado a desistir da ocupação forçada de Fiume. Isto só aumentou o sentimento de humilhação e impotência no país. Seguiu-se uma situação de perigosa instabilidade política, na qual encontrou terreno fértil o partido que tentava se aproveitar da confusão para estimular um sentimento de revanche. Estouravam greves e passeatas à torta e à direita. Alguém fazia abrir os olhos para ver o resultado devastador que a guerra tinha deixado ao país.”
Luigia sacudia a cabeça desconsolada, e Angiolino refletia.
“Tentem imaginar. A guerra que deveria ter sido ‘rápida’ e ter trazido uma melhoria econômica para todos, tinha ao invés obrigado a longos anos de sofrimento e de miséria. Quem tinha voltado do desespero das trincheiras, encontrava um novo desespero. Porque a Itália ainda era uma terra de camponeses. Durante a guerra tinham sido tirados da agricultura todos os homens em condições, sobretudo os mais jovens e robustos. Durante três anos, a agricultura não tinha produzido uma quantidade suficiente. As mulheres, muitas vezes, para comer e dar de comer aos velhos e crianças, tinham tido que vender por preços irrisórios os animais, os equipamentos e enfim até as pequenas propriedades, que tinham sido arrancadas com as unhas, dos latifundiários. Quem voltava, não tinha vontade de enfrentar a miséria mais profunda que encontrava pela frente. Recusava-se a aceitar a realidade. Tinha se acostumado, por anos a fio, com a violência e a tentação de continuar na mesma estrada e descarregar a própria raiva era imensa.”
“Aqueles que tinham desejado a guerra a todo custo e que, com a guerra, tinham lucrado, pouco se importando com a inteira nação, e eram os proprietários dos latifúndios e os donos das indústrias, usando sobretudo da raiva bem manipulada dos veteranos, ainda aproveitavam-se para agregar aos próprios interesses todos os descontentes. Para o partido fascista de Mussolini, que fazia da violência, do protesto irracional e da destruição de toda e qualquer idéia democrática um motivo de orgulho ideológico, a estrada estava livre para o poder.”
“As rixas e as violências contra os camponeses e os operários em greve que pediam pão e trabalho, organizadas primeiro pelos latifundiários e depois pelos empresários, as quais se prestaram com satisfação os fascistas, precipitaram o país num clima de ilegalidade e prepotência difusa. E a rápida ascensão do partido fascista e da sua prevaricação sobre a democracia culminaram na marcha sobre Roma, que deu início a um trágico período de vinte anos.”
“Foi então que, pela segunda vez na história da Unificação, muitos milhares de italianos, provenientes das zonas mais pobres da Itália, escolheram, ou melhor, foram obrigados a emigrar da sua cidade para poder sobreviver. Muitíssimos também partiram para as Américas e ainda hoje os seus descendentes estão lá e, quem sabe, nem falam mais a nossa língua! Talvez nem saibam mais o que é a Itália da qual falam os seus pais e os seus avós!”
“É possível que ninguém tenha se oposto ao fascismo que estava avançando! Eram todos assim tão burros os italianos?”
A Angiolino realmente ‘não descia’ que, de uma forma ou outra, a Itália tivesse caído nesta situação. Não conseguia entender como um país inteiro tivesse podido renunciar à sua liberdade! Mesmo porque ele tinha vivido esta história no bem e no mal, no entusiasmo da juventude e no posterior desespero da segunda guerra mundial.
“Não, não, os italianos não eram todos burros, mas existem momentos na história nos quais é difícil não se deixar enganar pelas sereias que encantam com a promessa de milagres! E quando os indivíduos estão dispostos a renunciar às próprias opiniões e à própria liberdade tudo sempre acaba numa catástrofe!”
“Realmente, mas os indivíduos nunca aprendem nada com a história! Basta olhar agora...”
“Agora! Já chegaste no ‘agora’ e ainda temos tantas coisas para esclarecer!”
O sol estava incendiando o mar e o céu tingindo-os de um vermelho inacreditável em sua magnífica beleza. Então eu murmurei: “É verdade senhora Luigia! Eu prometo que antes falaremos do que aconteceu durante o fascismo. Aliás, existem ainda algumas coisas para acrescentar que até aconteceram antes.
Mas isto aconteceria um bocado de dias depois.
o que uma guerra deixa quando acaba
Como eu já tinha feito algumas vezes, antes do encontro sucessivo preparei algumas anotações para explicar melhor aos meus interlocutores o que tinha significado a primeira guerra mundial para a Itália e assim fiquei decifrando números e dados, mesmo que fosse chato.
“Em números, a guerra para a Itália tinha custado 571.000 mortos e 1 milhão de feridos, tendo 450.000 destes ficado com alto grau de invalidez. A dívida pública tinha aumentado de 15 bilhões de liras em 1915 para 69 bilhões em 1918.”
“E naquela época isto era muito dinheiro, não é como agora!”, comentava absorto Angiolino!
“A inflação tinha aumentado dez a doze vezes em relação ao período anterior à guerra. O desemprego tinha chegado a picos de dezoito por cento.”
“Cinco milhões e seiscentos mil soldados tinham que ser readaptados a uma vida civil que não era capaz de reabsorvê-los plenamente no mercado de trabalho. Os empregos não existiam. O lugar deles na fábrica tinha sido ocupado pelas mulheres trabalhadoras que custavam mediamente 30% menos que os homens e a indústria bélica tinha tido um desenvolvimento que havia enriquecido os patrões, mas não podia ser mantido em tempos de paz, tanto que as demissões logo começaram a acontecer.”
“Este é o progresso das mulheres! Ir às fábricas trabalhar porque custam menos que os homens! E depois voltar a casa para as lides domésticas se ainda não tivessem que capinar nos parreirais...”, Luigia certamente não esquecia o que tinha sido à guerra para Manarola e também do advento das ferrovias!
“As prometidas expansões territoriais nós vimos que se reduziram e se limitaram às zonas já densamente povoadas e que não podiam de nenhum modo receber outras populações de migrantes. A conquista de novas terras para cultivar tinha sido uma miragem, e os camponeses não obtiveram as terras prometidas. Isto os empurrou em massa para as grandes cidade, acabando por reforçar um proletariado que já tinha sido duramente testado.”
“As mulheres, que tinham experimentado com um certo prazer, pela primeira vez na Itália, o sabor da independência econômica e do trabalho fora de casa, não fizeram valer por muito tempo o peso contratual que tinham assumido, e se viram progressivamente empurradas para uma zona cinzenta e marginal do mundo do trabalho. Os socialistas, que tanto tinham influenciado no êxito da guerra, tinham sido duramente atingidos e enfraquecidos seja na ala moderada seja naquela extremista pela repressão do governo. Ter combatido ao lado das potências ocidentais não tinha certamente nos levado ao seu nível de progresso social.”
“O ‘Maio radiante’ de 1915 teria formado a base para vinte anos obscuros e sem liberdade.”
“E agora de onde sai este ‘Maio radiante’?”, preocupava-se Luigia.
“Ora! Nada de especial. O mês de maio de 1915 foi o mês da entrada da Itália na Guerra. Tinha sido definido ‘radiante’ pelos intervencionistas, naturalmente. Não recordam os versos da canção: ‘... e os primeiros infantes no vinte e quatro de maio!!’?? Mas sim que vocês lembram!”
“Ah, sim, a canção do Piave que murmurava...”
“Sim, exatamente aquela! E imagina que cada vez que a ouço, sinto as lágrimas chegando. Mas agora, pelo menos sei todo o porquê!”
“Exato, agora sim nós sabemos. E sabemos também que trouxe o fascismo para a Itália”, disse imediatamente Angiolino amuado.
“Um momento, um momento... Eu disse que ainda tinha outra coisa antes do fascismo. Aliás, devo dizer que antes do fascismo tinham se passado dois anos que pareciam levar para um lado completamente diferente!”
“Para o comunismo?”
“Digamos muito próximo, sim, muito próximo. E isto seguindo o vento da fantasia que trazia a revolução de outubro.”
“Que maravilha! Os comunistas! Quem sabe teria sido ainda pior.”
“Imagina! Pior que isso: o fascismo e a segunda guerra mundial... O que pode ser pior?”
“Calma, deixem-me explicar um pouco.”
“Isso! Deixe ele explicar um pouco e fica quieto!”
o biênio vermelho
“No fim da segunda guerra mundial, tínhamos dito, a Itália encontrava-se em gravíssimas dificuldades econômicas. Milhares de desempregados, as fábricas que deviam novamente se transformar de fábricas de guerra em produção civil, a volta raivosa, pra casa dos veteranos, que não encontravam nada: estes eram os enormes problemas, aparentemente insuperáveis, que esmagavam o nosso país.”
“A burguesia e os funcionários estatais, que podiam contar com uma renda fixa eram as classes que estavam pior. De fato, a inflação de doze por cento, devida aos gastos militares do Estado, tinha cortado rigorosamente os salários. O esperado aumento dos salários tinha-se transformado numa perda certa. E não resolvia o problema a fixação do preço político do pão, que custava ao estado seis bilhões de liras por ano. Algo que hoje custaria quase seis bilhões de liras!”
“Porém o pão é o pão! Deixem-me dizer...”, ressaltava Luigia, para a qual a fome era uma medo ainda tangível.
“Mas os bilhões também contam, não? É óbvio que contam! A fome eu também senti...”
“Foi em janeiro de 1919 que os Católicos deram vida ao seu primeiro partido de verdade: O Partido Popular. Tinha sido fundado e inspirado por Don Luigi Sturzo, um padre que não rezava só a missa, e tinha idéias seguras e democráticas. E que se fazia ouvir.”
“Porém enquanto isso, em 23 de março de 1919, no mesmo ano, Mussolini fundava os fasci di combattimento, em Milão. Tinha nascido o partido Fascista.”
“Mas naquela época, no dia 23 de março era feriado! Festejava-se ‘o nascimento de Roma’, a fundação da capital.”, lembrou então mais uma vez Luigia.
“Chamemos ‘nascimento de Roma’ se quisermos. Era só uma maneira de fazer festejar por todos o nascimento do Partido Fascista!”
“E por que disseste dos ‘feixes de combate’?”, perguntava Angiolino.
“Porque o fascismo começava a se unir à retórica da grandeza de Roma, a Roma dos imperadores. E os ‘feixes litórios’, isto é um ramo de varas amarradas junto, com um machado no meio, era um dos símbolos do poder da antiga Roma. Significava, para os antigos romanos, que a União de pequenas varas, que sozinhas podiam ser quebradas, tornanva-as indestrutíveis.”
“Entendeste que história?”
“De qualquer forma, no mesmo ano ocorreram as eleições políticas, nas quais se entendeu melhor como as coisas iriam acabar acontecendo. Antes de mais nada o velho partido liberal perdia votos até não poder mais. Estava definitivamente ultrapassada a história dos partidos do Ressurgimento. Liberais e radicais juntos, mantinham a maioria dos votos, mas não das cadeiras. Os votos, que então pareciam uma avalanche, foram para os socialistas, com 156 cadeiras. Depois, ao novo partido popular dos católicos de Sturzo, que recolhia um bom número de votos e 101 cadeiras.”
“Os fascistas ao invés saíam da competição eleitoral sem ao menos uma mísera cadeira!”
“Aos oitenta anos, Giolitti tornava-se novamente primeiro ministro, mas não tinha o apoio dos industriais, que ainda lembravam de sua aversão à guerra e hostilizavam as suas propostas de democracia avançada.
“A verdade realmente era que os industriais não podiam manipular Giolitti como queriam. Enquanto pensavam em usar para as suas finalidades os fascistas que já tinham comprado. Os socialistas também tinham uma posição fechada sobre eles e não davam nenhuma ajuda.”
“Sobravam os populares, que porém por um lado eram ligados a concepções de um mundo agrícola atrasado, de outros tempos. Por outro ainda eram fortemente condicionados pelo Vaticano e pelo papa e não confiavam plenamente em um representante leigo como Giolitti. Portanto a ajuda destes era muito condicionada e limitava exatamente o programa do novo governo. No mais, o poder passava das classes abastadas aos partidos de massa e esta era uma novidade que não se entendia bem como podia funcionar.”
“Giolitti de qualquer forma tentava envolver os socialistas, ou pelo menos uma parte deles, na sua política de reformas. Ao mesmo tempo queria colocar novamente os populares católicos numa posição subalterna e abrir caminho para os fascistas como forma de deter o extremismo socialista. Porém faliu completamente em todos as frentes e também foi o motivo do posterior desastre da democracia.”
“Eu realmente acredito! Com uma confusão dessas, querendo colocar todos dentro!”
“Entretanto, Giolitti fazia um acordo com a Iugoslávia para ficar com a cidade de Zara, mas restituir toda a Dalmácia. Fiume tinha sido proclamada cidade livre e depois de ter tentado fazer D’Annunzio raciocinar, no Natal de 1920, teve que recorrer a alguns tiros de canhão para obrigar os legionários a saírem da cidade. E D’Annunzio fez um grande escândalo!”
“Entre 1919 e 1920 porém, a situação social tinha se tornado perigosa. A classe operária tinha organizado greves e passeatas nas fábricas italianas, culminando com a ocupação de aproximadamente trezentas fábricas no triângulo industrial formado por Milão, Turim e Genova. Manifestavam-se contra o corte dos salários e as suspensões dos patrões. As greves, que tinham uma origem econômica determinada pelas precárias e difíceis condições, também tornaram-se uma luta de caráter político. Assim, os dois motivos, as reinvidicações econômicas e a pressão revolucionária, que se inspirava na revolução de outubro na Rússia, se misturavam e se confundiam de modo perigoso. Na Itália meridional, grupos de trabalhadores tentaram ocupar terras não cultivadas.”
“É isso que os vermelhos sabem fazer! Sempre a mesma história!”
“Mas deixa ele falar, não?”
“As ocupações logo pararam pela falta de apoio dos socialistas, mas enquanto isso se organizava a reação dos patrões, com a organização de corpos de voluntários armados para a defesa da ordem e a constituição da Confederação Geral da Agricultura, que posicionava-se decisivamente contra as ligas camponesas, que, sobretudo na Emilia e na Baixa Padana organizaram incêndios de celeiros, destruição de colheitas, morte de cabeças de gado, bloqueio de estradas...”
“O que eu te dizia...?”, era difícil fazer a senhora ficar quieta. O único modo era continuar como se não tivesse acontecido nada.
“Enquanto isso a produção industrial caía. Com a drástica redução dos lucros, os capitalistas continuavam a negar qualquer forma de melhoria para a classe operária. Neste marasmo, crescia o partido dos nacionalistas e dos veteranos da guerra, que não se sentiam valorizados pelo estado. Diziam que tinham feito tantos sacrifícios na guerra e ninguém reconhecia isto de nenhum modo. Onde estava o bem estar que tinham prometido a todos? E estes só aumentavam as fila que nasciam da reação dos proprietários agrários e fascistas, que organizavam um uso sistemático da violência através dos seus esquadrões de ação. Pagos e abastecidos pelos proprietários agrários, os fascistas atingiam e queimavam os centros das organizações operárias e camponesas, seja socialistas que católicas, devastando, batendo ou matando os chefes sindicais, saqueando, semeando terror e morte, enquanto a opinião pequeno-burguesa aplaudia a sua obra.”
“Então era isso o que faziam aqueles que não eram vermelhos!”
“Sim, mas também batiam e matavam os católicos, não?”
“E então não te parece que estamos do mesmo lado? És muito cabeça dura para não entender certas coisas!”, e a lógica de Angiolino parecia estar fazendo um pouco de luz na mente de Luigia.
“A preocupação política então era aquela de eliminar o descontentamento dos veteranos, sobretudo dannunzianos, e prevenir uma revolução comunista como aquela acontecida na Rússia poucos anos antes. E este medo estava sobretudo no centro da atenção dos ricos, cimentando os medos dos industriais e dos proprietários agrícolas que detinham grande parte da riqueza do país. Assim, o propósito destes últimos era aquele de destruir, de qualquer forma, as organizações operárias e camponesas, levando o conflito de classes para o terreno militar. Isto é, queriam que o exército interviesse contra quem protestava, como já tinha acontecido no fim do século anterior. Se a este desejo insensato se acrescenta a incerteza e a indecisão dos políticos e dos governantes, entende-se como se tudo estivesse pronto para cair da crista do desastre da inteligência.”
“A Itália realmente, na frente de uma bifurcação assim perigosa, escolheu a estrada do fascismo, acreditando que levasse longe, rumo a um futuro melhor.”
“Belo futuro: uma segunda guerra, ainda mais desastrosa e devastadora que a primeira para a Itália!”
“Tens razão, Luigia, mas eu ainda não estou contente!” Era Angiolino que insistia. – “Quero saber mais sobre aqueles anos e sobre os fatos que nos levaram ao fascismo. Ainda quero entender algumas coisas...”
“Algumas coisas a respeito do quê?”
“Algo a respeito dos dois ou três anos nos quais a Itália parecia ir na direção de uma revolução como a da Rússia...”
“Para ti está mesmo atravessado que aquela revolução nunca tenha eclodido? O que pensas que teria acontecido?” Luigia pensava ter sido enganada nos seus sentimentos de antes.
“O que tu queres saber? Quem pode dizer?”
“Exato, ninguém pode dizer nada, já que isto não aconteceu, e a história foi aquela que foi! E tudo somado quem sabe é melhor assim para mim...!”
“Então – cortava eu – a história do ‘biênio’ vermelho, para responder a Angiolino, podemos fazê-la começar no dia 13 de setembro de 1919. Naquele dia, na revista Nova Ordem, que era publicada em Turim por um certo Gobetti, um grande intelectual, tinha um anúncio dirigido ‘Aos comissários de departamento das oficinas Fiat Centro e Patentes’.”
“A Fiat?? Já naquela época?”, o espanto era de todos os dois.
“Sim, exatamente a Fiat e todo o resto que está ligado a ela! Assim, neste anúncio, oficializava-se a existência e o papel dos Conselhos de Fábrica ‘como perspectiva para a gestão autônoma das empresas pelos operários’.”
“E isto significa?”
“Significa que os operários eram capazes de fazer as fábricas funcionarem, não? O que tu achavas? Que não eram capazes?”
“Bem! Não era exatamente assim, mas não era uma novidade. Três meses antes, Gramsci e Togliatti, dois chefes socialistas, tinham abordado o problema num artigo da mesma revista. Turim, com as suas fábricas, tornava-se então praticamente o centro operacional do bolchevismo italiano, porque o que era proposto na revista era a mesma organização que na Rússia tinha sido proposta pelos Soviet...”
“Calma, calma! O que são estes Soviet? Se fala deles desde sempre, mas depois ninguém sabe precisamente.”
“E’ verdade. Só fazemos referências à revolução que tinha estourado na Rússia e tinha acabado dois anos antes.”
“E então o que estás esperando para nos explicar um pouco!”
“Rapidamente! Uma revolução explicada rapidamente! E ainda mais aquela russa... é realmente uma brincadeira!”
“Mas vamos lá professor, não se faça de difícil! Sabemos que se o senhor quer...”
“Não é questão de querer, mas assim, sem mais nem menos...”
“Vamos fazer assim! Ao invés de ‘dar comida aos peixes’, amanhã de manhã estuda um pouco sobre a revolução. E depois estarás prontíssimo. Até porque aqui começam a zunir muitas ‘moscas e moscões’...”
“Exato – reforça Luigia – amanhã estarás pronto!”
Experimentem vocês discutir com um pescador ancião e uma lápide fixada sobre uma rocha, enquanto frotas de turistas giram ao redor e olham perplexas: não se sabe se por indignação ou por preocupação. E depois eu estava em minoria.
O fato é que me convinha ceder. Como sempre aliás!
sobre a revolução russa de volta ao novo biênio vermelho
Na manhã seguinte, bem cedo, eu estava realmente pronto! E não tanto porque eu tinha me preparado no dia anterior, mas porque eu tinha encontrado o modo de simplificar um pouco a explanação. Mesmo se um pouco certamente não significa certamente ‘totalmente’! Mas eu tinha que me preparar para manter calmos os meus dois interlocutores para não perder o fio.
“Começo, se me prometem que não vão me interromper a cada respiração como sempre fazem!”
“Eu não interrompo quase nunca!”
“Claro, pena que estes ‘quase’ aconteçam com tanta freqüência...”
“Mas imagina!”
“Por favor. Tenho que começar!”
“Quando falei sobre quem participava da primeira guerra mundial, também citei a Rússia. Seria muito demorado contar agora toda a sua história e como este país, que tinha ficado por séculos fora do resto da Europa, tivesse feito grandes progressos, mas ainda tinha uma situação econômica e social muito atrasada. Isto tinha levado, depois de várias tentativas de revolta no início do século XX, a São Petersburgo onde estavam o governo e o czar Nicolau II. A revolta tinha acabado num banho de sangue, mas era o sinal de uma insatisfação profunda.”
“A entrada na guerra, a primeira guerra mundial em 1914, logo tinha se revelado uma tragédia para a Rússia. Porque, se nos anos precedentes, a sua economia agrícola e industrial tinha feito notáveis progressos, a mesma coisa não tinha acontecido no campo social, onde resistiam instituições velhas e semifeudais. Sejam os mujiques, isto é, os camponeses que ainda eram como os servos da gleba da Idade Média para os aristocratas, ou os kulak, isto é, os camponeses que tinha se tornado pequenos proprietários, os operários das fábricas não gozavam de nenhuma proteção legal.”
“As repetidas derrotas e o estranhamento da gente do czar Nicolau II em relação à crise fizeram com que em 1916 a Rússia precipitasse num marasmo que levava à revolução eclodida em março de 1917, e que de Petersburgo se espalhou em todo o imenso país, obrigando o czar a abdicar transformando a Rússia, pela primeira vez, numa república.”
“Porém, no novo estado enfrentam-se dois poderes: o governo provisório, apoiado pela burguesia liberal, e os Soviet, conselhos revolucionários inspirados pelos socialistas e apoiados pelas massas populares. Mesmo se os bolcheviques, sob a influência de Lênin, tentam reivindicar todo o poder aos Soviet, vive-se com um duplo poder, enquanto os camponeses apropriam-se por conta própria das terras.”
“Depois também tentaram isto na Itália, não é verdade?”
“Sim, mas vamos prosseguir. Em agosto, frente a um golpe de estado reacionário, com qual o czar tenta retomar o poder, os bolcheviques iniciam uma nova revolução que se conclui no dia 7 de novembro com o governo provisório que dá origem a um estado comandado pelo Conselho dos Comissários do Povo, presidido pelo próprio Lênin.”
“É este conselho que trata o fim da guerra com os impérios centrais, isto é a Áustria e a Prússia, aceitando condições duríssimas na paz de Brest-Litovsk, completando depois a distribuição das terras aos camponeses, das fábricas aos operários e nacionalizando os bancos. E apesar da tentativa de reação das Armadas Brancas, apoiadas pelas forças francesas, inglesas e japonesas, o conflito conclui-se com a vitória da Armada Vermelha em 1922 e a proclamação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS em suma!”
“Mas então em 1919 não existia nem a União Soviética!!”, diz incrédulo Angiolino.
“Claro que não! E então é por isso que havia tanta incerteza e confusão até na Itália e os socialistas não sabiam exatamente o que fazer!”
“E que tinha japoneses na revolução russa... esta então! Os japoneses hoje se encontram em todos os lugares! Mas naquela época...”, Luigia estava admirada com a notícia.
“Sim, eles estavam lá, mesmo se, num segundo momento, mas o que isto tem a ver?”
“Exato, não significa nada. Mas então, aqueles do biênio vermelho? Gramsci e Togliatti não eram comunistas?”
“Não! Em 1919 ainda eram socialistas. Tornaram-se comunistas só em 1921 com o congresso de Livorno. Mas falemos disto depois...”
“Que beleza de comunista que tu és! Não sabias nem mesmo que Gramsci era socialista! Uma confusão: isto é o que vocês são!”, provocava a senhora.
“Ouçam! A senhora com o seu ‘E eu o que sei?’ mandou os fascistas para o governo!”
“Eu não mandei ninguém...”
“Senhores, senhores!! O que tínhamos combinado? Devo parar e deixá-los brigando?”
“Não, não, continua. Temos bastante tempo para brigar depois... neste inverno, quando não estarás aqui. Então terei um bocado de coisas para dizer para aquele ‘sabe tudo’!!”
“Bem! Em 1919, este artigo fundamentava as passeatas, que iniciaram nas fábricas mecânicas, para depois passar para as ferrovias, os transportes e outras indústrias, enquanto os camponeses ocupavam as terras como tinham feito na Rússia em 1917.”
“A Planície Paduana era a mais próxima das fábricas e aqui começaram os conflitos nos campos entre proprietários e trabalhadores agrícolas, com os atos de violência que eu já lembrei e as respostas, também sangrentas e ousadas, sobretudo na Emilia Romagna.”
“Porém, a greve não era só isto: os grevistas experimentavam pela primeira vez uma auto-administração operária. Foram mais de meio milhão os grevistas que trabalhavam produzindo para eles mesmos. E a união sindical que os organizava, a USI, alcançou quase um milhão de inscritos. Uma cifra inacreditavelmente alta para uma associação da época!
“Aliás, nas fábricas do norte, a experiência difundia-se velozmente com o apoio dos anárquicos, enquanto os socialistas mais que os outros ficavam observando. Foi então que Gramsci, que estava entre os socialistas radicais, entendeu que o partido era incapaz de reagir e tentou organizar, também de forma prática, os operários em Turim. Mas os operários desta vez foram combatidos pelo governo, que apoiava a reação dos industriais, que viam suas fábricas sendo tomadas, com milhares de militares em posição de guerra.”
“Então, desde 28 de março de 1920 enfrentavam-se duas facções: os operários, que tinham declarado greve a tempo indeterminado de um lado, e do outro os proprietários que fechavam as fábricas como reação. E o conflito durou alguns meses com negociações sobre aumentos salariais sempre recusados pela Confederação Geral da Indústria. E as respostas negativas pioravam ainda mais as divergências.”
“Foi neste ponto que os operários ocuparam as fábricas também com as armas: era o dia 30 de agosto do mesmo ano.”
“O partido Socialista tentava entretanto negociar com o governo de Giolitti, enquanto os industriais e os proprietários agrários, mais práticos, pagavam diretamente os esquadrões dos ‘ras’ fascistas para que semeassem o terror entre as pessoas. Nas greves agrárias na Planície Paduana, na greve geral dos metalúrgicos no Piemonte e na ocupação das fábricas em muitas cidade italianas, os fascistas respondiam com a violência. Esquadrões armados de facistas agora intervinham abertamente para desmantelar as greves agredindo os participantes, surrando os deputados e os simpatizantes socialistas.”
“Em novembro, tiroteios e bombas de mão receberam a eleição do novo prefeito socialista de Bolonha. Na praça morreram nove pessoas, enquanto um conselheiro nacionalista era morto na Câmara Municipal. Mas as ‘expedições de punição’ aconteciam também na Toscana, Lombardia, Vêneto, Úmbria... foram tomadas metodicamente as casas do Povo, as sedes das administrações municipais socialistas e as ligas católicas...”
“Numa Veneza Giulia recém-italiana, esquadrões de fascistas invadiram e incendiaram as sedes dos jornais em língua eslovena. Os fascistas também eram racistas e no Alto Adige o mesmo acontecia aos habitantes de língua alemã, para os quais os fascistas pediam uma ‘italianização’ forçada. Naquela ocasião Mussolini afirmava que: ‘Devemos exterminar o ninho de víboras alemão!’.”
“Eram, sobretudo os prefeitos, os comissários de polícia, os comandantes militares que permitiam e também facilitavam em certos casos as ‘operações’ dos esquadrões fascistas contra o ‘subversivismo vermelho’. Quem devia manter a ordem fomentava a desordem e a favorecia!”
“Frente a tudo isto, Giolitti tentava minimizar dizendo que: ‘São fogos de artifício, que fazem muito barulho, mas apagam-se rapidamente!’.”
“Como dizia um professor meu: era um idiota útil!”
“De fato, a falta de intervenção da polícia e do exército para fazer respeitar a lei e os cidadãos, continuaria acontecendo para Giolitti na expectativa que o movimento acabasse por si só, até que terminassem as matérias primas nas fábricas e nos depósitos das empresas ocupadas, que os próprios operários se convencessem que a ocupação não podia durar para sempre. Porém, ao mesmo tempo, promovia encontros entre sindicatos e empresários e, praticamente, obrigou os industriais a conceder maiores direitos e aumentos salariais aos operários.”
“Desta forma, no início de outubro, Giolitti conseguiu fazer assinar entre as partes um compromisso com uma lei sobre o controle operário das fábricas, que, todavia não nunca foi implementada. Porém serviu para encerrar as agitações trazendo resultados econômicos positivos. Os trabalhadores obtinham melhorias nos salários e nas condições de trabalho, com horários que diminuíam de dez a onze horas para oito horas de trabalho diário.”
“Mas politicamente teve o efeito de assustar a burguesia e a classe média empregadora, que começava a se constituir como classe social na Itália. Temerosos com a possibilidade de uma revolução, estes pequenos burgueses recém-chegados ao cenário político-econômico eram secretamente atraídos pelo fascínio da idéia que um apoio à violência dos fascistas teria defendido os seus pequenos interesses particulares. Naturalmente, tudo isto sem se expor pessoalmente, mas eventualmente no segredo de uma urna eleitoral quando surgisse a oportunidade.”
“Além disso, foi o próprio Giolitti que favoreceu a ascensão deste partido que ainda não tinha nenhum representante no parlamento. Quando aconteceram as eleições de maio de 1921, na ingênua tentativa de absorver os facistas no interno da praxi parlamentar, tirando-os das manifestações mais claras da sua violência, inseriu-os nos grupos nacionais de oposição aos partidos de massa representados pelos populares e pelos socialistas. A estes unia-se o recém-nascido partido comunista, saído da cisão de Livorno.”
“Mas não tinhas falado sobre isto! E Livorno é aqui pertinho...”, ainda uma vez a impaciência dos meus ouvintes me interrompia.
“Um momento! Depois eu falo mais, mas deixem eu concluir isto.”
“Assim, com o apoio declarado de Giolitti, foram eleitos para o parlamento 35 deputados fascistas chefiados por Benito Mussolini. Era uma grande viravolta que, porém, imporia a si mesmo para todos os italianos com a prevaricação e a prepotência não combatidas pelas instituições.”
“As esperanças de Giolitti, melhor seria chamá-las de ingênuas ilusões, foram imediatamente desmentidas. As violências não pararam nem mesmo com as eleições. Na Planície Paduana, nos primeiros meses de 1921, já haviam ocorrido 726 ataques feitos pelos esquadrões fascistas. E os objetivos mostravam como quisessem atingir exata e exclusivamente os interesses dos partidos de massa: foram destruídas 59 casas do povo, 119 câmaras do trabalho, 107 cooperativas, 83 ligas camponesas, 141 seções socialistas, 100 círculos culturais, 28 sedes de sindicatos operários, 53 círculos recreativos operários...”
“Quem devia manter a ordem escreveu as páginas mais brutais e vis para as instituições do Estado. Não interveio para impedir a ilegalidade e, em alguns casos, até a própria força policial se uniu aos esquadrões fascistas.”
“Contra estes reagiram os anárquicos e comunistas, que formaram por sua vez os esquadrões dos “Arditi del Popolo”,[3] criando conflitos inigualáveis como a defesa de Parma, atacada em agosto de 1922 por milhares de fascistas.”
“Todavia, agora isto não servia para mais nada. Não era possível interferir no que acontecia, quando as próprias instituições do Estado estavam amplamente comprometidas com o fascismo. Já em setembro de 1920, o Estado Maior do Exército escrevia aos comandantes das corporações armadas: ‘Pelas notícias que chegam sobre as atividades dos Feixes de Combate, nota-se como estes em geral estão assumindo uma importância não indiferente e que agora já podem se considerar forças vivas para contrapor eventualmente aos elementos antinacionais e subversivos. Parece oportuno, portanto, que este Gabinete procure manter o contato com os mesmos seguindo sempre de perto a atividade e eventualmente informando o que fosse especialmente notável!”
“Entendem agora de onde vinha o apoio ao fascismo e quem facilitou a conquista do poder de modo antidemocrático aos fascistas?”
“Então o biênio vermelho tinha produzido duas forças diametralmente opostas e, pensem um pouco, ambas tinham nascido do partido socialista. De um lado, em janeiro de 1921 em Livorno, onde tinha acontecido o Congresso do partido socialista, manifestaram-se em toda a sua dureza as dissidências dos grupos de Amedeo Bordiga e Antonio Gramsci e se fundava o Partido Comunista. Ao mesmo tempo, reforçava-se e delineava-se nas suas características mais marcantes a face reacionária e violenta do fascismo, também determinante para a sucessiva história da Itália, com o apoio, aliás, com a conivência das instituições.”
“De fato, o governo Giolitti caiu imediatamente, exatamente pela falência da sua política que tinha deixado aberta a estrada e dado apoio à entrada no parlamento dos fascistas, sob os fracos governos Bonomi e Facta que se seguiram, os fascistas pontificavam sobre inteiras regiões sem a mínima intervenção dos poderes do estado em defesa da legalidade. Mussolini, todavia, não queria se confundir abertamente com o esquadrismo para não ser derrubado e superado pelos mesmos ‘ras’ das províncias e fingia um comportamento constitucionalista, assinando até um pacto de pacificação com os socialistas. Tudo mentira!”
“O pacto foi de brevíssima duração e serviu maravilhosamente a Mussolini para criar a fama de político bonzinho, enquanto seguia a linha da estrada dupla, esquadrista e legalitario, uma linha que foi confirmada no Congresso que, em Roma, em novembro de 1921, transformou os “Fasci di combattimento” no Partido Nacional Fascista.”
a marcha sobre Roma
Tinham-se passado alguns dias desde o nosso último encontro. Angiolino ficava mais tempo no mar, naquelas manhãs de bonança, e a senhora Luigia também parecia estar absorta em seus pensamentos e respondia de modo distraído as perguntas que, passando, eu lançava disfarçadamente, cuidando para que ninguém se desse conta. Eu fazia questão que ninguém ficasse sabendo de nossas discussões. Não teria sabido explicá-las logicamente.
Com o próprio Angiolino eu tinha conversado algumas vezes, para seu grande divertimento, ressaltando com cuidado as minhas perplexidades de professor. Eu tinha um pouco de reputação a defender e não era uma desculpa dizer que, na sua maioria, ninguém dali me conhecia nas minhas funções e atribuições profissionais. Angiolino defendia que as convenções usuais só eram bobas restrições para não nos deixar fazer o que na realidade cada um de nós gostaria de fazer sem incomodar ninguém. E hoje devo convir que o próprio Angiolino tinha até razão de sobra no que dizia. Por isto sugiro que não prestem muita atenção se me encontrarem em alguma situação curiosa.
Por outro lado, parecia que, nos anos passados, a única pessoa ‘estranha’ que tivesse sido admitida nas nossas intermináveis e acirradas discussões estivesse completamente à vontade entre nós e não achasse nada de estranho. Tratava-se naturalmente de Matilde, minha filha, que todos chamamos afetuosamente de Mati.
Na realidade, antes era muito pequena para se interessar em nossas conversas e a ela bastava algum brinquedo que ela usava silenciosa e concentrada, deixada um pouco na sombra, mas sempre ao alcance da vista. Atenta aos seus jogos, parava somente para olhar sonhadora, de vez em quando, impressionada e admirada, para o fascinante do mar de Manarola, ou para nos advertir que já era a hora do almoço nas jornadas mais acirradas. Para ela, enfim, tinha-se tornado tão natural viver no mundo mágico dos nossos encontros assim irreais que, considerando tudo, nunca me pediu para ir a outros lugares. Quem sabe por isto é parecida comigo!! E Patty acrescenta: infelizmente!
Naquela época eu nem entendia quanto profundo era o eco das minhas palavras para os meus dois interlocutores. Para mim, os fatos que eu estava contando tinham sido somente objeto de estudo e de pesquisa. Para eles eram, ao contrário, partes ainda vivas da sua existência, momentos sofridos nos quais, além das suas convicções, deviam recolocar também as faces e os afetos de tantas pessoas conhecidas e agora desaparecidas, que tinham marcado profundamente interna e externamente as suas vidas. Não era fácil para eles transformar ou mudar, um pouco que seja, as próprias convicções que tinham sido lentamente construídas durante anos e agora, talvez, quase nem emcontravam as palavras certas para expressá-las.
Tinha até me dado conta, na época, de como o que eu mais havia temido e que tinha me deixado por tanto tempo relutante em penetrar na história do último século fosse completamente errado. Eu tinha internamente temido que contar fatos tão arraigados a experiências de ambos podia gerar o contraste aberto e desrespeitoso das opiniões de um em relação as do outro. E, ao invés, me dava conta que, conforme nos aproximávamos da atualidade, as minhas palavras sedimentavam-se sempre com mais força no íntimo deles, revividas no seu significado mais profundo, mas tão profundo que se tornava inalcançável inclusive para mim. E como tudo isto lhes requisesse, sempre mais, uma coisa muito simples, mas que na realidade é muito grande: o silêncio. Um silêncio no qual meditar sobre o que tinham ouvido, para revivê-lo de uma nova forma, mais consciente.
Por isto passaram-se alguns dias, com o tácito acordo comum, antes que inesperadamente numa manhã se retomasse o discurso bruscamente interrompido.
“O fascismo conquistou definitivamente o poder em 1922, com a marcha sobre Roma. De fato, tinha-se criado uma Aliança do Trabalho entre a CGIL[4] e outras organizações sindicais, para defender os trabalhadores do avanço da violência fascista. Em 31 de julho foi proclamada a greve geral de protesto em defesa da legalidade e a direção do partido fascista deu um ultimato ao governo Facta, ameaçando a intervenção dos esquadrões fascistas se o estado não parasse o protesto em quarenta e oito horas! Seguiram-se dias de violências e ataques dos esquadrões fascistas, enquanto as forças da ordem ficavam somente olhando.”
“Foi um verdadeiro golpe de estado, que só carecia do aval, do consentimento do rei, para que tivesse publicamente o apoio dos ambientes militares. O partido fascista era declaradamente republicano, mas a sede de poder permitia a Mussolini mudar de lado a qualquer momento e em Udine, num discurso confuso em setembro do mesmo ano, ele declarava que: ‘Eu acho que se pode renovar profundamente o regime, deixando de lado a instituição monárquica... Por que somos republicanos? Porque vemos um monarca não suficientemente monarca. A monarquia então, representaria a continuidade histórica da nação’. E no mesmo discurso tranqüilizava também os ambientes industriais que desconfiavam de seus precedentes socialistas, pregando o mais radical liberalismo econômico.”
“Do lado dos patrões abertamente, em suma...!” Angiolino queria quase uma confirmação para si mesmo.
“Sim, claramente do lado dos industriais e dos proprietários agrários. Por outro lado, os fascistas o tinham demonstrado desde a origem dos fasci di combatimento. Este era o segredo oficial que confirmava a continuidade com os mesmos.
“As declarações da inevitável tomada do poder pelos fascistas eram sempre mais abertamente anunciadas pelo próprio Mussolini. Os fascistas preparavam-se para um ato de força. E assim, em 24 de outubro de 1922, reuniram-se em Nápoles alguns milhares de camisas negras,[5] e Mussolini berrava a eles: ‘Ou nos dão o governo, ou o tomaremos atacando Roma: agora trata-se de dias e quem sabe de horas...’.”
“Assim, como dizia uma comunicação dos quadrumviros[6] fascistas, em 27 de outubro o exército dos camisas negras marchava ‘desesperadamente’ sobre Roma. Na realidade, o verdadeiro desespero devia ser aquele dos milhões de italianos que perdiam a liberdade, porque a Marcha sobre Roma de 28 de outubro de 1922 não encontrou nenhuma forma considerável de resistência seja do exército ou das forças da ordem. Aliás, o rei, que no dia 27 tinha concordado com Facta em proclamar o estado de sítio, na manhã seguinte recusou-se a assiná-lo, entregando decisivamente o país nas mãos de Mussolini! De fato, alguns dias depois, o rei também confiou a Mussolini a tarefa de formar o novo governo, como se fosse uma normal renovação de ministérios. A gloriosa Marcha sobre Roma tinha-se concluído!
“Mas não tinham pelo menos a noção do ridículo?”, resmungava Angiolino.
“Não, os trágicos bufões da história, que levam tantos homens à catástrofe, infelizmente, a noção do ridículo eles não têm!”
“Por que dizes sempre o rei, sem dizer que rei? Era sempre o rei de Itália, não?” Luigia é monárquica e sempre será, não tem jeito.
“Tem razão, senhora Luigia. Mas é mais forte que eu. Amo muito a Itália e me envergonha que certos personagens tenham estado no poder na nossa nação e tenham feito a nossa história. Uma história trágica, infelizmente!”
Naquele ponto, me convinha calar e sair rapidamente antes de alguém começar a esbravejar.
o nascimento de uma ditadura
“O primeiro governo Mussolini, do qual participavam também ministros liberais, obteve o voto de confiança de um amplo grupo parlamentar que era formado por liberais – a maioria – e até por integrantes do partido popular. De fato foram 306 os votos favoráveis e 116 os contrários. Na prática, liberais e populares davam o consentimento ao golpe de estado. E nem disto tiveram consciência.”
“Ah! Mas então é realmente verdade que a burrice não tem limite!”, sibilava Luigia indignada.
“Usando os poderes constitucionais que eram dados pelo rei, entre 1922 e 1925, Mussolini iniciou um sistemático processo de mudança do Estado segundo as perspectivas particulares do fascismo, das suas estruturas e da sua organização, lançando as bases para uma ditadura na Itália: reforçava sem titubeios o poder executivo, enfraquecia por outro lado a intervenção do Parlamento nas decisões mais importantes, integrava as estruturas militares e políticas fascistas na máquina do estado, reduzia prerrogativas da oposição, redução que logo se tornará eliminação total do pluralismo político, para impor o partido único, eliminação das liberdades constitucionais mais importantes, como a de imprensa, de associação e de greve.”
“É verdade, é verdade – repetia a si mesmo Angiolino – como fomos burros em não nos darmos conta imediatamente. E nós estávamos dentro!”
“Parece inacreditável a facilidade com que se podia renunciar na época à liberdade. Mas aquela liberdade era o fruto suado do próprio Rissurgimento, da própria unificação da Itália que tanto sangue e tantas fadigas tinha custado aos italianos no século precedente. Não se tinham passado nem cem anos desde a Unidade... – também suspirava Luigia – mas como podiam não se dar conta?”
“Infelizmente o que aconteceu então, com a cegueira de tanta gente de boa fé, pode-se repetir. Aliás, realmente tenho medo que agora ainda possa ser não só um perigo presente para a nossa democracia, mas uma realidade que cresce sem controle, fingindo mudar só algumas poucas coisas e enfraquecendo a democracia exatamente nas suas bases!”
“Agora?? Como assim?? Estás falando de agora?”
“Sim, pode parecer estranho que eu seja assim pessimista, mas possivelmente na Itália atual acontece um pouco a mesma coisa. Olha, naquela época também tinha gente descontente e gente que tinha reunido de algum modo um pouco de dinheiro, até mesmo com o mercado ilegal ou que sentia ter crescido socialmente, se tornado um pouco mais importante. E tinha um grande medo que alguém lhe tirasse os próprios privilégios. Pensava: ‘Não, não tem como todo mundo ficar bem. Então é melhor que esteja bem eu, os outros que se arranjem!’. Pensava e pensa que a solidariedade era e é ainda hoje um perigo para si. Nesta situação, quando alguém levanta a voz, e promete, e promete, e diz que vai defender os seus privilégios, os seus direitos pessoais, faz com que esta gente fique ainda mais cega, e se deixe enganar.”
“Isto seria dos males o menor, se os enganados fossem somente eles! A renúncia à liberdade, ao parlamento, à imprensa, à livre comunicação e ao confronto, entre outras coisas, leva sempre, certamente, à perda da sua própria segurança e da de todos os outros que, mesmo não estando convencidos de tudo isto, são obrigados a vivê-lo. Tomar este rumo é fácil, sair dele, ao contrário, é muito doloroso. E quando nos damos conta, estamos cheios de problemas. E grandes problemas. Porque recuperar o que se destrói com a renúncia à liberdade torna-se demorado e cansativo e se paga abundantemente.”
“Seja um pouco mais claro! A quem te referes quando dizes que hoje...”, eis a ânsia de Angiolino.
“Ei! um momento. Fui um pouco longe demais, e estou antecipando muito. Chegaremos aos dias de hoje, mas deixem-me antes acabar de falar sobre o fascismo, ou não??”
“Certo, certo, não vamos perder o fio, caso contrário depois não vamos entender mais nada. Estamos só no início desta história de Mussolini.” A senhora estava mais acostumada à ordem nas coisas.
“Em 1922 nasce, com grandes celebrações, o Grande Conselho do fascismo e, no ano seguinte, o esquadrismo, assim como eu tinha antecipado, torna-se Milícia voluntária para a segurança nacional, isto é, inclusive reconhecida como uma terceira força de segurança com a polícia e a brigada. O duplo objetivo de Mussolini era que a Milícia pudesse servir ao seu bel prazer contra os inimigos políticos e exercitar um controle direto sobre o braço armado do seu próprio movimento.”
“Isto é, o que quer dizer?”
“Quer dizer que Mussolini não confiava nem mesmo nos seus fascistas quando armados e queria ter um tipo de escolta pessoal, para evitar qualquer surpresa.”
“Como os imperadores romanos com aqueles... como se chamavam?”
“Como um imperador romano com os seus pretorianos. Por outro lado, uma das fantasias de Mussolini era exatamente aquela de reconstruir o império romano e o imitava sob diversos aspectos. Por exemplo, o rei da Itália não se tornará ‘imperador’? Sempre em 1923, foi aprovada uma nova lei eleitoral, a lei Acerbo, que realmente eliminava o sistema proporcional fixando um prêmio de maioria igual a 2/3 das cadeiras para o partido que obtivesse mais de 25% dos votos. Uma verdadeira fraude eleitoral para fingir que tomava posse democraticamente de todo o poder do estado.”
“Com um quarto dos votos tinha-se o controle da Itália?? Entendi bem?”
“Sim, entendeste bem! As eleições de abril de 1924 ocorreram num clima de terror e de violência. As oposições estavam como sempre brigando entre si como os famosos frangos de Renzo, e não configuravam uma alternativa válida ao ‘partidão’ fascista. Mesmo porque ao ‘partidão’fascista aderiam também a maior parte dos liberais menos Giolitti, que tinha entendido finalmente o enorme erro que tinha cometido tão ingenuamente. O fato é que o ‘partidão’ conquistou 403 cadeiras contra só 106 das oposições.”
“O jogo ‘democrático’ tinha sido feito. Isto servia a Mussolini para garantir a si um período de trégua sem ter que se preocupar com a intromissão de outras democracias européias.”
“Logo depois das eleições, porém, o fascismo teve que enfrentar uma gravíssima crise. De fato, o partido fascista não tinha nem mesmo acreditado no sucesso do ‘partidão’ e tinha tomado as suas precauções que, como sempre, baseavam-se na ilegalidade garantida. E alguém tinha denunciado abertamente no Parlamento. O modo mais simples e natural numa democracia que se respeite! E o modo mais simples de responder para um regime antidemocrático qual é então? Fazer desaparecer para sempre quem levanta muito a voz na sua denúncia. E foi assim.”
“Logo após o seqüestro e a morte do deputado socialista Giacomo Matteotti, que na abertura da nova Câmara tinha denunciado, abertamente e documentado-as, as inumeráveis ilegalidades e as violências perpetuadas pelos fascistas durante a campanha eleitoral, difundiu-se no país uma onda de protestos e indignação.”
“As forças da oposição, dos liberais de Amendola, aos socialistas e comunistas, abandonaram o Parlamento e se retiraram num ato que Filippo Turati definiu como ‘o Aventino das consciências’.”
“O Aventino? Nunca tinha ouvido falar!”
“Nem eu sei o que seja esta coisa!”
“Vocês têm razão. Eu já explico. De tanto falar sobre a história romana naquele tempo, a oposição também usava um exemplo que vinha dali. É uma anedota que se conta a todos os jovens na escola quando estudam justamente a história de Roma.”
“O que acontece é que, durante a formação das instituições da república romana, no longínquo 494 antes de Cristo, os plebeus, que eram os pobres, como a eles não era concedido nenhum poder, tinham saído da cidade para protestar e tinham-se refugiado numa das sete colinas de Roma, exatamente na Colina Aventino, deixando sozinhos os patrícios na cidade. Naturalmente, passado um pouco de tempo, os ricos patrícios se deram conta que, sem quem trabalhava, tornava-se impossível viver. Então mandaram até a colina um certo Menenio Agrippa, que contou a eles uma historinha. Isto é, que uma vez os membros do corpo resolveram brigar com o estômago, porque ele ficava com toda a comida e para eles não sobrava nunca nada. Então decidiram fazer uma greve. As mãos não pegavam a comida, os olhos não a olhavam, a boca não a aceitava, o nariz... enfim, ninguém colaborava para boicotar o estômago. Depois de um certo tempo, todavia, todos os membros se deram conta que estavam ficando fracos e se cansavam para cumprir as suas funções e finalmente entenderam que, se ao estômago tinha que ir comida era uma vantagem e um benefício para todos. Então recomeçaram a colaborar! O conceito era que, num estado, todos têm que fazer a sua parte, mesmo que seja a menos interessante, porque só assim pode-se obter vantagens para todos e pode-se sobreviver. Foi assim que os plebeus voltaram para Roma e fizeram as pazes com os patrícios que, em troca, concederam a estes mais benefícios.”
“E também foi assim com os fascistas?”
“De jeito nenhum! E isto também demonstra que as lendas não ensinam tanto assim. Da mesma forma que a história! Porque as diferenças internas das oposições permaneciam. Os velhos liberais de Giolitti e os socialistas eram mais prudentes, enquanto os comunistas pensavam num verdadeiro Parlamento alternativo. Assim, o projeto de convencer o rei a rever as suas decisões e fazer novas eleições reformulando a lei proporcional para os partidos faliu.”
“Mas o que pensavas! Queres que uma vez sequer concordem com a esquerda?”
“Assim, em 3 de janeiro de 1924, Mussolini pronuncia um discurso na Câmara em que dizia: “Declaro aqui, na presença desta assembléia e de todo o povo italiano, que eu assumo, eu só, a responsabilidade política, moral, histórica de tudo que aconteceu”. O chefe do governo legítimo assumia abertamente e prodigamente a responsabilidade do assassinato e dos outros crimes! Era a declaração que qualquer delito podia ser cometido pelo fascismo impunemente! A ditadura tinha iniciado mostrando sua verdadeira face criminosa.”
“Nos dias seguintes, foi abolida a liberdade de imprensa para os jornais de oposição, foram fechados 35 círculos políticos, dissolvidas 25 organizações definidas subversivas, fechados 150 negócios, presos 111 opositores e feitas 655 buscas domiciliares. E isto é só o que foi declarado oficialmente. Porque a violência contra os opositores crescia de modo cada vez mais selvagem: Amendola, principal chefe da oposição depois da morte de Matteotti, foi agredido de novo, em 20 de julho de 1925, por um esquadrão comandado por Carlo Scorza, futuro secretário do partido fascista, e morreu no abril sucessivo na França. A família Rosselli sofreu três ‘ações punitivas’. Filippo Turati e Gaetano Salvemini foram obrigados a se refugiar no exterior onde já estava o fundador do Partido Popular Católico, Don Luigi Sturzo. Em 4 de outubro de 1925, repetiu-se em Florença um massacre de antifascistas como aquele que já tinha ocorrido em 18 de dezembro de 1922 em Turim, naquela que foi chamada a ‘noite de São Bartolomeu’, para recordar quando os católicos tinham massacrado os huguenotes na França para tomar o poder.”
“Também na Câmara dos deputados, que até tinha sido fechada por longos períodos aos opositores, os fascistas praticamente não permitiam mais que eles usassem a palavra. Mussolini expressava-se contra ‘o parlamentarismo falador’ que, dizia ele, ‘somente o fazia perder tempo’.”
“Passaram-se apenas poucos meses e foram exaradas as ‘leis fascistíssimas’. Aproveitando o atentado projetado por um deputado da oposição, Tito Zaniboni, denunciado antecipadamente por um espião, no dia 4 de novembro de 1925, Mussolini mandou ocupar as lojas maçônicas, dissolveu o partido Socialista Unitário e suprimiu o órgão de imprensa, La Giustizia, além de apropriar-se do Corriere della Sera e do La Stampa, dissolveu centenas de associações, decretou a demissão de milhares de empregados estatais, tolheu a cidadania aos exilados políticos, modificou o Estatuto estabelecendo que ao chefe do governo, nomeado pelo rei e não mais sujeito a confiança parlamentar, fossem atribuídos poderes especiais entre os quais a nomeação a seu critério dos ministros e a decisão das pautas em discussão no Parlamento. No início de 1926, são abolidas as administrações locais de nomeação eletiva e o prefeito é substituido pelo administrador nomeado pelo governo. Assim o governo tinha um controle direto até nos mais longínquos e afastados lugarejos da Itália. A ocupação do poder pelo fascismo era completa. A palavra democracia e a liberdade eram só uma saudade. Os italianos eram escravos do governo e, escreve um grande poeta da literatura italiana, Eugenio Montale, ‘dos seus facínoras’, que quer dizer capangas e sicários!”
“E ainda não tinha acabado. Após outro atentado, que ainda hoje permanece misterioso e que provavelmente tinha sido organizado pelo próprio governo, pelo qual foi acusado um jovem de quinze anos, Anteo Zamboni, linchado em Bolonha em 31 de outubro de 1926, Mussolini instituiu a pena de confinamento, introduziu a pena de morte, criou a polícia secreta, que se chamava OVRA e o Tribunal Especial para a Defesa do Estado, para combater e prevenir os crimes políticos, isto é, encarcerar os opositores do fascismo, proclamou a cassação de 120 deputados da oposição acusados de ter desertado dos trabalhos parlamentares, entre eles também os comunistas que, em Montecitorio, tinham voltado tentando fazer ouvir a própria voz.”
“Todos estas providências, que só aumentavam os poderes do executivo, isto é, do governo sobre o Parlamento, passaram, em novembro, na Câmera e no Senado sem que sequer pudessem ser discutidos. Duríssimas condenações foram atribuídas aos opositores. Condenações que iam de 20 a 23 anos de cárcere para Gramsci, Terracini, Scoccimarro, mas foram centenas os antifascistas que encheram os cárceres. As investigações e a repressão foram executadas sobretudo pelos gabinetes especiais de polícia que constituíram a OVRA, cuja sigla, que sempre permaneceu misteriosa, foi inventada pessoalmente por Mussolini.”
“A partir de novembro de 1926, acaba na Itália todo o tipo de vida política livre e inicia o ‘regime’. Começa a ‘fascistização’ de todas as instituições e de todos os setores de atividade nacional: imprensa, escola, justiça, diplomacia, exército, organizações de jovens e profissionais. São suprimidas as eleições livres para o completamento da obra. O regime parlamentar, a este ponto, não existe mais, tendo sido substituído por um regime autoritário com partido único, baseado na autoridade do chefe do governo e no terrorismo policial. E tudo isso não será por pouco tempo!”
“A ditadura fascista durou uns vinte anos, até julho de 43. A sociedade, a informação, a escola eram “fascistizadas”; os opositores surrados, presos, enviados para as fronteiras ou constrangidos ao exílio e ao silêncio. Em 1938 também foram promulgadas as leis raciais, que privaram judeus e ciganos dos direitos civis.”
“Ironicamente, o início do fim para o regime fascista foi o Pacto de Aço estipulado exatamente por Mussolini com Hitler e, sucessivamente, a entrada da Itália na guerra, ao lado dos nazistas, em 1940. Só então, entre os italianos, cresceu muitíssimo a discordância em relação a Mussolini, que antes era algo limitado a uma minoria.”
“Com a queda do fascismo, depois do armistício de setembro de 1943, houve o apêndice da República Social. O governo republicano dividiu ao meio a Itália, colaborou abertamente com a política alemã de deportação dos judeus e dos opositores políticos para os campos de extermínio e arrastou os ‘jovens de Saló’ para a guerra civil contra a resistência que lutava pela volta da liberdade e contra o invasor germânico.”
“O pesadelo só acabará com a liberação das cidades do norte, em abril de 1945. A nova constituição republicana de 1948 estabelecerá também o veto de reconstituição do partido fascista. Porém, enquanto isso, tínhamos combatido uma outra guerra: a segunda guerra mundial.”
“É o período mais negro e vergonhoso da nossa história italiana. É por isso que eu acho que quem hoje exalta o fascismo e o justifica, mesmo que seja por ignorância sobre o que realmente foi o fascismo, torna-se não só um imbecil no momento presente, mas também um cúmplice dos crimes que o fascismo perpetuou na nossa pátria!”
Naquele dia, o tempo tinha voado sem que sentíssemos. Quando nos acordamos de um tipo de sonho que tinha nos subtraído da realidade, as últimas luzes do pôr-do-sol tinham-se alongado numa faixa dourada sobre as ondas levemente crespas do mar. A nossa volta tínhamos uma pequena multidão de curiosos que nos observava admirada e que, eu acho, tinha ouvido, um pouco impressionada, as últimas partes da nossa história.
Não nos despedimos nem de Luigia. Angiolino e eu nos encaminhamos lentamente para a Marina Piccola que se iluminava como num passe de mágica.
os anos do fascismo
Hoje não consigo mais lembrar os horários e dias das nossas discussões, assim as datas se confundem e se acavalam confusas nos meus diários, até porque tínhamos, cada vez mais, a sensação de estar em outro patamar, isolados de tudo cada vez que nos encontrávamos, como um grupo de conspiradores.
Ao nosso redor, Manarola mudava com o passar veloz dos anos. Alguns iam para o cemitério, e a cada verão eu sempre via novas faces de recém-chegados e, ao mesmo tempo, cada vez menos faces de velhos conhecidos. Era Angiolino quem tinha silenciosamente se encarregado de levar a última saudação em nosso nome, mas não amava muito falar daquelas suas idas ao cemitério sobre a Ponta, idas que ele teria dispensado com muita satisfação.
Porém, Manarola mudava inexoravelmente. Acrescentava a si casas reformadas recentemente, com cores sempre mais chamativas que a tornavam ainda mais bela e pitoresca mesmo que menos verdadeira; três ou quatro lojas e bares também se alinhavam com mesinhas e araras de boutique ao longo do breve trecho em direção à Marina e a tornavam colorida sim, mas também muito povoada. Por isso nos abrigávamos no nosso refúgio, no frescor da manhã, para desfrutar aquelas migalhas de solidão que tinham permanecido. E víamos a senhora Luigia incomodar-se sempre mais com aquelas mudanças.
Óbvio, dizia-se para consolá-la, Manarola não podia permanecer a mesma para sempre. Tinha ficado imutável por mais de um século, então...
Não que este argumento a convencesse muito, mas garantia-lhe que, no fim das contas, o importante era não descaracterizar a nossa Manarola. Nós ficaríamos atentos para que não se estragasse e enfeiasse com prédios e outros horrores da civilização dos anos oitenta, noventa e posteriores.
“Me juras tu, que giras o mundo, que existe algo pior do que estão fazendo aqui?”, argumentava então.
“Claro, eu respondia, e depois os manaroleses também têm o direito de melhorar a própria vida e gozar do bem estar do milagre italiano!” Falava-se assim, mesmo se, por outro lado, parecia-nos que a estávamos enganando mais uma vez.
De fato, os manarolenses que tinham ido para a Spezia ou para Gênova eram muitos, e as casas estavam sendo vendidas para gente de fora, estrangeiros. Eles, os manaroleses, voltavam só para o verão, um pouco como antigamente, voltavam para o sul, para a sua terra de origem, os emigrantes da França, Suíça, Alemanha...
Só o mar de Manarola não mudava e conosco parecia ser o mais assíduo dali, testemunha às vezes um pouco barulhenta, na estrada para Palaedo.
“Vamos, conta um pouco que acabamos perdendo alguns dias de belas conversas”, sugeria sempre Angiolino para quebrar o silêncio. E lá estávamos nós, de novo a falar de história.
“Com o discurso de 3 de janeiro de 1925, Mussolini tinha então traduzido em letras claras as suas intenções. A famosa ‘normalização’ sobre a qual tinha falado naquela ocasião, era claro que significado tivesse. Não uma volta à legalidade liberal, mas a instauração de um regime autoritário e violento que se servia de um populismo demagógico, usando como sua base de apoio a pequena burguesia. Mussolini vendia como se fosse revolucionária a mais antiga e reacionária das políticas, mesmo se continuasse a falar de revolução e se autoconvencesse, quem sabe, de ser sempre um socialista!”
“Em poucos anos foi completado o regime e desapareceram as poucas formas de liberdade política e sindical. Antes de mais nada, toda a imprensa que permaneceu foi submetida ao rígido controle central. A Agência Stefani, instrumento do regime e do Ministério da cultura popular, chegaria a instruir os jornais até sobre as características tipográficas que deveriam ter as notícias e o tom e os comentários com o quais deveriam ser apresentadas aos leitores.”
“Entre fevereiro e setembro de 1926, como eu acho que já disse, são substituídos os prefeitos e as câmaras municipais pelos administradores e as consultas de nomeação do governo. A Obra Nacional Balila tem a tarefa de monopolizar a formação juvenil tirando-a de qualquer outra associação, mesmo se católicas. Greves e fechamentos são considerados ilegais: as controvérsias são submetidas à corte de apelo que atua como Justiça do Trabalho. Em 1927, com a Carta do Trabalho nasce o assim chamado Estado Corporativo que no final se tornará a Câmara “dei Fasci” e das Corporações que substituirá a Câmara dos deputados. Naturalmente os seus membros são escolhidos pelo Conselho do Partido Nacional Fascista e da Câmara das Corporações. Até os chefes destas deviam ser, por lei, ‘de garantida fé nacional’, isto é, fascistas, e não representavam os trabalhadores e as classes econômicas, mas a subordinação das categorias econômicas impostas pelo regime.”
“Frente a tudo isso, aos Tribunais especiais para a defesa do estado e ao uso sempre mais freqüente da prisão para os dissidentes políticos, o estado maior de todos os partidos antifascistas foi obrigado a se refugiar em massa no exterior, especialmente na França, onde estavam aproximadamente dez mil refugiados políticos que constituíram uma Concentração antifascista. Os comunistas, ao contrário, continuaram a trabalhar também na Itália, clandestinamente, sob a direção de Gramsci e Togliati, tentando se infiltrar nas organizações sociais e sindicais fascistas. Até os Grupos de Justiça e Liberdade, fundados em Paris pelo liberal Carlo Rosselli, trabalhavam clandestinamente contra o regime que combatia estes grupos com a polícia secreta. Contra o fascismo também se voltou o mundo cultural livre, e o personagem de maior relevo foi o maior filósofo e intelectual italiano do século XX, Benedetto Croce.”
“E os católicos? A Igreja? Não diziam nada?”
“As relações com a Igreja, especialmente com o Vaticano, foram diferentes. Até porque o fascismo, desde o início, tinha tentado, e em grande parte conseguido, extinguir aqueles espaços que normalmente eram terreno da ação religiosa: a educação e a formação dos jovens e do povo. Como tentava se inserir em cada setor da vida social, cultural, profissional, esportiva e recreativa, enquadrando rigidamente nas próprias estruturas e associações oficiais quase toda a população, o regime também tinha inventado a Opera Nazionale Balilla para os jovens de todas as idades, para condicionar o modo de pensar dos indivíduos doutrinando-os desde a infância. Além disso, para condicionar e orientar o modo de pensar e de agir das massas, o regime recorreu aos mais modernos meios de propaganda como o rádio, os filmes de propaganda, as manifestações e os desfiles...”
“Desde o momento da ascensão ao poder, Mussolini iniciava também um lento processo de aproximação com Igreja Católica, apresentando-se como o instrumento mais adequado para uma anti-revolução em relação ao comunismo ateu. Infelizmente foram numerosos os católicos que, preocupados com a situação social, forçavam para que houvesse um acordo com o próprio fascismo. A Igreja oficial era mais cautelosa e passava de proibições e condenações, como aquela que estigmatizava a supressão dos Jovens Exploradores Católicos, a atos e palavras de apaziguamento.”
“Chegou-se então ao acordo, que culminou com o estabelecimento dos Pactos Lateranenses, em 11 de fevereiro de 1929, assinados por Mussolini e pelo cardeal Pietro Gasparri. Os Pactos previam um tratado de conciliação política e econômica que resolvia definitivamente a antiga questão romana aberta desde a Unidade da Itália, reconhecendo ao Papa a soberânia sobre a Cidade do Vaticano e um Acordo que regulava vários aspectos da relação entre Estado e Igreja, além de uma Convenção financeira como indenização à Santa Sé pela perda do Estado Pontifício.”
“E assim a Igreja estava de combinação com o fascismo!”, exclamava Angiolino furioso.
“Não, isto não se pode dizer. É até verdade que, nas eleições-farsa de 1929, que apresentavam uma chapa única proposta pelo próprio Grande Conselho do Fascismo, muitos expoentes do mundo católico e a revista dos Jesuítas, Civilização Católica, convidavam os fiéis a votar a favor dos Pactos Lateranenses, e isto teve um imediato resultado desastroso, porque contribuiu para reforçar e legitimar o fascismo, mas também conseguiu eliminar o conflito intransponível que havia entre o Estado Italiano e a Igreja. E isto será precioso no imediato pós-guerra.”
“Mas pelo menos diziam que a economia fascista ia... ia bem...”, assim Luigia também tentava devolver um pouco o ataque não muito delicado de Angiolino.
“Sinto muito, senhora Luigia, mas sem dúvida está mal informada. A economia fascista não ia nada bem e será exatamente esta constatação que nos levará para a aventura da guerra! O fascismo não foi só um desastre político, mas uma verdadeira catástrofe de ignorância econômica. Quem me dera hoje eles entendessem isto!”
“Nos diga, nos diga como...”
“Inicialmente, o primeiro ministro fascista da economia, um certo De Stefani, tinha obtido resultados notáveis para a economia entre 1922 e 1925, aumentando as exportações para compensar a falta de mercado interno pela diminuição dos salários. Naturalmente, o perigo era a desvalorização da lira em relação aos países dos quais comprávamos matérias-primas e trigo. Exatamente em 1925 o câmbio com a libra esterlina passou de 120 para 153 liras e o dólar de 23 a mais de 31 liras! Assim a desvalorização nos permitia ser competitivos com o exterior, mas retalhava as economias da pequena burguesia que sustentava o fascismo e impedia a compra do trigo e das matérias-primas.”
“O ministro Volpi, o sucessor, escolheu então defender a todo custo a lira mediante o bloqueio das importações. Foram inventadas desculpas como a ‘batalha do trigo’ para aumentar a produção interna ou a mistura de álcool na gasolina. Foi abaixado forçadamente o câmbio até o patamar de 90 liras para uma libra esterlina, e o Duce comprometeu-se em defender a lira “até o último sangue”. Pena que o sangue era aquele dos trabalhadores assalariados. De fato, o modo mais cômodo, para descarregar a inflação, era exatamente aquele de cortar os salários aos trabalhadores dependentes, de exigir um aumento sempre maior da produção e de diminuir os custos com demissões de mão de obra.”
“A diminuição da taxa de câmbio devia diminuir o custo de vida, dizia-se, e restabelecer o poder de compra dos salários. Mas, mesmo se isto funcionava para os preços no atacado, nos supermercados e nas lojas as coisas permaneciam praticamente inalteradas.”
“Em 1927 as coisas pioraram. A produção de trigo era insuficiente. Começou-se a diminuir em 10% os salários dos camponeses com uma proposta do sindicato fascista para acabar com a diminuição dos salários industriais, em pouquíssimo tempo, em 16,5% e ainda 12% nos salários dos estatais, enquanto o custo de vida permanecia praticamente inalterado.”
“Em 1929 a realidade ficou negra: a tudo isto uniu-se ainda a grande crise internacional. Sempre mais atividades econômicas viam então a necessidade de uma grande intervenção do estado. Os bancos arriscavam a falência e então foi constituído o IMI, Instituto Mobiliar Italiano, que concedeu empréstimos, mas só para as grandes empresas. As pequenas e as médias fechavam ou eram por lei obrigadas a se fundir com as grandes empresas nas condições impostas por estas, chegaram até a impedir a constituição de novas empresas sem a autorização do governo. E no governo comandavam os grandes industriais! Estes, de fato, possuíam um controle sobre todo o desenvolvimento da economia do estado. E o estado, com o dinheiro de todos os italianos, financiava os resgates industriais para as grandes empresas, como aquele da Montecatini, e favorecia as grandes concentrações industriais.”
“É até ridículo de se dizer, mas, na véspera da segunda guerra, chegou-se ao paradoxo que, com as intervenções de suporte e com a fundação do Instituto para a Reconstrução Industrial, a Itália ficava em segundo lugar, só perdendo para a URSS no número de empresas estatais. Só que o estado fascista só defendia interesses particulares ou no máximo setoriais. O estado fascista e os grupos industriais mais potentes andavam alegremente de mãos dadas!”
“Parece que estamos falando da Itália de hoje!”
“Exato, sob muitos aspectos parece até que estamos falando da Itália de hoje. Só que os italianos não se davam conta naquela época e, ao que parece, não se dão conta nem agora!”
“Por favor, vamos seguir com a história! Que a mim parece que vocês fazem mais política que outra coisa, isso sim!”
“Certo, dona Luigia. Falemos de história. O que posso acrescentar, vejamos um pouco...”
“Acrescente as coisas boas do fascismo! Algo terá feito! Ou todos, sem exceção, mentiram para mim? Tudo bem que depois eles viraram a casaca rapidinho... porém...”
“Vamos tentar falar algo de bom então. Vamos partir da boa vontade em resolver os problemas: isto deve ser reconhecido. É necessário dizer que tantos italianos que aderiram espontaneamente ao fascismo acreditavam na possibilidade que este fosse capaz de resolver os problemas. E isto é positivo. Porém, os resultados... Peguemos como exemplo a famosa ‘batalha do trigo’! Tinha começado em 1925: devia-se produzir mais para não ter que importar do exterior. Pois bem, os italianos se esforçaram. Mas era só propaganda, incentivos, ameaças... e só em 1933 finalmente a produção quase cobria a necessidade nacional. Porém, havia um problema!! Em primeiro lugar, também tinham sido usados para a cultivação do trigo, terrenos que não eram adequados, nos quais os custos de produção tinham subido e por isso, no fim das contas, o trigo italiano tinha preços muito superiores aos do mercado internacional! Sim, o trigo italiano custava mais, as pessoas ganhavam menos, e, portanto, também compravam menos, diminuindo o consumo e, com isso, prejudicando toda a produção.”
“Mas como? Se era produzido mais trigo?”
“É!! A economia não é tão simples. Quem produz, muitas vezes pensa que, se pagar menos aos operários, será mais competitivo e ganhará mais. Não é bem assim! Se todos fizerem assim, as pessoas em geral não terão dinheiro no bolso para gastar, diminuirão o consumo, o comércio fechará e quem produz, vai produzir para quem?? Ele também acabará sendo derrubado!”
“Quem muito quer, nada obtém e tudo perde!!”
“Os provérbios, mesmo que velhos, atingem sempre o alvo, sobretudo quando trata-se de novos ricos, eméritos imbecis que acreditam ‘enganar’ os outros com os seus atalhos para o poder! Este fato era bem conhecido pelos velhos aristocratas de uma época que, sem que tivessem estudado economia usavam o equilíbrio. Por outro lado, só a justiça premia no final. O restante desaparece de um ou de outro modo! Quem dera que mais gente também entendesse isso hoje!”
“E os saneamentos??”
“Bem, também tem os saneamentos, é verdade. Sempre para aumentar a produção agrícola, o estado inicia em 1928 a fazer saneamentos: saneamento dos pântanos, reflorestamentos, drenagem e controle das águas, canais... o restante deveria ser feito pelos camponeses signatários. Porém, na maior parte dos casos, os camponeses não faziam nada, mesmo porque não tinham dinheiro para comprar equipamentos para arar, animais para trabalhar, sementes... ou então tudo se resolvia numa série de financiamentos a fundo perdido aos quais os grandes agricultores se atiravam como abutres, tomando tudo que era gratuito.”
“Mas não era sempre assim. Por exemplo, a experiência de saneamento do Agro Pontino, entre Roma e Terracina, funcionou com a transformação de 60.000 hectares de terras não cultivadas e maláricas, a construção de municípios e a formação de 3.000 estábulos. Entretanto, enquanto isto acontecia, o desemprego passava da marca de 300.000 desempregados em 1929 para mais de um milhão em 1932.”
“O estado, até para tentar combater o desemprego, inicia muitas obras públicas: desenvolve estradas, auto-estradas e ferrovias e constrói prédios municipais, tribunais, estações ferroviárias, correios...”
“Ah! É por isso que são todos parecidos!”
“É verdade: são parecidos porque foram construídos naquele período, com o mesmo estilo. Mas era tudo fogo de palha, até porque o dinheiro do estado agora ia todo para a produção de armas, para sustentar a produção das indústrias e exatamente para atender mais uma vez exigências destas fez-se até a guerra colonial com a Etiópia.”
“Com a Etiópia? Mas é sempre a guerra que resolve os problemas das empresas em crise?”
“Sim, parece mesmo que é. E, além disso, a Etiópia faz fronteira com a Eritréia e a Somália já sob o controle italiano. Terras pobres para colonialistas pobres! Além disso, a Etiópia, que era governada por negus Hailé Salassié, tinha entrado na Sociedade das Nações, uma espécie de ONU da época, que tinha se formado depois da primeira guerra mundial, exatamente por proposta da Itália e da França. Em 1935, até para demonstrar a própria vontade agressiva para Hitler, a Itália invade a Etiópia, que pede ajuda para a Sociedade das Nações, que condena o gesto italiano. Porém, nós, italianos enchíamos a boca. Tínhamos formado o Império da África Oriental Italiana! A conseqüência foram as sanções econômicas dos outros Estados contra a Itália, que acabaram determinando a completa autarquia da nossa economia.”
“E o que é isto?”
“Isto é a política protecionista, e o incentivo à produção interna dos bens tinha sido forte. O bloqueio econômico das importações do exterior levou a Itália a ter que produzir por sua conta tudo o que necessitava. E fazer isto é a política econômica dos pobretões!”
“Os sapatos com as solas de papelão e as roupas feitas com retalhos moídos... Me lembro bem! E os remendos no traseiro!! Porém tínhamos um império! É! Exato, tínhamos um império!”
“Sim, atualmente estas coisas nos fazem só rir de nós mesmos. Deve-se, porém, dizer que também foram aprovadas ao mesmo tempo leis que estabeleciam as oito horas de trabalho por dia, elevavam de 12 a 14 anos a idade mínima para trabalhar, melhoravam as normas dos acidentes de trabalho, as dispensas por doença, a invalidez... a aposentadoria. E, além disso, até para as crianças... foi organizada a Obra Nacional para a Maternidade e para a Infância. Certo, esta era voltada para a política demográfica, isto é, encorajava os italianos a ter filhos, com impostos para os celibatários e premiações para as mães prolíficas!! Os italianos realmente tinham que aumentar de número. Não importa que houvesse mais de um milhão de desempregados. O Duce queria ‘dez milhões de baionetas’! Cretino!!”
“Cretino!!”
“Cretino!!”
Não fiquem admirados. Desta vez, unicamente se quiserem, concordamos finalmente todos os três! Mas podia-se fazer diferente?
as premissas da segunda guerra
“A segunda guerra mundial não chegou toda de uma vez e nem nasceu por acaso! Digamos que todos contribuíram muito para iniciá-la.” Estávamos já no fim dos anos oitenta quando começamos este assunto.
“Começamos lembrando que na URSS, em 1924, tinha morrido Lênin. E Stálin o tinha sucedido..”.
“Não me fale daquele!!” Que canalha!!” Não preciso dizer a vocês quem estava fazendo este comentário.
“... Stálin era combatido por Trotski, que logo foi assassinado por ordem do próprio Stálin, que, com os seus sicários, o achou até no México onde tinha-se refugiado para escapar. O novo chefe do Kremlin tentava com um certo sucesso transformar o país numa potência industrial e até conseguiu, mesmo com campos de extermínio na Sibéria e todo o tipo de abuso e deportação para os inimigos políticos, salarios mínimos para os operários e uma bela dose de falta absoluta de democracia para todos! Criou-se uma URSS aterrorizada, comandada por um ditador vermelho de sangue, mas capaz de resistir militarmente a toda e qualquer agressão externa e interna.”
“Entretanto, na Alemanha, depois do fim do império prussiano, tinha nascido a República de Weimar, que ruiu em pouco tempo por causa da macroscópica burrice política dos vencedores da guerra. Como podem constatar, uma bela dose de ignorância parecia atravessar todo o setor político dos governos da Europa naquele momento!”
“O tratado de Versalhes, aquele que concluía a guerra e sobre o qual tínhamos falado bastante quando falamos sobre a Itália, foi definido um verdadeiro e próprio Diktat. Pensem que impunha a restituição para a França da Alsácia e da Lorena, duas grandes regiões na fronteira que foram disputadas por séculos entre as duas nações; além disso, o direito de uso, por quinze anos, pela França, das minas de ferro e carvão na bacia do Saar; a cedência para a Polônia de todos os territórios alemães que fossem habitados mesmo que parcialmente por poloneses; a renúncia a todas as possessões coloniais; a redução das forças armadas alemãs a somente cem mil homens; a cessão da inteira frota militar para a Inglaterra, que, porém, nunca a viu, porque os comandantes preferiram afundar pessoalmente os próprios navios; a completa desmilitarização da Renânia, que era um território na fronteira com a França; a renúncia à artilharia pesada, à aeronáutica e aos submarinos; e, enfim, a declaração pública de ser a única responsável pela guerra e então de dever pagar a indenização de todos os danos provocados pelo conflito! Uma bela história não é verdade?”
“Bem, ainda em 1923, não contentes, França e Bélgica, para se recuperar da falta dos depósitos em dinheiro pretendidos e que obviamente os alemães não eram capazes de fazer, ocuparam a bacia da Ruhr, que fornecia para a Alemanha quase todo o carvão e o aço para a indústria nacional. Esta ultima agressão levou a Alemanha à ruína completa, que reagiu então com a resistência passiva: os trabalhadores da Ruhr entraram em greve indeterminada e recusaram toda e qualquer colaboração com os franceses. O governo de Weimar buscou apoiar de todas as formas os grevistas, mas isto levou a uma inacreditável inflação no país. No fim de 1923, eram necessários 4.200 bilhões de marcos para comprar um dólar!”
“Mas era bem feito para os alemães!”
“Ah! Realmente bem feito! Se se desejava provocá-los ao máximo nada poderia ser melhor! Tu és realmente um ótimo político!”
“Realmente. Tal situação era proveitosa para quem queria agitar a Alemanha, acusando os políticos que tinham assinado o inevitável armistício, de ser ‘os criminosos de novembro’ e abrindo a estrada para os primeiros nacional socialistas de Adolf Hitler, que inspirava-se abertamente no fascismo italiano e em Mussolini, acrescentando ainda a ideologia racista anti-semita, isto é, do ódio contra os judeus, sobre os quais fazia-se recair todas as responsabilidades da catastrofe do país. Os judeus eram acusados de ter levado o país à ruína, porque dizia-se que eram eles que controlavam os bancos e a economia e escondiam as riquezas. Assim como acontecia na Itália, também na Alemanha a pequena burguesia, que via desaparecer todas as suas economias, estava fascinada e conquistada pelas promessas nazistas e desejava encontrar um bode expiatório para as suas perdas. No país, então, crescia sempre mais um clima de violência e intolerância, enquanto o governo fechava definitivamente as fábricas da Ruhr, suscitando a reação seja dos comunistas que dos nazistas, mesmo que as tentativas de insurreição tenham sido contidas em ambos os casos.”
“Foi neste ponto que os Estados Unidos intervieram, mesmo porque a França não queria pagar as dívidas contraídas durante a guerra, se a Alemanha não pagava os ressarcimentos. Foi idealizado então um plano de reconstrução da economia na Alemanha, por um certo Dawes, um financista americano, para realmente deixar a Alemanha em condições de pagar os seus débitos. Estávamos então em 1924: os francesas foram afastados da Ruhr; o Banco Central Alemão foi rigidamente colocado sob o controle dos Aliados, arruinando outras indústrias; 800 milhões de marcos em ouro foram dados ao governo alemão para a reconstrução e foi estabelecido que os ressarcimentos seriam pagos pela Alemanha em prestações que cresciam a cada ano. Era necessário dinheiro rapidamente e as ferrovias foram privatizadas, começou-se a vender as matérias-primas: coke, carvão, minerais de ferro e semimanufaturados. Para fazer isto a economia passava para as mãos de poucos industriais que seriam depois os maiores financiadores de Hitler.”
“Tem sempre dinheiro no meio! São sempre eles que pagam os piores...”
“Esta conseqüência não era prevista pelos americanos! Porém aconteceu igualmente, a partir de 1929, quando a crise americana fez retirar os empréstimos aos financistas. Assim, o milagre econômico alemão quebrou-se como um ramo seco e foi considerado no seu conjunto mais como uma exploração colonial que uma ajuda séria para a Alemanha.”
“Entretanto o governo alemão tentava reinserir-se entre as outras nações, estabilizando as relações de não- agressão com a França e a Bélgica e até entrando na Sociedade das Nações com o apoio da Inglaterra e da Itália. Ao mesmo tempo, porém, fortaleciam-se as organizações paramilitares de extrema direita, entre as quais se distinguiam os nazistas. E aqui também, como na Itália, a justiça e a polícia favoreciam os movimentos de direita que fortaleciam-se, enquanto no resto de Europa, como na Espanha, Portugal, Polônia, Lituânia e Iugoslávia também difundiam-se os regimes parafascistas.”
“A crise americana de 1929 não podia deixar de repercutir na Alemanha através da queda da economia: a produção diminui em mais de 50%; mais de 6 milhões de trabalhadores ficam desempregados; os salários caem 10%, enquanto os preços sobem 60%... o país, que estava tentando reagir desesperadamente, foi derrubado com ainda mais força. O desespero e a falta de confiança nas instituições não atingia mais somente a pequena burguesia, mas também o proletariado. Foi o terreno fértil para a expansão do nazismo. Nas eleições de 1930, os nazistas obtiveram 107 vagas, contra as 12 vagas de 1928! Os social-democratas mantinham a maioria com 143 vagas, mas nas eleições presidenciais de 1932 apresentou-se pela primeira vez Hitler. Não adiantou ele ter sido vencido nestas. As eleições de 1932 deram a esmagadora vitória aos nazistas, com 16 milhões de votos, e Hitler foi encarregado de formar o novo governo. E ainda assim Hitler não estava contente e forçou novas eleições em 1933, num tal clima de violência que fazia parecer pequenas as violências fascistas. A própria polícia foi usada diretamente para calar a oposição e em Berlim foi até encenado o incêndio do Reichstag, para culpar os comunistas.”
“O que é isto?”
“O Reichstag é o prédio da Prefeitura nas cidades alemãs e Berlim era inclusive a capital. Eis porque o fato foi gravíssimo. Foram milhares as prisões que se seguiram, mas nem todos os alemães ficaram com medo. Além dos 17 milhões de votos para Hitler, também houve 7 milhões para os social-democratas, 5 milhões para os comunistas e 4 milhões e meio para os católicos!”
“Porém, os nazistas tinham conseguido conquistar o poder na Alemanha!!!”
“É verdade, os nazistas tinham conseguido conquistar o poder na Alemanha! E logo ficou claro porque, em 14 de julho de 1933, o governo alemão emanou uma lei que reconhecia o direito de existência somente ao “Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores”!”
“E o nazismo prospectava-se ainda pior que o fascismo! De fato o fascismo ainda conservava alguns valores da tradição cristã, enquanto o nazismo, baseando-se na aura de pseudomisticismo que circundava o Führer, propugnava um neopaganismo, fundado no mito do sangue e da raça, segundo o qual o alemão, ser biologicamente superior, devia submeter e transformar em escravos ou exterminar todas as raças inferiores.”
“Não acredito? Isto é sério?? Tens realmente certeza?”
“Tenho mais que certeza...”
“Basta ver o que fizeram com os judeus, os ciganos e tantos italianos”, rebatia convencido Angiolino.
“A diferença está exatamente no fato que, enquanto o fascismo matava, batia ou prendia os membros da oposição, o nazismo preconizava a eliminação sistemática não só dos oponentes, mas também dos dissidentes internos e de todas as outras raças! Eles queriam fundar uma nova cultura e uma nova ciência alemãs, que eliminava até a nossa cultura cristã e humanista!!”
“Loucos dementes!”
“Sim, um grupo de loucos dementes que arrastavam com eles milhões de alemães de mente sã! Esta é a terrível verdade! Parece inverossímil, mas na história já tinha acontecido em quantidade menor, mas agora a propaganda, os meios de informação e comunicação de massa dirigidos e imediatos como o rádio e o cinema, mostram realmente como podem-se criar nações de monstros intelectuais antes dos reais!”
“Mas é assustador! Então queres dizer que hoje também...?”
“Claro, hoje também! Porque achas que quem quer ter o poder toma sempre o controle dos meios de comunicação? Só para aparecer na TV? Hoje tudo pode repetir-se, ainda mais que ontem, porque a memória das pessoas é curta, aliás, não existe! Todos ou quase todos estão prontos para acreditar no que continuamente lhe é bombardeado na cabeça e nos olhos e é o suficiente!”
“O fascismo na Itália também fazia assim?”
“Claro. Um dos instrumentos mais usados para controlar os cérebros dos italianos pelo fascismo foi o rádio e também o cinema! O estado, isto é, o governo, isto é, Mussolini os controlava diretamente como acontecia com a imprensa.”
“Segundo vocês, por que foram fechados pelo regime ou foi colocada a censura a todos os jornais? Por que Mussolini fez colocar alto-falantes nas sacadas de todas as prefeituras da Itália para os seus discursos? Por que construiu até a Cinecittà em Roma, onde produziam-se os filmes e antes de cada espetáculo era projetado um cinejornal, de propaganda fascista, para todos os expectadores? Hoje é ainda mais fácil: quem quer envolver as pessoas alcança-as diretamente em casa, sobretudo com a televisão. E, quem sabe, compra as redes de televisão...”
“Porém estamos falando dos nazistas... Não percamos o fio!”
“Justo. Devo concluir isto que eu disse pelo menos com um episódio importante que me é caro: aquele que foi chamado de ‘a noite dos cristais’.”
“Era o dia 13 de maio de 1933. Em todas as principais cidades da Alemanha, os nazistas queimam nas praças milhões de livros considerados “arte degenerada’! Junto com as obras dos assim chamados subversivos, como Marx, Bebel, Bernstein, eram queimadas as obras de Brecht, Thomas e Heinrich Man, Döblin, Remarque, Schnitzler, Kraus, Broch, Hofmanstahl, Werfel, Hesse, Freud, Einstein, Kafka e até Heine e tantos tantíssimos outros autores do passado... Gostaria de lembrar de todos. Vou somente dizer que Heine, um escritor do século XIX que tinha viajado muito, até para a Itália, e do qual foram queimadas as obras naquela noite, tinha escrito: “... onde se queimam os livros, mais à frente se queimam os homens!”
“Era uma dramática profecia que devemos sempre lembrar e, sobretudo, deveriam lembrar todos aqueles que, seja de direita ou de esquerda, apoiam com negligência a negação da liberdade. Onde existe alguém que exalta estes monstros e as suas idéias, acaba-se toda a civilização humana!”
Ficamos mudos pensando por muito tempo, enquanto eu sentia tremer todo o meu corpo, até que saí sem me despedir. Nem os meus dois companheiros tiveram força para fazê-lo.
Espanha: a guerra civil
“França e Inglaterra, impiedosas com a Alemanha democrática, tinham assumido um comportamento passivo em relação aos nazistas, porque os considerava uma força contra o perigo boschevique que vinha da União Soviética. Além disso, internamente nestes países reforçavam-se sempre mais os movimentos declaradamente radicais de direita”.
“Entretanto, em 1933, Mussolini tinha feito um Pacto a quatro com Alemanha, Inglaterra e França, mas o pacto ficou só no papel. De fato, já no ano seguinte os nazistas tentaram um golpe de estado em Viena no qual foi assassinado o chanceler áustriaco Dollfuss, enquanto em 1935, com um plebiscito, recuperaram os territórios da Saar. Depois Hitler, violando claramente os acordos de fim guerra, reorganizou o serviço militar obrigatório e apressou o rearmamento terrestre e aéreo, enquanto a Itália, para não parecer inferior, ocupava a Etiópia.”
“A guerra civil na Espanha, que estourou em 1936, foi um dos grandes testes seja para o fascismo que para o nazismo. Nas eleições políticas de fevereiro daquele ano, as forças da esquerda na Espanha tinham passado para o governo, graças a primeira tentativa de Frente popular, uma união de partidos que agregava todas as forças daquela tendência. Em 18 de julho, porém, a situação já se deteriorava: com a ocupação das terras pelos partidos anárquicos e com as violências que aconteceram, algumas guarnições militares insurgiram contra o governo repúblicano e o general Franco desembarcou no solo nacional com as tropas coloniais que trazia do Marrocos onde estavam locadas. Foi o início da guerra civil, com pesadas repercussões até no plano internacional. Será de fato o ensaio geral da segunda guerra mundial, porque o conflito envolveu o apoio das duas facções em luta, de um lado a URSS, o México e, em fases alternadas, a França, a favor dos ‘republicanos’, e, do outro lado, a Itália, a Alemanha e Portugal, a favor dos ‘nacionalistas’.”
“Por isto podemos dizer que a Espanha também foi o teatro do primeiro conflito armado entre fascismo e antifascismo, com a participação de muitos intelectuais provenientes de todo mundo, desde os E.U.A., com escritores como Orwell e Hemingway, e com os italianos comprometidos nos dois frontes. Os camisas negras de Mussolini estavam de um lado e os antifascistas e os anárquicos do outro. Mussolini realmente tinha assinado um acordo com Hitler para apoiar, com todos os seus meios, Franco e o fascismo espanhol.”
“A guerra concluiu-se em março de 1939, com a tomada de Madri e a vitória de Francisco Franco. Foi instalada a ditadura baseada no poder legislativo do ‘Caudillo’ e na repressão dos opositores, que foi definida como a ‘Feroz matanza’, isto é, ‘A Feroz carnificina’. A ditadura, apoiada pelo clero e pela burocracia, pelo exército e pela propriedade agrária semifeudal, durará até 1975 e causará a morte de 200.000 antifascistas, centenas de milhares condenados a várias penas, 300.000 exilados.”
“A guerra da Espanha tinha mostrado a todos o que significava o fascismo e o nazismo. E, enquanto Picasso, exilado na França, pintava o famosíssimo quadro sobre Guernica, uma cidadezinha da Espanha setentrional arrasada pelos aviões alemães em 1937, Paul Eluard, um poeta francês escrevia:
Se na Espanha existe cor de sangue uma árvore é aquela da liberdade
Se na Espanha existe e fala alto uma boca
Fala de liberdade
Se na Espanha existe um cálice de vinho puro
É o povo que o beberá”
“Depois do pacto entre Roma e Berlim, chamado de Eixo, houve o Pacto antikomintern com o Japão, estipulado pela Alemanha contra a Rússia, e que permitia ao Japão atacar a China sem se preocupar com os Estados Unidos. Entretanto, em 1938, a Áustria era anexada sem oferecer resistência ao Reich e Viena era reduzida ao papel de capital de província, com a extensão das leis nazistas sobre todo o território austríaco. Hitler fazia a Grande Alemanha.”
“França e Inglaterra tiveram que aceitar o fato e só esboçaram tímidos protestos. Na Conferência de Mônaco em 1938, Hitler foi autorizado a ocupar o território dos montes Sudetos, pertencentes a Tchecoslováquia, nos quais residiam minorias alemãs. O Führer não se limitou a isto: ocupou quase todo o país reduzindo-o a uma verdadeira colônia alemã.”
“Então Mussolini, sempre para não ficar por baixo, ocupou o reino da Albânia, que sempre tinha sido nosso aliado. Um miserável reino de pedras, que não bastava ao Duce para sentir-se livre do aliado alemão, do qual imitava até as criminosas leis da política anti-semita, que não eram certamente patrimônio da milenar cultura italiana. O quanto nos prostrávamos à Alemanha fica demonstrado com o assim chamado Pacto de Aço de 22 de maio de 1939, no qual italianos e alemães comprometem-se em apoiar-se reciprocamente no caso de “complicações bélicas’. Na realidade, o pacto obrigava a Itália a entrar na guerra que Hitler já tinha decidido provocar em poucos meses!”
“Mas que maravilha de burros que fomos!”
“Exato, uma maravilha de burros sem dúvida! Mas o pior, como sempre, ainda está por vir!”
a segunda guerra mundial
Naquele ano, as minhas férias em Manarola eram em julho que, como se sabe, é o mês mais quente. Já pela manhã o ar ficava abafado e do mar não chegava a mínima brisa para nos refrescar. Nos salvava só a sombra da pequena reentrância na rocha e as granitas geladas da Enrica.
“Ainda ontem eu falei sobre o Pacto de Aço entre Itália e Alemanha, que previa que, se uma das duas nações entrasse na guerra como até mesmo agressora, a outra deveria entrar no conflito ao seu lado. Enquanto isso, a Alemanha conseguiu estipular um tratado de não agressão até com a URSS de Stálin, impressionando até os que, como França e Inglaterra, tinham apoiado Hitler no poder na Alemanha, vendo nele um inimigo do comunismo soviético.”
“Pouco depois, repentinamente estourou o conflito, por causa da visceral agressão nazista contra a Polônia em 1° de setembro, sobre a qual a Itália não foi nem mesmo advertida. A mesma Polônia foi ocupada em seus territórios orientais pela União Soviética com uma dupla agressão. Na Europa, somente a Inglaterra e a França declararam guerra contra a Alemanha em 3 de setembro. A Itália, entretanto, proclamava a “não beligerância’, revelando apenas que ainda não estava pronta para a guerra, apesar de todos os pomposos desfiles e os discursos feitos por Mussolini! Os Estados Unidos, o Japão e a China declararam a própria neutralidade.”
“É a segunda guerra mundial!”
“Claro, que é a segunda guerra mundial! Até as crianças entendem isto.”
“Calma, por favor. Os alemães pensavam em caracterizar a guerra com o sistema do Blitzkrieg, isto é, da guerra relâmpago defendida por Hitler, que previa poder usar tanques e carros blindados juntos em departamentos especiais ‘mecanizados’, que eram feitos especialmente para prosseguir, até por uma centena de quilômetros, depois de ter rompido as linhas inimigas, para cortar as chamadas linhas de reabastecimento. Uma tática baseada na audácia e também na surpresa.”
“O ataque foi feito por dois grupos de armadas, um ao norte, comandado por Von Boch, e outro ao sul, comandado por Von Rundstedt. Os dois grupos, depois de romper as frágeis linhas defensivas polonesas, se encontrariam nos arredores de Varsóvia, fechando o cerco. Isto aconteceu com uma velocidade que impressionou todo o mundo. De fato, apesar do número de militares nos dois frontes ser aproximadamente igual, os alemães se diferenciaram pela habilidade dos generais, sobretudo de um certo Von Rundstedt e de seu colega Von Manstein, que será considerado o melhor estrategista em absoluto de toda a guerra. Na metade setembro, aviões e meios blindados já assediavam a capital polonesa e em duas semanas venceram o resto das forças polonesas.”
“Neste ponto, o governo soviético invadiu com as suas tropas a parte oriental do país, segundo a cláusula secreta do tratado estipulado com os alemães, e a república da Polônia foi desfeita depois de nem vinte anos da sua constituição após a primeira guerra mundial. Os seus aliados, franceses e ingleses, não tinham sequer conseguido intervir.”
“Aí estão os teus bravos russos! Prontos para agredir...” Luigia não perdia a chance.
“Prontos... era Stálin..., que depois sabemos como acabou, não?”, rebatia o pouco convicto Angiolino.
“Mas os russos não pararam. Enquanto os alemães ocupavam o norte da Dinamarca e a Noruega, encontrando pouquíssima resistência, os primeiros, em novembro, iniciaram a atacar a Finlândia para recuperar uma saída para o Mar do Norte, com o pretexto da recusa em retificar alguns traçados de fronteira entre as duas nações fronteiriças. Mas os russos não eram os alemães e apesar do número esmagador das suas tropas, os finlandeses resistiram inacreditavelmente por diversos meses.”
“A rendição aconteceu somente em março de 1940. A Finlândia perdia assim a sua independência, mas os russos tinham que contabilizar mais de duzentos mil mortos e a perda de uns mil e seiscentos tanques e seiscentos aviões. O general russo Zuckov tinha definido esta guerra como ‘o teste definitivo’. Este revelou-se, ao contrário, uma falência total, evidenciando todas as carências do exército vermelho: armamentos ineficientes e superados, tropas despreparadas. A lição no entanto, serviu para entender o que precisava mudar e como.”
“Mas bem feito para os bolcheviques!”
“Entretanto, no mesmo ano, em 1940, depois de se encontrar no Brennero com Hitler, Mussolini pensou em jogar a Itália na aventura da guerra, por medo que esta acabasse antes que os italianos tomassem parte. De fato, não só a Alemanha tinha acabado em um mês com as forças polonesas, como tinha se voltado contra a França, com um movimento incrivelmente astuto e audaz.”
“Em 10 de maio, evitando a linha reforçada colocada na fronteira franco-alemã, a famosa linha Maginot, os alemães voltaram-se contra a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo, que eram países neutros. Apesar da resistência belga apoiada pelas tropas francesas, os alemães espalharam-se na França, deixando para trás a linha Maginot e dirigindo-se para Paris. Os ingleses, com grande dificuldade, já tinham embarcado apressadamente para voltar para a própria ilha em Dunkerque.”
“Por isso o Duce considerava a guerra de brevíssima duração e respondia aos avisos do general Badoglio, que conhecia o despreparo do nosso exército: ‘Garanto que, em setembro, já terá acabado tudo. Tenho necessidade somente de alguns milhares de mortos para poder me sentar como ex-beligerante na mesa de negociações!’.”
“Belo modo de falar de vidas humanas!”
“É! Sim, a vida humana, para os poderosos, realmente não vale nada. O povo, para os governantes daquele tipo, não importa absolutamente nada”, concordava até a Luigia.
“O rei da Noruega, Haakon VII, a rainha da Holanda, Guilhermina, e os ministros belgas, entretanto, se refugiaram em Londres, enquanto Churchil substituía Chamberlain na direção do governo.”
“A Alemanha tinha atacado a Dinamarca e a Noruega em 9 de abril, para que franceses e ingleses não fossem mais capazes de intervir no norte da Europa. A jogada servia para a defesa dos abastecimentos de metal suecos que podiam ser interrompidos pelas minas inglesas. Depois que a Dinamarca foi conquistada num só dia, caíram os portos noruegueses mais importantes e o corpo de expedicionários aliados não conseguiu nem se opor, e o seu comandante, o tenente general Claude Auchinleck, teve que se retirar deixando ao inimigo os Países Baixos e todo o resto. Se é possível falar de um mínimo sucesso para este último, deve-se recordar o naufrágio de alguns navios com dez caça torpedeiros alemães e, pelo menos com isto, a invasão da Inglaterra, programada por Hitler com a operação ‘Sealion’, não teve êxito. Porém, a França já estava ao alcance deles.”
“Assim, em 10 de maio de 1940 as forças alemãs, subdivididas em dois exércitos, com Von Bock e Von Rundstedt, atacavam: o primeiro atacou a Holanda e a Bélgica, o segundo, as Ardenne, consideradas pelos franceses insuperáveis pelos meios couraçados. A Bélgica, defendida pelo forte de Eben Emael, foi atacada na primeira vez pelos pára-quedistas alemães em sua primeira experiência bélica: bastaram descer 85 sobre o teto da fortaleza para neutralizar a guarnição belga de 1.200 homens bombardeados pelos stuka em queda livre. O ataque foi decisivo: os belgas foram abatidos pelos meios couraçados alemães, enquanto a Holanda era invadida por Haia e Rotterdam e pelo leste, onde as defesas caíram definitivamente em 14 de maio.”
“Depois de só uma semana, a Belgica também era obrigada a reder-se definitivamente, enquanto os franceses e os ingleses, que tinham enviado as suas tropas, estavam com os assaltantes nas suas costas avançando pelas Ardenne. O erro tático era gravíssimo, porque as suas forças mais eficientes eram cortadas pela defesa da França e pelo intempestivo avanço alemão. Guderian era o comandante alemão idealizador das forças encouraçadas e da ofensiva que gerou a queda aliada desde a Bélgica até o Atlântico, numa verdadeira guerra relâmpago.”
“Agora os contra-ataques aliados podiam ser facilmente contidos, e os carros armados alemães estavam alinhados sobre o canal da Mancha. Foi então que aconteceu um fato realmente estranho. Os ingleses iniciaram uma inimaginável evacuação de Dunkerque, sem serem atacados pelos alemães! Nunca se entendeu por que Hitler decidiu permitir o regresso em pátria das tropas inglesas. Quem sabe pensava que a Inglaterra teria cedido por causa da queda da França? Ou então Göring o tinha convencido a poupar as tropas e os meios encouraçados com a promessa de bombardeios destruídores sobre Londres?”
“Mas tens realmente que nos contar tudo, assim, nos mínimos detalhes?” A senhora já se cansava da descrição dos acontecimentos da guerra.
“Claro que deve contar! É uma guerra que envolve todos e, se não se sabe o que acontece, como se faz para entender o que fazem os italianos?”, dizia o Angiolino.
“Já era o dia 28 de maio quando, depois da evacuação de Dunkerque, a Bélgica se rendia definitivamente. Na França, entretanto, 49 divisões aliadas enfrentavam 10 divisões encouraçadas e 110 divisões de infantaria alemãs. Na região da Somme e na da Aisne o fronte francês era destruído e toda a França era obrigada a ceder ao invasor e a assinar um armistício em 22 de junho, exatamente em Compiégne, o local onde a Alemanha tinha sido obrigada a assinar sua rendição no fim da primeira guerra mundial.”
“Caía a segunda república, que tinha nascido exatamente depois da derrota da França contra a Prússia, em Sedan com Napoleão III. Uma parte da França, aquela setentrional, é administrada diretamente pela Alemanha, enquanto o sul foi confiado a Philippe Pétain, colaborador dos alemães, que formou o governo de Vichy, enquanto Paris era ocupada pelos invasores. Só um general rebelava-se contra a república colaboracionista de Pétain, Charles De Gaulle, que constituía um governo clandestino e de resistência imediatamente apoiado pelos ingleses. O general De Gaulle, que se tinha refugiado na Inglaterra, lançou uma mensagem ao mundo declarando a recusa dos franceses livres de abandonar a luta.”
“Mas a Itália, onde foi parar? Não se fala mais da Itália? Eu, com todas estas batalhas, generais e para-quedistas não é que entenda muito!” Era ainda a Luigia que, depois ter ficado quieta, devo reconhecer, por muito tempo, queria trazer de volta pelo menos um pouco a história ao seu mundo. E era muito justo!
“A Itália tinha entrado na guerra, como vimos. Por causa da velocidade das manobras incríveis dos alemães, em 10 de junho de 1940 nós também tínhamos declarado guerra à França, convencidos de que agora as coisas iriam se concluir rapidamente. Só que não bastava pensar em colocar ‘alguns milhares de mortos italianos’ na conta, para fazê-los pesar na mesa da paz. O ‘realismo’ político, como até hoje o chamam aqueles que mandam pessoas para o sacrifício, também foi, naquela ocasião, um cínico erro de cálculo. As nossas tropas combatiam nos Alpes sofrendo graves perdas sem obter sucessos razoáveis, enquanto os alemães entravam em Paris em 14 de junho. Aos 22 de junho, a Itália assistia ao armistício com a França, mas em poucos dias, já tinha demonstrado que o nosso exército não estava absolutamente à altura para uma guerra em grande estilo, e a conta seria paga a um preço caríssimo.”
“De fato, frente às esperanças de Hitler por uma rendição da Inglaterra, Churchill disse claramente que os ingleses não tinham intenção de se render. O ditador alemão teve que iniciar os preparativos para a conquista da ilha, mas isto só aconteceria com o predomínio aéreo. Teve então início aquela que foi chamada de ‘batalha da Inglaterra’, uma violentíssima ofensiva de bombardeios aéreos, realizados principalmente pelas ‘luftflotte 2 e 3’, isto é, os esquadrões aéreos comandados por Kesserling e Sperrle, mas a Luftwaffe encontrou uma feroz e determinada resistência dos aviadores da RAF, ajudados por uma rede de radares muito eficientes que permitiam ‘captar’ os aviões alemães cada vez que os mesmos pretendiam contar com o elemento surpresa, dada a sua pouca autonomia de vôo. Realmente os alemães, depois ter perdido mais de 1.700 aviões, tiveram que desistir dos ataques aéreos em massa.”
“É claro que a experiência tinha confirmado a potência da guerra aérea com bombardeios à roldão e o uso maciço de bombas incendiárias. E quem sabe, frente à insistência alemã, a Inglaterra até teria cedido. Hitler, porém, já estava pensando em invadir a Rússia. E esta jogada era ainda muito arriscada. Além disto, a Alemãnha nazista não tinha convencido o Generalíssimo Franco a aceitar que as tropas alemãs passassem sobre a Espanha para conquistar Gibraltar e obter o controle da entrada no Mediterrâneo. Era um golpe para os alemães que não podiam atacar também o seu amigo espanhol.”
“O Mediterrâneo! Este sim que tem a ver conosco! Com os navios pelo mar depois... os americanos...” Angiolino sentia que este era assunto seu.
“Está bem, deixe-o continuar!” A Luigia não estava interessadíssima, mesmo se, para dizer a verdade, ao ouvir falar de mar até nela brilhou uma certa luz nos olhos.
“Quem sabe é melhor continuarmos amanhã. Já é tarde. E vocês sabem como é Patty quando não chego na hora... Além disso, Mati também tem que se decidir a sair da água! Nos esquecemos completamente dela, e ela se aproveita...”
a guerra continua
“Hoje vamos falar, sobretudo da Itália e das nossas aventuras na África, lendo neste livro que eu trouxe.”
Eu tinha iniciado exatamente assim o dia seguinte, enquanto estava sentado um pouco protegido da canícula que já tinha-se tornado proeminente, enquanto o sol se refletia sobre o mar como em lascas de prata ofuscantes.
“Quando Mussolini iniciou a ofensiva na África, pôde contar com uma superioridade numérica esmagadora de 500.000 soldados italianos contra 50.000 ingleses. A ofensiva iniciou quando seis divisões partiram da Líbia, mas percorreram só 80Km para o oeste antes de parar em Sidi Barrani. Inexplicavelmente ficaram paradas desperdiçando tempo precioso; de fato, tendo chegado o reforço para os ingleses, iniciou o contra ataque e, apesar da sua inferioridade numérica, estes últimos derrubaram o Exército Real, sobretudo graças aos carros armados Matilda, praticamente invulneráveis para as armas italianas. Depois das batalhas de Sidi Barrani e Beda Fomm, os italianos foram obrigados a aceitar a ajuda alemã, mas perderam todas as colônias na África oriental da Etiópia, Somália, Eritréia por causa das formidáveis ações dos ingleses e pelas efetivas dificuldades em defender colônias tão longínquas do nosso país.”
“Com os carros armados Matilda, é! Muito bonito dar um nome de mulher para uma arma de destruição! Realmente os homens não entendem nada de mulher...”
“Ooohh! Não vamos começar a manhã com estas discussões, só porque não queres ouvir a história da guerra tá!! Vamos continua...”
“Entra então em cena Rommel, que se torna famoso com o apelido de ‘raposa do deserto’ tal sua esperteza como estrategista. No fim de março, passa para o ataque, expulsa os ingleses de al-Agheila e não dá a eles tempo para uma trégua, tanto que perdem grande parte dos blindados não em combate, mas por problemas técnicos que teriam sido resolvidos se tivesse havido mais tempo. Em 15 dias, os ingleses retrocederam seiscentos e cinqüenta quilômetros, mas decidiram defender até o fim Tobruk, um pequeno porto que tinha sido fortificado anteriormente pelos italianos e que se tornará um problema indissolúvel para as forças do Eixo.”
“Sabe lá quanto agradeceram os italianos por isto!”
“Rommel então decidiu tentar abater as defesas do lugarejo em 11 de abril, mas o batalhão encouraçado não fez mais que três míseros quilômetros; e depois teve que se retirar sob o fogo da artilharia. Alguns dias mais tarde, os italianos tentaram novamente e falharam assustadoramente. Os chefes de estado maior alemães e italianos decidiram então fazer uma ‘pausa estratégica’. Halder, que era o general de exército, enviou o general Von Paulus para chamar Rommel, mas, quando chegou, ele também declarou-se favorável a um outro ataque a Tobruk.”
“Os conflitos iniciaram novamente em 30 de abril. No assalto do perímetro defensivo se moveram levas de carros armados; a primeira teve que parar por causa de um campo minado que tirou de combate dezessete dos quarenta carros, a segunda parou depois de cinco quilômetros sob o fogo da artilharia e o contra-ataque de vinte blindados ingleses. No dia seguinte, Rommel definitivamente se deu conta que não tinha forças encouraçadas suficientes para continuar o ataque. Assim, na noite seguinte, Morshead tentou um contra-ataque, mas não conseguiu. Italianos e alemães juntos não conseguiam vencer, assim como os ingleses: nasceu assim o assédio de Tobruk, que durou todo o ano.”
“Os ingleses tentaram quebrar o cerco em duas ocasiões, a primeira vez em maio com a operação Brevity, a segunda vez no verão, com a operação Battleaxe, mas falharam nas duas vezes.”
“Vou contar um pouco como foi: Wavell decidiu atacar aproveitando a tentativa alemã falida em Tobruk. Os seus blindados dirigiram-se para os pontos da costa menos guarnecidos; contemporaneamente a guarnição assediada devia atacar. As forças couraçadas inglesas, comandadas por Gott, atacaram e conquistaram o passo Halfaya mesmo perdendo sete dos vinte e nove Matildas que tinha; depois foi a vez de Bir Waid e Musaid, mas, chegando na ridotta[7] Capuzzo, o efeito surpresa tinha desaparecido e, além disso, tinham chegado os alemães. E aquilo que aconteceu foi realmente sem precedentes, porque as forças do Eixo pensaram não poder suportar o ataque inimigo e se retiraram, mas fizeram o mesmo os ingleses que não tinham tido sucesso numa manobra de cerco! Neste ponto, Rommel deu-se conta do erro, bloqueou a retirada imediatamente, começou a perseguir os inimigos, reconquistou Halfaya, fundamental para a defesa, e ainda preparou baterias de canhões antiaéreos de 88 mm. que seriam usadas contra os carros, porque conseguiam perfurar até as grossas couraças frontais dos Matilda.”
“No verão os ingleses quiseram revanche. Depois de chegar numerosos reforços através do Mediterrâneo, o chefe das forças inglesas na África, Wavell, encontrou-se em clara superioridade numérica. Estava para iniciar a operação Battleaxe. Com esta operação, segundo Churchill, Rommel teria sido derrotado e a África setentrional cairia nas suas mãos. Porém, o comandante general inglês pensava em expulsar os nazi-fascistas para oeste de Tobruk. Foi então atacado o passo Halfaya, mas os treze Matildas que precediam o resto das forças foram atacados por uma chuva de fogo da qual só um se salvou. Ao mesmo tempo, foi atacado o ridotta Capuzzo, que não tinha defesas anticarros tão eficientes e caiu rapidamente na mão dos ingleses; porém, uma outra das suas colunas encouraçadas tinha acabado numa armadilha anticarro de Rommel, assim, em um dia, os ingleses perderam a metade dos carros armados.”
“Na manhã seguinte, foram os alemães a passar para a ofensiva, mas foram bloqueados em Capuzzo, porém conseguiram impedir os ingleses de passar para o ataque. No dia seguinte, Rommel pensou em cortar as linhas de retirada aos ingleses com um amplo movimento em forma de foice. Os comandantes ingleses se deram conta em tempo e ordenaram in extremis a retirada e só graças à heróica resistência dos carros ingleses em Halayala a maioria da infantaria pôde ser salva.”
“Assim também falhava a operação Battleaxe. Churchill transformou isto num problema pessoal e, apesar do governo inglês ter decidido, há muito tempo, defender o extremo oriente antes da África, organizou uma imponente ofensiva, chamada de operação Crusader, que foi comandada por Auchinleck, já que Wavell foi exonerado por causa das falhas precedentes.”
“Foram formadas quatro brigadas couraçadas, mais uma outra que foi transportada para Tobruk. Rommel, ao contrário, não recebeu praticamente nenhum reforço. No início da ofensiva, as forças do Eixo eram a metade dos inimigos e a única melhoria da sua dotação foram os novos canhões anticarro de 50 mm. O ataque começou em 18 de novembro: dois regimentos couraçados, depois de ter percorrido diversos quilômetros no deserto, se dirigiram para o campo de aviação inimigo de Sidi Rezegh, mas o resto das forças avançava mais lentamente e uma, a brigada leve, que estava seguindo uma divisão couraçada italiana, encontrou-se na frente de Bir el Gobi, bem defendida pelos canhões, e perdeu quarenta carros armados. Os ingleses faziam trabalhar as suas brigadas couraçadas com muita distância uma da outra, assim Rommel contra-atacou Sidi Rezegh. A maior parte das forças da ofensiva inglesa contra Tobruk era desviada do seu objetivo; só a brigada leve acabou isolada sob o fogo das posições inimigas e sofreu grandes perdas. A 21ª divisão blindada alemã desbaratou um regimento inglês, quase anulando-o; uma outra atacou a 15ª com bons resultados, mas, quando os alemães voltaram, foram literalmente despedaçados, principalmente pela intervenção de numerosos canhões anticarro.”
“Respira um pouco...”, tentava me interromper a Luigia.
“Psssssss... fica quieta!” Angiolino, ao contrário, estava interessado no assunto.
“No dia 23, as forças inglesas foram desbaratadas em Sidi Rezegh, mas os alemães perderam muitos meios couraçados para poder continuar a campanha e Rommel estava mais preocupado com isto que com os ingleses. A esta altura, o general alemão lançou-se numa operação de grande alcance estratégico: queria cortar as linhas de retirada e de abastecimento aos inimigos. O plano, todavia, falhou pelas incompreensões entre os comandantes alemães e o mau funcionamento dos rádios, mesmo que Rommel tenha conseguido avançar por mais de cem quilômetros a leste. Ao afrikan korps só restou a possibilidade de retornar a Tobruk, onde, no dia 26, as forças sitiadas derrubaram as frágeis linhas defensivas graças à chegada de novos carros, e isto aconteceu junto com o ataque da divisão neozelandesa, que tinha chegado há pouco. Os ingleses colocavam em campo um número de carros armados sete vezes maior que o dos alemães, mas estes conseguiram fugir, porque à noite os inimigos tinham o hábito de se retirar para repousar.”
“Tendo chegado em Tobruk, os alemães assaltaram os neozelandeses, que se viram constrangidos à retirada. Em seu socorro, chegou a IV brigada couraçada, mas, apesar da esmagadora superioridade numérica, perderam a batalha. Ao comando inglês restou a possibilidade de enviar a segunda divisão africana para dar força para a sétima divisão encouraçada. Rommel, quando ficou sabendo, decidiu retirar-se para o oeste da cidade fortificada decidindo o fim do assédio.”
“Bir el Gobi, foi o alvo sucessivo de Auchinleck, mas as suas forças foram rechaçadas pelos defensores. E deve-se dizer que finalmente os italianos tiveram um bom desempenho militar, depois chegaram os alemães para combater com os couraçados e a 4ª divisão indiana foi derrubada. Alemães e italianos se deram conta que, apesar das vitórias, a superioridade numérica inglesa não diminuía, aliás, aumentava. Decidiram então retirar-se para as fronteiras da Tripolitania.”
“Na África Oriental italiana, desde janeiro, as forças italianas sofreram ataques ingleses. E o ano terminou com a queda das últimas bases italianas na África Oriental.”
“E ainda bem que és contra a guerra! Um pouco mais e chamavas o público de um estádio!!” Era Angiolino que ria com gosto. Realmente, com a minha narrativa concitada das fases dos combates, um bocado de gente tinha parado sem que eu me desse conta. Fiquei muito envergonhado.
“Bem! Alguma fraqueza todos nós temos não? E eu desde menino via os filmes sobre Rommel, a raposa do deserto, e sobre as suas estratégias e me deixava levar pelo entusiasmo...”
“Agora também, agora também... até demais.” reforçava severamente Luigia.
“Mesmo assim não bastava! À frente destes golpes que nem mesmo a propaganda do regime conseguia mais esconder com a história ‘de um desdobre estratégico das nossas forças’, Mussolini decidiu responder à penetração alemã na Romênia. Iniciou então, em 28 de outubro, a campanha contra a Grécia. Mas as forças italianas, provenientes da Albânia, logo se encontraram em graves dificuldades, seja pela obstinada resistência das tropas helênicas que pelo ‘crônico’ despreparo dos nossos, e o exército grego não só resistia, mas passou a contra atacar conseguindo expulsar o inimigo, isto é nós!, para a Albânia e até corremos o risco de sermos ‘atirados ao mar’. Estas batalhas desastrosas acabaram infligindo um duríssimo golpe na imagem dos invencíveis fascistas!”
“Enquanto isso, nos Estados Unidos, Roosevelt foi reeleito para a presidência do país. Isto permitiu-lhes preparar o seu país para uma política exterior mais ativa, e não só na Europa, porque a potência japonesa começava a se tornar inquietante.”
“Como se viu, para Hitler, na primavera, só sobrava o fronte africano. Então concentrou toda a atividade na preparação do seu plano de ataque contra a URSS. Chamava-se operação Barbaruiva e inicialmente era prevista para a mesma primavera, porém foi desacelerada porque Hitler queria antes ter sob controle os Bálcãs e, especialmente, a Grécia, que estava resistindo e praticamente derrotando a invasão italiana, e também já estava chegando a ajuda dos ingleses.”
“Os contatos diplomáticos iniciais para obter a aliança da Iugoslávia falharam, assim a Alemanha preparou a ofensiva. Na verdade os alemães tinham conseguido convencer o governo iugoslavo a passar para o lado do Eixo, mas poucos dias depois estourou um golpe de estado. A rebelião era chefiada pelo general Simovic, comandante da aviação, ajudado por agentes ingleses: Hitler ficou furioso e decidiu invadir seja a Grécia que a Iugoslávia. Os dois estados foram derrubados num instante pelos carros armados alemães, mas esta diversão nos Bálcãs atrasou a operação Barbaruiva, atraso que depois se revelará fatal.”
“O ataque à Rússia iniciou então em 22 de junho, num front com mais de 1600 quilômetros de largura, do mar Báltico ao mar Negro. As forças do Eixo podiam contar com 3 milhões de soldados apoiados por 600.000 meios, quase 4.000 carros armados, e mais de 3.000 aviões, que compreendiam também um exército italiano chamado CSIR, Corpo Expedicionário Italiano na Rússia. Os russos foram pegos de surpresa, apesar dos 5 milhões de soldados do exército regular e dos mais de 10 milhões da reserva. Pela inexperiência de muitos oficiais do exército vermelho, visto que boa parte dos comandantes, que tinham participado da primeira guerra mundial, tinham sido vítimas das limpezas stalinistas, os russos não conseguiram bloquear uma ofensiva assim solidamente organizada.”
“O ataque foi feito por três grupos de exércitos: o grupo norte que era comandado por Leeb, devia alcançar Leningrado; o grupo central comandado por Bock devia chegar o mais próximo possível de Moscou; os exércitos dirigidos ao sul, comandados por Rundstedt, deviam tomar Kiev.”
“Pouco antes do início da ofensiva surgiu uma discussão entre os generais sobre modo de utilizar as forças encouraçadas. Bock, Rundstedt e os outros altos generais eram a favor da clássica batalha de cerco, temiam avançar muito com os carros. Guderian e os especialistas dos panzer, ao contrário, estavam decididos a se dirigir aos objetivos sem esperar a infantaria. O Führer deu razão aos primeiros e, quem sabe, este foi o seu primeiro grave erro na campanha da Rússia. O maior peso da ofensiva foi então levado pelas frotas de infantaria de Bock que encontrou a primeira dificuldade na resistência obstinada da praça forte de Brest-Litvos. A fortaleza resistiu mais de uma semana apesar dos ataques da aviação e da artilharia e os alemães entenderam, graças a este e outros episódios, que a campanha não seria exatamente um ‘passeio’ como tinha sido prometido para eles.”
“Mas olha só! Esta do passeio eu já tinha ouvido!”, ironizava Angiolino.
“Um outro problema caiu de improviso sobre os exércitos alemães: a chuva. A água transformava os campos num lamaçal que imobilizava os meios sobre rodas, e este impedimento tornou menos eficaz as gigantescas manobras de cerco dos estrategistas, mesmo que tenham sido numerosos os soldados russos capturados. Nas batalhas de Bialystock, Minsk e Smolensk os prisioneiros soviéticos capturados foram mais de seiscentos mil. Mesmo assim, a estrada para Moscou ainda estava distante trezentos quilômetros, muitos para as tropas alemãs já exaustas; além disso, as forças russas estavam em contínuo aumento por causa das novas chamadas às armas, assim chegou a ordem de parar o avanço, mas a parada durou muito, praticamente dois meses. Enquanto isso Hitler, obcecado pela idéia de recuperar o petróleo do Cáucaso, pensou em transferir os dois grupos encouraçados, um para ajudar Rundstedt que enfrentava dificuldades na Ucrânia e o outro para ajudar Leeb.”
“O atraso no avanço depois se demonstrará fatal para a conquista de Moscou. Aliás, para muitos historiadores, este foi um dos erros que determinou a retomada dos russos e a posterior derrota nazista. O grupo do exército do sul devia enfrentar um número de divisões muito superior as suas, porque os russos predispunham 45 divisões de infantaria e 5 de cavalaria, além disso, os alemães enfileiraram seiscentos carros armados, muitos dos quais provenientes da campanha nos Bálcãs que ainda não tinham sido revisados, contra os 5 mil dos soviéticos. Mesmo assim os eventos não espelhavam aquilo que os números podiam fazer pensar. De fato, o marechal Budënnyj era muito velho para poder administrar uma guerra moderna. O plano alemão foi de desabar sobre Bug desfrutando a ponta que as fronteiras formavam; a tarefa foi cumprida pelo sexto exército de Riechenau e dali teriam partido os carros armados de Kleist na direção leste. Rundstedt temia que as vinte e cinco divisões russas que estavam na fronteira com os Cárpatos conseguissem obstaculizar a ofensiva; ao contrário, inexplicavelmente, elas se retiraram. Os progressos, porém, não foram tão fulminantes como pareceu que seriam no início da ofensiv;, então Guderian mostrou que teria sido melhor concentrar as forças sobre Moscou, mas o Führer tinha uma opinião diferente.”
“No fim de setembro, recomeçou o avanço de Bock com o grupo dos exércitos do centro. Combateu-se em Vjazma: venceram os alemães e prenderam mais seiscentos mil homens. Parecia o fim da resistência russa, mas novamente o tempo bloqueou o avanço. Com o início das chuvas o terreno se transformou, novamente, num lamaçal que imobilizou todos os veículos sem esteiras nos pneus. Em 15 de novembro, durante uma pausa do mau tempo, o estado maior do exército alemão pediu para as próprias tropas um último esforço, que, porém, não foi coroado com a conquista de Moscou.”
“Te lembras de como Napoleão acabou em Moscou?”
“Claro que me lembro! E Hitler queria ser melhor que Napoleão?”
“Quando em 2 de dezembro entraram alguns pelotões na cidade, iniciou o contra-ataque russo dirigido pessoalmente por Zuckov. Hitler deu a ordem de resistir ao máximo. Brauschitch, chefe do exército, afetado pelos acontecimentos, pediu e obteve a própria demissão; uma semana depois foi Bock. Leeb, que, com o grupo do exército no norte, estava assediando Lêningrado, tinha tentado em vão convencer Hitler a se retirar daquele setor, afastou-se do comando. Rundstedt, enquanto isso, tinha conseguido se aproximar dos campos petrolíferos do Cáucaso, mas quando chegou na Criméia e na bacia do Donec sofreu um contra-ataque que não conseguiu conter com suas tropas exaustas. Ele também pediu para se retirar, mas, não sendo atendido, demitiu-se.”
“Hitler, que tinha se autonomeado chefe do exército, no Natal também liberou-se de Guderian e, em menos de um mês, todos os generais que tinham obtido a vitória contra a França não estavam mais no serviço e daí em diante a situação alemã ficou cada vez menos segura, considerando, além disso, que a guerra estava se transformando, de guerra relâmpago, em guerra de claro desgaste físico e psicológico. Os russos também conseguiram transportar as próprias fábricas, desmontadas peça a peça, para além dos Urais, e esta idéia foi fundamental para a continuação da guerra. De fato, só deste modo Stalin conseguiu preencher as gravíssimas perdas sofridas nos primeiros meses de guerra, as quais chegavam a aproximadamente 20.000 carros armados e 15.000 aviões.”
“E os Estados Unidos? Eles também não entraram na guerra? O que estavam esperando?”
“Um momento que já chego lá! Naquele ano continuava a aproximação angloamericana, feita em diversas etapas. Nos Estados Unidos foi promulgada uma lei sobre aluguéis e empréstimos que autorizava o presidente a fornecer material aos países em guerra; houve depois um encontro entre Roosevelt e Churchill no largo de Terranova no qual foi formulada a Carta Atlântica, em que foram definidas as bases de uma política comum para a paz futura. A carta era uma espécie de manifesto ideal e político que se contrapunha à barbárie do nazifascismo. Esta barbárie era teorizada segundo uma nova Ordem idealizada pelo próprio Hitler, que a tinha detalhado e exposto num livro de sua autoria, Mein Kampf, que quer dizer ‘A minha luta’. Era prevista a divisão do mundo em poucas nações entre as quais os alemães teriam sido Herrenvolk, isto é “os senhores’ e teriam tido o primeiro lugar no mundo. Outras poucas nações seriam privilegiadas e a elas teria sido reservado um grande espaço, Grossraum, para comandar os povos submetidos, constituídos pelos sub-homens, Untermenschen, como escravos ou eliminando-os através da fome, da esterilização e dos campos de extermínio, Vernichtungsläger! E os judeus eram os primeiros a se neutralizar... com a solução final, Endlösung!”
“Mas este era realmente louco! Não é possível que ainda exista alguém que tenha dúvidas sobre isto! E uma inteira nação o seguia, e não só aquela...”
“E nem os sub-homens podiam ficar bem: os poloneses, por exemplo. Ouçam só o que escrevia Hitler sempre em seu delírio. ‘... na Polônia é preciso manter baixo o nível de vida, não é preciso permitir que ele se levante... os sacerdotes deverão pregar aquilo que nós queremos que preguem. Se algum padre se comportar de modo diferente, nos livraremos dele rapidamente. A tarefa do padre é fazer com que os poloneses fiquem calmos, burros, obtusos... É indispensável lembrar que a alta burguesia e a pequena nobreza polonesas devem deixar de existir... Todos os representares da inteligência devem ser exterminados...”
“E infelizmente depois das palavras seguiram-se os fatos! Eis porque não deve-se aceitar com leviandade que alguém elabore certas fantasias dementes!”
“Escuta, continua com a guerra. Mesmo que eu não goste muito de ouvir sobre as batalhas, certamente é melhor do que falar desta loucura humana!!” não podia acreditar, nem pensar a Luigia, que tais propósitos de tragédia fossem criados por uma mente humana.
“O Japão, depois de ter conquistado a Indochina francesa, para tentar isolar a China com a qual tinha começado uma guerra de conquista desde 1932, recebeu um ultimato de Roosevelt que pedia a retirada das tropas da colônia francesa. Os Estados Unidos, de fato, viam ameaçados os seus interesses econômicos e estratégicos no extremo oriente. O Japão recusou-se claramente, então os E.U.A e a Inglaterra iniciaram o embargo de matérias-primas essenciais ao país do Sol Nascente, e logo ficou evidente a inevitabilidade da guerra.”
“O ataque japonês contra os Estados Unidos foi desferido de improviso em Pearl Harbor. Às 7:55 do dia 7 de dezembro de 1941, 189 bombardeiros atacaram a ilha, afundando ou danificando gravemente 8 encouraçadas, 3 porta-aviões e muitos aviões aterrisados, provocando assim a entrada em guerra dos Estados Unidos, num momento em que o potencial militar deles, quase inexistente em 1940, ainda estava muito longe de um grau satisfatório de eficiência.”
“Com este ataque, os japoneses tiveram o controle de quase todo o Pacífico e simultaneamente desembarcaram nas Filipinas e na península de Málaga. No dia 8 dezembro, Hong Kong também foi atacada por terra, de surpresa, e a exígua e mal defendida guarnição inglesa, que esperava um ataque por mar, se rendeu no dia de Natal. Até 22 de junho daquele ano, a Alemanha e a Itália tinham contra elas praticamente só a Inglaterra; a partir de 11 de dezembro, eles teriam que enfrentar as três maiores potências industriais do mundo.”
“No ano sucessivo, os Estados Unidos passariam de um a cinco milhões e meio de toneladas de navios mercantes, produzindo 48 mil aviões, 32 mil carros armados, incrementando a agricultura em 12% e enviando ajuda consistente, sobretudo em meios motorizados, para a União Soviética. A reação dos aliados contra a Alemanha começava a se tornar maciça e violenta.”
o ano de 1942 e o ano de 1943
“Churchill, o premier inglês, tinha novamente encontrado Roosevelt em Washington em dezembro de 1941, e encontrou com Molotov, primeiro ministro soviético, em 21 de maio de 1942 em Londres. Cinco dias depois, foi fechada uma aliança anglo-soviética. No mesmo agosto, Churchill visitou Stalin em Moscou.”
“Por outro lado, Alemanha e Itália, acreditando-se quase superadas, seguiam o Japão no conflito contra os Estados Unidos. O Japão, todavia, se absteve de declarar guerra contra à URSS, estipulando com esta um acordo que referia-se às fronteiras da Manchúria e da Mongólia. Parecia que entre os dois a questão devia permanecer dentro das fronteiras da Ásia.”
“Mas é inacreditável! Faziam uma guerra aos pedacinhos?”
“É, parece inacreditável, mas a guerra parecia diferente entre os diversos países. De qualquer modo, a situação das populações judias e eslavas agravou-se em toda a Europa, por causa da realização efetiva, querida pelo próprio Hitler, da ‘solução final’, isto é, o seu extermínio, posto em prática sistemáticamente pelas SS. A operação consistia no genocídio de todos os povos considerados inferiores à raça ariana. Os nazistas em particular se obstinaram exatamente contra os judeus, já que estes, marginalizados por séculos e proibidos de possuir bens imóveis, representavam o fulcro da grande finança especialmente na Alemanha. Não quero me deter neste horrendo assunto sobre o qual, sem dúvida, vocês já ouviram falar tantas vezes. Lembrarei só dos números: 4 milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, foram trucidados pelas bestialidades nazistas. Destes, um milhão só no campo polonês de Auschwitz.”
“Deste horrendo massacre, digno das piores fantasias doentias, o escritor italiano Primo Levi dá um lúcido testemunho de vida, vivida nas suas duas obras: ‘Se isto é um homem’, onde descreve a condição desumana nos campos de concentração, e ‘A trégua’, que narra a desorientação dos deportados sobreviventes, muitas vezes abandonados a si mesmos na volta para casa no fim da guerra.”
“Contudo, os japoneses conquistaram, com uma série destemida de operações aeronavais, as Filipinas, a Malásia e Singapura, que se tornaram bases de ataque para a conquista da Indonésia, que ocorreu entre janeiro e março e foi facilitada pela neutralização das forças navais aliadas ocorrida na batalha do mar de Java. Porém, a reação dos Aliados demonstrou-se eficaz; o seu contra-ataque no Mar dos Corais e nas ilhas Midway, em Guadalcanal, foi o sinal do fim do avanço japonês.”
“Enquanto isso, a Alemanha dedicava todos os reforços à guerra submarina no Atlântico, afundando centenas de navios aliados de janeiro a novembro. No final de outubro, parou o avanço no fronte da África setentrional, onde as tropas do eixo perderam a decisiva batalha de El Alamein. Em 8 de novembro, os Aliados desembarcaram no Marrocos e na Algeria. Assim, as tropas francesas da África setentrional retomaram a luta, ficando ao lado dos Aliados, e marcharam para a Tunísia. Os exércitos alemão e italiano, presos no fogo cruzado, tiveram que se render.”
“A reação de Hitler contra a rebelião francesa foi imediata: aos 11 de novembro, a Wehrmacht invadiu a zona meridional da França, já sob o controle do governo de Vichy, enquanto as forças italianas ocuparam Nice e a Córsega. Em 27 de novembro, o assim chamado exército francês de armistício foi desfeito e a frota francesa de Toulon se auto-afundou para não cair nas mãos dos alemães. No fronte oriental, a ofensiva iniciada pelos alemães em maio, antes na Criméia e depois no Cáucaso e no Volga, foi até Sebastopol e o estuário do Don, alcançando o monte Elbrus e Stalingrado, que os alemães atacaram imediatamente.”
“Já em novembro tem-se a notícia do primeiro contra-ataque vitorioso dos Russos em Stalingrado, prosseguido vigorosamente em dezembro, que provocou a retirada geral da Wehrmacht e do ARMIR. O ARMIR, isto é, o Exército Italiano na Rússia, formado por duzentos e trinta mil homens, foi então involuntariamente protagonista de uma das mais desastrosas retiradas do exército italiano registradas. Os soldados declarados mortos ou dispersos foram mais de setenta mil! O exército italiano estava espalhado desde o Cáucaso até o estuário do Don. E a responsabilidade desta derrota deve ser atribuída em boa parte ao próprio Hitler, que, com uma insensata obstinação, recusou o pedido das tropas locadas na cidade para retroceder!”
“Mario Rigoni Stern, um dos nossos mais agudos escritores e oficial daquele exército, nos deixou diversas memórias nas suas obras, sobretudo naquela intitulada ‘O sargento na neve’!”
“Depois da derrota dos alemães na Rússia, imediatamente foram feitas conferências pelos Aliados, entre os ministros do exterior, em Moscou, e depois no Cairo, onde aconteceram duas importantes reuniões entre Churchill e Roosevelt, na primeira delas também participou o chinês Chiang Kai-shek. Foi em Teerã que os dois estadistas anglo-americanos enfim se encontraram diretamente com Stalin.”
“No que se refere às forças do Eixo e seus aliados, os colóquios de Hitler com os chefes de governo dos países aliados, que na realidade eram submetidos, com o romeno Antonescu, com o regente da Hungria Horthy, com o rei Boris da Bulgária e enfim com o próprio Mussolini, não conseguiram eliminar as crescentes dificuldades encontradas na condução da guerra.”
“Aliás, na Itália, verificaram-se os acontecimentos mais decisivos. Os anglo-americanos, que já tinham tomado a Panteleria e Lampedusa, depois de mais de um mês de combates, tinham desembarcado em grande numero na Sicília, na madrugada entre 9 e 10 de julho, expulsando as forças italo-alemãs da ilha para depois passar para a Calábria, dando início à invasão da península italiana. A aviação aliada golpeava repetidamente as cidades e, no dia 19 de julho, pela primeira vez, Roma foi bombardeada.”
“Seguiu-se uma rápida progressão que despedaçou a já titubeante pretensão de credibilidade do regime fascista. As assustadoras e desastrosas campanhas da Grécia, da Rússia e da África setentrional tinham revelado brutalmente a falsidade de um regime que tinha se apresentado unicamente como uma orgia de violências internas e de palavras, mas inexistente como força no fim das contas. Aliás, exatamente a propaganda cotidiana e a falsificação da verdade tornava-o agora objeto de ridicularização e de desprezo de todos os italianos. Estes já não viam a hora de se livrar do Duce e da sua loucura da guerra: uma guerra que o fascismo tinha querido e declarado apesar do total despreparo militar. Entre os próprios hierarcas fascistas e no ambiente da Corte crescia a intenção de afastar Mussolini e tirar dele as próprias responsabilidades tentando, desta forma, salvar a própria pele. E, enquanto os partidos tradicionais estavam se reconstituindo clandestinamente e nascia o novo Partido de Ação, na madrugada entre o dia 24 e o dia 25 de julho, o Grande Conselho do Fascismo votou a ordem do dia, que pedia a renúncia do Duce. Mussolini, obrigado a renunciar, foi até preso. Houve então a fraca e ineficaz retomada do poder pelo rei Vittorio Emanuele III, com a constituição de um governo dirigido pelo marechal Badoglio, que apresentou aos Aliados um pedido de armistício, assinado sem imposição de condições pela Itália, em Cassibile, aos 3 de setembro, e tornado público aos 8 de setembro de 1943. Toda a Itália sentia-se perdida, sozinha e abandonada pelo governo durante a ocupação nazista.”
“Enquanto isso, Mussolini, preso em Roma, foi transferido primeiro para a ilha de Ponza, depois para a Maddalena e enfim para o Campo Imperador no Gran Sasso, onde, em 12 de setembro, foi liberado com uma rocambolesca ação aérea guiada pelo major Harald Mors e levado para Mônaco da Baviera, onde recebeu de Hitler a tarefa de reconstituir um governo fascista. Em 18 de setembro, pelos microfones da Rádio Mônaco, o Duce anunciava o nascimento de um novo estado, fascista e republicano. Era o epílogo de uma trágica farsa.”
“Aos 23 de setembro, Mussolini retornava para a Itália sob a proteção dos alemães tomando posse oficialmente do novo estado, com um novo governo fascista que assumia o nome de República Social Italiana. A Itália foi realmente dividida em duas: a parte meridional controlada pelos aliados sob o comando local do Rei, e aquela setentrional – na qual nascia a resistência – nas mãos dos alemães, com Mussolini como chefe do governo.”
“Aos 29 de setembro, na ‘Rocca delle Caminate’, residência privada do Duce, aconteceu a primeira reunião do governo fascista. O Duce nomeou ministro da guerra o Marechal Rodolfo Graziani, com a tarefa de reconstituir um novo exército republicano. O governo Badoglio, ao contrário, depois de ter assinado aos 29 de setembro, em Malta, um novo armistício, declarou guerra contra a Alemanha aos 13 de outubro e um mês depois foi reconhecido pelos Aliados como co-beligerante.”
“Ao sul, o príncipe Umberto de Savoia assumiu o comando do reino e pouco depois Bonomi tomou o lugar de Badoglio na direção do governo. Nos Estados Unidos, Roosevelt foi eleito presidente pela quarta vez aos 7 de novembro, com Truman como vice-presidente.”
“Em primeiro de outubro, o mesmo Graziani, durante uma manifestação no teatro Adriano de Roma, lançava um apelo a todos os oficiais e aos soldados italianos para aderirem ao exército republicano. Mas o recrutamento não teve as proporções esperadas e, para fazer respeitar o serviço militar obrigatório, Graziani foi obrigado a publicar um edital no qual ameaçava com a pena de morte quem não se apresentasse no prazo. Nos primeiros dias de novembro, a sede do novo governo é estabelecida em Saló, um pequeno município sobre o Lago de Garda.”
“Em Casablanca, no Marrocos, os Aliados tinham então anunciado a sua decisão de exigir o rendimento incondicional dos seus adversários. No fronte soviético, o Exército Vermelho coleciona novas vitórias em Stalingrado, onde cercou e aniquilou o sexto exército de Von Paulus.”
“Na Itália, na manhã do dia seguinte ao 8 de setembro, os Anglo-Americanos desembarcavam em Salerno. Depois do inesperado anúncio do armistício, as forças italianas sobre o território italiano e nos Bálcãs, ficando sem ordens precisas, se espalharam: parte foi facilmente desarmada pelos Alemães. Seiscentos mil soldados italianos foram imediatamente presos e transportados para os campos de concentração na Alemanha, parte fugiu unindo-se às forças aliadas que se tinham organizado, sobretudo no norte da península, alguns ficaram fiéis a Mussolini na República de Saló e ao seu ex-aliado, mas não faltaram episódios de resistência ativa imediata, que acabaram por se transformar numa tragédia. A República ou Republiqueta, como foi imediatamente definida, tinha visto nascer num simples vilarejo do lago de Garda um governo fantoche dirigido pelos alemães, que tinham tirado da sua soberania até o Trentino e a Veneza Giulia. A queda do Duce, de Roma a Saló, era o tragicômico sinal da definitiva ruína do fascismo e o inequívoco julgamento da história sobre o seu efetivo valor.
“Filhos de um palhaço, acabam se revelando palhaços”, resmungava amargo entre dentes Angiolino.
“Nos primeiros dias de outubro, os Aliados entraram em Nápoles, mas o seu avanço em direção ao norte foi bloqueado no Garigliano e no Sangro, ou seja, na linha de defesa alemã chamada Gustav, um imponente sistema defensivo que resistiu a quatro assaltos que viram, entre outras coisas, a inútil destruição, nos bombardeios, do antigo monastério de Montecassino.”
a derrocada alemã de 1944
O relato continuava dia a dia, mas também ricocheteando nos anos, sempre na mesma moldura de sol e de mar azul.
“Na França, o CFLN, o fronte de Liberação Nacional chefiado pelo general De Gaulle, transformou-se no dia 3 de junho no Governo provisório. Decidido durante a conferência de Teerã do ano anterior, no dia 6 de junho de 1944, aconteceu o famoso desembarque na Normandia. As forças de Von Rundstedt foram dispostas ao longo do Vale Atlântico para bloquear o iminente desembarque, que aconteceu no dia 6 de junho na Normandia, depois ter sido preparado com uma série impressionante de bombardeios e numerosos lançamentos de paraquedistas. No desembarque, participaram 12000 navios de guerra, 4200 meios de desembarque e 12000 aviões, e, depois de dois meses de furiosos combates, os aliados romperam as linhas defensivas do terceiro Reich. Era a demonstração da potência e da excepcional capacidade de organização do exército norte-americano.”
“De Gaulle entrou no dia 26 de agosto numa Paris liberada, enquanto o seu governo era reconhecido pela URSS, Inglaterra e Estados Unidos. A Alemanha também perdeu, durante o verão, o controle dos territórios ocidentais que ocupava, enquanto as contínuas derrotas sofridas pela Wehrmacht provocavam o rompimento das ligações com as cidades satélites. A Romênia assinou o armistício no dia 12 de setembro; a Finlândia, no dia 19 de setembro. A Bulgária capitulou logo depois que o seu território foi atacado pelo Exército Vermelho. Romênia e Bulgária se voltaram contra o Reich.”
“Na Itália, dividida pela proclamação da República de Saló, no dia 10 de janeiro, em Verona, alguns hierarcas fascistas, que tinham pedido demissão para Mussolini com a ordem do dia Grandi, assim como o general Emilio de Bono e o conde Ciano, ex-ministro do exterior e genro de Mussolini, foram condenados à morte e fuzilados depois de um processo-farsa por traição. Além disso, para limitar a ação da resistência que organizava operações sempre mais importantes de sabotagem contra o exército de ocupação alemão, foram efetuadas maciças ações de rastreamento, em várias zonas da Itália setentrional, e houve numerosas represálias.”
“Exato, como nas Fossas Ardeatinas”, sugeria Angiolino comovido.
“Ou em Marzabotto. Que massacre de inocentes...”, retrucava Luigia.
“Sim, as represálias eram contra os atentados ou contra presumidas colaborações com a resistência, ou então, atingindo a população civil, para vingar os ataques feitos pela resistência... Nas Tumbas Ardeatinas, cavas que se encontravam perto das catacumbas de São Calixto, em Roma, os soldados alemães, se ainda podem ser chamados de soldados estes assassinos comandados por Kappler, massacraram 335 civis, como represália contra um ataque da resistência que aconteceu na via Rasella, onde tinham morrido 35 soldados da SS.”
“E em Marzabotto?”
“Em Marzabotto, um pequeno vilarejo perto de Bolonha, aconteceu um dos piores massacres da história da resistência italiana. Foram assassinadas 1830 pessoas!! Quem comandou a execução foi o grande major Reder! Como podem ver, certamente não poupo fama aos criminosos!”
“E os americanos? Não chegavam?”, ainda se preocupava Luigia.
“Os aliados anglo-americanos, que tinham feito o desembarque das forças em Anzio, subiram a península e, exatamente em junho, Roma foi liberada. Depois foi a vez de Livorno e de Florença. O movimento da resistência, entretanto, obteve importantes sucessos em todo o Centro-Norte. Alemães e fascistas reagiram raivosamente com as varreduras, nos quais foram empregados os soldados da Guarda Nacional Republicana e depois as Brigadas Negras, que também colaboraram com as SS na caça aos judeus. Porque, ainda não satisfeitos em assassinar outros italianos, os defensores da República Social Italiana tinham-se unido com grande zelo aos alemães na aberrante operação de extermínio planejado.”
“Em dezembro de 1944, Mussolini fez seu último discurso no Teatro Lírico de Milão. A linha Gótica, feita pelos alemães sobre os Apeninos entre Florença e Bolonha, resistia, e as operações ficaram paradas durante todo o inverno, mesmo porque o fronte italiano tinha-se tornado secundário por causa do desembarque na Normandia e até o general inglês Alexander pedia à resistência para suspender as ações de guerra em larga escala.”
“E os russos? Eles também não avançavam?”
“No fronte oriental, com a operação Bragation, os soviéticos conseguiram anular os últimos exércitos alemães e abrir caminho para Berlim. No fim de julho encontravam-se já próximos da Prússia ocidental nos subúrbios de Varsóvia e nos Cárpatos. Na Polônia liberada formaram um governo constituído só de comunistas, oposto ao que tinha se refugiado em Londres em 1939. Eram os primeiros sinais de contraste entre as forças adversárias ao eixo.”
“Além disso, a aversão impiedosa dos russos contra os poloneses ligados ao governo exilado já tinha sido demonstrada durante a insurreição de Varsóvia, onde morreram quarenta mil rebeldes. A cidade tinha sido abandonada nas mãos das quatro divisões alemãs enviadas por Hitler, apesar do exército vermelho já ter chegado nos subúrbios.”
“Na França, as tropas anglo-americanas prosseguiram o seu avanço alcançando Aquisgrana, no dia 21 de outubro, e, em novembro, lançaram uma nova ofensiva em todo o fronte, sem obter porém os resultados esperados. Contudo, já em setembro, a maior parte da França estava livre. No dia 16 de dezembro, Von Rundstedt lançou o último contra-ataque da Wehrmacht nas Ardenne, que foi flanqueada por ataques entre a Saar e o Reno. Os americanos foram obrigados a abandonar o front pela pressão das Unidades encouraçadas alemãs e todo o front aliado correu o risco de ser derrubado, tendo, porém conseguido resistir, graças sobretudo à defesa de Bastogne.”
“Mas parece que não vai acabar nunca esta guerra!”
“É verdade. Parece que não vai acabar nunca. E ainda temos um ano para contar.”
“Amanhã, amanhã! Por hoje acho que já ouvimos o suficiente!”
1945: a vitória
“No degelo de 1945, foram retomados os combates na Itália. O general Clark e o marechal Alexander lançaram uma ofensiva geral em todo o front, que levou as tropas aliadas a alcançar os principais centros da Itália setentrional e também cedeu a linha Gótica. Os alemães se puseram em marcha e também abriu-se o front oriental, onde avançavam os exércitos iugoslavos de Tito.”
“Em março, os Aliados superaram o Reno em vários pontos, prosseguindo rapidamente a sua marcha em direção ao coração da Alemanha, que, submetida a duríssimos bombardeios aéreos, agora estava reduzida ao extremo. Enquanto os Franceses se apropriavam de Stutgart, os Americanos invadiam a Baviera e alcançaram Mônaco no dia 29 de abril. As forças alemãs se renderam aos poucos: em Caserta no dia 29 de abril para as tropas na Itália e Áustria; em Luneburgo no dia 4 de maio para as da Vestfalia, Dinamarca e Holanda; enfim, a entrega incondicional ocorre com os comandantes chefes aliados, assinada no dia 7 de maio em Reims por Jodl, e confirmada no dia 8 de maio em Berlim.”
“A estação da República Social Italiana, por sua vez, terminou miseravelmente em abril de 1945, quando os alemães se entregaram em massa. Milão, Gênova e Turim foram liberadas pela resistência e Mussolini tentou fugir para a Suíça disfarçado de soldado alemão, mas foi reconhecido e capturado em Dongo, e por fim executado com fuzilamento. Desta forma, o Duce terminava a sua aventura na margem ocidental do Lago de Como no dia 28 de abril de 1945. Três dias antes, no dia 25 de abril, o comandante militar da CLN tinha ordenado a insurreição geral das forças da resistência, que desde o fim de 1943 tinham comprometido cada vez mais seriamente os Alemães e os fascistas. Posteriormente, na resistência e nas suas operações, inspiraram-se muitos poetas e escritores como Fenoglio, que escreveu ‘O partigiano Jhonny’, Franco Fortini com ‘Canto dos últimos partigianos” e tantos outros. De fato, todas as forças da resistência já tinham libertado a, Itália dos alemães e dos fascistas de Salò.”
“O que estás fazendo, propaganda para os livros?”
“Claro, é preciso falar dos livros, recomendá-los e lê-los. É principalmente através dos livros que se aprende. Porque com os livros pode-se refletir o tempo necessário, discuti-los, confrontá-los, e é possível até se apaixonar por eles, sabiam?”
“Ah tá!! O livros...”, as vozes soavam crédulas.
“Os bons livros sim, tem todas estas capacidades... principalmente aquela de fazer conhecer os homens e a sua história e de fazer refletir. Se as pessoas lessem mais... o mundo, sem dúvida, também estaria melhor agora! Mas, ao contrário, ‘bebem’ tudo o que a televisão diz e não podem nem mesmo controlar se o que está sendo dito é verdade. Sem possibilidade de confronto, ao invés de formar cidadãos conscientes, formam-se idiotas úteis... E quantos idiotas circulam e falam como se fossem profetas!”
“Porém, é melhor retomar o relato, para dizer como ficou depois da guerra.”
“Certo. O território alemão tinha sofrido duríssimos bombardeios arrasa-quarteirão, que não tinham só o objetivo de danificar a produção bélica, mas também de enfraquecer a resistência do povo alemão. Foram despejados milhões de toneladas de bombas, foram feitos os mais devastadores ataques aéreos sobre Berlim, Colônia, Frankfurt, Dresdem... Nurenberg... Sob as bombas morreram mais de 100.000 civis, as cidades foram praticamente arrasadas. Apesar disto, Hitler na sua loucura não se rendeu. Tinha realmente esperança nas ‘armas secretas’ que, porém, não tinham sido produzidas em quantidade suficiente para mudar o curso da guerra.”
“Dois dias depois da morte de Mussolini, em Berlim, o próprio Hitler suicidava-se em um bunker, designando como seu sucessor o almirante Dönitz. A loucura tragicômica do fascismo acabava junto com a ainda maior e terrível do nazismo.”
“Finalmente!”
“Os grandes encontros internacionais que ocorreram em Jalta, em fevereiro de 1945, e em Postdam, em julho e agosto, entre os vencedores soviéticos, americanos e ingleses, foram dedicados à nova organização das fronteiras da Europa e especialmente ao futuro da Alemanha depois do fim do conflito.”
“A conferência de São Francisco, iniciada no dia 25 de abril, discutiu a organização política do mundo depois da guerra: os Aliados separaram claramente a criação da Organização das Nações Unidas, da qual adotaram a Carta no dia 26 de junho, da elaboração dos tratados de paz.”
“Enquanto Stalin, De Gaulle e Chang Kai-shek ficaram no poder respectivamente na URSS, na França e na China, Roosevelt, morto no dia 12 de abril, poucos dias depois da vitória na Europa, foi substituído por Truman, e Byrnes sucedeu Stettinius no departamento de Estado americano.”
“Então acabou tudo? E a bomba atômica?”
“Realmente ainda não acabou. No Extremo Oriente a guerra ainda não tinha terminado. Os japoneses adonaram-se completamente da Indochina num ato de força contra os franceses em março de 1945, mas foram denunciados por não cumprirem o acordo de neutralidade assinado com a Rússia, que declarou guerra contra eles em agosto daquele ano. A capitulação do governo de Tóquio provocou o desmembramento das conquistas japonesas. Foram lançadas pela primeira vez duas bombas atômicas: sobre Hiroshima, no dia 6 de agosto, provocando a morte de 80.000 pessoas, 35.000 feridos, 13.000 desaparecidos, e sobre Nagasaki, no dia 9 de agosto, com 40.000 mortos. Tais perdas obrigaram o Japão a ceder. As hostilidades foram suspensas no dia 16 de agosto de 1945.”
“Na Indonésia, entretanto, estava sendo organizado um governo nacional. Na Indochina, Chineses e Britânicos repartiram o controle do território, aplicando os acordos de Quebec e de Postdam. Situação análoga aconteceu na Coréia com tropas soviéticas no norte e tropas americanas ao sul do paralelo 38. O fim das hostilidades não foi imediatamente seguido por tratados de paz; os que foram estipulados aconteceram em períodos muito posteriores: tratados de Paris de 10 de fevereiro de 1947 para Itália, Romênia, Bulgária, Hungria e Finlândia; tratado de São Francisco de 8 de setembro de 1951 para o Japão, do qual não participou a URSS; tratado de Estado de 15 de maio de 1955 para a Áustria.”
“O balanço da guerra era desastroso, superando a pior previsão: cada país tinha tido um número exagerado de mortos. Começando com a URSS com vinte milhões e seiscentas mil vítimas, a China com oito milhões, a Alemanha com sete milhões, a Polônia com cinco milhões e oitocentos mil, o Japão com três milhões e trezentos mil, a Iugoslávia com um milhão e meio, a França com seiscentos mil, a Itália com quatrocentos e cinqüenta e cinco mil, a Inglaterra com trezentos e oitenta mil... os Estados Unidos com trezentos mil... e tantos outros de outras nações... como a Holanda, a Bélgica, a Suécia...”
“Mas a realidade mais terrível é que destes quarenta e oito milhões de mortos citados, vinte e dois milhões eram vítimas civis inermes: quase a metade do total de vítimas!”
“Este é o maior testemunho da loucura humana da guerra!”
“A guerra, é verdade, cada guerra é sempre e somente uma loucura! Em todo e qualquer tempo e lugar!”
Or enascimentodos partidos políticos
“Bem! A segunda guerra mundial foi longa, mas finalmente vamos falar da Itália do pós-guerra que ainda é a Itália de hoje em dia!”
Luigia e Angiolino me esperavam impacientes. Mais passavam os anos e mais pareciam querer apressar os nossos encontros. Inconscientemente temiam que tudo isso acabasse. Eu observava Angiolino e a cada ano o via umdado, mais cansado, mais velho. Até a sua profissão de pescador tinha acabado. Muitas taxas, muitas leis, muita burocracia, e ele tinha perdido a paciência. Ele e o irmão já não eram tão jovens, os filhos tinham crescido. A filha, aliás, tinha aberto um bar bem na Marina Piccola, em desaprumo sobre o mar. Aquele mar que quando estava agitado ainda conseguia entrar com as suas lufadas através das aberturas da casinha branca de Angiolino, a primeira e a mais exposta daquelas penduradas sobre a rocha.
Para mim, os anos também passavam. Matilde crescia, ia para os Estados Unidos, depois para a universidade... Eu tinha sempre menos tempo e, como me repetiam com afetuosa ironia os dois, me fazia de difícil! Às vezes eu viajava, eu gostava de viajar: Ásia... América do Sul... Extremo Oriente... uma doença.
“Depois de Mussolini ter sido demitido no dia 25 de julho de 1943, o rei, que era ainda Vittorio Emanuele III, confiou ao general Pietro Badoglio a formação do novo governo, que devia tirar a Itália do desastre no qual Mussolini, mas também o próprio rei, a tinham conduzido. Badoglio ficou de chefe deste governo provisório, ou de guerra, até junho de 1944, quando os aliados entraram em Roma e o general colocou seu cargo à disposição para obter um novo cargo de lugar-tenente do reino, Umberto de Savoia. Porém, o CLN, o Comitê de Liberação Nacional, que tinha sido oficialmente criado dentro do Vaticano em setembro de 1943, formado por representantes de todos os partidos anti-fascistas, protestou energicamente, porque a nomeação de Badoglio tinha sido feita pelo lugar-tenente do reino, que tinha sido fortemente comprometido com o regime fascista.”
“A esta altura, o CLN nomeou como presidente do Conselho Bonomi, um democrata trabalhista apoiado pelos americanos, mas não pelos ingleses. Assim, do novo governo participaram todos os partidos antifascistas, mesmo porque, com as polêmicas referentes ao reconhecimento da monarquia, em Salerno, Palmiro Togliatti, que era o secretário dos comunistas, propôs adiar a questão para o fim da guerra e de dar, ao invés, vida a um governo de unidade nacional para chegar unido ao fim do conflito e dar início à reconstrução do país. Foi assim que nasceu o primeiro governo chamado de unidade nacional: o governo Bonomi.”
“E governos Bonomi houve dois, mas não sem contrastes. Entre os vários partidos que constituíam o CLN, nunca conseguia-se estar de acordo sobre os problemas mais importantes. De fato, já tinha começado a luta para conseguir a simpatia do eleitorado, pelo menos daquele do sul da Itália, já que no norte por enquanto ainda estavam os alemães. Assim, a Democracia Cristã tentava atrair para si os pequenos proprietários de terras e também aqueles um pouco maiores fundando a Confederação dos Cultivadores...”
“A Coldiretti!! Isto eu sei. E ainda existe...”
“A esquerda, ao contrário, pensava na massa dos trabalhadores e dos camponeses através da CGIL, isto é, da Confederação Italiana do Trabalho que era liderada por Di Vittorio, um grande sindicalista.”
“Depois, nos primeiros meses de 1945, o ano do fim da guerra para a Itália, os aliados, com a ajuda da resistência, também tomavam o resto da península, e, no cenário político, surgiam outros partidos. Dizia-se então que chegava o ‘vento do norte’ para mudar as coisas. Para dizer a verdade, eram os mesmos partidos que já estavam no CLN, mas foram os homens a mudar, os próprios membros do comitê da alta Itália, que consideravam muito fracos e remissivos os colegas romanos. Deve-se dizer que todos ainda estavam muito ligados à luta armada, aos episódios de violência cada vez mais ferozes e gratuitos, pelos quais se tornavam culpados alemães e apoiadores da República Social Italiana que se sentiam perseguidos e acabados... chegando inclusive a acusar os outros de trair os ideais da resistência...”
“A este ponto o que podia fazer Bonomi? Demitiu-se e, como os candidatos dos socialistas e dos democratas cristãos, que eram Nenni e De Gasperi anulavam-se entre si, encarregaram do governo o chefe do Partido de Ação, Ferruccio Parri, que a ambos parecia ser dos males o menor. O seu partido era pequeno, Parri, porém também era o chefe da resistência do norte e assim contentavam-se todos de uma só vez.”
Os meus interlocutores nunca tinham estado assim tão quietos e atentos. Estes fatos sim que lhes interessavam de perto. A ressaca abaixo de nós parecia sugerir-me precisamente o ritmo do discurso.
“Então, depois de apenas cinco meses, os liberais disseram que não concordavam mais e desfizeram tudo, fazendo explodir novamente todos os contrastes. Parri, de fato, começava a tomar providências que se referiam à política econômica e que acabavam enfraquecendo as grandes propriedades monopolistas. E, se a esquerda defendia com fervor, a centro-direita e os americanos, que viam os seus interlocutores naturais com problemas, isto é, aqueles que tinham o dinheiro e as empresas, certamente não concordavam com Parri. Também tinha que se decidir o que fazer com a Consulta, que democratas cristãos e liberais teriam querido sem poderes decisionais, enquanto socialistas, comunistas e partido de ação imaginavam com grandes poderes políticos. E depois também tinha o problema da data das eleições que a esquerda queria fazer logo logo, enquanto todos ainda estavam tomados pelo renovado entusiasmo da luta contra os fascistas e os alemães. Democratas cristãos e americanos ao contrário viam-nas com maus olhos, dizendo que podia-se esperar, por que tanta pressa? Que antes fossem feitas as eleições administrativas, as políticas seriam vistas depois. Deixemos passar um pouco de tempo... sugeriam.”
“Assim aconteceu a queda do governo Parri, que se deu exatamente no fim da guerra armada, da luta contra o fascismo e no início de uma nova era para a Itália do pós-guerra. Então todos começavam a correr para obter votos e poder. É até compreensível: quantos anos tinham-se passado sob a ditadura fascista em que os partidos e as forças políticas ou sindicais eram pintados como a peste e ‘democracia’ tinha se tornado a pior palavra que se pudesse pronunciar! Porém, as coisas, exatamente pelos motivos que eu lhes disse, arrastaram-se com a ‘unidade nacional’ até maio de 1947, data das primeiras eleições políticas.”
“Desde 25 de abril de 1945 até maio de 1947 para fazer as eleições? Gastaram um bocado de tempo...”
“É, um bocado de tempo. Entretanto, era De Gasperi que sucedia Parri. E até, pensem bem, a proposta do nome foi sugerida pelo seu inimigo político mais importante naquele momento, Pietro Nenni, o socialista.”
“Não pode ser verdade?? Mas se era socialista... então... ??”, diz Angiolino.
“Era socialista e então pensava ter feito uma jogada genial. Pensava que De Gasperi não teria conseguido agüentar todos os difíceis problemas trazidos pelo fim da guerra... os italianos teriam se lamentado e depois, nas verdadeiras eleições, os socialistas teriam obtido a maioria dos votos!! Realmente contava com uma falência que botasse para fora do jogo até os democratas cristãos, isto é a Democracia Cristã que era o novo partido dos católicos... E ao contrário... ao contrário sua previsão não deu nada certo.”
“Os americanos, enquanto isso, tinham entendido, com o empurrãozinho do Vaticano, que nos liberais não podiam mais confiar, mesmo porque tinham sido reduzidos numericamente ao mínimo, e que devia-se apoiar de todos os modos a Democracia Cristã contra a esquerda, que via os comunistas atrás da esquina dos socialistas. Pensem, não só De Gasperi permanecerá como chefe do governo de 1945 até 1953, mas imediatamente após as eleições, quando poderá fazê-lo, jogará a esquerda imediatamente para fora do governo, com muito prazer e satisfação!”
“Então De Gasperi começou vigorosamente a resolver dois problemas fundamentais: restabelecer a ordem pública, num país que estava despedaçado, até por medo que as forças da esquerda incitassem as massas para uma revolta, e iniciar a reconstrução do país do ponto de vista econômico. Resolveu até a questão da monarquia... lavando-se as mãos com elegância. Já que muitos democratas cristãos eram monárquicos e, não querendo dizer claramente que ele, por sua vez, queria a República, escolheu fazer um “referendum”: assim teriam sido os italianos a decidir, e ele não teria perdido o apoio dos seus eleitores de nenhuma forma, fosse com a vitória ou com a derrota da monarquia! Por outro lado, os próprios monárquicos, visto o jeito como ficaram as coisas e as responsabilidades diretas do rei, pendiam para o “referendum”, pensando que secretamente nas urnas os italianos que então não tinham coragem de apoiá-la abertamente nas praças teriam votado pela monarquia. A Assembléia Constituinte teria certamente votado em sua maioria pela República, isto era certo.”
“Em 2 de junho de 1946 foi-se às urnas. Na ocasião, pela primeira vez na história da Itália, as mulheres também votaram! E sem dúvida deve-se ressaltar o fato por sua importância histórica e civil! Não saberia dizer se alguém tivesse levado em consideração seu presumível sentimentalismo e quem sabe a sua maior ligação com a coroa... não sei. Mas o fato é que com o referendum também votou-se pela assembléia Constituinte, isto é, para eleger quem deveria preparar a nova constituição italiana.”
“As eleições se revelaram então uma dupla derrota para os comunistas. Primeiro, porque o seu objetivo era aquele de ter mais votos que os socialistas e não tiveram, segundo, porque também pensavam ter a maioria dos votos. Ao contrário, não foi assim. Mas até a Democracia Cristã tremeu. Principalmente no sul a direita obteve um mar de votos com o Partido do Homem Qualquer, chefiado por um certo Guglielmo Giannini, que não só fez entender que os italianos no sul ainda não tinham aprendido bem a lição da história recente, mas também levou o país para um perigoso comportamento de protesto generalizado, que colocava em dúvida até a credibilidade do próprio De Gasperi entre os católicos. Por sorte, para De Gasperi e para toda Itália, deve-se dizer, este movimento teria tido os dias contados inclusive por causa da clara ruptura entre a URSS e os países ocidentais, a nível internacional: uma ruptura que coagulou o eleitorado ao redor dos católicos. Assim a DC podia finalmente representar a única verdadeira bandeira contra o comunismo.”
“E a monarquia? Não tinha o referendum sobre a monarquia? Ninguém mais pensava nisso?”, a alma monárquica de Luigia ainda sofria por aquele resultado.
“Quanto ao negócio da monarquia, bem, foi derrotada com uma diferença de pouquíssimos votos e, sobretudo, demonstrou a preferência pela república no norte! Quase a metade dos italianos, apesar da guerra e da responsabilidade do rei, não queria mudar o poder! A república nascia por um punhado de votos de preferência!”
“O verdadeiro vencedor foi De Gasperi, não há o que dizer! E como homem político demonstrou-se sem dúvida o melhor! Também sabia ousar e depois da votação de 2 de junho cuidou para não se ligar aos liberais e aos partidos de direita, mudando tanto que chegou a fazer suspeitar sobre uma sua possível simpatia aos fascistas. Bem ao contrário! Formou imediatamente um governo com socialistas, comunistas e o partido repúblicano. Assim deu-lhes uma ilusão para que ficassem quietos por um certo tempo, mas depois dispensou-os em questão de poucos meses. De fato, vejam o que os socialistas fizeram! Em janeiro de 1947 dividem-se novamente: no palácio Barberini em Roma, Saragat brigava com Nenni e levava consigo uma fatia do partido e dos votos, fundando o partido Socialista dos Trabalhadores Italianos, que depois se tornaria o PSDI. Os comunistas riram-se, esperando que isto lhes favorecesse. Mas que nada!!”
“Me parece que estás rindo um pouco demais quando vai mal para os comunistas!”
“E bem que ele faz!”, Luigia já via em mim um inesperado aliado.
“Mas não, não mesmo! É que De Gasperi era um verdadeiro estrategista político! Tinha duas batatas quentes na mão: uma era a assinatura do tratado de paz que não era exatamente muito fácil de engolir. Depois tinha a votação de um artigo da constituição, o artigo 7, que previa a assinatura com o Vaticano daqueles pactos que tinham sido assinados por Mussolini, os Pactos Lateranenses. Só estes dois já podiam ser considerados dois bons riscos a correr, visto que a direita e a esquerda eram contrárias a acordos deste tipo enquanto estava se formando um novo estado que se declarava leigo. Porém, se socialistas e comunistas queriam permanecer no governo... também deviam digerir este bocado envenenado! E os dois sócios, que se olhavam atravessado, morderam a isca! Deram o seu consentimento.”
“Ainda nem tinham acabado de morder e, em maio, De Gasperi pôs em crise o governo e o reformou imediatamente sem o PC e o PSI!! Ambos indo para a oposição! Tinha acabado a era da Unidade Nacional e iniciava o Centrismo. Isto é, a DC comandava tudo e todos! O jogo de De Gasperi tinha dado ao seu partido quase meio século de poder.”
Angiolino naquele dia tinha saído furioso sem nem se despedir de ninguém. E não reapareceu nos encontros por dias. E Luigia ria-se.
“Voltará, voltará – me repetia – volta sempre no fim. Deixa que ele se acalme!”
problemas econômicos e constituinte
Angiolino também tinha voltado. Parecia mais cansado e envelhecido. Tínhamos a consciência pesada pelo remorso, Luigia e eu. Porém fizemos de tudo para fazê-lo recuperar o bom humor.
“Feita a república e eliminado o rei, para a DC também existiam os problemas econômicos da reconstrução para enfrentar. E não era uma brincadeira! Entre 1945 e 1948 era necessário fazer escolhas econômicas fundamentais, o desemprego e o trabalho informal cresciam, especialmente no setor da agricultura; a inflação galopava e a reconstrução material do país tinha que ser feita totalmente. Os partidos que formavam os governos da unidade nacional, como já disse, só brigavam entre si, e aqui a história não era diferente.”
“E então?”, perguntava Angiolino um pouco rígido.
“Então, praticamente se aceitou a linha de Luigi Einaudi: a linha neoliberal.”
“Isto é?”, – pressionava novamente.
“E isto é que se estabelecia e se conservava o regime da propriedade já existente, com o total retorno da liberdade de ação para as empresas privadas e a eliminação de todo o controle público vinculante. Isto é, permitia-se aos privados agir economicamente sem maiores empecilhos. Linha esta que recebe a aprovação dos E.U.A., interessados em unificar o mercado mundial sob a supremacia do dólar e em abrir o mercado europeu, que tem a necessidade de importar ingentes recursos, aos intercâmbios com o mercado americano.”
“Bem, eu, de economia e de finanças não entendo nada!”, retrucava Luigia. Ela também dizia isso para fazer Angiolino sentir-se mais importante.
“As forças da esquerda também curvaram-se a estas decisões com um comportamento sobretudo de renúncia, até por causa dos conflitos entre socialistas e comunistas. Estes, de fato, discordando dos socialistas, recusavam categoricamente a idéia de aceitar abertamente uma economia ainda capitalista e pediam reformas radicais, começando pela reforma agrária. Porém, o momento que a Itália vivia não era nada favorável para a implementação de intervenções tão importantes, porque ainda existia um regime de ocupação militar e não tinha desaparecido completamente o medo de um golpe aliado ou monárquico.”
“E, além disso, as pessoas não teriam entendido. Teriam se assustado. Os comunistas realmente queriam obter a aprovação da classe média e também achavam que a linha que tinha que ser mantida pelas forças de esquerda era a moderada. E então deixaram para as decisões do Parlamento, que seria eleito, a discussão sobre reformas econômicas importantes. Até porque os comunistas certamente não tinham perdido a ilusão que as forças da esquerda teriam vencido as próximas eleições. Enquanto isso, porém, estes partidos também deviam trabalhar para colocar os seus representantes num órgão que podia ser decisivamente fundamental para o futuro: a Assembléia Constituinte, isto é, a assembléia que teria escrito a constituição da república.
“É, em 2 de junho, já recordei que, além de escolher entre monarquia e república, seriam eleitos os representantes para a Constituinte. Votou-se com o sistema proporcional, como acontecerá depois por muitos outros anos. O voto era direto, isto é, tantos votos, tantos candidatos, livre e secreto, em listas de candidatos concorrentes. Certamente não era pouco depois das farsas das eleições do período fascista. As pessoas sentiam-se realmente entusiasmadas e acreditavam sinceramente na possibilidade de mudança.”
“As zonas eleitorais eram 32 para eleger 556 deputados. Um pouco menos que os 573 que previa lei eleitoral, mas não se votava em Bolzano, Trieste e na Veneza Giulia onde ainda não havia a soberania do estado italiano. Resumindo, a DC teve trinta e dois por cento dos votos, socialistas e comunistas quase vinte e um por cento cada um, cinco e alguma coisa por cento foi para o Homem Qualquer e todos os outros, menos a União Democrática Nacional que teve seis, obtiveram menos de cinco por cento, isto é, Republicanos, Bloco Nacional da Liberdade e Partido de Ação, que foi o que obteve menos votos entre os partidos considerados importantes.”
“Assim, no dia 25 de junho, em Montecitorio, Saragat foi eleito presidente da assembléia e esta que, dois dias depois, elegeu Enrico De Nicola como chefe provisório de estado, até que não tivesse sido nomeado um novo chefe de estado, segundo as normas da constituição que ainda devia ser escrita. A Constituinte também deliberou a nomeação de uma comissão restrita, composta por setenta e cinco membros escolhidos pelo presidente da assembléia conforme as designações dos vários grupos parlamentares, aos quais foi confiada a tarefa de preparar um projeto de carta constitucional a ser submetido a todos os eleitos.”
“A comissão apresentou os seus resultados ao Parlamento no fim de janeiro de 1947 e em 27 de dezembro do mesmo ano a Constituição do estado italiano foi promulgada por De Nicola.”
“As suas características resumem ainda hoje as várias tendências de pensamento dos constituintes, ou seja, a católico-democratica, a democrático-liberal e a socialista-marxista.”
“Depois de uma premissa na qual estão listados os seus princípios fundamentais, existem duas partes que tratam uma dos direitos e dos deveres dos cidadãos e a outra do ordenamento do próprio estado.”
“A Constituição ainda hoje é a lei fundamental do estado na Itália e os cidadãos deste estado sempre deveriam se recordar e respeitá-la!”
Desta vez todos estavam igualmente satisfeitos. Não havia vencedores ou perdedores, aliás, todos nos sentíamos um pouco vencedores enquanto desfrutávamos do pôr-do-sol flamejante sobre o mar. Só nós ainda estávamos na Ponta quando anoiteceu.
a retomada da democracia
“Então, De Gasperi, depois ter resolvido os seus problemas com os católicos ainda ligados à monarquia e com o Vaticano, tinha realmente liquidado socialistas e comunistas pondo fim à experiência da unidade de Resistência para começar um governo de centro. E os comunistas e socialistas, ainda assim, pensavam que quase tinham feito um bom negócio, já que esperavam a qualquer momento a queda da DC e o fracasso da aventura do seu chefe. Mas, ao contrário, não só a DC resistia bem viva, mas com o apoio dos E.U.A., forte e disfarçado, consegue até incrementar seus apoios. Então Nenni e Togliatti, despeitados, passaram ao contra-ataque com a organização de manifestações de praça pública sobre temas quentes como a redução das vagas de emprego e da produção, que seguidamente levavam a conflitos com a polícia e a desordens.”
“É exatamente neste ano, em 1947, que iniciou a rígida contraposição entre o PCI e DC, entre comunismo e anticomunismo, até por conseqüência do que estava acontecendo a nível internacional, com o início da guerra fria. Em setembro acontece em Moscou a primeira reunião do Cominform que formulava a assim chamada ‘teoria dos dois campos’, aquele ‘imperialista antidemocrático’ contra aquele ‘antiimperialista democrático’. Aos partidos comunistas da França e da Itália, que estavam sendo fortemente criticados pela colaboração com os partidos conservadores, foi praticamente ordenado que virassem de cabeça para baixo os respectivos países; todos os partidos comunistas, além disso, deviam reforçar a sua ligação com a URSS, guia do comunismo mundial.”
“Parece um encorajamento para a revolução mundial, por favor!”
“Não o era de fato na Itália, mas vontade, eu acho que a União Soviética teve mais de uma vez. E sem exagerar.”
“Por outro lado, a facção era dirigida pela própria Igreja que, com o papa Pio XII, repropunha o conflito político e ideológico contra o marxismo, impondo aos católicos a escolha com a fórmula ‘com Cristo ou sem Cristo’. E como conseqüência desta clara distinção, republicanos e social democratas, guiados por Saragat, começaram a apoiar o governo de De Gasperi diretamente na sua coalizão.”
“Com estas tensões que eram exasperadas ardilosamente pelas duas partes chegou-se até a campanha eleitoral de 1948. Foram as primeiras verdadeiras eleições políticas, e a esquerda, com socialistas e comunistas, uniu-se numa Frente Popular que deveria esmagar a DC. Esta liderou um bloqueio de partidos contrapostos que agrupava socialdemocraticos e republicanos. Na direita o “Homem Qualquer” confluiu para o Bloco Nacional, enquanto na extrema direita reapareciam os monarquistas e um novo partido, o Movimento Social Italiano. Recém tinha sido promulgada a constituição antifascista e estes já reapareciam abertamente na cena política do governo.”
“Concluídas as eleições o balanço deixou obviamente insatisfeitas as esquerdas. Tinha sido uma clara afirmação da coalizão governada pela Democracia Cristã, enquanto a frente Popular era derrotada. Porém, pela primeira vez o PCI obteve um número maior de votos em relação aos socialistas que eram seus aliados. Começa assim uma fase que não seria mais interrompida até o desaparecimento do PCI, isto é, a hegemonia deste partido na esquerda italiana.”
“Uma coisa é certa: das eleições emergiu aquela que viria a ser a futura característica da vida política italiana. Os eleitores, quando se tratava de escolher entre duas facções, sempre davam o voto para os dois partidos, DC e PCI que, mais que os outros, caracterizavam a sua clara contraposição político-ideológica e não o davam aos partidos menores aliados. Quando, ao contrário, o clima era mais ameno, os votos eram repartidos de forma mais difusa.”
“Todavia, nas eleições de 1948, também incidiram fatores que, diretamente, nada tinham a ver com a Itália. E a primeira grande esnobada na esquerda tinha sido dada pelos comunistas tchecoslovacos que, mesmo não tendo a maioria dos votos, fizeram um golpe de estado. O medo de acontecer a mesma coisa na Itália era palpável, e isto estragou a política moderada dos nossos comunistas. Além disso, houve a ameaça dos Estados Unidos de não deixar os italianos participarem da distribuição dos auxílios do plano Marschall se as esquerdas tivessem vencido. A coisa não foi declarada abertamente, mas fizeram com que fosse entendida, e esta foi uma arma muito convincente na propaganda democristã! E ainda não acabou! Os Aliados também podiam jogar a carta da volta de Trieste para a Itália, impondo como condição a vitória de De Gasperi, e dos E.U.A. chegavam cartas itálo-americanas que convidavam os italianos a não votar nos comunistas e contavam sobre a riqueza e sobre o bem-estar que assegurava a eles uma boa vida nos Estados Unidos, que também viriam a ter os italianos se... votassem na DC.”
“E depois... depois tinha uma máquina de propaganda que superava todas as outras: a Igreja Católica. Em quem vocês pensam que os púlpitos da Itália convidavam a votar?”
“Aaahh! Queria dizê-lo eu! Eu estava presente quando os padres faziam propaganda para os democratas cristãos...”, disse Angiolino.”
“E então? Qual é o problema?? Será que os padres têm que ficar todos calados? Esta é a tua democracia? A tua e a do teu Stalin?”, a senhora não se continha.
“Por favor! É verdade que os padres... podiam fazer as suas escolhas, mas também tem razão Angiolino. Como concorrência era um pouco desleal se a religião não é a política... Contudo, o fato é que os democratas cristãos partiam claramente ‘protegidos’ e favoritos, mesmo que os comunistas ainda acreditassem realmente que conseguiriam apesar de tudo!”
“E ao contrário perdem... mais uma vez!”
“É sim, perderam, e a tensão das eleições, nas quais se tinha dito de tudo um pouco para demonizar o adversário, não se acalmava. Aliás, chegou-se quase ao limiar da guerra civil. Muitas pessoas, sobretudo as da resistência, ainda tinham armas escondidas e podia ser que até pensassem realmente em usá-las. Esperavam um sinal dos seus chefes. Em julho, o fato mais grave: Togliatti sofre um atentado. Pareceu então que o país estivesse à beira de um drama. Foi proclamada a greve geral pela CGIL e em todas as praças trabalhadores e manifestantes chocavam-se com a polícia. Pareceu que ninguém mais conseguiria manter o controle.”
“E ao contrário... ao contrário também desta vez, os dirigentes comunistas não se sentiam prontos para a revolução. Pregá-la era uma coisa, mas fazê-la era outra! E os italianos estavam saturados de mortos recentes! O próprio Togliatti conseguiu falar no rádio e acalmar os mais agitados. E depois aconteceu algo extraordinário! Bartali venceu a etapa do dia na Volta da França! Todos ficaram eletrizados com a notícia. Esporte é esporte, e um italiano que vence, ainda mais na França, deixa todos de bem...”
“Tudo acaba em nada né?”, diz dissimuladamente Luigia, “um pouco de esporte e não entendem mais nada! Homens...”
“Não acabou exatamente em nada não, já que este fato sempre ficou como um desafio, desde então o PCI aceitou a lógica da guerra fria e começou a contrastar e combater todas as escolhas políticas da DC, começando com a entrada da Itália na NATO, isto é, o Pacto Atlântico Militar, entre os Aliados na guerra mundial, que previa o deslocamento de bases militares estrangeiras para a Itália. Porém, nada pôde ser feito. As bases militares foram construídas e existem até hoje.”
“E a reforma agrária? Pelo menos isso conseguiram fazer?”
“Ah sim, a reforma agrária. Tu, Angiolino, que vens do sul da Itália, não a esqueces, né?”
“Ah, se tu soubesses que sonho era para nós do sul! Imagina só, possuir um pouco de terra que se tornava tua... construir uma casa... que sonho!”
“Começamos a dizer que, depois de afastados do governo o PCI e o PSI, De Gasperi tinha, cada vez mais, seguido as escolhas econômicas sugeridas por Einaudi. A Itália devia voltar a produzir e ser reconstruída: casas, estradas, pontes, ferrovias, prédios... um grande esforço, mas também uma grande ocasião de ganhar dinheiro, não? E então Einaudi elaborou um plano com dois pontos simples: primeiro restringir o crédito bancário, isto é, emprestar menos dinheiro, assim o estado não acabava em bancarrota, contrastando as especulações e fazendo os italianos comprarem os títulos de estado, ao invés das ações da bolsa; segundo, controlar os preços dos alimentos mais comuns que eram comprados no exterior e então vendidos a baixo custo, freando toda tentativa de inflação, para defender o poder de compra das poucas liras dos trabalhadores.”
“Eis como se faz para ajudar as pessoas! Não com conversas...”
“Mas não eras tu que não entendia nada de economia?”
“Esta política realmente freou a inflação, melhorou a balança dos pagamentos e garantiu a estabilidade da lira e a Itália pôde se inserir no mercado internacional. Porém, também freiou as compras dos italianos e os investimentos, assim as indústrias foram atingidas. Obviamente quem pagou o pato foi o desemprego e, se não trabalhavam as indústrias, a renda nacional, é claro, também diminuía. Nenhum temor: Einaudi fazia uma política assim porque tinhas as costas quentes. Os italianos tinham se comportado bem e tinham votado como eles queriam e então os americanos, com o seu plano Marshall, feito especialmente para apoiar os aliados políticos, presentearam aos italianos, ou melhor, ao governo, que naturalmente os usava como bem quisesse, 1.470 milhões de dólares em quatro anos! E naquela época era muito dinheiro!”
“E onde existe o cheiro do dinheiro também surge a vontade de ganhar mais do que os outros. Einaudi, com a sua política, trazia para a DC a atenção e os votos da classe média, dos funcionários públicos, dos trabalhadores e de quem tinha um ordenado fixo, isto é, de quem via protegido o seu padrão de vida. E depois, visto que as esquerdas tinham sido derrotadas, não havia mais a necessidade de ter medo e votar na direita...”
“E a reforma agrária?”
“E está bem: a reforma agrária! É a reforma que era considerada como central para a política econômica do governo De Gasperi. Em boa parte, os italianos ainda eram camponeses e as terras eram dos proprietários rurais que muitas vezes as mantinham improdutivas por vários motivos. Nos campos meridionais, as ameaças de revoltas camponesas e o risco de ocupação das terras eram uma realidade e, para a DC, tornava-se forte o medo que os camponeses meridionais fossem convencidos a passar para os partidos de esquerda. De Gasperi, porém, devia fazer as contas com os pedidos opostos dos diversos integrantes do partido: um grupo ligado aos industriais com o apoio americano, e o grupo de Dosseti, que certamente não tinha medo de se posicionar a favor dos direitos dos pobres, favorável à reforma agrária, enquanto os proprietários rurais, sobretudo aqueles do sul, eram obviamente ferozmente contrários.”
“Então o governo, puxado e pressionado de todos os lados, não fez uma verdadeira reforma realmente total para a agricultura, mas votou algumas leis, até bem importantes, como aquela pela Lei Sila e a Lei Stralcio, com a quais começou cautelosamente a desapropriar a terra e a redistribuí-la com um pouco mais de justiça social. As providências atingiram somente as propriedade realmente enormes, superiores a uma certa extensão ou que tinham um certo valor por um conjunto de setecentos mil hectares. Tendo sido desapropriados numa pequena parte, foram divididos entre cento e vinte famílias, sob a forma de pequenas chácaras, exatamente para quem não tinha nem um só metro de terra e depois algumas poucas quotas que foram agregadas às pequenas propriedades. Aos proprietários desapropriados, as terras foram pagas com bônus do tesouro, enquanto os camponeses se comprometiam em pagar um aluguel por trinta anos para realmente se tornar proprietários definitivos. Entretanto, também eram criadas entidades voltadas à distribuição de crédito, ajuda técnica e informações para os camponeses sobre como deviam gerenciar os fundos. Era a técnica de criar funções mais ou menos úteis do estado para ainda distribuir um pouco de dinheiro e obter votos seguros.”
“A reforma, porém, revelou-se um verdadeiro desastre! Falhou imediatamente, primeiro porque a agricultura moderna estava se orientando para as grandes e médias empresas, capazes de adquirir veículos, tecnologia e técnicas de vanguarda, e não para as pequenas propriedades dirigidas com os sistemas de antigamente e inseridas num território totalmente sem infra-estrutura e indústrias de transformação dos produtos agrários. A terra desapropriada, além disso, não era suficiente para todos e ainda era a pior, mais impraticável, difícil de trabalhar e pouco fértil, principalmente porque os proprietários anteciparam-se à desapropriação das propriedades melhores, dividindo-as entre os familiares ou realizando pequenas melhorias para não perdê-las. Muitos deles também conseguiram se colocar em posições de poder nas entidades de reforma que logo se transformaram em nichos do poder democrata cristão. E aspectos como os pactos agrários, o plano nacional de saneamento, a melhoria dos salários e das condições de vida e de trabalho dos trabalhadores nem foram tocados pelas leis da reforma. No plano político também não foram alcançados os resultados esperados: o descontentamento dos que tinham sido excluídos da redistribuição ou tinham recebido terras pouco férteis e paupérrimas tornou-se imediatamente um cavalo de batalha do PCI, que ampliou assim a sua aceitação eleitoral no sul.”
“1950 também foi o ano no qual se instituiu a Caixa para as obras extraordinárias de utilidade pública no sul, que foi imediatamente chamada de Caixa do Meio-dia. Exatamente aquela que acenderia a raiva das regiões do norte, porque se tornaria um barril sem fundo e sem controle para engolir uma quantidade inacreditável de dinheiro sem melhorar a situação do sul. Pensem que até 1984 a Caixa teria administrado mais de cem trilhões para infra-estruturas agrárias e industriais e providências para gerar emprego. Uma atividade gigantesca que se espalhava sobre uma área muito vasta, seguidamente sem ter obtido previamente informações sobre as características dos territórios ou das situações nas quais realizar os investimentos e sobre os efeitos a médio e longo prazo. A isto uniu-se a chaga da corrupção que se tornou uma instituição quase reconhecida e aceita socialmente, que levou a usar o dinheiro público não para criar oportunidades de emprego e produção, mas para organizar e alimentar as clientelas dos partidos e os interesses particulares. E se fosse só isto! Máfia, Camorra, Drangheta tornaram-se os maiores beneficiários dos presentes governamentais!”
Outra reforma feita pelo centrismo naqueles anos, e mais precisamente em 1952, foi a reforma fiscal. Chamou-se reforma Vanoni. Representava pelo menos um primeiro passo para a criação de um moderno sistema fiscal graças à introdução da declaração de renda, da qual o principal objetivo devia ser essencialmente aquele de combater a evasão. Mas como funcionou não se sabe, ou melhor, se sabe, já que a Itália tornou-se famosa pelas suas ‘anistias’! Isto é, em premiar os sonegadores na cara de todos os cidadãos honestos que sempre pagaram os seus impostos!”
“Ouçam só! Mas tu falas de máfia, de camorra, etc... Eu queria saber um pouco mais. Imagina que, quando eu cheguei em Manarola, as pessoas me olhavam de forma estranha. Depois me disseram que, como eu era meridional, tinham medo que eu fosse um mafioso.”
Evidentemente Angiolino não tinha digerido completamente este fato, e Luigia estava bem quieta, sentindo-se envergonhada pelos seus conterrâneos.
“Bem! Ouçam. Falar de máfia na Itália não é assim tão simples. As suas raízes são provavelmente muito antigas e atribuir uma data de nascimento a este poder do crime, que é ligado ao nosso país, que, aliás, foi até exportado por nós, é uma tarefa árdua, para não dizer impossível. Vou simplificar explicando sobretudo como é organizada e o que representa, porque é um fenômeno realmente nosso, todo nosso em suma.”
“Claro, também em outros países existem formas de criminalidade organizada e etc., mas é, sobretudo na Itália, que o sistema da ilegalidade, próprio historicamente, foi definido com estruturas precisas de organização, com rituais de filiação, chefes e subchefes... e cada uma tem as suas próprias formas, os seus territórios de influência e distingue-se também de forma muito clara e profunda, de região para região, do nosso sul. Contudo, o fenômeno mais difuso e conhecido é sem dúvida aquele da máfia siciliana, mesmo porque, como dizia antes, nos anos da emigração do fim do século XIX e início do século XX, foi exportado, como produto típico italiano, para tantos países ricos como os Estados Unidos.”
“A máfia siciliana também è chamada de ‘Cosa Nostra’ e é uma sociedade, por assim dizer, organizada para o crime, com várias ramificações. Na Campânia existe a Camorra, na Calábria a Ndrangheta, na Puglia a Sacra Corona Unita, para citar aquelas conhecidas.”
“Explicar por que existe a máfia nos levaria a considerar várias motivações sociais, políticas e econômicas. É suficiente o fato que a máfia nasce onde estiveram ausentes as instituições, onde por séculos o poder estava nas mãos de poucos, pouquíssimos aristocratas, onde o estado italiano, depois da Unidade, chegou só para cobrar impostos, para impor o serviço militar obrigatório, para ‘piemontizar’ o sul, e sobre isto nós já falamos. E quando o estado é só prepotência, é óbvio que as pessoas não confiam, é óbvio que as pessoas procuram alguém que as proteja e que se apropriam de poderes que pedem o respeito absoluto, o silêncio da omissão, o apoio obtido com o medo em troca de uma ajuda que efetivamente, quem sabe lá no início, tenha existido, mas que se perdeu no tempo e que agora deixou somente os seus aspectos negativos de violência, abuso e injustiça.”
“Mas o estado realmente soube dar esta justiça, esta segurança? Ou o estado e os partidos não se serviram, eles próprios, da máfia, muitas vezes para coletar votos, para garantir fatias de licitações, para eliminar os seus adversários, para conquistar uma parte do poder em troca de conluios, de conivências, de silêncio e de olhos fechados? Isto também não é uma máfia?”
Era uma constatação amarga a ser feita sobre a Itália que certamente amamos, mas uma constatação que todos nós sabíamos muito bem que espelhava a realidade das nossas palavras.
a lei truffa[8]e a crise do centrismo
“Eram anos de tensão e também de confusão e um pouco de anarquia: até a experiência política de um governo, como aquele de De Gasperi, que apoiava-se em quatro partidos, dependia desta realidade que se somava à tensão internacional sempre mais crescente e tornava-se de ideológica a também militar com a guerra fria, isto é, o enfrentamento inflexível entre E.U.A. e URSS. O conflito a nível internacional entre os países do leste e do oeste europeu transformou-se num conflito interno sempre mais áspero entre comunismo e anticomunismo, disputado pelos votos e pelo apoio de todo o eleitorado da pequena e média burguesia.”
“E depois, De Gasperi, é preciso admitir, sabia trabalhar...”
“Continua, que isto já disseste!”
“Está bem, eu já disse e o repito. Sabia trabalhar, era hábil politicamente e foi capaz de suavizar as diversas vertentes da sua coalizão de partidos que também tinham diferentes interesses, por vezes, contrários. Sem contar que a própria DC era um estranho recipiente no qual estavam juntos elementos muito heterogêneos, além de ser um partido confessional, ao contrário dos aliados leigos, profundamente leigos. Tudo isto foi evidentemente um elemento de profunda fraqueza. Acrescentem também a evolução de toda a situação interna e internacional, como o afastamento do PSI do comunismo, o equilíbrio que se fez entre as duas superpotências com altos e baixos e depois vocês me digam. Só faltava a morte do próprio De Gasperi para desequilibrar tudo e levar o centrismo a uma profunda crise. Isto, de fato, baseava-se não na grande força unificadora da DC, mas nas dificuldades das forças que a combatiam em se unir, seja as de direita ou as de esquerda do país.”
“Já no início dos anos cinqüenta tinha começado a lenta e infindável crise com a hemorragia de votos democratas cristãos, seja para a direita ou para a esquerda. Não existiam mais as motivações que a tinham levado ao sucesso esmagador das eleições de 1948! E De Gasperi, não podendo voltar-se abertamente para a direita, tinha enfrentado a emergência jogando uma carta, aquela da reforma eleitoral. Esta reforma previa um prêmio de maioria de dois terços das cadeiras para o partido ou para a coalizão que vencesse as eleições com a maioria absoluta dos votos. Era o sistema para colocar a DC numa posição totalmente segura: de fato, permitia ao partido obter a maioria segura e absoluta destinando o prêmio de maioria para a coalizão de centro!”
“Entendeste que esperto? Assim assegurava o governo para sempre...”
“De Gasperi acreditou que conseguiria, mas as eleições de 1953 viram falir imediatamente a tentativa de manobra, mesmo porque no país tinha-se formado uma duríssima reação ao que era abertamente chamado de ‘lei truffa’. A coalizão de centro, acusada pelos adversários políticos de querer conservar o poder de modo anti-democrático, por só cinqüenta e sete mil votos não alcançou a maioria desta vez. De fato, muitos eleitores responderam desviando o voto para os partidos de extrema direita e de extrema esquerda: o PCI e os missinos.[9] Era a clara desaprovação da linha política e estratégica da DC e, por conseguinte, de De Gasperi. Aliás, nesta situação, ele não podia mais nem formar um novo governo, porque republicanos e social-democratas não estavam mais colaborando. Então tentou criar um governo só com a DC, mas obviamente a experiência falhou imediatamente e assim também concluiu-se a sua carreira política.”
“Tudo isto então levava a um grave período de instabilidade política, porque na coalizão os partidos menores davam-se conta de ter nas próprias mãos um instrumento muito potente de chantagem, com o qual pretendiam impor a sua vontade, já que, sem os seus votos, não era possível governar. Foi o conhecido ‘governo nas margens’, portanto a principal preocupação de todos os partidos, mesmo os de oposição, era a de se tornar mais fortes colocando os próprios homens de confiança nos pontos-chave da administração pública, da burocracia e de cada estrutura organizada política, econômica e socialmente. Era a ocupação do poder.”
“Entretanto, a própria DC conscientizou-se de que não podia mais continuar com um governo formado só por centristas. Era necessário estabelecer novas alianças para ter um bloco anti-comunista no qual a base sempre fosse a DC: começava então a tomar corpo a idéia da formação do centro-esquerda, iniciando tímidos encontros com o partido socialista.”
“Mamma mia! Nunca tinha imaginado que fazer política fosse uma coisa assim tão confusa!”, comentava ingenuamente Luigia.
“Mas onde confusa! São espertalhões os políticos, isso sim! E tudo para segurar bem firme o próprio cargo, de todas as maneiras. Os interesses da população sempre estão muito depois! Se é que estão...”
Eu não podia concordar plenamente com a convicção de Angiolino. E ainda assim, enquanto eu subia ofegando da Marina Piccola para o Viccolo Chiuso (literalmente ‘beco fechado’ – ‘fechado aos idiotas’ como alguém tinha acrescentado à mão sobre o nome da rua!), eu reconhecia que não se podia dizer que ele estava totalmente errado. Num sentido mais amplo...
o milagre econômico
“Foram os anos cinqüenta da nossa nova república que caracterizaram o grande desenvolvimento econômico, um verdadeiro milagre que mudou completamente o modo de viver e de pensar dos italianos até no seu íntimo. Séculos e séculos estavam para concluir a sua existência e abrir uma outra para a nossa sociedade. Iniciava aquela que é ainda hoje a era do consumo para todos, porque agora a sociedade também passava a ser de massa: adquiriam-se automóveis, televisores e todos os eletrodomésticos possíveis! Empreendiam-se uma série de construções de estradas nunca antes vistas e estas puxavam todo o resto da economia da nação. Entre 1951 e 1962, a industrialização parecia crescer como um cogumelo num bosque depois da chuva! Um desenvolvimento inacreditável, sem precedentes, e mais alto que todos os outros que se manifestaram na Europa.”
“Era uma corrida para a reconstrução de um país destruído pela guerra, que se encaminhava para a recuperação e para a inovação no sentido de modernização das plantas industriais que até então tinham sido subutilizadas, no uso das fontes de energia de custo mais baixo, para as quais foram desfrutadas as jazidas de petróleo e metano que, junto com os combustíveis, eram descobertas na Vale Paduana, no Abruzzo e também na Basilicata. O estado constituiu para isto duas sociedades públicas, o IRI e o ENI. O mercado nacional de base, entretanto, crescia, sobretudo pela disponibilidade de mão-de-obra barata que parecia ser na época uma fonte inesgotável, já que, sobretudo no sul do país, muita gente estava desempregada. Tudo foi ajudado por uma conjuntura internacional favorável na qual a economia cresceu um pouco em todos os lugares com os primeiros passos de integração européia, as ajudas americanas e os investimentos estrangeiros na Itália.”
“Foi um milagre econômico que se dividiu em duas partes. A primeira, de 1951 a 1958, devida ao crescimento da demanda interna. Isto é, os italianos tinham mais exigências para satisfazer. A segunda, ao invés, dependeu do fator motriz da exportação: os produtos italianos custavam menos, mas também começavam a se ver os primeiros efeitos do Mercado Comum Europeu! Porém, este desenvolvimento não aconteceu do mesmo modo em todo o país, pelo contrário! Aumentava a distância entre norte e sul da península e a parte meridional foi envolvida numa onda migratória sem precedentes, dirigida para as regiões do norte que estavam sendo rapidamente industrializadas. Isto tirou da agricultura a mão-de-obra mais jovem e, portanto, a melhor para a agricultura meridional, um setor já pobre por si só. Porém, a escolha foi esta, e entre norte e sul aumentariam cada vez mais as diferenças econômicas!”
“E não foi só esta enorme diferença, que estava se alargando, entre norte e sul a anunciar que logo em seguida teriam surgido problemas. Além disto também tinha o fato que, ao contrário de outras nações européias, nós só nos preocupávamos intensamente com o desenvolvimento industrial, com o seu financiamento e sua proteção com intervenções, até governamentais, de apoio a este setor. A agricultura, ao contrário, foi abandonada a si mesma, e as intervenções só foram marginais, sem pensar na sua modernização.”
“Investiu-se para fazer crescer a produtividade industrial, mas não se pensou seriamente na geração de empregos, portanto, com o desenvolvimento dos setores motrizes, cresceram sem controle e desmedidamente pequenas empresas e o setor terciário que deviam absorver a mão-de-obra. O estado, com um sistema de participação neste desenvolvimento, na falta de um verdadeiro projeto abrangente unívoco e homogêneo, procurou somente dar, e ajudar a crescer, aquilo que não soube e não quis realizar a indústria privada. Isto é, criou todas as infra-estruturas, às suas custas, e assim, com os impostos de todos os italianos, construiu tudo aquilo que servia somente para a indústria e para a produção privada, que não queriam arriscar o investimento de capital próprio, mesmo porque achavam cômodo que o estado fizesse isto por eles. Contentavam-se em desfrutar todas as vantagens oferecidas com o dinheiro público. E este é um problema ainda presente no nosso empresariado.”
“Por isso, já em 1963 este milagre começava a mostrar os seus limites. Acabava o prodigioso crescimento econômico. A relação produtividade-salário, que até então tinha sido suportável, mudou drasticamente. Somado ao crescimento excessivo e rápido dos preços e à perda da competitividade internacional, isto fez explodir todas as tensões não resolvidas entre patrões e empregados. Se considerarmos que até os raros e verdadeiros empresários de visão eram obstaculizados ou até eliminados da competição econômica...”
“O que queres dizer com isso?”
“Quero dizer que a luta econômica requeria coragem, criatividade e idéias, mas atrás da esquina também estavam as insídias de quem queria conservar os próprios interesses intactos, dentro e fora da Itália ou até mesmo contra ela. Se tem alguém que não é comprometido com os mais fortes, não serve nem para a política e nem para outrem.”
“E então tem gente que quer se intrometer, dentro e fora da Itália.”
“Mas o que isto quer dizer?”, exclama Angiolino bastante surpreso com a interrupção.
“Quer dizer que certas coisas, inclusive em campo econômico, mas não só, não agradam a certas pessoas. Pega, por exemplo, o caso Mattei. Um dos primeiros mistérios não resolvidos da Itália?”
“O caso Mattei?”
“Sim, Mattei. Era um empresário italiano com um cérebro que Verga teria escrito que ‘era um diamante’! Em poucos anos tinha se tornado presidente do ENI e tinha a idéia de tornar a Itália independente ou, pelo menos, o menos dependente possível do mercado externo de energia: petróleo! Portanto, tinha aproveitado melhor não só a produção de petróleo e gás na Itália, mas tentava também estabelecer contratos diretos com os países produtores. E isto incomodava.”
“Eis o que houve. É sábado, sábado dia 27 de outubro de 1962. São quase sete da noite. A torre de controle do aeroporto de Linate perde os contatos com um pequeno bimotor. É um Morane Saulnier, registrado com a sigla I-Snap, pertencente ao ENI, o ente petrolífero do estado. A bordo da aeronave encontram-se o presidente da sociedade. Enrico Mattei, um jornalista inglês, William Mc Hale, e o piloto Irnerio Bertuzzi. O avião decolou do aeroporto de Catania às 16h57, depois de uma rápida visita de Mattei na Sicília meridional.”
“Faltavam poucos dias para um encontro importantíssimo para Mattei. No dia 6 de novembro, na Algéria, teria assinado um acordo direto sobre a produção de petróleo, um acordo que não agradava as “sete irmãs’ do cartel mundial.”
“As sete irmãs?? Mas o que são elas?”, era Luigia que parecia surpresa desta vez.
“Ah! Isto eu sei – diz Angelino orgulhoso – são as empresas petrolíferas que controlam praticamente todo o mercado de petróleo do mundo. E são todas americanas!”
“Exato! São todas dos Estados Unidos ou de países economicamente filiados. Mattei tinha elaborado um plano para produzir o petróleo na Itália, ou também para fazer contratos separados com os produtores árabes. Óbvio que isto não agradava a quem queria controlar todo o mercado.”
“Os restos do avião foram encontrados num campo na periferia do município de Landriano, na província de Pavia. Só faltavam poucos minutos de vôo para que o avião chegasse ao aeroporto de Linate, próximo a Milão. Todos os ocupantes morreram. A única testemunha do fato, um camponês proprietário do terreno, conta imediatamente aos jornalistas que ouviu uma explosão. Segundo relata, o avião explodiu voando. Porém, depois que chegaram os magistrados e a polícia, muda de versão. E não uma, mas muitas vezes, até que finalmente sua versão transforma-se num simples acidente que faz com que todos se calem rapidamente.”
“Na verdade, ainda hoje nos perguntamos se o desaparecimento de Mattei foi realmente devido a um trágico acidente ou a uma deliberada sabotagem. E querem saber de uma coisa engraçada? Anos depois dos processos que não levaram a nada a não ser alimentar novas dúvidas, o único acusado, para a magistratura, permaneceu sendo o pobre camponês!
rumando para o centro-esquerda
Com a construção do parque de diversões na Ponta, tinha aumentado a confusão, e o barulho dos turistas fazia-se mais intenso. Agora raramente se encontrava um instante de calma para poder discutir. Assim, eu tinha renunciado as minhas duas ou três horas de pesca pela manhã, para me encontrar com os amigos. Juntos assistíamos o sol nascer. Era quase um momento mágico. Parecia que tacitamente esperávamos em silêncio até que os raios se distendessem gradualmente sobre as casas nas encostas de Manarola. Era uma mão que a acariciava de cima para baixo em alguns poucos segundos, como se a iluminasse tornando-a brilhante. Era o nosso sinal. Podia-se recomeçar.
“Durante os anos do assim chamado milagre econômico, os partidos políticos tinham competido para conservar e reforçar a própria parte de poder. Principalmente a DC e os seus aliados de governo, numa posição naturalmente vantajosa, tinham trabalhado para obter um amplo controle sobre os votos, sobretudo o das massas camponesas e rurais da Itália Meridional do meio-dia que ainda era paupérrima, prometendo melhorias e criando uma série de entes estaduais autônomos que distribuíam empregos controlados e salários, voltados para a realização de obras públicas pagas pelo estado nas áreas deprimidas.”
“Obviamente os entes também se transformavam imediatamente em centros de poder, que controlavam os interesses não só dos partidos, mas também das diversas correntes que se formavam dentro das próprias facções políticas. De fato, o controle e a gestão de tais entes possibilitava determinar o fluxo das eructações estaduais a nível local de todos os recursos que eram canalizados para o sul e também manter sob controle os poderes menores, como a concessão de licenças, as contratações, as licitações, e tudo significava um reservatório de votos controláveis e controlados pelos próprios interessados e pelas suas famílias, amigos, parentes próximos... Era a técnica clientelista que constituía as bacias eleitorais.”
“Eu bem sei!”, Angiolino, que vinha de Nápoles, sabia bem o que significava uma recomendação!
“Entretanto, no que se refere ao governo de verdade, na segunda metade dos anos cinqüenta, quando entrou em crise o Centralismo, só para explicar, começava a lenta migração para o Centro-esquerda, a aliança entre a DC e o PSI. Ajudou nesta aproximação uma ruptura dentro da esquerda, formalmente iniciada em 1956.”
“Aquele ano foi denso de acontecimentos internacionais que chocaram e repercutiram como um furacão na política interna da Itália. Em primeiro lugar, no vigésimo congresso do partido comunista soviético, Krutchev, que então era o secretário do partido e chefe do governo, revelou os grandes crimes do seu antecessor, Stalin, iniciando um lento desmantelamento, a destruição do culto ao personagem que tinha transformado os chefes soviéticos quase em divindades de culto para todos os comunistas. O PCI buscou então se distanciar de um passado tão comprometedor e até tentou se distinguir mais autonomamente dos outros partidos comunistas europeus e também se libertar um pouco do vínculo com a URSS.”
“No PSI, entretanto, nascia a idéia que a aliança com os comunistas fizesse perder votos preciosos e que era melhor se afastar discretamente de uma aliança que se tornava cada vez mais incômoda e perdedora. E a DC naturalmente estava pronta para acolher estes novos aliados, mesmo que, por enquanto, só como apoio externo aos próprios governos.”
“O ataque dos carros armados na Hungria a um governo comunista que só pedia um pouco mais de independência de Moscou gerou a reação do centro e das esquerdas mais moderadas com as quais os socialistas também entraram em acordo. Os comunistas italianos, ao contrário, estavam divididos internamente e não souberam responder, condenando claramente o agressor, chegando ao ponto de até apoiar a URSS. Assim a divisão política na esquerda italiana fez-se evidente.”
“Já no congresso de Turim do ano precedente, Nenni, o secretário dos socialistas, tinha lançado abertamente um apelo a DC para que ‘se abrisse para a esquerda’. Mas, na época, ainda não estavam prontos e ainda eram muitas as ligações com os comunistas, entretanto, disfarçadamente, trabalhava-se nesta direção. No PSI ainda tinha uma ala de esquerda muito próxima aos comunistas e os próprios socialistas desaprovavam muitos pareceres diferentes e restritivos da DC, sobretudo em matéria de política externa.”
“Foram as eleições de 1958 que premiaram a política de abertura para a direita do PSI: os seus votos aumentaram, contra a estabilidade dos comunistas, enquanto, na Democracia Cristã, ganhava a maioria a corrente de esquerda guiada por Fanfani. Mas ele também não foi capaz de obter uma maioria do governo que lhe desse confiança para uma aliança direta com os socialistas. Alternaram-se então diversos governos: desde o monocromático democrata cristão dirigido por Segni com o apoio das direitas, isto é, o PLI, os Monarquistas e até o MSI, ao governo de Tambroni que marcou pela reação um momento que abria a estrada para o advento dos socialistas no governo.”
“O que significa esta reação?”
“Te explico já. Tambroni tinha constituído um governo com características muito fracas, com um programa limitado e sem dispor de uma maioria no Parlamento. Para ficar de pé precisou até do voto dos missinos. Tentou justificar de alguma forma o fato dos fascistas terem que apoiar um governo da DC, declarando ser uma exigência técnica, mas era uma desculpa inconsistente e até a imprensa americana riu do negócio e o definiu como um ‘governo em tecnicolor’! Foi o sinal do fim para a parte conservadora da DC. Tambroni foi obrigado, pela própria direção da DC, a se demitir e Fanfani tentou constituir um governo com o PSDI e o PRI, com a abstenção do PSI.”
“Porém, novamente, não se conseguia por causa da feroz oposição da facção dos conservadores no seu partido, e o presidente da república, Gronchi, voltou atrás e chamou novamente Tambroni. Este obteve a maioria no senado, ainda com os votos do MSI. No país, a tensão subiu às alturas, ocorreram conflitos gravíssimos nas praças, sobretudo em Gênova, onde acontecia o congresso do partido neo-facista que exultava por ter voltado ao poder.”
“Em julho, o vértice da DC declarava definitivamente concluída a função do governo de transição e obrigou Tambroni a se demitir definitivamente. O novo cargo foi confiado a Fanfani que apresentou ao Parlamento o último governo de transição ao centro-esquerda. O governo Tambroni, de fato, tinha demonstrado que a DC não podia dobrar a direita sem provocar fortíssimas tensões no país e que republicanos e social-democratas não queriam mais um governo de centro.”
“A única alternativa a ser seguida era a abertura para a esquerda, que se tornou possível até pela situação internacional modificada. Nos Estados Unidos, tinha sido eleito como presidente o democrático John Kennedy e também via-se um maior distanciamento das coisas políticas por parte da Igreja, que era dirigida pelo papa João XXIII, ‘o papa bom’.”
o centro-esquerda
“O centro-esquerda nasceu de fato com o quarto governo dirigido por Fanfani em 1962, que surgiu da aliança entre DC e PSI, exatamente graças à abstenção do voto parlamentar dos socialistas. Isto é, os socialistas, não votando contra o governo, mas abstendo-se, lhe davam a maioria e o apoiavam, ficando de fora. Este governo só duraria pouco mais de um ano, até junho de 1963, mas seriam importantíssimas as reformas promovidas a favor das idéias introduzidas pelos socialistas.”
“Primeiramente foi constituída uma comissão para a programação econômica. Depois foi nacionalizada a indústria da produção de energia elétrica, a Enel. Então, no início de 1963, foram adotadas providências de reforma da escola com a realização da escola média única e a ampliação da obrigatoriedade de freqüência escolar até os quatorze anos. Contudo, o governo não conseguiu realizar outros dois projetos importantes: a realização do plano verde para a agricultura e a aplicação da ordenança federal para a autonomia regional que já era prevista pela Constituição. E da falta deste último elemento importante nos daremos conta, anos depois, com o risco do desmembramento do país!”
“Com Bossi e a Liga, diga a verdade!”
“Sim, mas agora é muito cedo para falar disso...”
“Assim, com as eleições que estão chegando, exatamente a não realização destas últimas reformas tinha apagado os entusiasmos pelo centro-esquerda. Também porque, enquanto isso, tinha começado por vários motivos uma crise econômica, depois do ‘boom’, que era caracterizada por um forte crescimento da inflação. Nas eleições, a DC perde votos para o PLI, que tinha combatido a abertura aos socialistas, e para o PSDI, enquanto na esquerda crescem os votos dos comunistas. Emergiam os espíritos mais conservadores e mais extremistas dos partidos que assim demonstravam a sua contrariedade para com a manobra de Fanfani e Nenni.”
“Então, no fim do ano, os socialistas entraram para o governo Moro diretamente. Foi o primeiro de três governos dirigidos por ele com todos os membros de um quadripartido formado pela DC, PSI, PSDI e PRI. Foi imediatamente relançado o programa de reformas que não tinha sido completado por Fanfani, mas o incentivo para a mudança tinha perdido vigor e incisividade. De fato foi a crise econômica a condicionar as escolhas e frear a realização de intervenções fortes e radicais que também eram muito custosas. Moro também teve que fazer as contas com o grande lobby da construção civil, muito potente, com o dos banqueiros e com o dos grandes proprietários agrários. Nenhum destes queria mudanças. Para eles era interessante manter tudo como estava, e eram eles que tinham nas mão os grandes capitais.”
“Em 1964, tinha morrido Togliatti, e o sucedera o chefe do PCI, Luigi Longo. Dois anos depois, em 1966, os dois partidos socialistas fundiram-se no PSU, Partido Socialista Unitário, deixando sempre mais isolados os comunistas. Mas em 1968, só dois anos depois, os eleitores discordariam dos socialistas decretando a falência da união que se desfez miseravelmente em 1969.”
“Todavia, agora estes acontecimentos pouco pareciam interessar aos italianos. Tinha começado um período muito difícil a nível internacional, mas também nacional. Aumentavam as tensões na sociedade civil e acrescentavam-se escândalos e tentativas de golpe de estado, até por parte de generais do nosso estado que visavam à direita, como o general De Lorenzo. Iniciava uma nova estação que envolveu estudantes, trabalhadores e, enfim, até o terrorismo.”
o outono quente e os anos de chumbo
“Hoje finalmente falamos de 1968! E é importante porque destes acontecimentos eu também fui testemunha. Até agora eu só falava do que ouvi falar, mas agora... E também sei que é mais difícil ser objetivo se estivemos dentro dos acontecimentos. Portanto vou tentar só relatar.”
“Nós acreditamos, nós acreditamos! É inútil que te preocupes tanto!”
“O ano de 68 não foi simplesmente um fato, ou um acontecimento isolado, mas um conjunto de personagens, idéias, episódios, comportamentos, atitudes, aspirações e desejos, de expectativas e desilusões. Havia no ar um vento de mudança, mesmo que pleno de contradições, que soprou em cada situação presente não só na Itália, mas também a nível internacional, envolvendo uma inteira geração e suscitando um modo comum de sentir que se rompia com o passado, com todo o passado e com todas as convenções sociais e políticas baseadas no autoritarismo. Ainda hoje não saberia como definir exatamente o que foi o ano de 68. Sem dúvida foi um período que me fascinou porque era diferente de tantos outros períodos históricos, com todas as qualidades e defeitos que naturalmente agora reconheço que trazia consigo.”
“Pode-se dizer que 1968 é um movimento que nasce espontaneamente, um movimento de rebelião, que se transforma numa aberta ruptura e que envolve toda a vida quotidiana e a sociedade em todos os seus aspectos. Então não age somente em âmbito político, aliás, parece intervir de modo maior nos aspectos mais profundos e particulares da vida. Atinge os sentimentos e os conceitos sobre a realidade. E a sua força durou por muitos anos depois, quando a sua energia inicial já tinha acabado e, talvez ainda hoje, vivemos alguns aspectos e condicionamentos que nasceram daquela experiência.”
“O ano de 68 não aconteceu segundo um percurso linear, mas em mil direções, conforme o país no qual ocorria, e marca uma forte transformação de toda a sociedade, porque nascem núcleos quase espontâneos de jovens que se interessam por política e que pretendem e se esforçam para reler criticamente das suas bases, e até do seu fundamento, a sociedade com um filtro dado pelo marxismo, pelo leninismo e também por uma forma bastante profunda de sectarismo. Quem sabe sobretudo este aspeto estimulará aqueles acontecimentos ligados aos assim chamados mistérios da Itália, de difícil leitura e que ainda deverão ser descobertos e interpretados.”
“Em 1968, explode rumorosa a revolta estudantil. E não só na Itália! Em todo o mundo ocidental, da Europa aos Estados Unidos, os estudantes saem às ruas para protestar. A sociedade que tinha sido proposta e propagandada pelo milagre econômico, que tinha prometido tudo do bom e do melhor a todos, não tinha sido capaz de manter suas promessas. Os jovens se recusavam a olhar para os modelos propostos por eles, e para os valores que estavam por atrás. E não só os jovens das classes mais desfavorecidas e pobres: até aqueles das classes burguesas.”
“Os jovens contrapõem as suas idéias ao consumismo de massa proposto: querem uma sociedade não de indivíduos, mas coletiva, na qual todos compartilhem o que possuem, a ser realizada com a revolução das idéias, da cultura, até, quem sabe, com uma própria contra-cultura. E nesta contra-cultura aqueles valores que falam de autoridade e de família estão fora. Parece uma loucura, mas uma loucura positiva e propositiva. Os jovens realmente inspiram-se nos mitos do antifascismo, mas também, muito ingenuamente, na doutrina marxista revista através da experiência da China de Mao e da guerra do Vietnam contra os Estados Unidos.”
“À contestação juvenil e estudantil também se acrescenta a dos operários. Neste clima de alta tensão, na Itália o movimento sindical está no máximo da sua força e fala em nome de toda uma sociedade que quer respostas a tantíssimos problemas, colocando em julgamento o comportamento da economia enriquecendo poucos e desfavorecendo muitos nos últimos anos. A greve torna-se não só um meio para pedir maiores salários ou melhorias no local de trabalho, mas para pedir reformas profundas, fortes, que interessam a toda sociedade e que nem mesmo os governos do centro-esquerda tinham sido capazes de fazer. Os sindicatos quase tomam o lugar dos partidos políticos neste momento e tratam diretamente com o governo. Porém, eles têm um limite: estarem acostumados a defender os interesses, sobretudo, das classes trabalhadoras e operárias, e isto os obriga a estar fechados e isolados nas fábricas. Muitos não os entendem.”
“Contudo, com as passeatas de estudantes e com as greves que enchem as praças, os partidos políticos parecem deslocados, não sabem o que fazer. Na direita, não existe um partido, como existe na França, que saiba juntar muitos votos em nome dos interesses comuns de todos aqueles que são contrários à contestação. Na esquerda, o partido comunista e os socialistas não são capazes de controlar o movimento, têm medo e não conseguem torná-lo próprio, não conseguem nem entendê-lo e não conseguem dialogar com os jovens estudantes que expressam outras opiniões que muitas vezes levam à violência verbal e até física os grupos mais extremistas, radicais e globais.”
“Certo que as loucuras do ‘outono quente’, como em seguida foi chamado, marcaram as escolhas dos anos sucessivos, levando até as contrariadas forças políticas a uma série de reformas que se realizaram no estatuto dos trabalhadores, na atuação das regiões, nos referendum e nas alterações sobre o divórcio...”
“Puxa! Quanta coisa, e toda de uma vez só. Este sessenta e oito era mesmo necessário!!”, Angiolino estava entusiasmado.
“Mas muito bonito!! Muito bem!! Isso, aplauda! Belas reformas, criar o divórcio! Ótimo para as famílias!”, desabafava Luigia furiosa.
“Não faltava mais nada! Na Itália onde está até o papa!”
“Por favor: não estou fazendo um comício. Digo só aquilo que aconteceu e pronto!”
“Contudo, se realmente lhes interessa, apesar de todo barulho e das brigas suscitadas pelas reformas, não é que ao final tenha-se obtido muito. Pelo menos a meu ver! Aliás, foi até uma desilusão, porque o movimento dos estudantes não conseguiu certamente mudar a sociedade, a política ou o modo de pensar, mas, sobretudo, porque as reformas prosseguiram em marcha lenta, se é que não ficaram pela metade. Claro que algo foi feito, mas não o bastante. Até porque nos demos conta de que, mesmo que sejam feitas as reformas desejadas, se a burocracia nas instituições não muda, nada muda de verdade. E realmente no pós-guerra, neste sentido, nada mudou: nos seus cargos nos ministérios e nos gabinetes, ficaram os mesmos burocratas que serviam ao fascismo e que podiam condicionar como e quanto queriam todo o funcionamento da máquina do estado e a sua administração!”
“Mesmo quando se queria mudar a cultura, como agora, não acontecia nada: gritava-se contra a autoridade, o capitalismo, a repressão sexual, a família burguesa, o consumismo. E o que mudou? Nada. A sociedade italiana, como as outras, depois que passou a tempestade, retomou a sua estrada como antes. Fazer dinheiro e invejar quem já tem dinheiro! E não importa como. ‘A fantasia do poder’, como queriam os contestadores, era só uma quimera, isso sim! O terceiro mundo, Cuba, a China de Mao, o Vietnam, mas quem, na nossa sociedade, se importava com isto. Pensava-se só em si mesmo e os outros que se arranjassem. Esta é a lógica de sempre. Ficaram poucos com idéias revolucionárias e estes não conseguiram envolver nem mesmo os operários, que, por outro lado, não concordavam nem entre si mesmos, hostilizando-se entre os que eram do norte e os que eram do sul.”
“E isto facilitava! E como facilitava. Dividir quem estava melhor de quem ainda está ligado ao trabalho agrícola, e quem sabe ainda mais se fossem separados os mais pobres, a terceira Itália dos desgraçados e dos marginalizados que se queria esconder, mas que ainda existia naquele momento.”
“No norte, contra a contestação dos estudantes e as passeatas dos sindicatos, foram enviados colarinhos brancos, a burguesia de classe média dos operários que estava dentro das fábricas, a ‘maioria silenciosa’ que pensava em proteger o próprio quintal, mas protegia quem não queria dividir o poder, quem falava de democracia, mas a democracia não queria ver.”
“No sul, foi inclusive a direita dos fascistas quem levantou a voz. Foram os ‘carrasco é quem abandona’ de Reggio Calábria e de Aquila, que foram pagos pelo MSI, que tentou, de todas as maneiras, se aproveitar da situação de descontentamento e de desordem para recolher votos. E os recolheu, principalmente no sul, nas eleições administrativas de 1971.”
“Eram os sintomas de um mal-estar que não queria ser curado, os sinais de uma contraposição construída com arte e que preparava um dos momentos mais trágicos da nossa república, aquele que depois foi definido como a “noite da república’! Foram atentados, tragédias, “anos de chumbo’ e de terrorismo.”
“Tentaram enquadrar o terrorismo na esquerda e nas Brigadas Vermelhas, mas o terrorismo não teve uma só face, foi um monstro de mil faces. Aliás, até teorizou-se combater terrorismos antagonistas e inclusive a existência de um terrorismo de estado que seria praticado pelos serviços secretos corruptos e que ajudava certas forças políticas. Foram momentos de terror e de medo, de incerteza e de violência social inaudita que ainda hoje não foram esclarecidos.”
E Luigia e Angiolino também sabiam do que se tratava e ficavam quietos.
a estratégia da tensão
“O terrorismo, contudo, não nasceu por acaso. Parecia preparado por uma estratégia profunda: aquela da tensão. A estratégia da tensão foi uma dramática concatenação de acontecimentos, por trás dos quais, aliás, por trás de cada um dos quais se vislumbra agora um complexo mecanismo de controle para condicionar e administrar a vida política italiana. Foi uma espécie de mecanismo que nunca funcionava da mesma forma, na mesma direção, mesmo que a tentativa de assustar a opinião pública com o espectro da desordem social tenha sido a finalidade ao redor da qual girou a insinuação constante da perspectiva de uma instabilidade, de uma ameaça social e econômica, do terror como elementos que só um poder forte, por trás das fachadas em que se esconde, durante anos e anos podia administrar.”
“Este poder era representado por um conjunto de forças não sempre institucionais, muitas vezes competindo e em antítese entre si, que jogava uma partida mortal que até hoje ainda não tem os contornos completamente definidos. Destas forças ocultas fizeram parte os serviços secretos italianos e internacionais, mas também estruturas armadas secretas, uma parte da extrema direita mais disponível aos atalhos do golpismo, uma extrema esquerda completamente fora de controle, lobbies secretos, grupos de domínio corruptos, centrais econômicas preocupadas que a mudança excessiva não prejudicasse as posições de privilégio alcançadas, alianças complicadas em âmbito político que se escondiam e se misturavam entre legalidade e ilegalidade, entre corporações e instituições do Estado, criminalidade, fenômenos que surgiam espontaneamente e outros fenômenos que foram habilmente orquestrados e manobrados.”
“Foi realmente uma verdadeira estratégia do medo que se delineou na Itália, pelo menos em certos aspectos teóricos que possuía, já na primeira metade dos anos 60. Fontes institucionais como a Comissão de Tragédias do Parlamento, mas também numerosas fontes jornalísticas e editoriais indicam o nascimento deste fenômeno na convenção do Instituto Pollio, que aconteceu de 3 a 5 de maio de 1965 no hotel Parco dei Principi de Roma. Todavia esta parece ser só uma coincidência com os movimentos que posteriormente caracterizaram os protestos sociais na Itália de 1968 e de 1969, definidas seguidamente como lutas estudantis e outono quente, no qual o partido da tensão surge colocando em campo, sistematicamente, uma estratégia que era feita com a alternância de bombas jogadas nas lixeiras, para tornar-se, entre os anos de 69 e 74, lúcida estratégia de um horrível terrorismo organizado.”
“Tudo isto levou à desestabilização das instituições e foi paradoxalmente favorecido por uma esquerda cega à frente de sua instrumentalização, que se obstinava em afirmar uma própria identidade confusa. Tudo isto levava a uma estabilização dirigida ao centro do poder político, uma centralidade a que ainda hoje a Itália parece fazer constantemente referência. A estratégia da tensão, então, revelou-se um instrumento perfeitamente intercambiável de homens ligados em sua maioria ao serviço do estado, determinados a atingir uma meta política precisa: a conservação do poder contra qualquer tipo de proposta de mudança profunda, mesmo que não radical, das situações sociais, econômicas e políticas na Itália.”
“Exatamente nesta ótica de cristalização da situação existente também colocaram-se as estruturas secretas de Gladio, os Núcleos de Defesa do Estado e formações de perfil político muito ambíguo como foram os NAR de Fumagalli. Conseqüentemente surgiram idéias nefastas, entre elas a idéia principal era aquela dos extremos opostos que teve como conseqüência direta a incontrolável espiral da luta fascismo-anti-fascismo.”
“Portanto não é por acaso que o partido da tensão e a estratégia que desenvolvia comecem a sair da cena política na segunda metade dos anos setenta, isto é, quando a prática do associativismo, no qual predicava-se que nenhuma escolha do governo devesse acontecer sem o consentimento da oposição, parou de ser uma alternativa temerária ao grupo dominante. Entretanto, a estratégia da tensão envolveu e consumiu um inteiro período da história da Itália republicana, mesmo que não seja segredo que as suas tramas ainda hoje sejam um mistério irresolvido.”
“Nos dê um bom exemplo de quem era responsável por tudo isso! Caso contrário...”
“Sim, caso contrário quem vai acreditar em mim! Mas os episódios e os fatos são tantíssimos, não sei... Vamos começar com os serviços secretos... e também com Gladio.”
“Os serviços secretos italianos tinham nascido oficialmente em 1866, cinco anos depois da Unificação Ressurgimental. Sempre tiveram uma característica especial que os distingue negativamente dos outros instrumentos de inteligência internacional. De fato, não só a sua atividade sempre permaneceu reservada, mas estes foram levados em numerosas ocasiões a aproveitar desta situação, em parte justificável, adquirindo um poder sempre mais importante que os levou a ações irresponsáveis, muitas vezes tornadas obscuras e misteriosas, interpretando as suas tarefas com lógicas e funções comprometidas com uma facção.”
“Se existe na Itália um órgão onde a transparência é menos que um opcional, este órgão é o dos serviços secretos, que constituíram uma área de impunibilidade absoluta nestes anos. Formalmente os serviços secretos deveriam existir para garantir a segurança interna e externa do país. Todavia, apesar das contínuas mudanças de nome que se seguiam cada vez que estes eram acusados de algo, eles tornaram-se cada vez mais um instrumento dos jogos políticos da classe do poder dominante.”
“Um importante magistrado, Giovanni Tamburrino, que mais de uma vez combateu os privilégios e os desvios dos serviços secretos italianos, disse deles: ‘Os desvios das polícias secretas não são um fenômeno ocidental, mas nascem contemporaneamente às policias secretas. A potência de uma polícia secreta faz com que, de instrumento na mão do príncipe para alcançar as finalidades de segurança do regime, se transforme em poder separado, que busca as próprias finalidades de segurança ou, pelo menos, interpreta a seu modo a ‘segurança necessária’ para o regime.’”
“Sim, mas Gladio...? Vamos aos finalmentes!”
“Bem, Gládio é exatamente um exemplo destes. De fato, que na Itália, nos anos da guerra fria, nos preocupássemos em nos defender de um perigo que podia vir da União Soviética, tem em si uma certa lógica e pode-se entender. Mas que para isto deva existir uma verdadeira organização armada, secreta até para muitos membros dos governos que se sucederam e praticamente dependente de forças estrangeiras, aliás, digamos já, americanas, e não do governo italiano, nos deixa pelo menos perplexos! Aliás, desconcertados e inquietos. Sobretudo quando nos damos conta que esta organização de tipo militar continuou a existir e a operar mesmo quando não havia mais o perigo soviético. E tal organização tinha uma base militar, naturalmente secreta, na Sardegna, e milhares de militares prontos para intervir. Intervir no quê?”
“A existência desta estrutura secreta, chamada na Itália de Gladio, mas pertencente a uma organização dependente dos E.U.A. chamada de Stay Behind (Ficar Atrás!), foi casualmente descoberta por um magistrado, o juiz Casson, em 1990, enquanto indagava sobre um dos ‘mistérios da Itália’, a tragédia de Peteano. Num atentado ocorrido nesta localidade do Friuli, tinham sido assassinados alguns policiais. Nas suas investigações, o juiz Casson tinha chegado a investigar sobre os despistes feitos pelos serviços secretos e pelos próprios policiais para cobrir os responsáveis pela tragédia. Na investigação, tinha descoberto por acaso alguns depósitos de armas, munição e explosivos pertencentes, por conseguinte, a Gladio, administrados secretamente pelo SISMI, o serviço secreto militar, intuindo que a única culpa dos policiais massacrados tinha sido aquela de também ficar casualmente a par dos depósitos. Por isto os desafortunados policiais tinham sido “eliminados’ pelos serviços secretos.”
“Foi exatamente o presidente do Conselho da época a revelar a existência da Gladio e da rede internacional, gerando uma violentíssima reação entre os poderes do Estado. Descobriu-se então o que era a Gladio.”
“Formalmente nascida em 1956, na realidade a organização já existia desde 1951. A sua formação tinha acontecido através de acordos feitos só entre serviços secretos ocidentais, sem considerar nenhuma regra democrática. Somente em 1959 foi “regularizada’ secretamente pela NATO. Suas tarefas deveriam ser só defensivas no caso de um ataque externo. Mas ela colaborou com um plano da CIA, o serviço secreto americano, chamado em código de Desmagnetize (Desmagnetizar) que previa uma série de ‘operações políticas, paramilitares e psicológicas, até reduzir a presença do partido comunista na Itália e na França. Então as tentativas eram declaradamente aquelas de uma estrutura armada de controle interno, pronta a intervir com as armas se, em livres e democráticas eleições, o partido comunista tivesse obtido a maioria dos votos!”
“Éramos uma democracia sob tutela! Parecia a declaração de um governo que proclamava a democracia ‘só se ele vencesse as eleições’! E também quantos homens tinham sido envolvidos na Gladio? Por que tantos destes homens apareceram depois nos desastres e na estratégia da tensão? Ainda hoje também se sabe pouco sobre isto!”
“Mas, por favor! Mas estamos falando da Itália? Estás falando da Italia?” perguntava admirado Angiolino.
“Claro que devem ter sido anos difíceis, realmente difíceis”, repetia Luigia perplexa.
“É sim, foram anos difíceis, de tragédias e de atentados. Te lembras do Calabresi? Mas como acabaram as investigações?”, retrucava Angiolino.
“Sim, Calabresi. O crime Calabresi ainda por cima parece que foi uma conseqüência do caso Pinelli. Pinelli era um dos anárquicos suspeitos de ter projetado e executado a tragédia da Praça Fontana em Milão, uma das mais terríveis tragédias. Estava em pleno vigor a estratégia da tensão. As investigações voltaram-se imediatamente para a esquerda. Procurava-se um monstro vermelho!”
“Em Roma já tinha sido preso Pietro Valpreda e em Milão Pinelli. Só que Pinelli, de um modo que jamais ficou claro, durante uma pausa do interrogatório, ‘pulou’ da janela da delegacia de Milão. Logo foi dito que estava desesperado, sendo culpado. Depois apareceu a informação que, quem sabe, devia-se buscar em outros grupos os autores da tragédia, entre os fascistas e a direita. Foi assim que o comissário responsável pelas investigações ficou na mira dos não-parlamentares de esquerda que o culpavam pela morte de Pinelli. Ele era Luigi Calabresi. Foi seguido e assassinato em maio de 1972.”
“Este homicídio mais parece uma encruzilhada dos mistérios da Itália. Uma trágica concatenação de acontecimentos, de fato, liga o assassinato, primeiramente à morte de Pinelli, depois ao ecídio da praça Fontana, e ainda à tragédia na frente da delegacia de Milão e, enfim, às tramas dos serviços secretos, à extrema direita golpista e até ao enigma da Gladio.”
“Segundo aquilo que achou a justiça italiana, que conduziu uma história processual contrária a qualquer lógica, os responsáveis pelos dois golpes disparados em 17 de maio de 1972 na nuca do vice-responsável pela repartição política da delegacia milanesa, são quatro militantes do Lotta Continua, um grupo da nova esquerda, desfeito em 1976. Depois de dezesseis anos de investigações, são presos e condenados pelo delito. E assim inventa-se o caso Sofri.”
“Estamos em 1988 e um certo Leonardo Marino, um ex-operário que virou assaltante, antigo companheiro dos acusados, depois de passar dezessete dias com um coronel dos carabineiros sem que ninguém da justiça ficasse sabendo de nada, confessa ter participado como motorista do homicídio de Calabresi, acompanhado por Ovidio Bompressi, que foi indiciado como cúmplice. A ordem de eliminar Calabresi teria partido de dois dirigentes do Lotta Continua, Adriano Sofri e Giorgio Pietrostefani.”
“Já no início, esta confissão cheirava fortemente como história preconcebida. Desde então aconteceram oito processos, todos indiciários, baseados nos testemunhos cheios de contradições de Marino, muitas vezes sem nenhuma relação e ausência de provas ou fatos estranhos, nos quais tenham desaparecido ou sido destruídos até os corpos de delito. As sentenças mudavam todas as vezes, até a condenação definitiva de Sofri, Pietrostefani e Bompressi a vinte e dois anos de cárcere e a prescrição do delito para Marino, isto é, a sua liberdade garantida.”
“É uma sentença que não convenceu ninguém e que fechou o caso Calabresi, deixando aberto o caso Sofri.”
Luigia e Angiolino não faziam nenhum comentário. Quem sabe teriam conversado sozinhos depois. Naquele momento, os turistas gritões quase nos impediam de ouvir a nós mesmos. Melhor assim.
os massacres
“Quando se fala dos massacres ocorridos de 1969 a 1984 na Itália, contam-se 150 mortos, 652 feridos. É o fruto de 11 massacres realizados e de um número ainda indefinido de tentativas de massacre ocorridas num país dominado pela lógica do terror. É uma lógica que deriva do terrorismo a serviço de fins políticos ainda obscuros: tentava-se condicionar a vida democrática do Estado, manter firmemente o poder nas mãos dos grupos mais reacionários deste Estado, fazer com que a luta política fosse concebida como conflito sem local demarcado voltado para a chantagem e para o terror. Hoje pode-se afirmar isto olhando para trás, mas pode-se dizer com certeza que esta história tenha passado completamente ou que ela nunca mais retornará na Itália?”
“Em 1993, o terrorismo voltou a visitar a Itália usando as vestes da máfia: mas era somente ela? Fatos graves como o reaparecimento da Brigadas Vermelhas em 1999, com o assassinato do economista D’Antona, e em 2002, com o assassinato de outro economista do trabalho, Biagi, ainda nos fazem entender que o fenômeno não se extinguiu completamente. Além disso, devemos nos perguntar por que hoje, já em 2003, ainda não se sabe quem são os responsáveis por tantos episódios de terrorismo.”
“Então nos perguntamos por que ainda não são conhecidos a não ser de modo muito fragmentário os executores e os mandatários de tantos delitos que envolveram tantos inocentes assim. A sensação, geralmente compartilhada, é que as referências a estes delitos estejam ligadas aos serviços desviados do Estado, sobretudo aos serviços secretos e aos que os protegeram nestas operações de clara subversão da ordem pública que eles próprios deviam garantir.”
“Qual era então o desenho exato que induzia a colocar bombas nos trens, nos bancos, nas praças, nas estações? Há quem diga, em ambientes também qualificados, que a estratégia do terror tivesse em si mesma a sua raiz, mas que nós nunca descobriremos completamente, do ponto de vista legal, a verdade.”
“Será realmente assim? Deveremos para sempre nos satisfazer em arquivar as tragédias como um simples fenômeno de loucura política que concerne à Itália? Porém, a opinião pública quer saber quem são os culpados e ainda pede em voz alta.”
o compromisso histórico
Os estranhos casos dos mistérios da Itália eram talvez mais interessantes, mas Angiolino insistia que se falasse também dos fatos da história e da política dos partidos. E se Luigia ficasse um pouco entediada... bem, que eu não ligasse!
“Era o quinto mandato para o governo e acabou com a dissolução antecipada das câmeras: todos às urnas. Todos os partidos concordavam, porque assim adiavam o referendum sobre o divórcio, que, contudo, fazia as pessoas pensarem em outros problemas. Sim, porque as esquerdas tinham forçado para fazer esta lei, mas tinham medo que os eleitores não correspondessem. Por outro lado, tinha a DC, que devia obrigatoriamente fazer uma campanha contra o divórcio junto com os missinos, não sabendo mais, porém, como fazer depois uma aliança com a esquerda. Uma boa confusão! Portanto melhor adiar!”
“Não te preocupes. A história atual da Itália é cheia de confusões...”, eles me consolavam.
“Aqueles governos eram guiados por Giulio Andreotti, um dos mais espertos homens políticos italianos, que fazia bom uso dos ensinamentos de De Gasperi. Fazia-se apoiar pelos liberais e pelos republicanos que, por um pouco de tempo, mantiveram a esquerda fora do governo. Porém, a coisa não se sustentava e, no verão de 1973, os maiores expoentes das correntes democristãs, Moro, Fanfani e Rumor, concordaram em abrir novamente para os socialistas. Havia a crise econômica para enfrentar e sem a esquerda ligada aos sindicatos não dava para fazer muita coisa.”
“Depois, para criar reservas de votos não foram medidos os gastos e o débito público estava fora de controle. A “política das gorjetas’ com a qual tinham sido premiados os colegas eleitorais estavam levando o país à ruína. Só faltava a crise petrolífera daquele ano, que impunha restrições nos consumos energéticos! Rumor, chefe do governo, constituiu um pequeno grupo de trabalho com os ministros da economia, do orçamento e do tesouro. Se apertava o cinto.”
“Porém os comunistas também ajudavam. A oposição ficou mais leve sobre a política econômica do governo e votou pelas providências que deviam aliviar a crise. Por trás tinha um discurso político que amaciava os tons e que fazia aproximar o novo secretario do PCI, Enrico Berlinguer, da DC e dos partidos de centro. É o próprio Berlinguer que lança a idéia de um compromisso político. Seria chamado de ‘compromisso histórico’! O que quer dizer? Quer dizer que entre PCI e DC estabelecia-se uma trégua política para permitir o saneamento do país. Tinha passado o momento de se olhar atravessado. Mesmo porque, com os partidos comunistas da França e da Espanha, estava-se construindo um comunismo mais democrático, digamos, o euro-comunismo, como dizia-se então, que queria uma maior independência de Moscou para buscar estradas políticas adequadas a cada situação e tentar ganhar o governo com uma estratégia própria.”
“Porém, ainda tinha que fazer o referendum, aquele adiado sobre o divórcio! Era maio de 1974, e os partidos cruzaram os dedos. Era difícil fazer prognósticos, porém... porém venceu o divórcio, isto é, as esquerdas, que ficaram exultantes. Naturalmente entre DC e PSI criou-se um novo fosso de incompreensões, até porque, fortalecidos pelo sucesso, os socialistas com os comunistas e com os radicais começaram a pensar nas reformas que falavam de aborto, ordem pública, política econômica. Eram temas cruciais que faziam vacilar seriamente o centro-esquerda como guia da sociedade civil.”
“Assim, no fim do ano, os socialistas deixaram o governo Rumor, que foi sucedido por um grande líder democrata cristão, um verdadeiro chefe, Aldo Moro, favorável à instauração de um diálogo com a oposição comunista. E, só seis meses depois das eleições que se seguiram para as administrativas, o PCI obteve um sucesso nunca visto antes. É verdade que pela primeira vez também votavam os jovens de dezoito anos, mas a esquerda viu pesar sempre mais a própria força nos poderes locais. Isto é óbvio que criava um pouco de terremoto para os mais conservadores que se assustaram imediatamente. A Itália ia para a esquerda também com os votos de tantos católicos e pela primeira vez o PCI parecia uma força pronta não só para fazer oposição, mas para abandonar todas as veleidades revolucionárias e olhar seriamente para a condução do país.”
“E aposto que surgiram novas bombas, não é!? Tu tinhas dito antes.”
“Claro, mesmo sem ser assim tão declaradamente. Porém, isto traz ainda mais medo. ‘Se os comunistas não assustavam mais a opinião pública, onde acabaremos?’ pensam alguns. E eis que, ao invés de se acalmar, como teria sido óbvio, aumentam os fatos destrutivos, desde as bombas até o terrorismo, à tensão. Tem quem não quer a mudança e de qualquer modo deve impedir que ela aconteça. Foi o período dos mais estranhos e dos sempre irresolutos atentados, das tragédias.”
“Como então não pensar seriamente que a proposta de um governo de unidade nacional não deveria ser a solução mais óbvia para a política honesta? A parte mais saudável da DC estava pronta para deixar entrar o PCI no governo e assim terminava o mandato com a dissolução antecipada das câmeras. Isto acontecia, entre outras coisas, por obra dos socialistas em ascensão que queriam desfrutar plenamente a onda do sucesso eleitoral obtido nas eleições administrativas, renovando-o com as eleições políticas.”
“As eleições políticas aconteceram em 20 de junho de 1976. Teriam dado início a uma nova fase da história política da Itália.”
o governo de solidariedade nacional
“Toda a campanha eleitoral de 1976 baseava-se na provável ultrapassagem dos comunistas para prejuízo da DC, e então os democratas cristãos, que já tinham apanhado nas eleições administrativas, defraudaram para a ocasião todo o repertório do anticomunismo, falando de novo do perigo vermelho, contra o qual só eles representavam a extrema defesa. Enquanto isso os socialistas jogavam em dois frontes: apresentavam-se aos eleitores como os aliados de governo do partido católico, mas, por outro lado, colocavam-se como possível alternativa aos democratas cristãos para impedir os comunistas de ganhar.”
“Berlinguer, por sua vez, continuou falando do ‘compromisso histórico’ esquentando as praças com a idéia de um renascimento dos ideais da resistência, que tinham unido todos os antifascistas. Propugnava a idéia de um governo de ‘unidade democrática’ que tivesse a tarefa de enfrentar o gravíssimo momento de crise do país. Ao lado dos comunistas, ganhava espaço um novo partido, o Partido Radical, que, com o seu líder, Marco Pannella, pregava a defesa ou a conquista de novos direitos de civilização como o divórcio e o aborto.”
“Por fim, quem realmente venceu as eleições foram os comunistas, que nunca tinham ganho tantos votos dos italianos. E então o PCI se propôs como único partido de oposição que recolhia agora não só os votos dos operários, mas também de tantos outros setores da sociedade: os empregados e a classe média do comércio e da indústria. Porém, a vantagem sobre a DC não tinha acontecido, apesar do grande número de votos recebidos. Isto porque a DC também recuperava um bom número de votos e de apoios, que tinha perdido nas eleições administrativas do ano precedente. Entre os dois colossos, estava esmagado o PSI, que tocou o seu mínimo histórico, e todos os outros pequenos partidos aliados e satélites da DC sofreram um drástico redimensionamento, com exceção do PRI.”
“Então a Itália política estava praticamente dividida em duas: DC e PCI se enfrentavam. Os socialistas estavam muito bravos, desiludidos e em crise para se aliar ao governo com a DC e com os outros partidos que eram muitos e tinham se tornado pequenos. Ou não se governava, ou então se governava colocando junto os dois espíritos contrapostos do país com uma grande aliança: devia-se engolir a idéia de Berlinguer e fazer um governo de solidariedade nacional.”
“Porém, como se fazia para propô-lo imediatamente aos italianos, depois do caloroso conflito das recém-concluídas eleições? Digerir o PCI no governo com a DC ainda era uma idéia muito difícil para os italianos moderados. E o anticomunismo tão propagandado pela DC, onde teria acabado?”
“Mas os nossos governantes são mestres em inventar truques e joguinhos políticos. O governo foi formado, com a chefia de Andreotti e foi denominado ‘governo da não desconfiança’, que quer dizer que os comunistas realmente o apoiavam por fora, abstendo-se de votar contra ele. Ainda não estavam no governo, é verdade, mas desde os longínquos tempos do CLN do pós-guerra, os comunistas não tinham mais tido um pé, que dirá dois na sala do poder. Praticamente tinha acabado a época na qual só podia ser uma blasfêmia pensar nos comunistas num cargo de governo na Itália.”
“Considerem porém que a desculpa, ou melhor, a razão tinha: fazer o país sair da grave crise em que estava com a ajuda de todos. No front da ordem pública, não se suportava mais a confusão causada pelo terrorismo que foi usado indiscriminadamente não se sabe bem a favor de quem e das tragédias. Mas o governo de unidade nacional também era confortável para os dois maiores partidos. De fato, os dirigentes comunistas entenderam que só alinhando-se numa vasta coalizão contra os fascistas podiam então pensar em conquistar a confiança para ficar no governo. Os próprios dirigentes admitiam entre si que nunca teria sido possível que a esquerda sozinha vencesse as eleições. A DC, por sua vez, não sabia mais com que argumentos enfrentar o avanço dos comunistas que não eram só apoiados pelo voto dos jovens, mas pelas crescentes simpatias de quem agora queria finalmente ver o país crescer num outro modo.”
“E então todos estavam de acordo! Peppone e Don Camillo! Guareschi realmente tinha razão!”, Angiolino estava contente de novo, mas Luigia também não parecia descontente por ter encontrado um acordo.
terceira fase
“Aldo Moro e Enrico Berlinguer foram as duas maiores figuras da política italiana que dominaram a brevíssima, mas intensa, estação da solidariedade nacional. Das suas respectivas teorias, que se transformavam paulatinamente em propostas políticas, nasceu respectivamente a ‘terceira fase’ e o ‘compromisso histórico’.”
“Para Berlinguer, era forte a exigência de um encontro entre a moral católica e aquela comunista para salvar a Itália da crise econômica e do terrorismo. No fim deste percurso, via a possibilidade de introduzir elementos e soluções de tipo socialista, encaminhando assim a Itália para uma nova fase, isto é, a criação de um sistema no qual, ao proletariado, caberia um papel central na vida política e econômica.”
“Aldo Moro, ao invés, prospectava uma estratégia que previa realizar com o PCI aquilo que já tinha acontecido nos anos sessenta com o PSI. Queria englobá-lo na área do governo, de forma indolor, bem devagar e sem solavancos bruscos, para aquietar os habituais medrosos e conservadores, até dentro do seu partido. Para chegar a isso, porém, era condição essencial que o partido democrata cristão ajustasse todas as divisões internas e chegasse ao encontro unido e compacto, para poder fazer valer a própria força e impor-se como grupo hegemônico certamente na nova coalizão do governo.”
“Ah! Mas que estrategista político te tornaste. Não é que queres te candidatar por algum partido?”
“Mas deixa ele acabar, né. E depois, mesmo que se candidatasse, não seria uma má idéia. Com as pessoas que se vê hoje no governo...”, provocava Luigia, insinuante. Mas eu não me distraía.
“No fim das contas, se quisermos dizer em palavras simples, a estratégia de Moro finalmente previa uma política italiana toda nova, isto é, realmente a ‘terceira fase’, a democracia da alternância, reconhecendo em perspectiva o direito e a possibilidade de outras forças políticas governarem o país. Isto não significava enfraquecer o poder da DC, já que, pelo contrário, a sua política queria fazer exatamente o inverso, reforçá-la, cimentando a solidez interna, para que então estivesse preparada para enfrentar qualquer nova situação no futuro.”
“E ainda assim, no país, havia quem não o tivesse entendido, tinha medo de tudo isso e já pensava em como tirá-lo do caminho!”
rumo ao pentapartido
“Em janeiro de 1978 eis que o PCI dá um ultimato: ou diretamente no governo ou na oposição. E o governo Andreotti imediatamente entrou em crise. Rumávamos para a formação de um governo com os comunistas, com a chefia de Aldo Moro. Porém, alguém ainda tinha um outro coelho na cartola! As Brigadas Vermelhas raptaram nada menos que Aldo Moro!”
“O caso Moro! Deste não podes deixar de falar!”
“E’ verdade, sobre o caso Moro devo falar imediatamente para explicar tantas coisas. Porque os 55 dias relativos ao caso Moro são sem dúvida os dias mais misteriosos de toda a história da Itália republicana.”
“Hoje, depois de muitíssimos anos, citar o caso Moro ainda significa se referir a elementos suspeitosos, de conivência, de cobertura que ainda representam um segredo denso de perguntas para as quais possivelmente nunca seremos capazes de encontrar a completa verdade. Obviamente, o tempo que passa nos afasta cada vez mais da descoberta de uma verdade completa, relativa ao massacre realizado na rua Fani na manhã do dia 16 de março de 1978 e na posterior longa detenção da liderança da Democracia Cristã, concluída com seu horrível fim. Porém, com o passar dos anos, nos damos conta que sempre surgem novas peças para colocar no quebra-cabeças de responsabilidades e de conivências que já nos parece infinito.”
“Aldo Moro, presidente da Democracia Cristã, foi por mais de vinte anos um personagem central da política italiana. Na manhã de 16 de março de 1978, numa rua central de Roma, rua Fani, na véspera do voto parlamentar, que pela primeira vez, desde 1947, teria sancionado a entrada do partido comunista na maioria do governo, foi agredido com a sua escolta e depois seqüestrado.”
“Este seqüestro incluiu o massacre dos cinco homens da escolta, que foi completamente exterminada na ação. O grupo armado levou Moro afirmando que queria processá-lo, para processar com ele toda a Democracia Cristã e a política que ela tinha conduzido na Itália desde o fim da segunda guerra mundial. Até pode ser que o grupo das Brigadas Vermelhas que agiu na rua Fani não tivesse se dado conta que estava jogando na cena política nacional uma bomba de alto potencial ou vice-versa, mas quem era o mandatário, sabia muito bem disso. Durante todo o período em que Moro ficou detido num ‘cárcere do povo’, surgiram enormes contradições no seio de toda a classe política italiana, enquanto os brigadistas só conseguiram ficar de fora da realidade histórica do país, cancelando, se é que tinham tido alguma, até a pouca aprovação que tinham reunido com os seus documentos seguidamente delirantes.”
“O que aconteceu com o líder democrata cristão Aldo Moro todos sabem: no dia 9 de maio de 1978, Mario Moretti, chefe da organização armada das Brigadas Vermelhas, ‘executou a sentença’, como escreveu no último enlouquecido comunicado dos brigadistas. Aquele tiro de pistola, atenuado somente pelo silenciador, ainda hoje é considerado um dos mais absurdos e perturbadores atos que agiram sobre o resto da história italiana. Mas para quem operavam as Brigadas Vermelhas?”
“Frente à situação desesperada de um Parlamento tão desorientado, chegou-se a um compromisso: foi constituído um governo chefiado por Andreotti, que mais uma vez obtinha a abstenção do PCI. Mas agora a experiência da ‘solidariedade nacional’ não podia continuar indefinidamente. Quem tinha seqüestrado, mas principalmente quem tinha mandado seqüestrar Moro, tinha calculado muito bem. Sem ele as coisas não podiam prosseguir e realmente foi assim.”
“Em março, nasceu um novo governo de Andreotti: era o quinto. Um governo sob medida para levar a novas eleições e o PCI voltou irritado para a oposição. Na campanha eleitoral já se sabia o que iria acontecer e falou-se de um governo com cinco partidos: o Pentapartido.”
“Tinha acabado a fase na qual os italianos se alinhavam claramente ou com o PCI ou com a DC. Ou seja, tinha acabado a fase na qual se prospectava na Itália, como acontecia no resto da Europa, uma possibilidade de escolher realmente a democracia da alternância, levando o partido no governo a dar o melhor de si. Caso contrário virava-se a página sem o medo de sabe-se lá quais fraturas!”
“Mas isto não era almejado pelas forças que lutavam para manter infinitamente o próprio poder e que estavam escondidas entre as empresas, os bancos e os negócios. Não foram absolutamente feitas as reformas institucionais necessárias. Preferia-se deixar o país na instabilidade das coalizões de partidos e partidinhos que depois ditavam lei chantageando desligar-se na primeira contrariedade! Imagina as rixas e as contraposições que isto permitia e garantia!”
“Viram. O poder é a finalidade de todos, não o bem do país! Posso ser um ingênuo, eu sei, mas é assim!”
“O centrismo rumo ao qual tendiam convergir os partidos não traz convergência, mas conflitualidade exasperada pelo próprio sistema. É aqui que começa a crise da política e dos partidos que explodirá no momento oportuno nos anos posteriores.”
“Estava-se no fim dos anos setenta e foi o próprio PSI que passou ao contra-ataque para rebater a tentativa do PCI de substituí-lo no seu papel de aliado dos democratas cristãos. Todavia, os socialistas tinha mudado enormemente, se comparados ao velho partido de Nenni. A classe dirigente foi completamente renovada e o seu líder, Bettino Craxi, era um condensado de dinamismo e ambição que não parava diante de nenhum obstáculo ou compromisso. Assim, o pentapartido baseou-se no eixo político estruturado em torno da DC e PSI, mas caracterizado por uma recíproca e constante atitude de suspeita e desconfiança, e numa forte conflitualidade entre os dois protagonistas da cena política. O conjunto teria sido dramático se o próprio PCI, que tinha estado tão próximo do poder durante a fase Moro, não tivesse recaído numa profunda crise, ficando isolado na sua esquerda e realmente não se propondo como confiável na sua função de possível alternativa política.”
“É sim, era inútil ter esperança no PCI”, até Angiolino estava convencido.
“Entretanto o governo baseava-se numa fórmula completamente diferente das precedentes: era uma fórmula de governo na qual, apesar dos números serem diversos em relação aos votos obtidos, todos os partidos pretendiam um poder igual. Falou-se de ‘igual dignidade’ para camuflar o abuso de quem, com um punhado de votos, mas que eram indispensáveis para fazer ficar de pé a coalizão, pretendia comandar como a DC, que tinha obtido votos aos quilos! Não só isso. PSI, PSDI, PLI e PRI também pretenderam se tornar alternadamente os próprios líderes da coalizão com funções importantes não só de governo, mas também de Presidência do Conselho. Foi assim que pela primeira vez o Presidente do Conselho não era democrata cristão, mas republicano, Giovanni Spadolini. E do seu governo participaram todos os secretários da coalizão depois que dois governos confiados ao democrata cristão Cossiga tinham falido, governos afundados pelos franco atiradores do pentapartido e aquele de um outro democrata cristão, Forlani que, ao invés, tinha sido derrubado pelo escândalo da P2!”
“Franco atiradores, P2, mas o que é isso?? Me parece que tu não estás nos explicando nada!”, era Angiolino que ficava furioso quando perdia o fio do discurso.
“Quem sabe se tiveres um pouco mais de paciência, verás que explica, não?”, Luigia era sempre diplomática e ao mesmo tempo me pressionava ainda mais que Angiolino.
“Façamos assim. Agora eu explico o que são os ‘franco atiradores’, e sobre a P2 vamos esclarecer depois, porque é muito complexo e não quero misturar tudo.”
“Então está bem!”
“Então, eu disse que no governo tinha até cinco partidos e que todos queriam ter os mesmos direitos e o mesmo poder. Assim, como dentro da DC os problemas eram tantos e muitos parlamentares democratas cristãos não concordavam, os deputados dos outros partidos aliados boicotavam as propostas parlamentares, votando contra nas votações secretas e assim fazendo falir os governos que ainda eram dirigidos exatamente por Cossiga e por Forlani!”
“Entendeste os espertos! Aliás, espertos nada! Eram uns chantagistas!”, protestava vivamente Luigia.
“Chantagistas! Que exagero! Jogavam o próprio jogo político. Que não era certamente limpo e transparente, mas a própria DC tinha se colocado nesta condição. Não se podia pretender manter a “garrafa cheia e a mulher embriagada’ como diz o provérbio. Isto é, não se podia pretender renegar a política de Moro rumo a uma aliança histórica com o PCI e pretender ficar livre das chantagens dos partidinhos aliados!”
“O fato é que quando se tratava de votar o apoio ao governo Spadolini estourou a guerra interna na coalizão: eram os dois pilares da própria aliança, DC e PSI que se chocavam. O PSI já mordia o freio: queria para si a Presidência do Conselho, mas era obrigado a votar a favor de Spadolini só para evitar que o governo se mantivesse com a abstenção dos comunistas pedida pelos democratas cristãos e que o teria levado rapidamente para eleições antecipadas! E exatamente as eleições eram o ponto de maior atrito. O PCI não as queria porque estava perdendo sempre mais apoio; O PSI, ao invés, queria as eleições de qualquer jeito para desfrutar do momento de especial apoio que os eleitores davam à política atrevida de Craxi e à sua arrogância. Mas agora os democrátas-cristãos também tinham medo do seu principal aliado-inimigo e não confiavam absolutamente nele.”
“Ah, mas então era uma piada! Antes se quer uma coisa, depois se tem medo...”
“Política, política: e nós depois temos que confiar nos políticos? Por sorte que vocês criaram a democracia! Você e a sua Revolução Francesa... eu dizia...”
“Mas de onde tu tiraste essa!? Agora falas mal da Revolução Francesa! mas te atualiza, caso contrário mofas!”
Melhor intervir imediatamente
“Então as eleições eram adiadas sucessivamente até junho de 1983. E então a sentença das urnas realmente marcou uma derrota para os democratas-cristãos, que perderam até seis pontos percentuais. O PCI, ao invés, perdeu pouquíssimo, enquanto o PSI continuava a ganhar apoio. Contudo, não era isto que importava: era sobretudo o papel político sempre mais importante que assumia o PSI no cenário geral da política italiana e que parecia um terremoto.”
“DC e PCI estavam substancialmente equilibrados nos votos, separados por um ou dois por cento do eleitorado. Portanto os socialistas podiam decidir com qual dos dois partidos ficar no governo, naturalmente oferecendo-se a quem teria dado a eles as maiores vantagens possíveis, isto é, a quem teria baixado mais as calças! E me desculpo com as senhoras presentes ao dizer isto!!”
“Obviamente começaram pretendendo a Presidência do Conselho! Só porque gostaram da idéia! Estavam completamente seguros porque sem eles os governos não podiam fazer nada!”
“Agora vocês entendem a inteligência de Moro e Berlinguer? Unir mesmo que brevemente DC e PCI no governo de modo excepcional, realmente teria significado fazer ver aos italianos que podia-se confiar em ambos para depois escolhê-los alternadamente, com a maioria dos votos e sem ceder à chantagem dos partidos menores. Esta realmente era uma democracia escolhida pelas pessoas! Mas os manipuladores não tinham querido a clareza e triunfavam os tubarões da política para prejuízo dos italianos. E deste patrimônio, absolutamente negativo, a Itália não teria sido capaz de se livrar nem no futuro! Eis de onde vem a fruta estragada da atual política italiana! Eis porque os partidinhos não querem ficar bem nem aqui e nem ali, amontoando-se no centro: para escolher e chantagear o aliado de turno que precisa deles!”
“E esta história, infelizmente, duraria até 1992, até o ano da crise de todos os partidos políticos como conseqüência da queda da URSS, e, por fim, da assim chamada ‘primeira república’ na Itália. Entre crises e brigas na ordem do dia, chantagens políticas e inflação de dois dígitos descontrolada, passamos por sete governos de brevíssima duração. Entretanto, nos anos oitenta, adquiriu força uma discussão profunda sempre mais significativa e urgente, sobre a necessidade de mudar radicalmente a ordem institucional prevista na Constituição de 1948.”
“Mas vocês acham que os socialistas concordavam??”
a P2
“E agora vamos falar um pouco da P2 como eu tinha prometido. Assim vamos tocar ainda mais naqueles que ainda permanecem os “mistérios’ italianos daqueles anos.”
“Começou-se a falar de P2, ou melhor da ‘Loja de Propaganda 2’, uma aparente loja maçônica, em março de 1981. De fato, os magistrados de Milão que estavam investigando sobre um outro dos mistérios mais impenetráveis da Itália, o caso Sindona, encontraram uma série de estranhas ligações entre finança e política. Os magistrados eram Turone e Colombo e chegaram a seguir uma pista que os conduziu à mansão e aos escritórios de Arezzo de um certo Lucio Gelli, grande mestre da maçonaria, um personagem de passado muito ambíguo e misterioso.”
“Entre os documentos, surgiu uma lista contendo 953 nomes. A particularidade é que são, na maioria, personalidades políticas, altos oficiais do estado, personalidades do mundo econômico e pessoas que pertencem aos serviços secretos do estado. Todos estes, estranhamente, pertenciam a esta mesma loja maçônica, que se tornava assim um instrumento de enorme poder para controlar o país inteiro. Aliás, para fazê-lo melhor e naturalmente segundo as suas idéias, Gelli e os seus filiados tinham também previsto um ‘plano de renascimento democrático’ que, através do controle dos meios de comunicação, pretendia controlar os sindicatos, a magistratura, mudando o estado e as suas instituições e reforçando o sistema autoritário. A Loja P2 era evidentemente um grande poder, paralelo ao estado e fora das instituições, que impunha mudanças decisivas ao próprio estado através da economia e das instituições e que era capaz de administrar e promover a estratégia da tensão que, vejam só, com atos terroristas e atentados tinha minado a estrutura do país nos anos setenta!”
“A descoberta suscitou muita repercussão no país, mas também uma grande atividade de despiste, tanto que no final só uma pequena parte daquilo que realmente tinha sido a P2 verdadeiramente emergiu. E a dúvida se torna certeza ao dizer que esta pequena parte era a menos importante em relação ao poder que a loja maçônica aspirava com a conspiração e o trabalho de intrigas subterrâneas. Ainda hoje alguns dos personagens envolvidos, infelizmente, estão no vértice dos poderes de comunicação e de controle político e militar do estado!”
o caso Sindona e o caso Calvi
“Mas também não tinha ligação com a P2 o caso dos banqueiros que foram mortos? Calvi me parece... e depois...”
“E depois Sindona, um siciliano...”, sugeria Luigia.
A manhã fria e ventosa não nos teria permitido resistir muito tempo ali. Pelo menos a mim e a Angiolino.
“Foi sem dúvida uma das páginas mais escuras da Itália dos mistérios aquela relativa ao caso Sindona.”
“Apesar das tantas investigações que a magistratura siciliana fez, ainda pouco ou nada consegue-se realmente saber sobre a viagem que Sindona fez para a Sicília no verão de 1979. Naquele ano, houve uma mudança de rota da Cosa Nostra, a organização mafiosa siciliana mais conhecida do mundo. Naquele ano, nasce e se ramifica uma nova forma de máfia, a mesma máfia que provavelmente ainda age atualmente. Se fez tantas vezes referência à viagem do banqueiro Sindona na Sicília. Mas quem era realmente Michele Sindona?”
“Tinha nascido na cidade de Patti, na província de Messina, tornando-se durante os anos 60 um dos mais audaciosos e agressivos banqueiros do mundo. Para Giulio Andreotti, Sindona foi inclusive o salvador da lira na difícil crise da economia daqueles anos. Mas qual era a sua habilidade? Era aquela de ligar de modo indissolúvel negócios econômicos e políticos aos quatro pilares da sociedade italiana: o poder econômico da Democracia Cristã, os interesses do Vaticano, a ingerência hegemônica da maçonaria e o extraordinário poder criminal da máfia. Sindona chegou a criar um verdadeiro império, controlando um número incalculável de bancos e sociedades financeiras, além da metade dos títulos cotados na bolsa de Milão.”
“O seu poder começa a ruir em 1974, com o relatório de falência do Franklin Bank de New York e com a acusação de bancarrota feita até pelo governo dos E.U.A. Tendo conseguido escapar da justiça dos Estados Unidos da América, refugia-se na Sicília em 1979, e ali fica escondido por 75 dias para evitar ser pego pelas autoridades de além mar. Entretanto, na Itália, também foi acusado de ser o mandante do homicídio de Ambrosoli, o advogado nomeado como liquidador de um dos seus institutos falidos. E para fugir da justiça encena até um falso seqüestro, fazendo-se ferir com um tiro na perna. Contudo, depois de preso, foi condenado pela justiça dos Estados Unidos e sucessivamente extraditado para um cárcere na Itália.”
“Foi encontrado morto numa manhã na sua cela do cárcere de Voghera, onde entre outras coisas era vigiado dia e noite, depois ter bebido um café envenenado com cianureto. Nunca se descobriu se foi suicídio ou homicídio.”
“Todavia, quem foi realmente Michele Sindona? Na Sicília, no verão de sua fuga, buscou alianças e proteção ou então foi realmente seqüestrado e mantido como refém pela máfia? Foi exatamente investigando sobre o caso Sindona que a magistratura de Milão descobriu a existência da loja P2 de Lucio Gelli!”
“E depois qual ligação podia existir entre dois misteriosos suicídios: o de Michele Sindona e o de Roberto Calvi? O mistério Sindona foi o primeiro dos tantos mistérios que se seguiram nos anos 80 entrelaçados aos massacres mafiosos dos anos 90 na Itália.”
“E o caso Calvi?? Lembra um pouco para nós o que aconteceu!”, insistia novamente Angiolino, apesar de estarmos congelados.
“Aos 18 de junho de 1982, em Londres, sob a Blackfriars bridge, a ponte dos frades negros, foi encontrado enforcado numa armação de canos de ferro o banqueiro italiano Roberto Calvi. Este foi somente o epílogo de uma aventura financeira muito difícil e complexa, iniciada exatamente quando tinha terminado a trágica aventura de um outro banqueiro, Michele Sindona. Os dois personagens estavam, porém, unidos pela inscrição na loja P2, pelas suas capacidades profissionais. Eram sem dúvida mestres na arte de se desdobrar entre os mil cruzamentos societários criados na assim chamada politica das ‘caixas vazias’, empresas de fachada compradas e depois sucessivamente revendidas.”
“Em 1975 Roberto Calvi torna-se presidente do Banco Ambrosiano. Para poder se apropriar totalmente, cria uma estrutura especial, subdividida em filiais offshore nas Bahamas, holding Luxemburgo, sociedade pirata na América Central e cofres na Suíça. Assim Calvi, com o passar dos anos, cria um vasto império servindo-se sobretudo da estreita relação com a P2 e os seus membros e com os conhecidos que tinha no Vaticano, através do IOR dirigido pelo monsenhor Marcincus, tanto que mereceu o apelido de banqueiro de Deus.”
“Este império desenvolveu-se de modo desmedido, tornando-se um ponto focal não só da reciclagem de dinheiro sujo da criminalidade organizada, mas até para operações internacionais de natureza variada: desde o tráfico de armas para a guerra das Falkland-Malvinas ao apoio dado ao ditador Somoza, até chegar ao financiamento do sindicato católico polonês Solidarnosc, que contava com a proteção do papa João Paulo II.”
“Porém, o jogo das caixas vazias e das passagens de propriedade de Roberto Calvi não durou muito. Em 1981, derrubado pela falência do Banco Ambrosiano, o banqueiro foi preso. Recém-liberado tenta fugir para o exterior na tentativa de salvar o salvável do seu império que estava se desfazendo. Pensava que desta vez também poderia chantagear o sistema político através de uma nova operação que porém não logra sucesso. A máfia, provavelmente, coloca uma corda no seu pescoço e seu corpo é encontrado pendurado balançando na armação de uma ponte de Londres, montagem bem macabra de um improvável suicídio que na realidade é somente mais um delito no âmbito da alta política financeira envolvida em tramas obscuras.”
o desastre de Ustica
Os meus dois interlocutores não sabiam o que dizer e eu também tinha bem pouco para acrescentar. Falou-se tanto destes fatos na Itália nestas últimas décadas, mas sempre permaneceram os mesmos mistérios. Nenhuma magistratura conseguiu esclarecer todos estes acontecimentos.
“Contudo, já que eu contei sobre o terrorismo e sobre os mistérios, devo obrigatoriamente, a este ponto, pelo menos falar resumidamente sobre o desastre de Ustica. Foi um caso muito grande para ser esquecido.”
“De Ustica eu lembro bem. E como me lembro!”, confirmava Luigia.
“Porém vou ler para vocês um relato que eu encontrei. Ele diz assim:
“Roma. Torre de controle do aeroporto de Ciampino. É o dia 27 de junho de 1980 e são 20 horas, 59 minutos e 45 segundos. No ponto de coordenadas 39º 43’ norte e 12° 55’ leste desaparece da tela do radar da torre de controle um avião civil. É um DC 9 da sociedade Itavia que voa de Bolonha para Palermo com 81 pessoas a bordo das quais 78 passageiros e 3 homens da tripulação. O fiscal do turno tenta inutilmente restabelecer o contato com o piloto do DC 9. Sua chamada é repetida desesperadamente uma, duas, três vezes. Responde somente o silêncio. É o silêncio da morte que envolveu todos os passageiros e a tripulação de um avião em um dos casos mais estranhos e mais debatidos dos últimos anos. O avião encontrava-se na metade do caminho entre as ilhas de Ponza e Ustica e despencou. Seus restos parecem ter sido descobertos somente na manhã seguinte, com um atraso que se torna imediatamente suspeito. Também suspeita é a causa que envolve o desaparecimento do DC 9 da Itavia.”
“O desastre foi imediatamente atribuído a um defeito estrutural do avião, defeito que provocou um inesperado desabamento das asas. Esta tese do desabamento estrutural permanecerá sendo por quase dois anos a única explicação oficial da tragédia, tanto que a sociedade proprietária do avião, a ITAVIA, se tornará o primeiro bode expiatório da tragédia e será obrigada a declarar falência. Mas, nos ambientes da imprensa, a tese simplista do infortúnio começa quase imediatamente a perder credibilidade. Tem alguma coisa que não encaixa. Disto também desconfiava o magistrado romano ao qual foi confiada a investigação. De fato, ele pede que seja entregue diretamente ao ministério público Santacroce as fitas do aeroporto de Roma Ciampino nas quais estava conservada toda a seqüência dos últimos instantes do vôo do DC 9, até o seu desaparecimento das telas do radar.”
“A aeronáutica militar demora vinte e seis dias para entregar o material pedido. E não só. Leva 99 dias para entregar as fitas do controle de radar de Marsala. Além disso, muito material será escondido, gerando a suspeita que até mesmo os altos escalões da nossa aeronáutica militar estejam envolvidos no próprio desastre. De fato, na tragédia entram em jogo outras potências militares presentes no Mediterrâneo, como a França e os E.U.A. com os seus porta-aviões e um fantomático avião líbio com o qual devia ser transportado o coronel Gheddafi, o líder mal visto da Líbia. Serão colocados em todos estes anos todos os obstáculos possíveis em relação às investigações e ao esclarecimento que o inquérito judicial queria fazer.”
“Ainda hoje não se sabe quem abateu o avião da Itavia em Ustica, porque parece que realmente foi um míssil militar.”
Silêncio. Angiolino e Luigia nem respiravam. Todos aqueles mortos pareciam realmente pesar na consciência deles. E pesarão na consciência de todos os italianos enquanto não for esclarecido o que realmente aconteceu em Ustica!
subornópoles e a queda dos partidos
“Entendi! Será melhor que voltes a falar dos partidos e dos seus joguinhos políticos. Perto do que ouvimos até agora, até parecem uma brincadeira!”
“É, tens razão. Estávamos curiosos para saber certas coisas... mas talvez seja melhor não repeti-las muitas vezes!”
“Mas como é possível? Estamos ou não estamos num país democrático, civilizado...?”
“Claro que estamos. Mas esta civilização às vezes é uma fachada e todas as realidades mais perturbadoras têm suas raízes na política cotidiana, no nosso desinteresse!”
“Sabe que tens razão!”, Angiolino dizia convictamente.
Deixei passar uma frota de crianças berrando enlouquecidas e perguntava a mim mesmo se não era o caso de repreendê-las um pouco.
“Eu já disse que em 1992 concluía-se a experiência da ‘primeira república’, aquela nascida da resistência e dos acordos feitos entre os partidos depois da segunda guerra mundial. De fato, as eleições de 5 de abril daquele ano praticamente cancelaram da cena política os velhos partidos. Era o sinal que os italianos estavam fartos, queriam mudar, estavam descontentes com o ‘sistema dos partidos’ e protestavam da forma possível contra o poder excessivo, a prepotência, o roubo descarado... E ainda assim, frente a este protesto, quem se apresentou para governar o país? Quem seria capaz de substituir legitimamente a velha classe política?”
“Em 1989 tinha caído o muro de Berlim, depois que, com o passar dos anos, tinha-se transformado paulatinamente o mundo político internacional, com os pedidos de maior liberdade no bloco soviético e a progressiva liberalização da ‘perestroika’, com o PCI que se tinha tornado o partido Democrático da Esquerda, renunciando ao seu nome e ao seu símbolo. Mas todos os outros partidos também tiveram que mudar, da extrema direita à extrema esquerda. Com estas transformações iniciava-se a corrida ao poder com situações novíssimas.”
“Na esquerda do novo partido dos DS, forma-se um partido pequeno mas agressivo que não aceita engolir tudo: é o grupo da Refundação Comunista. E depois tem o fenômeno da Liga Norte, um movimento que, por trás da bandeira do anti-meridionalismo, se acirra contra as disfunções do sistema político-administrativo primeiro na Lombardia, mas depois em todo o norte, ou na Padania como eles dizem, recebe o apoio de todos os insatisfeitos, os ingênuos e os espertos que querem subir no carro de quem grita mais num momento em que a política se faz mais com os insultos que com os debates, mais com os gritos que com o raciocínio, mais com a fumaça nos olhos e os slogans que com a inteligência e a noção da realidade.”
“A DC se desmantelou completamente e foi varrida pelos escândalos e pela corrupção que se alastravam e nos quais o país ficou completamente mergulhado. Um dos seus líderes honestos, Martinazzoli, tenta salvar o que é possível, repropondo o partido com o seu antigo nome de Partido Popular. Até o velho MSI, no congresso que acontece em Fiuggi, muda o nome para Aliança Nacional e começa inclusive a negar seu passado histórico guiado por uma velha raposa, muito inteligente e astuta, Gianfranco Fini, que mira direto na ocasião de chegar ao poder cancelando até a sua ligação com o fascismo.”
“A determinar o terremoto político, no qual se atiram todos os aproveitadores, estão os escândalos que enchem as páginas dos jornais de notícias de delitos e as prisões de hóspedes ilustres. Um grupo de magistrados milaneses de fato constituiu um ‘“pool’ que investiga profundamente a corrupção política. Descobrem-se os subornos que, já por hábito, os partidos extorquiam dos industriais e das empresas para favorecê-las nas licitações. Um sistema que todos conheciam e que infelizmente todos ainda conhecem e que leva a uma série de prisões, processos, acusações, suicídios e fugas até para o exterior de personagens de excelência, mas que não mudará os maus hábitos.”
“O grupo de magistrados milaneses descobre uma série de escândalos daquela que será chamada de ‘subornópoles’, isto é, a cidade dos subornos. E pensem que era Milão, a metrópole mais industrial do país, o motor da economia italiana! Iniciam uma série de processos a partir de 17 de fevereiro de 1992, quando Mario Chiesa foi preso por obra da procuradoria de Milão. Depois, aos poucos, investigações e processos espalham-se por toda Itália e descobrem a podridão de um sistema de corrupção praticamente institucionalizado que durante décadas dominou sem ser combatido grande parte da classe política italiana.”
“E diziam que não era verdade! Se faziam até de vítimas. E nós pagando impostos!”, Angiolino não esquecia todos os problemas que teve no trabalho e das redes apreendidas e das licenças pagas e... tudo em suma!
“Porém, Subornópolis é só o excesso de um sistema que não pode se manter. Os motivos profundos da crise e da queda do sistema dos partidos parte de causas internas, ligadas a fatos nacionais e internacionais e têm origens longínquas enraizadas no fim dos anos setenta. Olhem para o mundo católico, por exemplo. Entre religião e política está acontecendo um processo de separação sempre mais forte, iniciado com o papa João XXIII, o papa bom e camponês, com uma excepcional capacidade de premonição política, e por isto, mal visto pelos burocratas da cúria romana, prossegue com Paulo VI para chegar ao atual papa João Paulo II. Pensem, um papa polonês que olha para os grandes temas da política internacional e quase nem vê aquilo que preocupava os outros papas: a pequenez da política italiana. Ele fala de paz! Aquela verdadeira!”
“Além disso, na DC, existem duas, necessidades completamente contraditórias e inconciliáveis: por um lado acontece o afastamento de grande parte do seu eleitorado por causa do seu sistema de corrupção política no qual tinha entrado há mais de cinqüenta anos, por outro lado tem a rejeição a qualquer forma de mudança, que teria feito perder todas as vantagens consideráveis, isto é, os privilégios de todos os grupos clientelistas que a DC tinha formado e apoiado com a sua cumplicidade.”
“O próprio PCI envelheceu sem esperança! As suas estruturas, a linguagem política, as referências, o modo de definir e fazer política são obsoletos, inadequados às exigências dos mais jovens e não são capazes de enfrentar os problemas que assaltam as novas gerações.”
“Como se pode improvisar respostas convincentes e envolventes a respeito dos novos problemas ambientais, atômicos, energéticos, existenciais e institucionais com uma bagagem cultural e ideológica que tem raízes em contextos históricos e sociais completamente diferentes e superados?”
“O mundo também mudou na Itália. Até o anti-fascismo, que tinha sido por décadas a alavanca eleitoral de coalizão da esquerda, deixou de trazer segurança. Se rediscute a história, são revistas as realidades, descobrem-se fatos e documentos sepultados ou apagados, pede-se uma análise do ponto de vista histórico, revisa-se.”
“Pensem um pouco no quadro político italiano: inesperadamente jogado para todos os lados pelos recentes fatos internacionais e pego desprevinido por estas exigências internas. Põe terremoto nisso! Os equilíbrios e as justificativas para a existência dos partidos eram ligados à situação internacional: mudada a situação, estes não tinham mais justificativa. Falta a guerra fria, o contraste planetário entre duas superpotências como URSS e E.U.A., não existe mais dialética ideológica que se choque, acabou um certo tipo de cultura de ser contra alguma coisa, o bipolarismo desaparece do plano cultural... Morrem as ideologias: todas as ideologias!”
“Não cai só o comunismo e todos, ou quase todos, os regimes que nele se inspiram. É a própria Igreja que corajosamente denuncia as tortuosidades do liberalismo.”
“E ademais, na Europa, conclui-se um longo percurso rumo à unificação, que parece impor nova força ao velho continente. Assim, as condições de permanência do sistema italiano se dizimam, desaparecem. Se não existe mais o medo do comunismo, a DC não é mais a resposta a este medo: sem o perigo vermelho, não é mais necessário o exército dos anti-comunistas!”
“Está só começando o terremoto, depois ainda teremos os tremores do assentamento! Tenta-se fazer a política transitar através das mudanças menos dolorosas: são promovidos referenduns por Segni, Occhetto, os radicais de Pannella. Dia 18 de abril de 1993, na Itália, passa-se para o sistema majoritário, com um prêmio de estabilidade para a coalizão de partidos que obtém mais votos.”
“Porém o Parlamento ainda resiste para ceder totalmente e exara imediatamente uma lei eleitoral mista. Sim, existe um sistema majoritário, mas são conservados 25% dos votos como quota proporcional. Deste modo os partidos menores, ou excluídos das coalizões, também continuam mantendo a sua combatividade e o seu peso. É difícil abandonar os vícios.”
“Quer dizer então que ainda existe a possibilidade de chantagear os partidos maiores?”
“Até um certo ponto sim, ainda existe.”
“E então por que se fez esta reforma? Para nos enganar?”
Enquanto ia embora, Angiolino ainda sacudia a cabeça. Eu olhava Manarola. Cada vez que a vejo, sempre parece que descubro algo novo. E a acho mais bonita!
a segunda república
“As eleições de 27 de março de 1994 foram as primeiras que aconteceram depois do escândalo de ‘Mãos Limpas’ e marcaram uma definitiva passagem da velha para a nova forma do sistema político na Itália. A investigação, que no fim tinha envolvido muitas das procuradorias italianas, tinha dizimado toda a classe política que por décadas tinha governado ou pelo menos administrado o país, mesmo na oposição, seja em Roma ou nas regiões italianas. Estavam envolvidos na corrupção industriais, homens de negócios, entidades do estado como os serviços secretos e a guarda de finanças, quadros funcionais e dirigentes estatais.”
Angiolino tinha entrado no mar para pescar naquela manhã e tinha voltado um pouco desiludido. Para ele até os peixes tinham mudado. Na realidade tinha sempre menos peixes. Ele já sabia disso, porque este era um dos motivos pelo qual, anos atrás, tinha parado de trabalhar. E ainda assim cada vez que acontecia parecia sinceramente surpreso e amargurado. Por isso tinha até ficado tarde.
“O primeiro ato que levou às eleições foram as demissões do presidente do conselho, Carlo Azeglio Ciampi, que tinha sido sucedido pelo socialista D’Amato em 1993. Ciampi tinha sido um grande economista e Governador do Banco da Itália, tentando sanear o orçamento do estado com cortes no gasto público e exacerbações fiscais para enfrentar a constante desvalorização da lira pela inflação galopante. A sua era uma política de sacrifícios que devia se basear num amplo e forte apoio político.”
“No quadro político geral já tinhamos dito que a DC tinha se transformado em Partido Popular, o PCI em Democráticos da Esquerda, o MSI em Aliança Nacional, enquanto desapareciam completamente, derrubados pelo ciclone judicial, PSI, PSDI e PLI. Junto a estes partidos, digamos sobreviventes, nascia um novo partido, Força Itália, inspirado num movimento promovido por Silvio Berlusconi, um homem de negócios em ascensão, que em poucos anos tinha acumulado empresas sobretudo no campo da informação. Também proprietário das maiores redes italianas de televisão privada, ligadas ao grupo financeiro Fininvest e Mediaset, tinha-se metido na política, segundo ele, para se opor à possível afirmação das esquerdas que tinham vencido as eleições administrativas. Já se sussurrava que era porque não tinha mais Craxi para lhe cobrir as costas nos seus negócios. A magistratura já respirava na sua nuca. As promessas que fazia eram convidativas, sugerindo o relançamento da iniciativa privada para os empresários, o aumento de um milhão de empregos e a redução das taxas para as empresas. Todavia era necessário fazer as contas com o novo sistema eleitoral, assim Força Itália tinha se unido no norte com a Liga Norte, que, com os seus gritos contra ‘“Roma ladra’, tinha angariado muitos partidários, formando o Pólo das Liberdades. No centro e no sul da Itália, uniu-se com a Aliança Nacional, formando o Pólo do Bom Governo.”
“Força Itália assim conseguiu a vitória eleitoral, obtendo mais votos com as suas coalizões, enquanto eram derrotados os outros dois pólos: os progressistas com PDS, Refundação Comunista, Verdes, Aliança Democrática, Rede, PSI, dirigidos pelo secretario do PDS Occhetto, o Pacto para a Itália com o Partido Popular e Pacto Segni, sob a guia de Mario Segni e Martinazzoli.”
“Berlusconi saiu vencedor, mas o governo formado por ele era tão heterogêneo que não teve vida longa. Na sala de comando, entravam pela primeira vez os pós-facistas de Fini, mas também os briguentos da Liga de Bossi. Logo ficaram evidentes os conflitos judiciais com a Procuradoria de Milão: Berlusconi e os seus amigos estavam sendo acusados em numerosos processos de ‘Mãos Limpas’, enquanto o conflito político tornava-se aberto com a Liga de Bossi e as suas pretensões. No plano social, os sindicatos estavam em pé de guerra por causa da reforma das aposentadorias que o governo queria impor autoritariamente. Tudo isto levou a uma repentina queda do governo em dezembro de 1994 e ao fim da legislação.”
“Depois de um breve intervalo com um governo técnico dirigido por Lamberto Dini, que tinha sido ministro da Fazenda de Berlusconi, apoiado por fora pela esquerda e pela Liga Norte, voltou-se a votar depois de dois anos, em 1996.”
As sombras alongavam-se como sempre sobre a rua para Palaedo, enquanto as gaivotas voltavam da costa em pequenos bandos e lançavam no céu noturno os seus gritos agudos.
a esquerda e adireita se alternam
“Depois de dois anos da vitória eleitoral de 1994, no dia 21 de abril de 1996 a Casa das Liberdades perdeu as novas eleições para a coalizão do Ulivo, que era formada por partidos do centro-esquerda como o PDS, o PPI, a Lista Dini, os Verdes, a Rede e outras formações menores. O chefe da coalizão era o ex-presidente do IRI, Romano Prodi. Com estes partidos também estava a Refundação Comunista, que depois terá o seu papel e a sua parte de responsabilidade no enfraquecimento da coalizão, assim como a Liga Norte tinha feito no governo anterior, apresentando-se isolada desta vez.”
“E menos mal! Quem ainda podia querer Bossi consigo?”, opunha-se Angiolino.
“Fica quieto que ainda não acabou. Vais ver que ele ainda vai ser estimado por alguém que tem estômago para agüentar!”, dizia Luigia.
“Inicialmente a gestão teve todos os benefícios da continuidade: o governo era estável e podia finalmente se dedicar a uma rigorosa política de saneamento econômico e a entrada da Itália na Europa. Aliás, exatamente esta entrada obrigava o nosso país a adotar rígidos controles financeiros e de gastos que jamais haviam sido aplicados.”
“Iniciava também o processo de privatização das empresas públicas com um relançamento da economia e do emprego. Este governo chegou ao fim, até então algo bastante raro na Itália, mesmo que, dentro da facção, tenham surgido muitos problemas de interpretação do mandado eleitoral que então vê Refundação Comunista deixar de apoiar o governo.”
“Prodi tem que deixar o comando da coalizão do Ulivo e é substituído por D’Alema, que então era secretário dos DS e, por conseguinte, depois da queda da coalizão nas eleições administrativas regionais, por Giuliano Amato, ex-socialista.”
“No dia 20 de maio de 1999, um comando terrorista das Brigadas Vermelhas mata Massimo D’Antona, sindicalista da CGIL, colaborador do ministro do trabalho Bassolino.”
“Contudo, quase um ano depois, apesar da mudança radical imposta ao país, os resquícios conservadores ressurgem vendo tocados os seus privilégios. Nas eleições políticas de 12 de maio de 2001, a Casa das Liberdades, formada por Força Itália, Aliança Nacional, Biancofiore, Liga Norte e Novo PSI, se desforra, ganhando do Ulivo, que tinha perdido a colaboração da Refundação e não tinha obtido a do novo partido fundado pelo ex-magistrado de Mãos Limpas, Di Pietro. Berlusconi, chefiando Força Itália, e Gianfranco Fini, a AN, vencem o binômio Rutelli-Fassino e o partido berlusconiano, que soube misturar os ex-fascistas e a Liga Norte de Bossi, obtém mais de trinta por cento dos votos dos italianos. Porém, a conta que Berlusconi tem que pagar é alta: Bossi recebe em troca de sua aliança algumas cadeiras estratégicas no executivo. São os importantes ministérios da Justiça, do Bem-Estar Social e das Reformas.”
“Viste que Bossi encontrou um compadre? Não tinha te dito?”, ria baixinho Luigia.
“O centro-esquerda, que se apresentou dividido no encontro eleitoral, não soube aproveitar, junto aos eleitores, os resultados realizados em cinco anos. A vitória é mais esmagadora sobretudo no número de parlamentares que no de eleitores.”
“De fato, na Câmara, a Casa das Liberdades obtém 16.839.562 votos contra os 16.406.969 votos do Ulivo. Porém, tudo isso não conta numa democracia: o prêmio de maioria permite a Berlusconi e aos seus aliados ocupar o Parlamento e as instituições. E é assim que estamos até hoje.”
Agora, realmente, Luigia, Angiolino e eu, enquanto refletimos em silêncio sobre tudo aquilo que conversamos na Ponta de Palaedo durante todos estes anos, finalmente nos sentimos satisfeitos, admirando em paz este estupendo, maravilhoso e único mar de Manarola!
Porque, para nós, ele sempre será o mar mais belo do mundo!
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[1] Passagem subterrânea. (N. do T.)
[2] Triciclo motorizado com carroceria fechada.
[3] Organização operária dedicada a autodefesa dos interesses dos trabalhadores.
[4] Confederazione Generale Italiana del Lavoro (Confederação Geral Italiana do Trabalho).
[5] Comicie rere – integrantes dos “Fasci di Combattimento”, fundados por Mussolini em 1929.
[6] Quadrumviro – cada um dos quatro hierarcas do quadrumvirato, que dirigiram a Marcha sobre Roma.
[7] Ridotta: casamata, abrigo subterrâneo com paredes reforçadas ou blindadas.
[8] Lei truffa = Lei fraudulenta.
[9] Missino – integrante do MSI – Movimento Social Italiano.
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[1]libeccio [libêtcho] - áfrico - vento úmido, proveniente do sudoeste com rajadas violentíssimas, típico da bacia mediterrânea.(N.doT.)
[2]tramontana - vento frio que sopra do norte. (N.doT.)
[3]Manarola - é uma das cinco pitorescas aldeias de pescadores situadas à beira-mar num trecho íngreme da costa da Ligúria, chamado justamente Cinque Terre (Cinco Terras). (N.doT.)
[4]Vespri Siciliani - Nome dado à revolta popular ocorrida em 1282 na Sicília contra os opressores franceses, que foram em grande parte massacrados; poucos meses depois a Coroa foi entregue aos espanhóis. O motim aconteceu na hora das Vésperas (ofício religioso da tarde) da segunda-feira de Páscoa; há diferentes versões não confirmadas sobre a revolta, inclusive a de que teria sido planejada e executada em toda a ilha na mesma hora (ao soar dos sinos para as Vésperas). (N.do T.)
[5]Promessi Sposi - romance de Alessandro Manzoni traduzido para o português com o título "Os Noivos". (N.doT.)
[6]untador (untore) - indivíduo suspeito de propagar a peste aplicando nas pessoas ungüentos infectos. (N.doT.)
[7]focaccia [focátcha] - pão de forma achatada e assado com temperos, geralmente só azeite de oliva e sal; também bolo de forma redonda e achatada. (N.doT)
[8]carbonários - filiados da Carboneria - sociedade secreta contrária ao absolutismo monárquico; usavam simbolicamente expressões do linguajar dos carvoeiros. (N.doT.)
[9]Famosos "Cinco dias de Milão" - em que o povo milanês, com a ajuda de camponeses e habitantes das cidades vizinhas, conseguiu afugentar os soldados austríacos. (N.do T.)
[10]bersagliere [bersalhére] - soldado pertencente ao corpo especial de infantaria ligeira (ideado em 1836 pelo capitão La Marmora), notável pela grande agilidade e pontaria.(N.doT.)
[11]Expedição conhecida como os "Mil" de Garibaldi.(N.doT.)
[12]Picciotti [pitchóti] - rapazes cheios de vitalidade e autoconfiança.(N.doT.)
[13]altoatesino - habitante, nativo da região do Alto Ádige.(N.doT.)
[14]brigantaggio [brigantádjo] - banditismo; brigante - bandido,salteador
[15]Prefetti (Prefeitos) - Na Itália, governadores das Províncias. (N.doT.)
[16]Irredentista - partidário do Irredentismo (Movimento italiano de reivindicação de territórios que tinham permanecido como possessões austríacas depois de 1866). (N.do T.)
[17]negus - título do soberano da Etiópia (antiga Abissínia). (N.doT.)
[18]fascio [fáchio] - feixe (de ramos) - símbolo revolucionário e designação de alguns grupos políticos ou sociais cujos objetivos seriam conseguidos por métodos revolucionários; um destes deu origem ao Partido Fascista, de Mussolini. (N.doT.)
[19]Malavita - mundo do crime (N.doT.)